Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

10 junho 2026

Davam Grandes Passeios aos Domingos | José Régio (

 Chegada a casa, tia Vitória levou-a para o seu quarto. Abriu o imenso guarda-vestidos que, como o pesado baú, tinha sempre fechado, e pôs-se a tirar os preparos. Surgiu um velho e lindo vestido azul pálido, com preciosos raminhos cor de oiro - relíquia de qualquer bisavô. Guarnecido a franzidos duma larga fita de seda marfim antigo, levantava-se atrás em tufados e laços que as duas mulheres arranjaram como puderam. Mas tia Vitória saiu-se ainda com finos sapatinhos de cetim, que não ficavam mal a Rosa Maria, embora um bocadinho largos; meias a dizer; fitas para enastrar nos cabelos com flores de veludo; um leque de marfim; e até um lindo colar (fossem, ou não valiosas as pedras) que tirou do célebre baú (…)

Sentada ao piano, hesitou uns momentos. Que tocaria? (…)

Rosa Maria não podia falar. Enfim!, chegara o grande momento. Bem sabia ela que seria essa noite. (…) A presença de Fernando parecia-lhe um milagre; ao mesmo tempo lhe parecia coisa natural, esperada, pois de qualquer modo o seu encontro houvera de se dar essa noite. Não tinham de ficar sós no mundo, um perante o outro, ele e ela, para finalmente abrirem o coração? (…)

Rosa Maria estava imóvel e branca como um mármore. (…) A capa caíra-lhe dos ombros. O decote ousado, que a rosa de renda já não encobria, clareava na meia sombra. Via-se-lhe o princípio dos seios torneados e alvos, soerguidos pelo justilho bordado. Mas ela nem pensava em se resguardar; não obstante estar ali sozinha, de noite, no jardim (…)

Achando-se mal, recolhera à cama quando flamejava a festa no seu auge. (…)

Rosa Maria esteve doente cerca de um mês. (…) Rosa Maria quem agora possuía o sistema nervoso mais agudo e mais interessante! (…) Emagrecera e envelhecera que parecia outra. Só um poeta a poderia achar ainda bonita. Um poeta romântico - talvez ainda mais bonita! Embora devesse às vezes estranhar-se uma expressão dura e fria, que dantes não era sua …

O seu amor por Fernando esfarrapara-se como um fumo. Via agora que só fora uma ilusão. Nunca ele, afinal, sonhara em casar com ela, nunca gostara dela a sério, - todo o seu íntimo e profundo entendimento não passara dum sonho que ela erguera com a sua imaginação romanesca e as mais fantasiosas interpretações de movimentos naturalíssimos! (…)

Assim, no abismo dessas longas noites de doença e tristeza, se preparava a sua cura. (…)


in: Davam Grandes Passeios aos Domingos, de José Régio, Editores Associados, Lisboa, 1968

09 junho 2026

Elogio da Sombra | Junichirō Tanizaki

Não há local mais adequado que as retretes de estilo japonês, onde podemos, abrigados por paredes muito simples, de superfície limpa, contemplar o azul do céu e o verde das folhagens. (…) sempre que me encontro num sítio assim agrada-me ouvir cair a chuva (…) Na verdade estes locais convêm ao canto dos insectos, ao gorjeio dos pássaros, também às voltas de luar, é o sítio mais adequado para saborear a pungente melancolia das coisas em cada uma das quatro estações, e os antigos poetas de Haiku conseguiram encontrar aí inúmeros temas (…) os nossos antepassados que poetizavam todas as coisas (…) e numa estreita associação com a natureza. (…) para citar Saito Ryokuu, «o requinte é a coisa fria» (…)

Veja-se, por exemplo, o nosso cinema: difere tanto do americano, como do francês ou do alemão pelos jogos de sombra, pelo valor dos contrastes. (…) A originalidade do génio nacional revela-se já na mais simples fotografia. (…) E se nós mesmos tivéssemos inventado a fotografia ou a rádio, é possível que fossem concebidos de modo a valorizar as qualidades próprias da nossa voz e da nossa música (…) Na arte da oratória, evitamos gritarias, cultivamos a elipse, e sobretudo atribuímos uma extrema importância às pausas (…) 

O papel é, segundo dizem, uma invenção dos chineses (…) os nossos papéis dobram-se e amachucam-se sem barulho. O contato é suave e ligeiramente húmido, como o de uma folha de árvore. 

Tal é, de facto, o resultado da silenciosa harmonia entre a luminosidade das velas tremeluzindo na sombra e o reflexo dos lacados. (…) 

Não há muito, o mestre Sõseki exaltava, no seu Kusamakura, as cores dos yokan e, num certo sentido, estas cores não nos conduzem também à meditação? A sua superfície turva, semitranslúcida como um jade, a impressão que dão de absorverem a luz do sol até à massa, de encerrar uma claridade indecisa como um sonho, a profunda concordância dos matizes, a sua complexidade, não se podem encontrar em nenhum bolo ocidental. (…) tornar-se-á mais propício à contemplação (…) 

Mas onde está, então a chave do mistério? Muito bem, vou trair o segredo: vendo bem, é apenas a magia da sombra; expulsem essa sombra que se forma em todos os recantos e o todo no ma regressará imediatamente à sua realidade banal de espaço vazio e nu. Porque foi aí que os nossos antepassados se mostraram geniais: souberam conferir ao universo de sombra deliberadamente criada, delimitando um espaço rigorosamente vazio, uma quantidade estética superior à de qualquer fresco ou decoração. Aparentemente, trata-se apenas de um puro artifício, mas de facto as coisas são muito menos simples que isso. (…)

A minha mãe era muito pequenina, cinco pés apenas, mas não era a única, porque era essa a estatura habitual das mulheres daquele tempo. (…)


in: Elogio da Sombra, de Junichirō Tanizaki, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2016