Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

05 setembro 2014

Quando as Paixões Ultrapassam a Razão | Daniel Goleman

(…) Mal-grado estas restrições sociais, as paixões estão permanentemente a sobrepor-se à razão. Esta constante da natureza humana decorre da arquitectura básica da vida mental. Em termos de concepção biológica do circuito neuronal de emoções básico, aquilo com que nascemos é o resultado melhor para as últimas 50 000 gerações humanas. As forças lentas e deliberadas da evolução que moldaram as nossas emoções fizeram o seu trabalho ao longo de um milhão de anos; os últimos 10 000 - apesar de terem assistido à rápida ascenção da civilização humana e à explosão da população de cinco milhões para cinco biliões - quase não deixaram marca nas nossas matrizes biológicas para a vida emocional.
Para o melhor ou para o pior, a nossa avaliação de cada encontro pessoal e as nossas respostas a estes encontros não são determinadas apenas pelo nossos juízos racionais ou a nossa história pessoal, mas também pelo nosso passado ancestral. (…) Em resumo, muito frequentemente confrontamos dilemas pós-modernos com um repertório emocional feito à medida das exigências do Pleistoceno.

in: Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, p. 27.

11 agosto 2014

Três Níveis de Subtileza


Três níveis distintos de informação e compreensão (...) Neste sentido, um famoso rabi do século XVII, Menasseh ben Israel, dizia que o Pentateuco, tem, como o homem, três níveis de subtileza:

. O Corpo Físico - o nível mais básico e imediatista, lido e entendido histórica e literalmente, (com proveito!), pelos "homens ignorantes".
. A Alma Racional - o nível intermédio, objecto do estudo dos "homens eruditos".
. O Espírito Imortal - o nível superior, sobre o qual os "homens sábios" meditam.

  in: Letras Sagradas e Textos Inspirados, Revista Biosofia, Nº 41, 2012, p. 14.

31 julho 2014

O Guardador de Rebanho | Alberto Caeiro

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol,
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-do-sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

(…)

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

in: O Guardador de Rebanhos, (Textos seleccionados), de Alberto Caeiro, Edição Alma Azul, Coimbra, Poema I, p. 3 e 4.

22 junho 2014

William Morris | Casa da Cerca





Padrões de William Morris (1834 - 1896), um dos fundadores do movimento de Artes e Ofícios. Artista inglês, escritor e poeta.

in: Casa da Cerca, Almada, Portugal, Junho de 2014.

09 junho 2014

O Donjuanismo

Se amar fosse bastante, as coisas seriam simples de mais.
Quanto mais amamos mais o absurdo se consolida. Não é por falta de amor que Don Juan vai de mulher em mulher. É ridículo representá-lo como um iluminado, em busca do amor total. Mas é porque ele as ama com idêntico entusiasmo e sempre com inteireza, que lhe é necessário repetir esse dom e esse aprofundamento. Daí todas esperarem ofertar-lhe aquilo que nunca ninguém lhe deu. De todas as vezes se enganam profundamente e só conseguem fazer-lhe sentir a necessidade de tal repetição. «Finalmente - exclama uma delas - dei-te o amor.» E há quem se espante por Don Juan sorrir dessa ingenuidade. «Finalmente, não - diz ele - mas uma vez mais.» Porque seria necessário amar raramente para amar muito?
(…)
Não saber alegrar a alma já era vendê-la. Don Juan domina, pelo contrário, a saciedade. Se deixa uma mulher, não é em absoluto porque já não a deseja. Uma mulher bela é sempre desejável. É, sim, porque deseja outra, e, de facto, não se trata da mesma coisa.
Esta vida satisfá-lo, nada pior que perdê-la. Esse louco é um grande sábio. Mas os homens que vivem de esperança dão-se mal neste universo, onde a bondade cede o seu lugar à generosidade, a ternura ao silêncio viril, a convulsão à coragem solitária. E todos dizem: «Era um fraco, um idealista ou um santo.» Assim se minimiza a grandeza que insulta.
(…)
O inferno para ele é coisa que o provoca. Só tem uma resposta para dar à cólera divina, e é a honra humana: «Tenho honra - disse ele ao Comendador - e, cumpro a minha promessa porque sou cavaleiro.» Mas seria igualmente erróneo querer fazer dele um moralista. Pois ele é, a esse respeito, «como toda a gente»: tem a moral da sua simpatia ou da sua antipatia.
(…)
Seduzir é o seu estado. (…) O que Don Juan põe em acto é uma ética da quantidade, ao contrário do santo, que tende para a qualidade. Não acreditar no sentido profundo das coisas é próprio do homem absurdo. Percorre esses rostos calorosos ou maravilhados, enceleira-os e queima-os. O tempo avança com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo. Don Juan não pensa em «coleccionar mulheres». Esgota-lhes o número e com elas esgota as suas possibilidades de vida. Coleccionar é ser capaz de viver do seu passado. Mas ele recusa a saudade, essa outra forma de esperança. Não sabe olhar os retratos.
Será por isso egoísta? À sua maneira, sem dúvida. Mas ainda nesse ponto, temos que nos entender. Há aqueles que são feitos para viver e os que são feitos para amar. Don Juan, pelo menos, di-lo-ia de boa vontade. Mas di-lo-ia metendo por um atalho, à sua maneira. Porque o amor de que aqui se fala é enfeitado com as ilusões do eterno. Todos os especialistas da paixão no-lo dizem, não há amor eterno, a não ser contrariado. Não existe paixão sem luta. Tal amor só encontra fim na derradeira contradição, que é a morte. É preciso ser Werther ou nada. Ainda aí, há várias maneiras de alguém se suicidar, uma das quais é o dom total e o esquecimento de si próprio.
(…)
Só chamamos amor àquilo que nos liga a certos seres, em referência a um modo de ver colectivo, de que são responsáveis os livros e as lendas. Mas do amor só conheço essa miniatura de desejo, de ternura e de inteligência que se liga a determinado ser. Esse composto não é o mesmo em relação a outra qualquer criatura. (…) O homem absurdo ainda multiplica aqui aquilo que não pode unificar. Assim, descobre nova maneira de ser, que pelo menos, liberta tanto quanto liberta os que dele se aproximam. Não há amor generoso, a não ser aquele que ao mesmo tempo se sabe passageiro e singular.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, pp. 76 a 80.

04 junho 2014

A Liberdade Absurda


Viver é fazer viver o absurdo.
Fazê-lo viver é, antes de mais, olhá-lo. Ao contrário de Eurídice, o absurdo só morre quando dele nos afastamos, sem voltar a cara para trás. Uma das únicas posições filosóficas coerentes é, assim, a revolta. Ela é um confronto perpétuo do homem e da sua própria obscuridade. É a exigência de uma impossível transparência. Equaciona o problema do mundo a cada segundo. Tal como o perigo fornece ao homem possibilidades insubstituíveis de tomada de consciência, assim a revolta metafísica dilata a consciência ao longo da experiência. É a presença constante do homem em si próprio. Não é aspiração, pois é sem esperança. Esta revolta não passa da certeza de um destino esmagador, mas sem a resignação que deveria acompanhá-la.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, p. 59 e 60.

26 maio 2014

O Estúdio | Alberto Giacometti

Zona secreta, solidão onde se refugiam os seres - e as coisas - é ela que dá beleza à rua: por exemplo, se for sentado num autocarro basta olhar pela janela. A rua cede o que o autocarro devassa. Sigo demasiado depressa para ter tempo de reter rostos ou gestos, a velocidade exige do meu olhar igual velocidade, e por isso nem um rosto, um corpo, ou atitude sequer, me esperam: tudo está ali a nu. Registo: um homem enorme, curvado, muito magro, peito escavado, óculos, o nariz comprido; uma dona-de-casa gorda caminha lentamente, pesada, triste; um velho sem graça, uma árvore solitária, ao lado outra árvore solitária, e outra… um empregado, outro, uma multidão de empregados, a cidade inteira cheia de empregados curvados, todos juntos num pormenor que os meus olhos registam: bocas crispadas, ombros caídos… uma a uma, talvez devido à velocidade dos meus olhos e do veículo, as suas atitudes ficam rabiscadas tão depressa, tão rápido surpreendidas em seu arabesco, que cada ente é-me revelado no que tem de novo e insubstituível - invariavelmente uma ferida - graças à solidão onde essa ferida os coloca e eles mal reconhecem, se bem que todo o seu ser aí aflua…

in: O Estúdio de Alberto Giacometti, de Jean Genet, p. 35.

21 maio 2014

João da Câmara Leme | Designer


Uma linha recta
Convicta e correcta
é um grito de linha
que chega ao infinito

é a única estrada
que não vai dar a nada!

Um segmento de recta
pode parar na esquina
subir uma parede
beijar uma menina

Por sobre os longos campos
e o vale em flor e o mar,
desenhada pelo vento
lá vai ela a passar…

Um segmento de recta
pode ter alegria

pode subir às árvores
e num raio de luz
descer até ao chão
anunciando o dia!

in: Exposição de design gráfico, do Designer João da Câmara Leme, Museu das Tapeçarias de Portalegre, Maio.2014
Ver: https://almanaquesilva.wordpress.com/category/joao-da-camara-leme/?blogsub=confirming#subscribe-blog

04 maio 2014

Ser | Solitário

Acompanhado da fragilidade pós-moderna em todos os âmbitos da sociedade, os relacionamentos são mais uma questão a trazer angústia para indivíduos esvaziados e que vão buscar em um parceiro um alento para satisfazer suas frustrações. Mas que não sabem mais como se relacionar.
Segundo Arthur Schopenhauer, a felicidade vem de uma forma de vida auto-suficiente, e ainda segundo André Comte Sponville que diz que mesmo o amor a dois deve ser solitário.
Então, será que estar sozinho não pode ser uma opção, uma escolha? Não existe um meio-termo entre um relacionamento ortodoxo e um estilo de vida hedonista conhecido como "vida de solteiro"?
Não estar acompanhado de um parceiro parece estranho aos olhos da sociedade. Isso pode se dever ao facto de inúmeros exemplos no nosso quotidiano, seja no cinema, em letras de música, no senso comum, ou nas obras de autoajuda, em que proliferam abordagens simplórias sobre o amor e que alimentam ainda mais as frustrações de relacionamentos por oferecer visões distorcidas e incentivar um posicionamento romântico e raso sobre o tema. (…) A solidão não é outra possibilidade? E outros tipos de comportamentos em diferentes momentos da vida? Calma, tempo para si, contemplação… relacionamentos distintos, com outros contornos, não seriam válidos? (…)
Tratando-se do amor, especificamente, ele defendia que, em função da vontade, ambicionamos preservar a espécie. O amor, nessa esteira, seria uma ilusão: "Nenhuma união é tão infeliz quanto esses casamentos por amor - e precisamente pelo facto de que o seu objectivo é a perpetuação da espécie, e não o prazer do indivíduo". "Só um filósofo pode ser feliz no casamento, e os filósofos não casam". O verdadeiro mote, por trás da vontade de reproduzir, seria, em suma, a preservação da espécie, e para isso, "cada qual procura um companheiro que vá neutralizar seus defeitos, para que esses não sejam transmitidos".  

Amor e Relacionamento Versus Felicidade, in: Filosofia, Ano VII, Nº 76, Novembro 2012, pp. 14 a 23.

21 abril 2014

O Suícidio Filosófico

Existe um facto evidente que parece absolutamente moral: é que o homem é sempre a presa das suas verdades. Uma vez reconhecidas, não pode libertar-se delas. É preciso pagar esse preço. Um homem que se torna consciente do absurdo fica-lhe ligado para todo o sempre. O homem sem esperança e consciente disso, já não pertence ao futuro. Isso está na ordem natural das coisas. Mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é o criador.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, p. 41.

16 abril 2014

As Paredes Absurdas

Eis umas árvores e eu conheço-lhes a rugosidade, eis a água e eu conheço-lhe o sabor. Estes perfumes de erva e de estrelas, a noite, certas tardes em que o coração se dilata, como negar esse mundo cujo poder e cujas forças experimento? No entanto, toda a ciência desta terra não me dará nada que possa certificar-me de que este mundo é meu. As pessoas descrevem-mo e ensinam-me a classificá-lo. Enumeram as suas leis e eu, na minha sede de saber, consinto em que elas sejam autênticas. Demonstrem o seu mecanismo, e a minha esperança aumenta. Por fim, ensinam-me que este universo prestigioso e matizado se reduz ao átomo, e que o próprio átomo se reduz ao electrão. Tudo isto é bom e espero que continuem. Mas falam-me de um invisível sistema planetário, onde os electrões gravitam em redor de um núcleo. Explicam-me este mundo com uma imagem. Reconheço então que os homens se embrenharam pela poesia: Jamais «conhecerei« nada disso. Terei sequer tempo de me indignar? Já mudaram de teoria. Assim, essa ciência que devia ensinar-me tudo, acaba na hipótese, essa lucidez cai na metáfora, essa incerteza resolve-se em obra de arte. Que precisão tinha eu de fazer tantos esforços? As linhas suaves dessas colinas e mão da tarde no meu coração agitado ensinam-me muito mais. Volto ao princípio.
[...]
Estranho a mim próprio e a esse mundo, unicamente armado de um pensamento que se nega a si próprio logo que se afirma, que condição é essa em que só posso ter paz recusando-me a saber e a viver, em que o apetite de conquista vai de encontro a paredes que desafiam os seus assaltos? Querer é suscitar paradoxos. Tudo está ordenado para que essa paz envenenada que resulta da negligência, do sono do coração ou das renúncias mortais.
A inteligência também me diz, a seu modo, que este mundo é absurdo.
[...]
Negam a sua verdade profunda, que é a de estar acorrentado. Nesse universo indecifrável e limitado, o destino do homem toma, daí em diante, o seu sentido. Ergueu-se um povo de irracionais, que o cerca até ao seu fim derradeiro.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, p. 30 e 31.

03 abril 2014

O Absurdo e o Suicídio


Na afeição de um homem pela vida há qualquer coisa de mais forte que todas as misérias do mundo. O julgamento do corpo vale bem o do espírito, e o corpo recua ante o aniquilamento. Ganhamos o hábito de viver, antes de adquirirmos o de pensar. Nesta corrida, que todos os dias nos precipita um pouco mais para a morte, o corpo guarda esse avanço irreparável. Enfim, o essencial de tal contradição reside naquilo a que chamarei a esquiva, porque ela é, ao mesmo tempo, menos e mais do que a diversão no sentido pascaliano. A esquiva mortal, que constitui o terceiro tema deste ensaio, é a esperança. Esperança noutra vida que é necessário «merecer», ou batota dos que vivem, não pela própria vida mas por qualquer grande ideia que a ultrapassa, a sublima, lhe dá um sentido e a atraiçoa. (…)
É preciso afastar tudo e ir direito ao verdadeiro problema. As pessoas matam-se porque a vida não vale a pena ser vivida, eis uma verdade, sem dúvida - infecunda, no entanto, porque é truísmo. (…)
A reflexão sobre o suicídio dá-me, então, ocasião de apresentar o único problema que me interessa: haverá uma lógica até à morte? Só posso sabê-lo prosseguindo, sem paixão desordenada, à luz única da evidência, o raciocínio cuja origem aqui indico. É aquilo a que chamo um raciocínio absurdo. Muitos o começaram. Ainda não sei se o respeitaram.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, pp. 19 e 20.

31 março 2014

Albert Camus

O Absurdo e o Suicídio

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio.
Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder. E, se é verdade, tal como Nietzsche o quer, que um filósofo, para ser estimável, deve dar o exemplo, avalia-se a importância desta resposta, visto que ela vai preceder o gesto definitivo. São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso aprofundá-las para as tornar claras ao espírito.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, p. 15.

15 março 2014

Às Vezes | Poema



Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.

in: Às Vezes, de Sophia de Mello Breyner Andresen
[Fotografia na Praia Grande, Sintra | Portugal]

07 março 2014

Pragmatismo | Filosofia


Charles Sanders Peirce (1839-1914, EUA)
Mais conhecido como um dos fundadores da abordagem filosófica americana denominada "pragmatismo", C. S. Peirce foi influenciado por Kant e influenciou muito o seu amigo William James*.

Peirce foi mais um cientista profissional do que um filósofo e a sua experiência laboratorial foi uma influência central no seu pensamento. Contra a tradição moderna da filosofia, ele defendia que o conhecimento podia ser adquirido, não por um investigador solitário em busca da certeza, mas através da abordagem experimental de uma comunidade de investigadores científicos que examinem incertezas dentro de um sistema de crenças aceites.
Kant foi a principal influência filosófica de Peirce, que se via como um continuador do projecto de Kant à luz dos avanços modernos na lógica, muitos feitos por ele próprio. Segundo o pragmatismo de Peirce, o significado de um termo esgota-se pelos efeitos práticos que tem sobre as nossas acções e pela forma como conduzimos a investigação, sendo definível em termos da sua utilidade racional.
Em vida, Peirce não foi famoso, não tendo conseguido manter nenhum cargo académico durante mais de uns anos. Contudo, produziu um vasto conjunto de textos (Philosophical Papers, 1931-5) que ajudaram a consolidar a sua importância.

* Wiliam James (1842-1910, EUA)
A sua carreira desenrolou-se em Harvard, tendo começado pela Medicina e passado pela Psicologia e depois pela Filosofia. Num dos primeiros textos, A Vontade de crer (1897), revelou a sua atracção pela crença religiosa, defendendo que a crença em Deus pode ser justificada por outra coisa além dos dados.

in: Filosofia, Stephen Law, p. 313.

03 março 2014

A Experiência Partilhada




Cada experiência das nossas vidas é acompanhada por algum grau de emoção, por mais pequeno que seja, e este facto é especialmente notável em relação a problemas sociais e pessoais importantes. Quer a emoção responda a um estímulo escolhido pela evolução, tal como acontece no caso da simpatia, ou a um estímulo apreendido individualmente, tal como acontece no medo que podemos ter adquirido em relação a um certo objecto, como consequência de o termos associado a um estímulo de medo primário, o facto é que as emoções, positivas ou negativas, bem como os sentimentos que se lhes seguem, se tornam componentes obrigatórios das nossas experiências sociais.
A ideia que estou a apresentar é a de que, ao longo do tempo, não respondemos apenas aos componentes de uma situação social com o repertório de emoções sociais inatas de que dispomos. Sob a influência das emoções sociais (desde a simpatia e a vergonha ao orgulho e à indignação moral), e das emoções que são induzidas pelas punições e recompensas (que são variantes da alegria e da mágoa), somos capazes de categorizar gradualmente as situações de que temos experiência. Categorizamos os erros em que participamos, os seus componentes e o seu significado em termos de grande narrativa pessoal. Somos capazes, além disso, de associar as categorias conceptuais que vamos formando - tanto a nível mental como a nível neural - com os dispositivos cerebrais que desencadeiam as emoções. (…)
Dou especial valor às emoções e sentimentos ligados às consequências futuras das decisões, visto que eles constituem uma antecipação da consequência das acções, uma espécie de previsão do futuro.

in: Ao Encontro de Espinosa, António Damásio, p. 161.
[Imagem: Maquetes do Designer Raul Cunca, in: O Design Plural, Casa da Cerca, Almada, Fevereiro de 2014]

21 fevereiro 2014

O Que Importa


Às vezes apetece mudar tudo
Uma libertação de quase tudo

Fraca, demasiadamente fraca
A fraqueza, a falta de quase tudo
Quando não se precisa de quase nada

Apenas ar, sol e alegria
E também da música
Quase tudo o que é preciso.

O que importa uma multidão
O que importam os objectos
O que importa quase tudo
O que importa quase nada

O que realmente importa
A relação, a troca
O tempo, o tempo que não é contado
A sabedoria, a humildade, a simplicidade.

in: Fevereiro, 2014

20 fevereiro 2014

Reacção Emocional | Modelo


(…) A partir de um estudo da emoção, área emergente das ciências cognitivas no contexto contemporâneo, destacamos o mecanismo da emoção, enquanto resultado de uma lógica. Assim uma emoção é o resultado de um mecanismo de ordens, e/ou de comportamentos, que resultam das primeiras acções experimentadas. O que significa que o nosso cérebro grava modelos que se repetem, ou seja, um estímulo provoca uma resposta e o cérebro constrói um modelo. Deste modo a lógica do entendimento da acção e reacção permite a construção de modelos de estímulo-resposta. Assim, as pessoas são como 'máquinas' no sentido em que reagem por hábitos, por informação codificada, gestos controlados, imitação, dados que são gravados no cérebro e repetidos, os ditos modelos. (…)

in: Socio-Emotional Design of Personal Robots, Cynthia Breazeal, (7th International Conference on Design and Emotion), Chicago, 2010

 (…) Segundo António Damásio 'nós pensamos com o nosso corpo' e as "emoções são literalmente 'corporalizadas'. O nosso cérebro é um detector de emoções e "até mesmo as pessoas 'normais' quando vêm imagens carregadas de grande emoção, têm secreções sudoríparas aumentadas. No caso das pessoas sujeitas a lesões cerebrais, não há nenhuma resposta epidérmica."

in: O Cérebro à Procura da Alma, de António Damásio, (Neuropsicologia, Édition Spéciale Science & Vie), 1996

14 fevereiro 2014

Amor | Alimento


A.M.O.R.  
»»» Sen-ti-men-to que nos im-pe-le para o objecto dos nossos de-se-jos…
»»» Objecto da nossa afeição; paixão; afecto; inclinação…

» A.LI.MEN.TAR. O. A.M.O.R.»

Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da luz e do barulho das portas a abrir.
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter. Em Portugal quase tudo se resume a começos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma "iniciativa", que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte. É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores não nos faltam. Chefes não nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Faltam-nos guardiões.

É como no Amor.
A manutenção do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer durar uma paixão. O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas - é o que distingue os seres humanos. O nascimento e a morte não têm valor - são os fados da animalidade. Procriar é bestial. O que é lindo é educar. Estou um pouco farto de revolucionários. Sei do que falo porque eu próprio sou revolucionário. Como toda a gente. Mudo quando posso e, apesar dos meus princípios, não suporto a autoridade. (…)

Mudar é um instinto animal.
Conservar, porque vai contra a natureza, é que é humano. Gosto mais de quem desenterra do que de quem planta. Gosto mais do arqueólogo do que do arquitecto. Gosto de académicos, de coleccionadores, de bibliotecários, de antologistas, de jardineiros.
Percebo hoje a razão por que Auden disse que qualquer casamento duradoiro é mais apaixonante do que a mais acesa das paixões. Guardar é um trabalho custoso. As coisas têm tendência horrível para morrer. Salvá-las desse destino é a coisa mais bonita que se pode fazer. Haverá verbo mais bonito do que "Salvaguardar"? É Fácil para uma pessoa bater com a porta, zangar-se e ir-se embora. O que é difícil é ficar. Isto ensinou-me o amor da minha vida, rapariga de esquerda, a mim, rapaz conservador. (…)

Preservar é defender a alma do ataque da matéria e da animalidade. Deixadas sozinhas, as coisas amarelecem, apodrecem e morrem. Não há nada mais fácil do que esquecer o que já não existe. Começar do zero, ao contrário do que sempre pretenderam todos os revolucionários do mundo, é gratuito. Faz com que não seja preciso estudar, aprender, respeitar, absorver, continuar. Criar é fácil. As obras de arte criam-se como as galinhas. O difícil é continuar.

in: As Minhas Aventuras na República Portuguesa, por Miguel Esteves Cardoso, 2014

10 fevereiro 2014

Pieter Brueghel | MNAA




Pieter Brueghel, conhecido como "O Velho", para distingui-lo de seu filho mais velho, Pieter Brueghel, "O Jovem". Foi o primeiro de uma família de pintores flamengos, e considerado um dos melhores pintores do século XVI.

in: Rubens, Brueghel, Lorrain, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Fev. 2014
Ver o Filme "A Procissão e o Calvário" [neste Blogue com a data: 7.Agosto.2012]

04 fevereiro 2014

MUDE | Museu do Design



. INVESTIGAR .
in.ves.ti.gar / v. [Do lat. investigare] Averiguar, indagar, sondar, inquirir, interrogar. Aprender. Descobrir, encontrar. Verificar, confirmar, infirmar.

Ali estão elas, algumas das Teses de Doutoramento realizadas no Doutoramento em Design, na Faculdade de Arquitectura, da Universidade de Lisboa. Entre elas a minha:
. Autora: Ana Paula de J. L. Gaspar
. Título: A Provocação dos Sentidos no Cartaz de Divulgação da Arte Contemporânea em Portugal 1989-2009
. Data: Lisboa, 18. Julho. 2012

in: Em Exposição no MUDE - Museu do Design e da Moda, em Lisboa [http://www.mude.pt]

22 janeiro 2014

Como foi …

Como foi na tarde o nosso abraço
Perfeito circular
Abrigo?
De manso rodeámos outras ilhas de certezas
E promessas: fomos plantando uma árvore
Em cada nosso olhar
E destruímos os medos os contornos
De nossos medos. Depois
Fomos de braços vazios a avenida
Andar conversar
Ou só olhar.
Não inventámos histórias não quisemos
Razões
Não discutimos alamedas
Nem futuros
Não nos ligámos às juras nem aos projectos
Nem ao menos quisemos percorrer
Os íntimos continentes
Ao fim do encontro amigo:
Como foi na tarde o nosso abraço
Circular perfeito
Abrigo!

in: Sem Título, de João David Pinto Correia, Madeira (ilha portuguesa)

20 janeiro 2014

Depressão | Vírus

Os mapas relacionados com a mágoa, tanto no sentido estreito como largo da palavra, estão associados a estados de desequilíbrio funcional. A facilidade da acção reduz-se. Nota-se a presença da dor, de sinais de doença ou de sinais de desacordo fisiológico, todos eles indicando uma coordenação diminuída das funções vitais. Se a mágoa não é corrigida seguem-se a doença e a morte.
(…)
De acordo com o que Espinosa disse quando discutiu a noção de tristitia, os mapas da mágoa estão associados a uma transição do organismo para um estado de menor perfeição. O poder e a liberdade de atuar reduzem-se. Na perspectiva espinosiana, a pessoa invadida pela tristeza é separada do seu conatus, é separada da sua tendência natural para a autopreservação. Esta descrição aplica-se, por certo, aos sentimentos que se encontram nas depressões graves e às suas consequências últimas no suicídio. A depressão pode ser vista como uma parte de uma «síndroma de doença». Os sistemas endócrinos e imunológicos participaram na depressão crónica tal como se um agente patogénico, por exemplo uma bactéria ou um vírus, tivesse invadido o organismo. De forma isolada, momentos de tristeza, medo ou zanga não precipitam a espiral de deterioração da doença. Contudo, toda e cada ocasião de emoção negativa coloca o organismo num estado marginal. Quando a emoção é o medo, esse estado marginal pode ter vantagens - desde que o medo seja justificado e não seja o resultado de uma apreciação incorrecta da situação, ou sintoma de uma fobia. O medo justificado é uma excelente apólice de seguros, que tem salvado ou melhorado muitas vidas.

in: Ao Encontro de Espinosa, de António Damásio, p. 153.

14 janeiro 2014

Fado do Amor | José Régio

Passaste por mim um dia,
Eras mulher e criança,
Tinhas uma expressão mansa
Coma de triste alegria…
Luz do luar, luz do dia,
Luz do céu do amanhecer,
Que luz posso eu conceber
Que teu sorriso não desse,
Teu olhar não recolhesse,
Eras criança e mulher…?

Passaste por mim, passaste
Num dia da minha vida,
E hora jamais esquecida,
Em que ambos dois resgataste,
Foi aquela em que deixaste
Teu olhar no meu cair,
A tua boca sorrir,
(Nem sei se me viste ou não…)
E a tua mansa expressão
Benzer todo o meu porvir!

Eras criança e mulher,
Tinhas petulante e doce,
Um jeito como se fosse
De quem quer dar, receber…
Eu começava a saber
Que era uma pobre criatura
Das que vivem na loucura
De redimir tudo, e todos,
E têm falas e modos
De altiva e triste figura…

Passaste, olhaste, sorriste,
Naquela semana inteira,
Com sempre a doce maneira
Como de alegria triste.
Nem sei, sequer, se me viste,
Não vou jurar que me vias
Depois passaram-se os dias,
A vida meteu-se ao meio,
Quanto havia de vir veio,
Fui-me embora e tu partias…

Há quantos anos foi!,
Pensas que pude esquecer-te?
Crês que deixei de rever-te
Na saudade que me dói?
Sim, já não sou esse herói
Vibrante e meditabundo
Que nada via no mundo
Senão luz dum mais-além…
Mas tu caíste também,
Qual de nós caiu mais fundo?
(…)

in: Fado, de José Régio, p. 43 e 44.

13 janeiro 2014

A Razão de eu escrever | Leonard Cohen

A razão de eu escrever
é fazer algo
tão belo como tu

Quando estou contigo
Quero ser o tipo de herói
que queria ser
quando tinha sete anos
um homem perfeito
que mata

in: Poemas e Canções, de Leonard Cohen, p. 235.

24 dezembro 2013

Alegria e Mágoa


Agora que sabemos o que são os sentimentos, é altura de perguntar: para que servem?
Como se constroem a alegria e a mágoa? Que representam?
A alegria e a mágoa começam com a apresentação de um estímulo emocionalmente competente. (...)

Os sentimentos são, em suma, as manifestações mentais do equilíbrio e da harmonia, da desarmonia ou do desacordo. (…) Referem-se mais imediatamente à harmonia e ao desacordo que acontecem no interior da carne. A alegria e a mágoa, bem como os sentimentos que se relacionam com elas, são primariamente ideias do corpo no processo de obter estados de sobrevida óptimos.

in: Ao Encontro de Espinosa, de António Damásio, p. 151 a 154.

11 dezembro 2013

Uma coisa curiosa … | António Damásio

Gostava ainda de chamar a atenção para uma coisa curiosa e também cronicamente esquecida: os sensores nervosos que transmitem informações do corpo para o cérebro e os núcleos e feixes nervosos que mapeiam essa informação são, eles próprios, feitos de células vivas, sujeitos ao mesmo risco de vida de qualquer outra célula, e precisam, também eles, de regulação homeostática. Estas células nervosas não são observadores passivos e imparciais. Não são espelhos inocentes à espera de reflectir o que quer que seja, ou ardósias limpas à espera de que alguém nelas inscreva uma fórmula mágica. Os neurónios encarregados de sinalizar e mapear têm qualquer coisa a dizer no que toca àquilo que sinalizam e mapeiam. É evidente que as atividades do corpo dão uma certa forma ao mapa, lhe conferem uma certa intensidade e perfil temporal, e contribuem no seu conjunto para aquilo que sentimos. Mas uma certa parte da qualidade daquilo que sentimos depende, provavelmente, do desenho íntimo dos próprios neurónios. A qualidade daquilo que sentimos depende, provavelmente, do "meio" (medium) em que são instanciados. (…)
Em conclusão, os sentimentos baseiam-se em representações integradas do estado da vida a par e passo com os ajustamentos necessários para que esse estado seja compatível com a sobrevida. Aquilo que sentimos tem, portanto, a ver com o seguinte:
1. O desenho íntimo do processo da vida num organismo multicelular com um cérebro complexo.
2. As operações do processo da vida.
3. As reacções correctivas que certos estados da vida provocam automaticamente, e as reacções inatas e adquiridas que os organismos desencadeiam quando certos objectos e situações são mapeados nos seus cérebros.
4. O facto de que, quando se desencadeiam as reacções regulatórias, o fluir da vida se torna mais eficiente ou, pelo contrário, menos eficiente.
5. A natureza do medium neural no qual todas estas estruturas e processos são mapeados.
Várias vezes me tem sido perguntado se estas ideias podem explicar a negatividade ou positividade dos sentimentos, sendo a implicação da pergunta que o sinal positivo dos sentimentos não pode ser explicado. Discordo dessa posição. Há estados do organismo em que a regulação da vida se torna extremamente eficiente, óptima, digamos, fluindo com facilidade e liberdade. Isto é um facto fisiológico bem estabelecido. Não se trata de uma hipótese. Os sentimentos que acompanham esses estados fisiológicos ideais são naturalmente considerados "positivos". São caracterizados não só pela ausência de dor, mas também por variedades de prazer. E há também estados do organismo em que os processos da vida lutam arduamente por recuperar o equilíbrio e podem até perder essa luta e entrar em caos. Os sentimentos que ocorrem nesses estados são considerados "negativos" e caracterizam-se não só pela ausência de prazer, mas por variedades de dor.
Julgo que é possível dizer, com alguma confiança, que os sentimentos positivos e negativos são determinados pela regulação da vida. O sinal positivo ou negativo é conferido pela proximidade ou distância relativamente aos estados que representam uma regulação óptima da vida.
A propósito, a intensidade dos sentimentos também está naturalmente provavelmente ligada ao grau de correcções que é necessário fazer nos estados ditos negativos, e à medida em que os estados ditos positivos excedem o nível homeostático necessário para a sobrevida e traduzem uma regulação optimizada.

in: Ao encontro de Espinosa, de António Damásio, p. 143 a p. 145.

03 dezembro 2013

Perder o Apetite | Qual a diferença entre mim e uma árvore?


E se uma árvore perder o apetite?
Morre.

Mas, se eu estou a perder o apetite!
Irei morrer.

Não, por falta de nutrição, não!
Mas, por falta de prazer, sim.


Por exemplo, na parte do cérebro conhecida como hipotálamo, grupos de neurónios leem directamente a concentração de glucose ou água presentes na corrente sanguínea e atuam de acordo com essa leitura produzindo uma pulsão ou apetite.
A diminuição da concentração de glucose leva a um estado de fome e ao início de comportamentos que visam a ingestão de alimentos e, eventualmente, a correcção do nível de baixo de glucose. Da mesma forma, uma diminuição de da concentração de água leva à sede e à preservação da água. Os rins travam a eliminação da água e a respiração é alterada em paralelo, de forma que menos água se perca no ar que respiramos. (…)
Estes convertem sinais químicos trazidos pela corrente sanguínea em sinais neurais transmitidos ao longo de projecções nervosas dentro do cérebro.
O resultado é o mesmo: o cérebro mapeia o estado do corpo.
O pormenor deste mapeamento local e global, nervoso e químico, é verdadeiramente espantoso.
Não é de todo correcto dizer, como tantas vezes fazemos, que os sinais que provêm do tronco cerebral e do hipotálamo nunca se tornarem conscientes. Pelo contrário, julgo que uma parte desses sinais entra continuamente na consciência sob forma particular: a forma de sentimentos de fundo. E se é verdade que os sentimentos de fundo muitas vezes nos escapam, também é verdade que em muitas circunstâncias atraem a atenção e dominam a nossa consciência. Basta apenas pensar na forma como nos sentimos quando o mal-estar da doença nos invade ou quando a energia da saúde nos faz sentir no topo do mundo. 

in: António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, p. 139 e 140.
[Fotografia: Barragem de Montargil, Alentejo/Portugal]

02 dezembro 2013

Amarelo | Cor da Contradição


O Amarelo está presente em experiências e símbolos relacionados com o Sol, a luz e o ouro. Então, porquê que é tão pouco apreciado? O Amarelo é a cor do optimismo, mas também da mentira e da inveja. O Amarelo é a cor da  iluminação, do entendimento, mas também a dos desprezíveis e dos traidores.
O Amarelo é desta forma contraditório.
O Sol é a nossa experiência elementar do amarelo.
O Amarelo é, tal como o azul e o vermelho, uma das três cores primárias, as que não se obtêm de nenhuma mistura de cores. É a mais clara de todas as cores vivas. O Amarelo é a cor preferida de 6% das mulheres e dos homens. Preferem-na mais as pessoas mais velhas do que os jovens.

in: A Psicologia das Cores, de Eva Heller, p. 85.

20 novembro 2013

A Química do Sentimento | As Drogas da Felicidade


É bem sabido que certos medicamentos psicotrópicos transformam os sentimentos de tristeza ou de incapacidade em sentimentos de contentamento e segurança. Muito antes da fase Prozac da nossa vida cultural, sabia-se que o álcool, os narcóticos, os analgésicos e hormonas, tais como os estrogéneos e a testosterona, alteravam, sem qualquer dúvida, os sentimentos. Está bem de ver que a acção dessas substâncias é devida à estrutura das suas moléculas. Mas como é que essas moléculas produzem os seus notáveis efeitos?
(…)
As drogas da felicidade
As frases dos toxicómanos contêm referências frequentes às alterações do corpo que acontecem durante os highs da droga e constituem mais uma linha de evidência no que diz respeito à relação entre corpo e sentimento. Algumas declarações: "O meu corpo estava cheio de energia e ao mesmo tempo relaxado", É como se todas as células e ossos do meu corpo estivessem a dançar deliciosamente", "É como se tivesse tido um orgasmo no corpo inteiro".
(…)
Todas estas declarações descrevem alterações no corpo - relaxamento, calor, anestesia, analgesia, libertação orgástica, energia. (…) Todas estas sensações são geralmente acompanhadas por uma colecção de pensamentos bem sintonizados com a natureza das sensações - pensamentos que se referem a acontecimentos positivos, a uma capacidade aumentada de «compreensão», a um aumento do poder físico e intelectual, a um remover de limites e preocupações. Curiosamente, as drogas que levaram a estas declarações são diferentes. (…)
Por exemplo, a cocaína e a anfetamina actuam através da dopamina. Mas a variante de anfetamina que está na moda, o ecstasy, uma molécula de nome complicado conhecida pelas iniciais MDMA actua através da serotonina. (…)
A distribuição anatómica dos receptores em que estas diferentes substâncias actuam é extremamente variada e diferente para cada uma das drogas. E, no entanto, os sentimentos que as várias drogas produzem são semelhantes.
Dado que todos os sentimentos contêm como ingrediente fundamental um componente de dor ou de prazer, e dado que as imagens mentais a que chamamos sentimentos têm origem em mapeamentos do estado do corpo, é legítimo propor que a dor e as suas variantes correspondam a uma certa configuração dos mapas do estado do corpo.
Do mesmo modo, o prazer e as suas variantes são o resultado de um certo mapeamento do corpo. Sentir dor ou sentir prazer resulta da presença de uma certa imagem do corpo tal como é representada, em certo momento, em mapas do corpo. A morfina ou a aspirina podem alterar essa imagem. O uísque ou o ecstasy também. E os anestéticos. E certas formas de meditação. E o desespero. E a esperança.

in: Ao Encontro de Espinosa, as Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, de António Damásio, pp. 133 a 138.

13 novembro 2013

Corpo | A minha definição


O nosso corpo e mente é um organismo vivo, reage aos meios envolventes tais como: frio, calor e outras variações de temperatura, vozes, sons, gestos, cheiros, atitudes, reacções e comportamentos vários.
Somos como uma "esponja do mar", sensível a qualquer variação do seu habitat, exibe-se no conforto e prazer do seu ambiente e retrai-se no frio e no medo, reagindo e até morrendo.
A expressividade é a libertação da mente e do corpo, ou seja é uma liberdade física e mental, indispensável ao conforto e prazer de viver.

12 novembro 2013

Alberto Carneiro | Colecção de Arte da CGD



Os diversos núcleos que compõem o espólio artístico da Caixa Geral de Depósitos acolhem hoje cerca de duas mil obras de artistas portugueses, bem como de artistas brasileiros e africanos de expressão portuguesa. Atravessando uma multiplicidade de disciplinas artísticas e cobrindo um período que se inicia ainda no século XIX para chegar aos nossos dias, este corpo de obras mantém-se como uma das mais consequentes iniciativas públicas no que à criação de um património artístico colectivo diz respeito. (…)
Núcleos de artistas dos primórdios da contemporaneidade artística do nosso país e os seus mais recentes desenvolvimentos, as escolhas de Fernando Calhau lograram reforçar núcleos de artistas como Lourdes de Castro, Alberto Carneiro ou Álvaro Lapa, ao mesmo tempo que inauguram a presença de outros, bem mais jovens, como Pedro Sousa Vieira, Gilberto Reis ou Francisco Rocha.

Ver Exposição: Sentido em Deriva, Obras da Colecção da Caixa Geral de Depósitos, Culturgest, Lisboa, Outubro 2013 a Janeiro de 2014 (Na imagem: obra de Alberto Carneiro)

11 novembro 2013

Nas Nuvens


Para fugir da agonia não há como fugir para as nuvens
Elas levam-nos para onde querem e nós voamos com elas
Assim divagamos e à deriva nos deixamos levar
Porque assim não estamos na terra
Queremos voar e deixar este sítio
Fingimos que não temos corpo e apenas uma espécie de mente
E talvez um dia demente ou alienada e doente me ausente completamente.

[Imagem: Action Line, de Armando Duarte, 1999 (vista parcial), em exposição na Culturgest, em Lisboa]

05 novembro 2013

Livros | Memórias


Estados do corpo: a realidade e a simulação, e uma analgesia natural
Em cada momento das nossas vidas, as regiões somatossensitivas do cérebro recebem sinais com os quais constroem mapas do estado do corpo. Podemos imaginar esses mapas como colecções de correspondências entre todo e qualquer ponto do corpo e as regiões somatossensitivas. (…) No entanto, as interferências nas transmissões de sinais do corpo podem criar mapas "falsos". Um bom bom exemplo de mapas falsos do corpo ocorre em certas circunstâncias em que o cérebro impede a passagem de sinais que têm a ver com a dor (sinais nociceptivos). (…)
A propósito, uma simples variação nestes mecanismos poderia levar ao suprimir da recordação de situações que no passado tivessem causado grande angústia.

in: António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, p. 126 e 129
[Imagem: Leitura II, 2013, da artista plástica Isabel Ribeiro; material: tinta-da-china sobre parede, na Biblioteca da Casa da Cerca, em Almada]

30 outubro 2013

Quem pode ter sentimentos?


Em primeiro lugar, uma entidade capaz de sentir precisa de ter não só um corpo, mas também meios para representar esse corpo dentro de si mesmo. É possível pensar em organismos complexos, tais como as plantas, que sem dúvida alguma estão vivos e têm um corpo, mas que não têm meios de representar partes ou estados desse corpo em qualquer forma de mapa cerebral. As plantas reagem a diversos estímulos, como por exemplo a luz, o calor, a presença ou falta de água e de fontes de nutrição. Mas, tanto quanto sabemos as plantas não são capazes de sentir nenhuma dessas reacções no sentido comum do termo. Em conclusão, a primeira necessidade que é preciso satisfazer para que haja sentimento é a presença de um sistema nervoso.
Em segundo lugar, esse sistema nervoso deve ser capaz de mapear as estruturas do corpo e os seus diversos estados e ser capaz também de transformar os padrões neurais desses mapas em padrões mentais, ou seja, imagens.
Em terceiro lugar, a ocorrência de um sentimento, no sentido tradicional do termo, requer que os conteúdos desse sentimento sejam conhecidos pelo organismo, ou seja, a consciência é também uma necessidade básica para a ocorrência do sentimento, no sentido tradicional do termo.
Em quarto lugar, os mapas cerebrais que constituem o substrato básico dos sentimentos exibem padrões de estado corporal que foram executados sob o comando de outras regiões do mesmo cérebro em que se exibem. Por outras palavras, o cérebro de um organismo que sente é, ele mesmo, o criador dos estados corporais que evocam sentimentos quando esse organismo reage a objectos e situações com emoções e apetites.
(…)
O aparecimento dos sentimentos só foi possível quando os organismos passaram a possuir mapas cerebrais de representar estados do corpo. Por seu turno, esses mapas cerebrais foram possíveis porque eram imprescindíveis para a regulação cerebral do estado do corpo sem a qual a vida não pode continuar.

in: António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, p. 122 a 124.

22 outubro 2013

Contadores de Histórias


AFINAL O SER HUMANO É UM EXÍMIO CONTADOR DE HISTÓRIAS


Somos uns contadores de histórias. Na verdade a história humana é construída a partir de uma história. Um enredo, uma narrativa, uma descrição, uma observação, uma opinião, um parecer, um ponto de vista ou um facto. Mas, afinal qual é o facto ou a ocorrência, se afinal todos viram, veem eu irão visualizar de modo diferente, cada um contém em si vários léxicos de saberes, de cultura, de informação, de sabedoria ou de conhecimento.
Uma das maiores riquezas da humanidade está exactamente na diversidade.
Algumas das histórias criaram a história da civilização humana. Contada por alguns, alterada por outros e interiorizada ainda por outros, algumas tornaram-se autênticos dogmas que perduram no tempo. Foi a partir de enredos que a civilização humana se foi impondo no planeta Terra, a tal ponto de o dominar, perdendo a noção da sua amplitude e do seu poder sobre o próprio ser humano.

21 outubro 2013

De noite na cama, eu fico pensando




De noite na cama, eu fico pensando, é uma instalação constituída por várias fronhas brancas, sobre fundo azul céu, com fragmentos de textos bordados a linha vermelha, retirados do livro A Arte de Viajar, de Alain de Botton, que, abordando os prazeres e desilusões, ou frustrações de viajar, lhe permite evocar, através de um jogo entre texto e objecto, a ideia de uma viagem essencialmente interior e afectiva.

De noite na Cama, fico pensando, de Ana Pérez-Quiroga, in: Casa Ocupada, Casa da Cerca, Almada, 2013

17 outubro 2013

Como é que se esquece alguém que se ama? | Miguel Esteves Cardoso


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Amor, de Miguel Esteves Cardoso, in: Último Volume

16 outubro 2013

A Mensageira das Violetas


Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é louro como teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites cousteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço.

Florbela Espanca, in: "A Mensageira das Violetas"

15 outubro 2013

Feijoeiro Mágico



A partir da história "João e o Pé de Feijão" representa-se o feijoeiro mágico deste conto popular, mas reveste-se de outros níveis de significação e conotações simbólicas. Podemos afirmá-lo ainda como uma metáfora da "casa", que à semelhança de uma planta ou árvore, configura também uma ideia de enraizamento, de fixação ao lugar, de desenvolvimento e transformação.

Ver: Casa da Cerca, Casa Ocupada, Outubro de 2013
Feijoeiro, de João Pedro Vale, 2005

08 outubro 2013

Emergir | Identify Specific


Emergir - Identify specific, é uma instalação de Maria Tomás, com curadoria de Cristina Azevedo Tavares.

Um espaço a descobrir, e a criar admiração pela dimensão das peças ali expostas, e em total diferenciação de escala com a nossa envolvente. Fazem parte da história, de uma vida, e são parte da nossa percepção.
O contexto em que ali foram salvaguardadas e a sua redescoberta pelo olhar dos artistas plásticos renova ainda o próprio local e a sua interligação com a nossa contemporaneidade.


Ver: Casa dos Gessos, do Museu Militar de Lisboa (Campo de Santa Clara nº 62, junto ao Panteão Nacional).

01 outubro 2013

O Desencadear das Emoções


A cadeia de fenómenos que leva à emoção inicia-se com o aparecimento na mente do estímulo-emocional-competente. Em termos neurais, as imagens do estímulo competente são apresentadas nas diversas regiões sensoriais que mapeiam as suas características, por exemplo, nos córtices visuais ou auditivos. Chamamos a esta parte do processo a fase de "apresentação". Na fase seguinte, sinais ligados à representação sensorial do estímulo são enviados para vários outros locais do cérebro, nomeadamente para os locais capazes de desencadear emoções. Podemos conceber esses locais como fechaduras que apenas se podem abrir com as chaves que lhe correspondem. Essas chaves são, evidentemente, os estímulos emocionais competentes. Deve notar-se que as chaves "seleccionam" uma fechadura preexistente e que não instruem o cérebro na construção de uma fechadura nova.
A actividade nestes locais desencadeadores é a sua causa imediata do estado emocional que ocorre no corpo e no cérebro. Mais tarde ou mais cedo, esta cadeia de acontecimentos pode reverberar e amplificar-se ou reduzir-se e terminar.
Em conclusão, em linguagem neuroanatómica ou neurofisiológica, a cadeia começa quando os sinais neurais correspondentes a um certo objecto (por exemplo, os sinais que representam um objecto ameaçador nos córtices visuais) são comunicados em paralelo ao longo de diversas projecções neurais para outras regiões do cérebro.
Algumas das regiões recipientes, como, por exemplo, a amígdala, entram em acção quando detectam uma certa configuração de sinais - ou seja, quando a chave serve na fechadura - e, por sua vez, iniciam sinais que alvejam outras regiões cerebrais, continuando desta forma a cadeia de acontecimentos que virá a tornar numa emoção.
Estas descrições lembram de certo modo as de um antigénio (por exemplo, um vírus) que entra na corrente sanguínea e que leva a uma resposta imunitária feita de numerosos anticorpos capazes de neutralizar o antigénio.
O processo neural e o processo imunitário têm uma certa parecença formal.
No caso da emoção, o "antigénio" é apresentado através do sistema nervoso e o "anticorpo" é a resposta emocional.

in: António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, p. 71.

24 setembro 2013

Emoções e Submissão/Liderança

É muito provável que a existência de emoções sociais tenha tido um papel no desenvolvimento dos mecanismos culturais da regulação social. É também verdade que algumas das emoções sociais humanas são provocadas sem que o estímulo seja imediatamente aparente, nem para os observadores, nem para quem exibe a emoção. As reacções de dominância ou submissão social são um exemplo notável que encontramos a cada passo no mundo dos desportos, da política e nos locais de trabalho em geral.
Uma das razões por que algumas pessoas se tornam líderes e outras seguidoras, por que algumas inspiram respeito e outras se acobardam, tem muitas vezes pouco a ver com os conhecimentos ou aptidões dessas pessoas, mas muitíssimo a ver com qualidades físicas que promovem certas respostas emocionais nos outros.
Para quem observa tais respostas e, por vezes, para quem as exibe, estas emoções aparecem sem qualquer motivo aparente, porque a sua origem reside nos mecanismos automáticos da emoção social.
Devemos agradecer a Darwin, uma vez mais, por nos ter orientado para a história evolucionária destes fenómenos.

in: António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, as Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, p. 62.

08 agosto 2013

Compreender a Biologia das Emoções


Numa sociedade moderna, a zanga é contraproducente, tal como a tristeza. As fobias são um enorme obstáculo. E, no entanto, está bem de ver que a zanga e o medo salvaram numerosas vidas ao longo da evolução.
(...)
Compreender a biologia das emoções e o facto de que o valor das diferentes emoções depende das circunstâncias actuais, oferece oportunidades novas para a compreensão moderna do comportamento humano. Podemos compreender, por exemplo, que certas emoções são más conselheiras e procurar modos de suprimir ou reduzir as consequências desses maus conselhos. Estou a pensar nas reacções que levam a preconceitos raciais e culturais e que se baseiam em emoções sociais cujo valor evolucionário residia no detectar de diferenças em outros indivíduos - porque essas diferenças eram indicadoras de perigos possíveis - e no promover de agressões ou retraimento. Este tipo de reacções deverá ter produzido resultados extremamente úteis numa sociedade tribal, mas não é útil nem aceitável no mundo actual.

in: António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, p. 54.

15 julho 2013

Ao Encontro de Espinosa | António Damásio


… Espinosa fuma o seu cachimbo e o aroma do tabaco colide com o da aguarrás durante as perguntas e respostas. Entardece. Atrás destas janelas Espinosa recebeu centenas de visitantes, desde vizinhos e familiares dos Van der Spijk a jovens estudantes, desde Gottfried Leibniz e Christiaan Huygens a Henry Oldenburg, presidente da Royal Society inglesa então acabada de criar. A julgar pelo tom da sua correspondência, Espinosa era simpático com a gente simples e impaciente com os seus pares. Ao que parece tolerava aqueles que eram tolos mas modestos, mas não o resto dos tolos.
(…)
O Deus de Espinosa não era judeu nem nem cristão. O Deus de Espinosa estava em toda a parte, dentro de cada partícula do universo, sem princípio nem fim, mas não respondia nem a preces nem a lamentações. Enterrado e desenterrado, judeu e não judeu, português mas não exactamente, holandês mas não completamente, Espinosa não pertencia a parte nenhuma e estava em toda a parte.

in: Ao Encontro de Espinosa - As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, de António Damásio, 2012, pp. 33 e 37.

23 junho 2013

A Sagração da Primavera



"E num corpo que já não é seu, num tempo que a transcende e antecede, ela dança.
Selvagem, brusca, bruta, sensual; uma consciência desperta para o existir pleno e superior.
Exausta, acabará por cair, por fim.
Depois, o prelúdio.
O recomeço.
Os mesmos rituais, os mesmos círculos, as eternas revelações daquilo que foi e sempre será.
Tudo se repete num perpétuo retorno de momentos. Não há início nem ocaso.
A terra, as raízes, os homens.
Os sentidos, as emoções, as rivalidades.
O quotidiano, os excessos, o medo, a imaginação e a criação.
As crenças. A fé. Os sacrifícios: a busca constante de actuação do divino através da adoração ou oferenda do que é terreno e material - Homem ou objecto; a expressão pura da libertação, uma tentativa de fuga ao que nos oprime e angustia.
A sagração. Do tempo, esse que é limitado, cíclico, inexorável, que nos trespassa e se repete. Constantemente. Eternamente. Sem fim. Renasce, recria-se, reencontra-se.
E num corpo que já não é seu..."

in: A Sagração da Primavera, direcção de Olga Roriz, Culturgest, Junho de 2013
Texto: Paulo Reis, Maio 2013

05 junho 2013

Uma pedagogia da Morte | Obrigação de viver




Assim, em benefício da morte voluntária: a necessidade existe, mas não há qualquer obrigação de viver por necessidade; é possível escolher abandonar a vida por opção própria; o nosso corpo pertence-nos e podemos usá-lo como quisermos; a existência não vale pela quantidade de vida vivida, mas sim pela sua qualidade; morrer bem é melhor do que viver mal; deve-se viver o que se deve, não o que se pode; escolher uma (boa) morte vale mais do que padecer uma (má) vida.

in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, p. 190.

29 maio 2013

Bertolt Brecht


Do rio que tudo arrasta se diz que é violento mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem. 
Bertolt Brecht

Ver: http://www.astormentas.com/brecht.htm

22 maio 2013

Todos são especiais | Aceitar


Todas as pessoas são especiais.
O erro do ser humano foi pensar que alguns são mais importantes do que outros.
A inteligência ou as capacidades que uns possam ter em relação a outros foram dádivas da natureza e sensibilidades diversificadas, o que significa a riqueza da humanidade.
O grande desafio é aceitar as diferenças entre cada um no conjunto de todos.

[Imagem] S/Título, Sem Data, de Emmerico Nunes

14 maio 2013

Michel Onfray | O Desejo


A codificação ascética.
A priori, o desejo estimula uma formidável força anti-social.
Antes da sua captura e domesticação pelas formas que se apresentam como socialmente aceitáveis, o desejo representa uma energia perigosa para a ordem estabelecida.
Sob a sua tutela, aquilo que constitui um ser socializado já não conta para nada: utilização do tempo ordenado e repetitivo, prudência na acção, poupança, mansidão, obediência, tédio.
É assim que triunfa tudo o que se opõe a isto: liberdade total, soberania do capricho, imprudência generalizada, despesas sumptuosas, insubmissão aos valores e aos princípios vigentes, rebelião em face das lógicas dominantes, total falta de socialidade.
Para poder ser e durar, a sociedade tem que submeter essa força selvagem e sem lei.

in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Campo da Comunicação, p. 119.

08 maio 2013

Simone de Beauvoir | Ninguém nasce mulher: torna-se mulher




LOVE  LOVE  LOVE
Não faço filhos, faço livros.
Simone de Beauvoir


A Ciência mostrou que o "instinto materno" não é inato e pode ser vivido de diversos modos. As transformações culturais trouxeram a oportunidade de fazer opções, o que ajudou muita gente a chegar à conclusão de que não quer engravidar - algo simplesmente impensável na época das nossas avós.
No entanto, ao serem questionadas as mulheres percebem na curiosidade alheia a pressão e as críticas disfarçadas, como se a opção de não terem sido mães as fizesse pessoas especialmente egoístas ou fosse sinal de algum "grande problema" em relação à sua feminilidade. Nas pesquisas efectuadas, o estudo revelou que as mulheres sem filhos se sentiram estigmatizadas como se fossem cidadãs de segunda categoria. "É como se, de certa forma, a maternidade fosse a garantia de nos tornarmos pessoas melhores", observa Maria Letizia Tanturri, professora de Demografia na Universidade de Pavia, Itália.

As mulheres criaram outros interesses. A neurologista Rita Levi-Montalcini (ganhadora do prémio Nobel da Fisiologia e Medicina, em 1986) e a escritora Simone de Beauvoir, não foram mães, mas criaram conhecimento.
A filósofa Elisabeth Badinter, publicou O Conflito: a mulher e a mãe. Hoje, as mulheres têm melhores condições socioeconómicas, podem escolher, e, pelo menos na Europa, uma em quatro mulheres não parece estar interessada em ter filhos, afirma a socióloga inglesa Catherine Hakim, pesquisadora da London School of Economics.

in: Revista Scientific American, Filhos? Não, Obrigado, Ano XIX, Nº 231, p. 37.

06 maio 2013

Pedro Tamen | Dentro de Momentos


Ao lado da manhã nasceu outra manhã
Onde o teu pé, só por tocar o chão,
Imobiliza o tempo.

Aquele que não ama nem odeia,
Por não ferver, azeda como o leite.


(Texto) in: Dentro de Momentos, de Pedro Tamen, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, pp. 20 e 29.
(Imagem) Colagens, de Fernando de Azevedo, in: Exposição - Razões Imprevistas, Centro de Arte Moderna,  Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Maio, 2013

30 abril 2013

A Face Oculta dentro de si mesmo | Dois "eus" encaixados



Apelos da Natureza e Viagens do corpo e da alma.

Assim é o Amor: capaz de encantar, desnortear, entusiasmar, enlouquecer, enlevar, fascinar, fazer viver, adoecer e morrer. Transforma a pessoa comum em poeta, a rotina em ocasião especial, pequenos gestos se tornam imensos, faz o coração bater, amplia horizontes ou estreita na cegueira do fanatismo. O facto é que não há quem escape das alegrias e dos males de amor. E, à felicidade extrema decorrente de sua concretização, opõe-se o enorme sofrimento quando o amor vem acompanhado de um obstáculo que impeça a sua realização. A dor da separação é descrita, por exemplo, por São João da Cruz, em seu Cântico espiritual, poema pertencente ao livro A noite escura da alma. Angústia, agonia, depressão, sofrimento, abandono, desespero, solidão são algumas das emoções das quais padecem aqueles que conhecem a travessia nocturna pelo mar, a descida aos abismos profundos do ser, onde a escuridão habita dia e noite.

[Texto] in: Jung e o Amor, por Maria Helena R. Mandacarú Guerra, in: Revista Mente e Cérebro, Nº 230, p. 47.
[Imagem] Cartaz, Kasbah marroquina, Rosa's do deserto, uma Pinha e uma Folha, in: Exposição - A Face Oculta, ESTGP, Abril de 2013.

29 abril 2013

Carl Gustav Jung | O Amor


Jung e o Amor
O psiquiatra Carl Jung (1875 - 1961) foi um homem erudito, cientista, estudioso, pesquisador, intelectual criativo. Com grande capacidade para apreender profundamente o psiquismo, partindo das suas experiências e das dos seus pacientes, propôs um modelo de funcionamento mental. Durante alguns anos aproximou-se muito de Sigmund Freud, criador da psicanálise, e manteve com ele correspondência assídua e contactos frequentes, até que os dois protagonizaram uma ruptura que durou até ao fim da vida.
Autor de uma obra vastíssima, são dele, por exemplo, alguns conceitos, como inconsciente colectivo, arquétipo, Self, anima, animus, complexo, sombra e sincronicidade.
Jung desenvolveu também uma tipologia psicológica, concebendo quatro funções da consciência (pensamento, sentimento, intuição e sensação) e duas atitudes (introversão e extroversão), que combinadas duas a duas formam oito tipos. (…) Assim, na medida em que nos aprofundamos no caminho do auto conhecimento, abrimos espaço também para nos percebermos iguais a todas as outras pessoas. Vivemos, portanto, algo paradoxal: sermos iguais e, ao mesmo tempo, absolutamente únicos.
Aqueles que trilham esse caminho sabem que raramente o percurso ocorre sem tensão ou conflito. E não foi diferente com Jung.

As Duas Mulheres
Para ele o Amor ocupava um lugar fundamental. Aos 84 anos, em entrevista aMiguel Serrano, intelectual chileno que viveu na Índia como embaixador de seu país, Jung afirmou: "Nada é possível sem amor, uma vez que somente a pessoa apaixonada põe em jogo toda a sua personalidade e arrisca até mesmo a vida. O amor é a flor mística da alma, o centro, é o si-mesmo. Ninguém entende isso, a não ser alguns poetas, somente eles me compreenderão…"
A fidelidade a seu processo de individuação, o respeito ao que acreditava e à sua essência deram a Jung coragem para viver algo completamente repudiado e fora da tradição religiosa e social do Ocidente: a bigamia. Ele introduziu Toni Wolf em sua vida pessoal e profissional, ao lado de Emma, fazendo questão que ela fosse respeitada como sua segunda mulher. Emma e Toni trabalharam como analistas junguianas, recebendo pacientes e convivendo socialmente.
Jung encontrou nelas companheiras de existência, mantendo os dois relacionamentos até ao fim. E sobreviveu a ambas.

in: Scientific American, in: Revista Mente e Cérebro, Ano XIX, Nº 230, p. 49.

16 abril 2013

Michel Onfray | A Potência de Existir


1.
Sem necessidade de ser justo, o terror oferece, por si só, uma forma de governação: " para que nos obedeçam, temos que ser receados", este era o pensamento que estava em vigor em França antes de Maio de 68. [p. 33]

2. 
O filósofo é filósofo vinte e quatro horas por dia, mesmo quando faz a lista da lavandaria antes de retomar o argumento habitual… Platão é filósofo quando escreve contra o hedonismo no Filebo, mas também quando o vendedor ascético morre durante um banquete; tanto na redacção do seu Parménides como no seu desejo de queimar as obras de Demócrito; na sua fundação da Academia e no seu passado enquanto autor dramático e lutador; ele é filósofo quando publica A Republica e As Leis, assim como quando vive como cortesão junto de Dionísio de Siracusa; etc. Um e outro, um é o outro. Decorre disto a necessidade de uma íntima relação entre teoria e prática, entre reflexão e vida, entre pensamento e acção. A biografia de um filósofo não se reduz somente ao comentário das suas obras publicadas, ela abrange a natureza do vínculo entre os seus escritos e os seus comportamentos. Só se pode chamar obra ao conjunto. O filósofo deve mais do que ninguém, manter unidos esses dois tempos tão amiúde colocados em oposição.
A vida alimenta a obra que, por sua vez, alimenta a vida: Montaigne foi quem primeiro o descobriu e demonstrou; ele sabia que, quando se faz um livro, tornamo-lo tanto mais notável quanto ele por sua vez nos constitui. [p. 73]

3. 
O conjunto converge num ponto focal: o hedonismo. 
Sugiro amiúde esta máxima de Chamfort, por ela funcionar como imperativo categórico hedonista: desfruta e faz desfrutar, sem fazeres mal a ti ou a alguém: eis toda a moral.
Está tudo dito nesta máxima: fruição de si, é certo, mas também e sobretudo fruição de outrem, porque sem ela nenhuma ética é possível ou pensável, pois só o estatuto do outro a define como tal. [p. 77.]

in: Michel Onfray, A Potência de Existir, Editora Campo da Comunicação, 2009

03 abril 2013

Graça Morais | A Terra



A artista Graça Morais nasceu em 1948, em Vieiro, Trás-os-Montes,
 e local onde vive actualmente.
As suas produções são "impregnadas de uma matriz expressionista".
Graça Morais pinta por ciclos, cada um deles surgidos por impulsos contraditórios, por receios e audácia, num nervosismo que tolda o próprio deslumbramento sentido perante alguns comportamentos humanos.
A sua arte intuitiva assimila o que o corpo conhece, sofre, luta.
A sua experiência pessoal. A da sua mãe.
Os temas da sua obra: os ciclos da vida das mulheres, a terra, os rostos, os corpos, bem como a fragilidade do ser humano.