Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

21 fevereiro 2026

A Paixão | Almeida Faria

Piedade

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e entregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os ossos da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima - deve ser reumático - mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface, ou então ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera (…)

Moisés 

Lençol não existe na cama de Moisés; tão-só o cobertor castanho já sem pelo, puído de sebo e de velhice; Moisés acorda muitas vezes de noite; é noite alta com estrelas, uma lua distante, no círculo de luz sobre as veredas secas; lua translúcida alaranjada por trás da qual as nuvens se esfarrapam, num céu de quieto mar, liso, límpido, raso; a terra charruada tem um tom escuro escavado, enquanto a noite ocupa as celestes esferas; ao fundo da quinta de verde sombrio passam as carroças ecoando, estalando na areia que o vento transportou e pés desertos, grossos, às horas gastas, pisam; o milho cresceu e voltou a crescer, as espigas apontam seus espetados dedos, as folhas como espadas batem de encontro ao vento; o vento percorre o respirar da vila, as muralhas, as torres e a ponte; Moisés pensa e diz, deitado, com um gesto de mão lento no ar, que da padreação do vento sobre a vila nasceram os negros corredores da noite (…) Moisés não pensa nos bacorinhos sem se comover; praticamente sempre os olhos enevoados; limpa-os, e às ramelas, com as costas da mão; mãos gretadas, rudes, dedos papudos, angulados para cima, longos até às unhas cortadas muito rentes, a direito, negras em espátula; puxa com as mãos o cobertor para o peito, para as barbas e o pescoço engelhado; sem ser capaz de dormir, olha a noite lá fora (…) não me esqueço do mar; é como um espelho ou a eternidade; brilha, reflete, fere e encadeia (…)

Francisco 

E contudo aquele meu avô, que morreu de súbito sem agonia quase, vivia desde à muito aguardando o momento de esticar; tinha o caixão já feito sob a cama, pinho negro e rijo, forrado de vermelho, em que todos os anos, na noite de ano novo, se metia, metódico, a ver se estava bom (…) entretanto vou ver como vão os trabalhos (desce à garagem, mete-se no jipe, sai; há um silvo ao longe, quente, nos fios dos postes telegráficos paralelos à estrada; ontem os homens colheram os feijões, lavraram, passaram com a grade longamente por cima, não sentados, como antigamente, mas de pé sobre a grade, depois a pouco e pouco, com novo entusiasmo, traçaram regos e canteiros, tabuleiros de terra, obras de arte, como um grande jardim, deitaram logo as couves e alfaces, enterraram raízes uma a uma, em seguida regaram, regá-las-ão a punho assim dias a fio, por sóis e luas e sóis inumeráveis, por chuvas e por ventos, por calores e febres, por calmas tempestades, enfim hão de colhê-las, recolhê-las, desbastar a terra dos seus frutos, para que produza mais (…) velhos servos da terra (…)

Tiago

De inverno assentava-se nos cômoros da quinta, ao pé da pluvial alcórcova rumorosa e lavada, sob o caramanchão que de chuva pingava, ali ficava horas, de cócoras, formando, paciente, figurinhas de barro, cães, mulheres, cavaleiros, automóveis; amassava a terra com força numa bola, águalmagre corria esguichando pelos dedos, o cu das calças era, em breve, uma pasta de lama; a chuva encharcava-lhe os cabelos, fazia-o tiritar, mas dali não saía nem por nada; estas rudes esculturas térreas estavam ligadas à chuva como as heras às árvores (heras cresciam pelas paredes da casa numa força dispersa, em ramos isolados unidos pela base (…) fabricava as figuras cheio de pressa, para que durassem o tempo da chuva miúda, que as desfazia em breve (…) um pouco o menino doente sem sofrer de nenhuma doença, era o benjamim, o filho mais novo, aquele a quem os deuses dão sempre qualquer coisa, um sorriso, um olhar, uma cor dos cabelos, uma estranha mania que os pais, já não novos (…) os pais amam com amor um tanto póstumo, cego de todo (todo o amor é cego, diz o povo, quem muito espreita não ama, quem muito ama não vê) e teimoso, amor não de pais mas de avós (…) era uma espécie de poeta desgraçado, a quem contudo os olhos insistem em sonhar.

 João Carlos

Estou sentado e estudo esta coisa certa e definitiva: o preço como elemento essencial da compra e venda (…) em solidão e difícil harmonia, para uma condição de estudo e de universidade; a universidade é um conjunto de edifícios novos, arrogantes, pretendendo-se belos (…) do céu escorre o sono e uma sede sem tréguas nem remédio, sede da noite e do sonho (primeiro Osíris, o sol, é derrotado pela noite, Set, porém a esposa-vaca-lua, Ísis, vem procurar, pálida e triste, o seu cadáver frio e enfim o filho, Hórus, sol-nascente, vinga-se e vence, nasce, vive, esplende e uma vez mais o astro magno impera) (…) mas perco-me no isolamento, perco-me no rio que corre em mim, o seu correr afoga-me, e no entanto é calmo e cavo o seu correr (…)

Moisés 

De volta da sua missa, o velho Moisés vem conversando, muito calmo, com o calvo sacristão da ermida, o seu melhor amigo, ainda mais velho que ele, pálido, claro, alvo, olhos contemplativos, talvez de, desde sempre, do cimo da ermida, olhar tanto para longe, para árvores e montes, para casas e coisas, paisagem azul-acinzentada e longa, ao longo das estações, inverno, verão, que passam como águias-reais sobre eiras e azinheiras e estradas a direito e verdes searas versas adivinhando o, por trás do horizonte dos outeiros, grande mar, olhar sem pressa os poentes distantes, ocultos numa névoa que é calor no verão, canícula, tremulina, trovoada de inverno, e no instante em que o sol se enche de sangue tocar no sino frágil umas ave-marias que o largo vento afasta, dispersa e logo apaga, alto e cortante senhor do mundo (…) a ermida é um silêncio do sol, tão próximo do céu como dos homens (…)

A mata de eucaliptos é um silêncio de mar ao meio do dia; meio-dia, hora branca, meio-dia para todos, almoço para quem no tem; o deus do caos não tem aqui lugar, no seio dos eucaliptos acenando do alto uma luz de presença e de rumor do sol (…)

(…) que aquece no calor da tarde em que uma força pega nos objetos desde a base e os faz girar, oníricos e lentos, em redor de mim e de si mesmos, iguais a sistema solar de que me sinto o centro (…)

(…) terra de pouco pão e sem mulher, sem água que lhe limpe o suor pela noite, junto ao calor do fogo, quando uma mulher está longe como um astro, uma estrela (…)

A árvore ainda, para terminar: ergue-se no quintal da casa, como um templo, um palácio; cresce; os ramos desenvolvem-se para cima, para os lados; depois de grandes, o peso tomba-os um pouco, lentamente, para baixo; floresce; nascem as folhas brilhantes e sedosas, frágeis, puras, informes, filiformes, iguais a raios; criam nervuras (…) o vento arranca as raízes e é então que tomba a árvore.


in: A Paixão, de Almeida Faria, Assírio & Alvim, (12ª edição), Porto, 2013

(Capa do livro: A Paixão, desenho de Mário Botas)

22 janeiro 2026

A Gratidão | Camilo Castelo Branco

Estávamos nos últimos dias de 1846. Uma camada muito espessa de neve cobria o solo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve não tardava a cair. Os ramos nus das árvores dos montes tremiam soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo num perfeito sossego, e tristeza; nem o mais leve murmúrio se ouvia. (…)

- Avozinha - continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos - se me abandona, que hei-de fazer? Quer que morra de paixão? 

- Morrer, tu, minha Rosinha- disse a cega levantando-se. - Oh! Meu Deus, não permitais tal. (…)

A avó, muito comovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o caminho de S. Cosme. (…)

D. Teresa de Sousa, e mais algumas vizinhas, que se tinham reunido para cirandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado todos os cuidados necessários para as reanimar, como o seu principal mal era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acomodá-las a um dos cantos do lar, em que ardia uma grande fogueira. (…)

D. Teresa comoveu-se tanto, com a singeleza e candura desta súplica, que duas lágrimas lhe brilharam nos olhos. (…)

Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Teresa, e a cega encheu-a de bênçãos. D. Teresa mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e quente, em que um sono reparador lhe reanimou as forças. (…)

Chegou a Primavera. Começaram a desabrochar com o tépido sopro desta estação e mostraram as suas galas a bela pervinca azul, o narciso de coroa de ouro, o lírio de campanas odoríferas e a bela violeta de cálices perfumados.  

Rosa quando ia à serra, era para ela um dia de alegria. Procurava os caminhos tapeados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado, as fontes escondidas pelas sarças, e as árvores, sob as quais tinha encontrado as mais lindas flores. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz na serra do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada diante das belezas da natureza, e cada sítio novo, que achava, era como se fosse um amigo. Quando o sossego voltava, depois desta alegria e animação, esta poética criança fazia cestinhos de vime e juncos, que guarnecia com musgo e flores silvestres, mas com gosto e beleza esquisito, os quais D. Teresa mandava vender, dando sempre bom preço. 

Ganharam renome os cestos de Rosa. (…) 

O inverno pareceu triste e monótono a Rosa. Tinha-se habituado de tal maneira a ir todas as manhãs para a serra (…) 

D. Teresa considerava Rosa como sua filha (…)


in: A Gratidão/O Arrependimento, de Camilo Castelo Branco, Book Cover Editora, 2025

05 dezembro 2025

A Metamorfose | Franz Kafka

Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto. Estava deitado de costas, umas costas tão duras como uma carapaça, e, ao levantar um pouco a cabeça, viu o seu ventre acastanhado, inchado e arredondado em anéis rígidos, sobre o qual o cobertor, quase a escorregar, dificilmente se mantinha. As suas numerosas patas, lamentavelmente raquíticas, comparadas com a sua corpulência, remexiam-se desesperadamente diante dos seus olhos. «O que me aconteceu?», pensou. Mas não era um sonho. O seu quarto, um verdadeiro quarto humano, apenas um pouco acanhado, ali estava, tranquilo, entre as quatro paredes que ele bem conhecia. (…)

Gregor - disse uma voz, que era a da mãe - é um quarto para as sete. Não tinhas de apanhar o comboio? (…) Gregor, abre a porta, anda. (…)

Era uma voz de animal. (…)

Será que isto significa que estou com menor sensibilidade? - Pensou, ao sugar avidamente o queijo (…)

Se ao menos conseguisse falar com a irmã e agradecer-lhe por tudo o que ela tinha sido obrigada a fazer por ele, estaria mais à vontade para aceitar os seus cuidados, mas nas condições em que se encontrava, isso fazia-o sofrer. (…)

Um dia - já tinha decorrido cerca de um mês desde a metamorfose de Gregor e a sua irmã já não deveria espantar-se ao vê-lo (…)

Queridos pais - disse a irmã, batendo com mão na mesa, à laia de início de conversa - isto não pode continuar assim. Talvez não estejam convencidos, mas eu sim. Não quero, em frente deste monstruoso animal, pronunciar o nome do meu irmão, unicamente afirmo: devemos desembaraçar-nos dele. Tentámos de tudo o que era humanamente possível para tomar conta dele e suportá-lo com paciência; creio que ninguém nos pode censurar seja do que for. - Ela tem toda a razão - disse o pai para si mesmo. A mãe, que não conseguia retomar uma respiração normal, levou a mão à boca e, revirando os olhos, tossiu surdamente. (…)

Mas Gregor, de modo algum, pensava em meter medo a quem quer que fosse, sobretudo à sua irmã. (…)

«E Agora?», perguntou para si mesmo Gregor, olhando em volta, na obscuridade. Bem depressa descobriu que não conseguia mover-se. Não ficou surpreendido com isso; ter conseguido até agora deslocar-se com aquelas patinhas raquíticas, isso é que era pouco natural. Entretanto, sentia um aparente bem estar, apesar de sentir dores um pouco por todo o corpo, mas tinha a impressão de que se tornaram gradualmente mais fracas e que acabariam por desaparecer. A maçã podre cravada no seu dorso e a parte inflamada à sua volta, sob uma camada de pó pegajosa, já não se faziam sentir. Voltou a pensar na sua família com ternura e amor. A ideia de que ele deveria desaparecer era mais firme nele, possivelmente, do que na sua irmã. Permaneceu naquele estado de sonho vago e apaziguador até ao momento em que as três horas da madrugada soaram no relógio. Ainda viu a claridade que alastrava diante da sua janela, lá fora. Depois, finalmente, sem nada poder fazer, a cabeça descaiu e deixou escapar debilmente um último sopro de vida. (…)


in: A Metamorfose, de Franz Kafka, Ed. Leya, Portugal, 2013

15 novembro 2025

Se Isto é Um Homem | Primo Levi

As suas mulheres foram ciosas e rápidas, de forma a terem tempo para o luto; e quando tudo ficou pronto, as fogaças cozidas, as trouxas atadas, então tiraram os sapatos, soltaram os cabelos, dispuseram no chão as velas fúnebres, acenderam-nas conforme o costume dos antepassados, sentaram-se no chão em círculos para a lamentação, e toda a noite rezaram e choraram. Muitos de nós parámos diante da sua porta, e nas nossas almas desceu, nova para nós, a dor antiga do povo que não tem terra, a dor sem esperança do êxodo renovado século após século. (…)

Toquei o fundo. A apagar o passado e o futuro aprende-se rapidamente, se a necessidade empurra. Passados quinze dias da chegada, já sofro da fome regulamentar, a fome crónica desconhecida dos homens livres, que provoca sonhos de noite e se espalha em todos os membros dos nossos corpos; já aprendi a não me deixar roubar, pelo contrário, se encontro alguma colher, um cordel, um botão que possa apanhar sem perigo de punição, ponho-os no bolso e passo a considerá-los meus de pleno direito. Já apareceram, na sola dos meus pés, as chagas que não saram. Empurro vagões, trabalho com a pá, canso-me à chuva, tremo ao vento; até o meu próprio corpo já não me pertence. (…)

Vamos morrer todos, estamos prestes a morrer; se me sobrarem dez minutos entre o acordar e o trabalho, quero dedicá-los a outras coisas, fechar-me em mim próprio, fazer o balanço, ou então olhar o céu e pensar que talvez esteja a vê-lo pela última vez; ou mesmo só deixar-me viver, conceder-me o luxo de um breve ócio. (…)

Que somos escravos, privados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, condenados quase com certeza à morte, mas que uma faculdade nos restou, e temos de a defender com todo o vigor porque é a última: a faculdade de negar o nosso consentimento. Temos portanto, sem dúvida de lavar a cara sem sabão na água suja, e limparmo-nos ao casaco. Temos de engraxar os sapatos, não porque a tal obriga o regulamento, mas por dignidade e por propriedade. Temos de caminhar direitos, sem arrastar as socas, certamente não em homenagem à disciplina prussiana, mas para nos mantermos vivos, para não começarmos a morrer. (…)

Os dias são todos iguais, e não é fácil contá-los. (…) Homens e mais homens, escravos e patrões, os patrões eles próprios escravos; uns empurrados pelo medo, os outros pelo ódio, todas as outras forças emudeceram. Todos são nossos inimigos ou nossos rivais. (…)

Não se deve sonhar: o momento de consciência que acompanha o acordar é o sofrimento mais intenso. Mas não nos acontece muitas vezes, e os sonhos não duram muito tempo: mais não somos do que animais cansados. (…)

A fama de sedutor, de «organizado», provoca, ao mesmo tempo, inveja, escárnio, desprezo e admiração. Quem deixa que o vejam, enquanto come qualquer coisa de «organizado» é julgado muito severamente; trata-se de uma falta grave de pudor e de diplomacia (…)

21. Janeiro. (…) Desejava apenas uma coisa: ficar na cama debaixo dos cobertores, abandonar-me ao cansaço total de músculos, nervos e vontade, esperar que acabasse, ou não, era a mesma coisa, como um morto. (…)


 in: Se Isto é um Homem, de Primo Levi, Coleção Mil Folhas, Porto, Maio 2002 (1ª Ed. 1958) 

Devaneios com Linhas | Exposição

 


in: Devaneios com Linhas, de Ana Gaspar, 2019, 2020 e 2021

28 outubro 2025

Alice no País das Maravilhas | Lewis Carroll

 «Era muito mais agradável em casa, quando não estava sempre a crescer e a encolher, nem a receber ordens de ratos e de coelhos» pensou a pobre Alice. «Quase me arrependo de ter descido pela toca do coelho… E, no entanto… no entanto… Este género de vida é muito interessante! O que me terá acontecido? Era isso que gostava de saber! Dantes, quando lia contos de fadas, julgava que aquelas histórias não aconteciam, e agora estou no meio de uma! Deviam escrever um livro acerca de mim - ah, isso é que deviam! Quando eu for grande hei-de escrevê-lo.» (…)

- Lamento não ser capaz de lhe explicar melhor - retorquiu Alice, com toda a delicadeza. - Para começar, porque nem eu entendo. E depois, porque é muito confuso ter vários tamanhos diferentes num só dia. (…)

- Mas oito centímetros é uma altura excelente! - ripostou a Lagarta, levantando-se (media exatamente sete centímetros e sessenta e dois milímetros). 

- Mas eu não estou habituada - defendeu-se a pobre Alice, numa voz chorosa. E para consigo: «Quem me dera que estes bichos não se ofendessem tão facilmente!» (…)

- Que género de pessoas moram aqui? 

- Naquela direção - disse o Gato, acenando a pata direita - vive o Chapeleiro. E naquela direção (acenou a outra pata) vive a Lebre de Março. Podes visitar quem tu quiseres: são ambos malucos.

- Mas eu não quero estar no meio de malucos - observou a Alice. 

- Oh, não podes evitá-lo. Aqui, somos todos malucos. Eu sou maluco. Tu és maluca.

- Como é que sabes que eu sou maluca? 

- Deves ser, ou não terias chegado até aqui. (…)

- Se conhecesses o Tempo tão bem como eu, não falarias assim - disse o Chapeleiro. - O Tempo é um senhor. (…) Ele não suporta que o marquem. Mas, se o tivesses tratado como deve ser, ele faria com o relógio quase tudo o que quisesses. (…)

- Bom, eu não tinha completado o primeiro verso - continuou o Chapeleiro - quando a Rainha deu um salto e berrou: «Ele está a matar o tempo! Cortem-lhe a cabeça!» 

- Que crueldade horrorosa! exclamou Alice.

- E desde aí, o relógio deixou de fazer o que lhe peço - concluiu o Chapeleiro, com tristeza. - Agora são sempre seis da tarde. (…)

- Juro que nunca mais hei-de voltar ali! - exclamou Alice, enquanto caminhava em direção à floresta. (…) Ainda mal acabara de dizer isso quando notou que uma das árvores tinha uma porta por onde se podia entrar. «Muito interessante», pensou. «Mas hoje é tudo interessante. Acho que vou já entrar.» E assim foi. (…) Então, atravessou aquela passagem estreita e viu-se, finalmente, no lindo jardim de flores viçosas e fontes refrescantes. (…)

Havia uma grande roseira à entrada do Jardim. Dava rosas brancas, mas três jardineiros estavam muito atarefados a pintá-las de vermelho. (…) 

Alice nunca vira um campo como aquele, todo aos altos e baixos. As bolas eram porco-espinhos vivos, os maços eram flamingos (também vivos) e os soldados tinham de se dobrar em semicírculo para formarem os arcos, apoiados nos pés e nas mãos.

- Assim é - concordou a Duquesa. - E a moral que devemos retirar daí é: «Oh, é o amor! É o amor que faz girar o mundo!» (…)

E a moral disso é: «Olha pelo significado, que o significado olha por si.» (…)


in: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, Editora Fábula, Lisboa, 2022

30 setembro 2025

Perto do Coração Selvagem | Clarice Lispector

 Mente-se e cai-se na verdade. (…) Ser livre era seguir-se afinal e eis de novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro de si. Perdido pois o gosto de imaginar. (…)

Lembro-me de um estudo cromático de Bach e perco a inteligência (…) Quem sou? (…)

Piedade é a minha forma de amor. (…) Por ter sofrido e continuar docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, Deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. (…)

Era um pouco de febre sim. Se existisse pecado, ela pecara. Toda a sua vida fora um erro, ela era fútil. Onde estava a mulher da voz? Onde estavam as mulheres apenas fêmeas? (…)

Ser feliz é para se conseguir o quê? (…) Não gosto de me divertir, disse Joana com orgulho. (…)

Desceu das rochas, caminhou fracamente pela praia solitária até receber a água nos pés. (…) Era uma coisa que vinha do mar, que vinha do gosto de sal na boca, e dela, dela própria. Não era tristeza, uma alegria quase horrível (…)

A impossibilidade de ultrapassar a eternidade era a eternidade. (…)

O pensamento só era igual à música criando-se. (…)

Era a segunda vertigem num só dia! (…) Com mais raiva de tudo (…) No entanto, não era raiva, era amor. Amor tão forte que só se esgotava no ódio. (…) Sozinha. (…)

Liberdade é pouco, o que desejo ainda não tem nome. (…) Grito-me. (…) O movimento explica a forma. (…)

A plenitude tornou-se dolorosa e pesada e Joana era uma nuvem prestes a chover. (…) Sofrer pelo que a tornara terrivelmente feliz! (…) Sabia que o professor adoecera e fora abandonado pela mulher. (…) 

Porque tudo segue o caminho da inspiração. O início de toda a construção é porquê? (…)

Jamais se entregara. (…) É que tudo o que tenho não se pode dar. (…) Tudo o que sei nunca aprendi e nunca poderei ensinar. (…)

A solidão está misturada à minha essência. (…) Está gravado em mim que o amor cessa na morte. (…) Pois seu corpo, nunca precisava de ninguém, era livre. (…)

Eternidade é não ser. (…) Imortal para todo o sempre. (…) Uma nova matéria e não sabia (…)

Nada impedirá meu caminho até à morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo. 


in: Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, Companhia das Letras, Lisboa, Março 2025

13 agosto 2025

Uma Sociedade | Virginia Woolf

- Poesia! Poesia! - gritámos, impacientes.

- Lê-nos poesia! - Nem consigo descrever a desolação que se apoderou de nós quando ela abriu um pequeno volume e começou a declamar a verbosa e sentimental tolice que continha. (…)

- Deve ter sido escrito por uma mulher - atalhou uma de nós.

Mas não. Ela disse-nos que fora escrito por um jovem, um dos mais célebres poetas do momento. Mal podem imaginar o estado de choque em que esta descoberta nos deixou. (…)

Ficámos todas em silêncio; e, nesse silêncio, ouvia-se a desgraçada da Poll a soluçar: 

- Porquê que o meu pai me ensinou a ler? 

Clorinda foi a primeira a cair em si.

- A culpa é toda nossa - disse. Todas nós sabemos ler. Mas nenhuma de nós, tirando a Poll, se deu ao trabalho de o fazer. Eu, por exemplo tomei como certo que era dever de uma mulher passar a juventude a dar à luz. Venerava a minha mãe por ter tido dez filhos; a minha avó, que pôs quinze neste mundo; a minha própria ambição, devo confessar, era ter uma vintena. Ao longo de todo este tempo, sempre acreditámos que os homens eram igualmente laboriosos e que as suas obras tinham igual mérito. Enquanto dávamos à luz os filhos, eles, julgávamos nós, davam à luz os livros e as pinturas. Nós povoámos o mundo. Eles civilizaram-no. Mas, agora que sabemos ler, o que nos impede de julgar os resultados? Antes de trazermos outra criança ao mundo, devemos prometer que iremos descobrir a verdadeira natureza deste. 

Por isso, constituímo-nos numa sociedade destinada a fazer perguntas. (…)

- Desde Safo, não houve mais nenhuma mulher de primeira categoria … - começou a Eleanor, citando um semanário. (…)

- Assim, nunca mais chegaremos a nenhuma conclusão - queixou-se. - Como a civilização parece muito mais complexa do que imaginámos, não seria melhor limitarmos-nos à nossa questão original? Concordámos que o objetivo da vida era produzir boas pessoas e bons livros. (…)

- Assim que aprender a ler, só há uma coisa em que podes ensiná-la a acreditar, e é em si mesma. (…)

 

in: Uma Sociedade, de Virginia Woolf, Penguim Clássicos, Nº4, Lisboa, 2025