Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

12 outubro 2026

Estar na Lua a Olhar para a Terra | Exposição de Ana Gaspar

    

Esta exposição visa mostrar um processo de trabalho que tem sido desenvolvido a partir de diversos âmbitos de criação e de produção artística. A partir dos quais se revelou um olhar afastado da Terra em direcção ao seu satélite, a Lua. Deste modo a criação revelou-se pela contemplação deste satélite e da sua inspiração e influência no processo artístico e criativo. Após um desenvolvimento conceptual deste olhar foram criados um conjunto de esboços e de intenções de um modo de revelar este lado introspectivo e expressivo numa componente da arte conceptual e na arte contemporânea. 

Trata-se de uma mostra deste resultado conceptual. A escolha do local de exposição foi determinante para um contexto em particular, cujo objectivo seria re-criar um espaço que potenciasse “Ser uma Cápsula do Tempo e no Espaço”. Deste modo e neste enquadramento foi possível acolher esta exposição de pequena escala, mas de elevada percepção visual. 

Neste enquadramento também as cores eleitas contêm em si mesmas um significado associado.






in: Estar na Lua a Olhar para a Terra, de Ana Paula Gaspar, Campus Politécnico de Portalegre, 7 Outubro a 7 Novembro 2026

04 agosto 2026

Da Amizade | Michel de Montaigne

 Escolheu primeiro o lugar mais belo, no centro de cada parede, para aí pintar um motivo com toda a destreza de que era capaz; depois preencheu os espaços vazios em redor com arabescos, pinturas de pura fantasia, que apenas agradam pela sua variedade (…)

É de facto verdade que a amizade representa, na sociedade, o mais alto grau de perfeição. (…)

Nas relações dos filhos com os pais, é antes o respeito que predomina. A amizade requer um contínuo intercâmbio de pensamentos, o qual não pode reinar entre eles (…) Mais ainda, os filhos não podem dar conselhos nem repreender os pais, o que é uma das primeiras obrigações da amizade. (…)

O calor da amizade estende-se a todo o nosso ser: é universal, mas temperado e sempre igual; é um calor constante, soberanamente doce e delicado, que nada tem de áspero nem de excessivo. O amor é, sobretudo um desejo violento daquilo que nos foge (…)

O amor enfraquece e cai em languidez; a fruição extingue-o, porque o seu fim é carnal e a sociedade o apazigua. A amizade, ao revés, acentua-se com o desejo que dela se tem; eleva-se, desenvolve-se e cresce com a fruição, porque é de essência espiritual, e o uso refina a alma. (…) 

Já quando se trata da amizade, nada de alheio intervém - não está em causa, senão ela. Somente. (…)

Que sob influência dessa beleza espiritual que o amado descobria no amante, nascesse nele o desejo de participar dessa superioridade intelectual e moral, sem atender, no companheiro, à beleza do corpo - coisa nele acidental e inteiramente secundária (…)

Exercendo por vezes influência decisiva na defesa da justiça e da liberdade (…)

Procurávamo-nos antes mesmo de nos havermos visto (…) creio sinceramente que nisso houve o efeito de algum decreto da Providência. Sem nos conhecermos os nossos nomes já nos eram caros. (…) Sentido-nos tão atraídos um pelo outro, tão conhecidos um do outro, tão ligados um ao outro, que desde então nada foi tão próximo como nós o fomos reciprocamente. (…)

As nossas almas caminhavam tão completamente unidas, estavam presas uma à outra por tão ardente afeição - dessa afeição que penetra e lê até ao mais íntimo de nós mesmos - que não só eu conhecia a dele como a minha própria, quanto nele do que em mim próprio. (…)


in: Da Amizade, de Michel de Montaigne, Penguim Clássicos, Lisboa, 2026 

10 junho 2026

Davam Grandes Passeios aos Domingos | José Régio

 Chegada a casa, tia Vitória levou-a para o seu quarto. Abriu o imenso guarda-vestidos que, como o pesado baú, tinha sempre fechado, e pôs-se a tirar os preparos. Surgiu um velho e lindo vestido azul pálido, com preciosos raminhos cor de oiro - relíquia de qualquer bisavô. Guarnecido a franzidos duma larga fita de seda marfim antigo, levantava-se atrás em tufados e laços que as duas mulheres arranjaram como puderam. Mas tia Vitória saiu-se ainda com finos sapatinhos de cetim, que não ficavam mal a Rosa Maria, embora um bocadinho largos; meias a dizer; fitas para enastrar nos cabelos com flores de veludo; um leque de marfim; e até um lindo colar (fossem, ou não valiosas as pedras) que tirou do célebre baú (…)

Sentada ao piano, hesitou uns momentos. Que tocaria? (…)

Rosa Maria não podia falar. Enfim!, chegara o grande momento. Bem sabia ela que seria essa noite. (…) A presença de Fernando parecia-lhe um milagre; ao mesmo tempo lhe parecia coisa natural, esperada, pois de qualquer modo o seu encontro houvera de se dar essa noite. Não tinham de ficar sós no mundo, um perante o outro, ele e ela, para finalmente abrirem o coração? (…)

Rosa Maria estava imóvel e branca como um mármore. (…) A capa caíra-lhe dos ombros. O decote ousado, que a rosa de renda já não encobria, clareava na meia sombra. Via-se-lhe o princípio dos seios torneados e alvos, soerguidos pelo justilho bordado. Mas ela nem pensava em se resguardar; não obstante estar ali sozinha, de noite, no jardim (…)

Achando-se mal, recolhera à cama quando flamejava a festa no seu auge. (…)

Rosa Maria esteve doente cerca de um mês. (…) Rosa Maria quem agora possuía o sistema nervoso mais agudo e mais interessante! (…) Emagrecera e envelhecera que parecia outra. Só um poeta a poderia achar ainda bonita. Um poeta romântico - talvez ainda mais bonita! Embora devesse às vezes estranhar-se uma expressão dura e fria, que dantes não era sua …

O seu amor por Fernando esfarrapara-se como um fumo. Via agora que só fora uma ilusão. Nunca ele, afinal, sonhara em casar com ela, nunca gostara dela a sério, - todo o seu íntimo e profundo entendimento não passara dum sonho que ela erguera com a sua imaginação romanesca e as mais fantasiosas interpretações de movimentos naturalíssimos! (…)

Assim, no abismo dessas longas noites de doença e tristeza, se preparava a sua cura. (…)


in: Davam Grandes Passeios aos Domingos, de José Régio, Editores Associados, Lisboa, 1968

09 junho 2026

Elogio da Sombra | Junichirō Tanizaki

Não há local mais adequado que as retretes de estilo japonês, onde podemos, abrigados por paredes muito simples, de superfície limpa, contemplar o azul do céu e o verde das folhagens. (…) sempre que me encontro num sítio assim agrada-me ouvir cair a chuva (…) Na verdade estes locais convêm ao canto dos insectos, ao gorjeio dos pássaros, também às voltas de luar, é o sítio mais adequado para saborear a pungente melancolia das coisas em cada uma das quatro estações, e os antigos poetas de Haiku conseguiram encontrar aí inúmeros temas (…) os nossos antepassados que poetizavam todas as coisas (…) e numa estreita associação com a natureza. (…) para citar Saito Ryokuu, «o requinte é a coisa fria» (…)

Veja-se, por exemplo, o nosso cinema: difere tanto do americano, como do francês ou do alemão pelos jogos de sombra, pelo valor dos contrastes. (…) A originalidade do génio nacional revela-se já na mais simples fotografia. (…) E se nós mesmos tivéssemos inventado a fotografia ou a rádio, é possível que fossem concebidos de modo a valorizar as qualidades próprias da nossa voz e da nossa música (…) Na arte da oratória, evitamos gritarias, cultivamos a elipse, e sobretudo atribuímos uma extrema importância às pausas (…) 

O papel é, segundo dizem, uma invenção dos chineses (…) os nossos papéis dobram-se e amachucam-se sem barulho. O contato é suave e ligeiramente húmido, como o de uma folha de árvore. 

Tal é, de facto, o resultado da silenciosa harmonia entre a luminosidade das velas tremeluzindo na sombra e o reflexo dos lacados. (…) 

Não há muito, o mestre Sõseki exaltava, no seu Kusamakura, as cores dos yokan e, num certo sentido, estas cores não nos conduzem também à meditação? A sua superfície turva, semitranslúcida como um jade, a impressão que dão de absorverem a luz do sol até à massa, de encerrar uma claridade indecisa como um sonho, a profunda concordância dos matizes, a sua complexidade, não se podem encontrar em nenhum bolo ocidental. (…) tornar-se-á mais propício à contemplação (…) 

Mas onde está, então a chave do mistério? Muito bem, vou trair o segredo: vendo bem, é apenas a magia da sombra; expulsem essa sombra que se forma em todos os recantos e o todo no ma regressará imediatamente à sua realidade banal de espaço vazio e nu. Porque foi aí que os nossos antepassados se mostraram geniais: souberam conferir ao universo de sombra deliberadamente criada, delimitando um espaço rigorosamente vazio, uma quantidade estética superior à de qualquer fresco ou decoração. Aparentemente, trata-se apenas de um puro artifício, mas de facto as coisas são muito menos simples que isso. (…)

A minha mãe era muito pequenina, cinco pés apenas, mas não era a única, porque era essa a estatura habitual das mulheres daquele tempo. (…)


in: Elogio da Sombra, de Junichirō Tanizaki, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2016

13 maio 2026

Antígona | Sófocles

 CORO - Eros, invencível no combate, que te enfureces, como uma manada de reses; que passas a noite no rosto macio de uma donzela e frequentas, quando não estás no mar, as rústicas cabanas: ninguém te pode fugir, nem os próprios deuses imortais, e muito menos os homens, enquanto vivos; mas o teu domínio pode levar à loucura. Tu, que transformas os justos em injustos; tu, que, entre os homens do mesmo sangue, promoves a discórdia, como agora, destruindo o encanto que brilha nos olhos da noiva já destinada ao leito conjugal; tu, associado às leis sagradas que regem o mundo, vais fazendo, sem luta, o jogo da divina Afrodite. (…)

MENSAGEIRO - E nós, cumprindo o que o nosso desalento chefe nos ordenava, olhámos para o interior da caverna e vimo-la, a ela, pendurada pelo pescoço, estrangulada por um laço feito com o seu fino véu; enquanto ele, a seu lado, abraçando-a pela cintura, chorava, não só a perda da noiva, agora morta, mas também o crime do pai e o desgraçado amor. Quando Creonte o vê, são dilacerantes as suas queixas. Vai junto do filho e chama-o, com dolorosos lamentos: «Que fizeste, infeliz? Que pretendes agora? Que desgraça te privou da razão? Sai daí, meu filho! Rogo-te, suplico-te.» Hémon olha-o, então, de cima a baixo, cospe-lhe no rosto; e, sem nada responder, tira da bainha a espada de dois gumes. O pai, de um salto, evita o golpe. Falhando, o desgraçado volta-se, iroso, contra si próprio: inclina-se sobre a espada, fazendo que ela se enterre no corpo, até meio. Consciente ainda, mas já sem força nos braços, enlaça a jovem e, sobre a branca face dela, lança uma golfada de sangue. Ali ficaram, cadáver ao lado de cadáver, celebrando, finalmente, a boda - mas no Hades. Isto é uma lição para os mortais; para que vejam até que ponto o pior mal dos homens é a irreflexão. (…)

      

in: Antígona, Ájax . Rei Édipo, de Sófocles, Editorial Verbo, Lisboa, s.d.

11 maio 2026

Exposição | Ana Gaspar

 



in: A Poesia Visual no Processo Criativo, de Ana Gaspar, Campus Politécnico de Portalegre, 16 Abril a 11 Junho 2026

10 maio 2026

A Inteligência Natural | António Damásio

As imagens mentais mais comuns são padrões de luz e cor que representam outros seres vivos e aquilo que eles fazem, bem como os objectos e as ações - ou parte de objetos e de ações - que compõem o mundo que nos rodeia. (…)

Temos de poder sentir de modo a que possamos ser conscientes. (…)

A consciência é responsável pela capacidade de experienciar uma mente individual que trabalha no interior de um organismo vivo; e pela capacidade de o indivíduo experienciar o sofrimento ou o prazer do estado atual do seu processo de vida. (…)

Nesse contexto, a definição mais lata que tenho para oferecer afirma que a consciência é um processo biológico que permite que os organismos equipados com um sistema nervoso descubram a sua existência e a existência de um universo que os rodeia. (…)

Estas reflexões podem surgir numa montagem fílmica sem palavras, numa narrativa verbal e teatral, ou numa mistura das duas, dependendo do que mais se adeque ao estado mental e às necessidades do momento. (…)

Ou seja, os sentimentos homeostáticos situam o processo mental em curso e explicam como fazem parte do interior de um organismo/corpo específico, um gesto essencial que identifica o processo de vida como sendo consciente. (…) Os sentimentos constituem um desenvolvimento biológico monumental. (…)

Ou seja, os sentimentos apresentam, continuamente, no vasto anfiteatro da mente uma avaliação da vida. As mensagens dos sentimentos não assumem uma forma verbal ou numérica. Surgem, isso sim, na forma de afectos e usam as escalas da qualidade e da intensidade para transmitir as suas avaliações. (…)

Um recente atlas de alta definição do tipo de células presentes no cérebro mostra-nos claramente que quando se compara a população de neurónios responsáveis pela cognição com a população de neurónios responsáveis pela regulação da vida, encontramos uma maior variedade de tipos de neurónios e uma maior complexidade organizacional do lado da regulação de vida/interoceção!

A ironia consiste no facto de a componente da linguagem ser, ela própria, parcialmente imagética. Assim é, porque as palavras que nos enriquecem os processos mentais têm uma base imagética que pode ser expressa na forma de padrões auditivos, visuais ou somatossensoriais. Quer façamos uso de imagens básicas ou de traduções linguísticas dessas imagens, a nossa mente depende de imagens para construir o pensamento. (…)

Pensemos nos sentimentos acompanhantes como sendo o coro que comenta as ações representadas nos temas principais. (…)

Logo, aquilo que sentimos dentro de nós e aquilo que percepcionamos a partir do que nos rodeia e do nosso pensamento são experienciados por uma entidade integrada e única. Essa entidade é a afortunada proprietária de um certo corpo vivo e do seu servo, em grande medida fiel embora cheio de opiniões: o sistema nervoso. (…)

Os sentimentos são irresistíveis. O segredo do seu poder reside na sua fisiologia particular. Os sentimentos não enviam mensagens em código Morse; eles agitam-nos a carne e perturbam-nos a mente até que satisfaçam pedidos ou acatemos conselhos. Ou seja, quer nos recomendem ou incitem, seduzam ou exijam, os sentimentos levam-nos a «responder», e «as respostas» têm que ver com a vida, especificamente, com a manutenção da vida, do modo mais eficaz possível. Seguir as recomendações dos sentimentos ou obedecer às suas ordens ajuda-nos a viver. (…)

A eficácia está na sua natureza porque, em vez de empregarem uma qualquer linguagem abstrusa para comunicarem os seus conhecimentos, os sentimentos exibem qualidades afetivas, expressas por alterações reais no corpo que revelam estados da vida. Os                                                                                                                                                                                   sentimentos não são cartões de visita delicados. Dependendo da situação específica, as sugestões ou pedidos dos sentimentos podem transformar-se em ordens, apresentadas de forma tão veemente que não podem ser desobedecidas e, muito menos, ignoradas. (…)

Os sentimentos homeostáticos são conscientes desde a sua origem, estando intimamente ligados à vida do organismo onde se manifestam, decididos a serem os salvadores do momento. Podem ser pregadores bem-intencionados ou demónios tentadores prestes a saborear o triunfo da sua sedução. (…)

O cérebro cria padrões imagéticos a partir de fontes físicas como a visão, a audição e o tato. Esses padrões imagéticos resultam do mapeamento físico de sinais sensoriais físicos, recebidos, processados e representados no equivalente a telas tecidas com neurónios igualmente físicos. (…) Como por exemplo, os fotões que animam as células retinais dão início a uma cadeia de acontecimentos bioquímicos que se prolonga por várias estações neurais das vias visuais do cérebro e desembocam em mapas neuronais, organizados topograficamente, nos córtices visuais da região occipital. (…)

Quem imaginaria que o afeto, em geral, e os sentimentos, em particular, fabricados por obra e graça da Inteligência Natural como meio de manter a vida em criaturas simples, se tornariam, na longa trajetória do tempo, os elementos definidores da existência humana, os provedores de alegrias e tristezas, de glórias e tragédias, de valores elevados e mesquinhos, nada mais, nada menos do que o profundo alicerce da humanidade que habitamos e observamos?


in: A Inteligência Natural, a Lógica da Consciência, de António Damásio, Edição: Temas & Debates, Lisboa, Nov. 2025