Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

16 maio 2021

Um Ponto Verde no Espaço | Fundación Antonio Gala

A Terra, um Ponto Verde no espaço!

A Casa do Antonio Gala, Artista e Escritor-Poeta, recebeu-me muito bem, para criar um projeto artístico.

Esta Casa situada num antigo Convento do Século XVII, na cidade de Córdoba, em Espanha, designado por Convento do Corpo de Cristo. Um espaço em que o silêncio marca o tempo de reflexão e de profundidade espiritual e dele brota um Amor profundo cuja amplitude se eleva ao céu.

E, tendo como ponto de partida a própria casa, na qual estive uma semana, e em completo retiro espiritual, proporcionando-me um momento especial de criação conceptual, e permitindo-me um total despojamento.

Neste contexto, tão único e especial, nasceu um projeto artístico, também ele único, pois nunca voltará a repetir-se todo este processo físico e espiritual, cujo resultado aqui se demonstra sob o registo da fotografia.

O impacto de cada dia no meu corpo e na minha alma de artista e de mulher, provocou não só um êxtase de iluminação interior como uma dinâmica de dor e sofrimento pela existência de Ser. Todo este processo teve com certeza um resultado de elevação da alma e de um coração, aos mais profundos sentimentos, cuja sensibilidade se revelou através das caminhadas pela casa e pelos claustros em pleno silêncio.

O projeto foi-se revelando pela procura de um ponto verde na casa. Um ponto, um local, um lugar, ou seja um sítio onde brotassem flores e árvores, um pedaço de terra com erva fresca e água. Este ponto servia de ligação entre a terra e o céu, numa ligação entre as profundezas da alma e as que a elevam. Este ponto serviu para reflexão e para viagens ao interior e exterior de mim, e que me une a todo o Universo, através de um ponto verde neste Cosmo: a Terra.

Assim, foi neste contexto que persegui com passos determinados todos os cantos e recantos desta Casa, e levei comigo o Ponto Verde da Terra, e aí fui-me aproximando cada vez mais de cada momento único e especial para a minha conexão com as obras de arte ali expostas e com os lugares recolhidos deste espaço.

À medida que todo este processo se desenvolvia, também se desenvolvia em mim algo novo, cuja  transcendência me invadia de um modo transformador, e que sentia a cada segundo no meu corpo e alma.

Percorri então o Claustro com a fonte e a laranjeira, as arcadas, o Claustro com a relva, as árvores e a buganvília cor de rosa, a Biblioteca e os ateliês dos vários artistas residentes.





in: Um Ponto Verde no Espaço, de Ana Gaspar, Córdoba, Maio de 2021

14 abril 2021

A Simplicidade da Vida | Cor




"Uma das misteriosas leis da vida é que descobrimos sempre tarde demais os seus autênticos e essenciais valores: a juventude quando a perdemos, a saúde assim que nos abandona, e a liberdade, essa essência preciosíssima da nossa alma, só quando está a ponto de nos ser arrebatada ou quando já o foi."

in: Montaigne

Obra de Arte: tinta ecoline sobre papel japonês, 4 camadas unidas por linha e suportado por bambu, de Ana Paula Gaspar, "Índia", Abril de 2021

01 abril 2021

Criar Linhas | Percursos





 
 

É com Amor que tudo nasce.

É sem Amor que tudo morre.

É o ciclo infinito da Vida.


Obras:Criar Linhas/Percursos na Vida - Desenhos, de Ana Gaspar, 16. Março 2021

Poema: Amor, de Ana Gaspar, Março 2021

27 fevereiro 2021

Renasci - Obra/Poema


Já não sei se morri se nasci.

Já não sei se sou deste Planeta.

Ou, são os outros.

E, eu sou de outro.

Só sei que não sei para onde ir.


in: Renasci - Obra/Poema, de Ana Paula Gaspar, Serra do Louro, Portugal, 27 de Fevereiro 2021.

Obra: Linhas de Percurso Pessoal, Caneta sobre Papel, Janeiro de 2021

15 fevereiro 2021

Sentir e Saber | António Damásio

Esta abordagem começa com esses mesmos fenómenos mentais, quando nos empenhamos em observá-los usando a introspecção e anotando o que observamos. A introspecção tem os seus limites mas não tem nem rivais nem substitutos. Oferece-nos a única perspectiva direta sobre fenómenos que queremos entender e serviu memoravelmente os génios de William James, Sigmund Freud, Marcel Proust e Virginia Woolf. 

Os resultados da introspecção podem ser hoje enriquecidos pelos dados obtidos por diversos métodos que também visam fenómenos mentais mas que os investigam obliquamente e se dirigem a (1) manifestações comportamentais e (2) correlações biológicas, neurofisiológicas, físico-químicas e sociais. (…) Os textos que se seguem resultam da combinação destas abordagens com a introspecção. 

… há quatro mil milhões de anos. Mas a vida evoluiu sem palavras e sem pensamentos, sem sentimentos e sem raciocínio, desprovida de mentes e de consciência. Não obstante, os organismos vivos detetavam a presença de outros como eles e detetavam diversos elementos do seu ambiente. (…) Podemos dizer que «detetar» é uma forma primitiva de «sentir» e que resulta numa forma primitiva de «saber». Ainda mais curioso, os organismos vivos reagiam com inteligência ao que detetavam. Essa sua inteligência não se baseava na forma de conhecimento explícito que as nossas mentes empregam hoje em dia, dependendo, isso sim, de uma competência oculta que visava única e exclusivamente a sobrevivência. Esta inteligência não-explícita estava encarregue da curadoria da vida, gerindo-a de acordo com as regras e os regulamentos da homeostasia. 

… o objetivo da vida é a sobrevivência e a maneira mais lógica de conseguir sobreviver é seguir os ditames da homeostasia, o conjunto de procedimentos reguladores que possibilitam a vida logo quando esta floresceu nos primeiros organismos unicelulares. A seu tempo, quando os organismos multicelulares e multissistema entraram na moda - há cerca de três mil e quinhentos milhões de anos - a homeostasia passou a contar com a ajuda de dispositivos coordenadores recém-evoluídos e conhecidos como sistemas nervosos. Estava aberto o caminho para que esses sistemas nervosos passassem a gerir ações e a mapear estruturas e seguir-se-iam as imagens, e assim se deu origem às mentes. Centenas de milhares de anos depois, a homeostasia começou a ser regida em parte por essas mentes, essas mentes capazes de sentir e dotadas de consciência, que os sistemas nervosos haviam, entretanto, possibilitado. Os sentimentos, por um lado, e o raciocínio criativo, por outro, viriam a desempenhar papéis importantes na nova gerência da vida permitida pela consciência. (…)

No ramo da história da vida em que nos encontramos podemos identificar três fases evolutivas distintas e consecutivas. A primeira fase teve como auge o ser. A segunda é dominada pelo sentir (o sentir que se constrói com sentimentos e não com a mera possibilidade de detetar aquilo que nos rodeia). A terceira fase é definida pelo processo do saber. Curiosamente, algo de semelhante a essas três fases acontece na mesma sequência em todos os seres humanos contemporâneos. (…)

Somos marionetas nas mãos da dor e do prazer, ocasionalmente libertados pela nossa criatividade. (…)

Assim sendo, a consciência é um estado mental particular que resulta de um processo biológico com múltiplos contribuidores. O funcionamento do interior do corpo, dado a conhecer através do sistema nervoso interocetivo, fornece o componente do sentimento, ao passo que as outras operações do sistema nervoso central fornecem a imagética que descreve o mundo em torno do organismo bem como a sua estrutura musculosquelética. (…) Mente e corpo são co-proprietários exclusivos, absolutos e notorizados deste magnífico conjunto.

… nem todos os estados mentais são necessariamente conscientes. Vejo a consciência como um estado mental enriquecido. (…) São os sentimentos que trazem à mente os factos através dos quais sabemos, de imediato, que aquilo que naquele momento temos na mente nos pertence e nos está a acontecer. Os sentimentos permitem-nos experienciar e tornarmos-nos conscientes. (…)

Aquilo que começa a dar origem à consciência é o enriquecimento da mente com o tipo de conhecimentos que apontam para o organismo como sendo proprietário dessa mente. (…)

A consciência não emerge só porque o conteúdo foi integrado apropriadamente. O resultado da integração é o alargamento da capacidade mental mas a consciência não tem a ver com a quantidade dos conteúdos mentais, mas sim com o significado de certos conteúdos. Aquilo que começa a dar consciência ao meu conteúdo mental é a identificação de mim próprio como dono dos presentes conteúdos mentais. 

(…)

in: Sentir & Saber - A caminho da Consciência, de António Damásio, Círculo de Leitores (Temas e Debates), Lisboa, 2020