Não há local mais adequado que as retretes de estilo japonês, onde podemos, abrigados por paredes muito simples, de superfície limpa, contemplar o azul do céu e o verde das folhagens. (…) sempre que me encontro num sítio assim agrada-me ouvir cair a chuva (…) Na verdade estes locais convêm ao canto dos insectos, ao gorjeio dos pássaros, também às voltas de luar, é o sítio mais adequado para saborear a pungente melancolia das coisas em cada uma das quatro estações, e os antigos poetas de Haiku conseguiram encontrar aí inúmeros temas (…) os nossos antepassados que poetizavam todas as coisas (…) e numa estreita associação com a natureza. (…) para citar Saito Ryokuu, «o requinte é a coisa fria» (…)
Veja-se, por exemplo, o nosso cinema: difere tanto do americano, como do francês ou do alemão pelos jogos de sombra, pelo valor dos contrastes. (…) A originalidade do génio nacional revela-se já na mais simples fotografia. (…) E se nós mesmos tivéssemos inventado a fotografia ou a rádio, é possível que fossem concebidos de modo a valorizar as qualidades próprias da nossa voz e da nossa música (…) Na arte da oratória, evitamos gritarias, cultivamos a elipse, e sobretudo atribuímos uma extrema importância às pausas (…)
O papel é, segundo dizem, uma invenção dos chineses (…) os nossos papéis dobram-se e amachucam-se sem barulho. O contato é suave e ligeiramente húmido, como o de uma folha de árvore.
Tal é, de facto, o resultado da silenciosa harmonia entre a luminosidade das velas tremeluzindo na sombra e o reflexo dos lacados. (…)
Não há muito, o mestre Sõseki exaltava, no seu Kusamakura, as cores dos yokan e, num certo sentido, estas cores não nos conduzem também à meditação? A sua superfície turva, semitranslúcida como um jade, a impressão que dão de absorverem a luz do sol até à massa, de encerrar uma claridade indecisa como um sonho, a profunda concordância dos matizes, a sua complexidade, não se podem encontrar em nenhum bolo ocidental. (…) tornar-se-á mais propício à contemplação (…)
Mas onde está, então a chave do mistério? Muito bem, vou trair o segredo: vendo bem, é apenas a magia da sombra; expulsem essa sombra que se forma em todos os recantos e o todo no ma regressará imediatamente à sua realidade banal de espaço vazio e nu. Porque foi aí que os nossos antepassados se mostraram geniais: souberam conferir ao universo de sombra deliberadamente criada, delimitando um espaço rigorosamente vazio, uma quantidade estética superior à de qualquer fresco ou decoração. Aparentemente, trata-se apenas de um puro artifício, mas de facto as coisas são muito menos simples que isso. (…)
A minha mãe era muito pequenina, cinco pés apenas, mas não era a única, porque era essa a estatura habitual das mulheres daquele tempo. (…)
in: Elogio da Sombra, de Junichirō Tanizaki, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2016