Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

23 dezembro 2019

O meu Bonsai,
A Árvore da Sabedoria!




in: Bonsai, Desenho e Pintura a Aguarela, de Ana Paula Gaspar, Outubro de 2019

13 novembro 2019

Provocações | Camille Paglia

Este livro não é para todos.
Não é para aqueles que acreditam que encontraram, eles e os amigos, aliados, partidos políticos ou igrejas, a verdade absoluta acerca da humanidade, presente ou futura.
Não é para aqueles que acreditam que a linguagem tem de ser policiada ao serviço daquilo que consideram um bem social maior, e também não é para aqueles que concebem ao governo e seus representantes no campus universitário o direito de exigir e impor um pensamento «correcto».
Não é para aqueles que acreditam que a arte é a serva de agendas políticas ou de objectivos filantrópicos, ou que contém mensagens coercivas ocultas que devem ser expostas e destruídas.
Não é para aqueles que vêm as mulheres como vítimas e os homens como o inimigo, ou que pensam que as mulheres são incapazes de afirmar os seus direitos e dignidade humana em todos os lugares, incluindo o local de trabalho, sem a intervenção e a protecção de figuras de autoridade delegada pelo poder do Estado.
Não é para aqueles que veem o comportamento humano como algo resultante, no seu conjunto, de forças sociais opressivas que negam a influência da evolução e da biologia no desejo, nas fantasias e nos impulsos anárquicos, do amor ao crime.
Este livro é, em vez disso, para aqueles que colocam o pensamento livre e a liberdade de expressão acima de outros valores, incluindo considerações materiais acerca de questões de riqueza, estatuto ou bem estar físico.
É para aqueles que veem a Arte e a contemplação da Arte como um meio de expressão da intuição e da revelação, um trabalho em rede feito de sentidos, que deve ser realçado e celebrado e não memorizado por professores que, cinicamente, negam a possibilidade do sentido.
É para aqueles que veem as mulheres como iguais aos homens e que, nas suas justas e necessárias exigências de igualdade perante a lei, não apelam para uma proteção especial para as mulheres na sua condição de sexo mais fraco.
É para aqueles que veem a natureza como uma força vasta e sublime, que a humanidade é demasiado fraca para controlar para controlar ou modificar e que, fatalmente, nos modela enquanto indivíduos e enquanto espécie.
É para aqueles que veem a vida, num plano espiritual, como procura de sabedoria, um processo dinâmico de observação incessante, reflexão e autoeducação.
(…)
Para mim não há nada mais importante do que o poder das palavras para descrever, recriar, arrebatar e provocar.
(…)
O relógio da natureza faz tiquetaque por detrás da fachada da tecnologia. Por muito que queiramos tornar perfeita a brilhante rede, criada pela sociedade, feita de metal e microfibra, permanecemos reféns da teimosia dos nossos corpos, que continuam a pulsar de acordo com os ritmos primordiais.
Em tempos estávamos casados com o sol. No passado agrícola, o calendário era fixado pelas estações e os dias começavam e terminavam com a luz. Nos campos, o movimento era contínuo, permanente. O trabalho nunca acabava e era preciso conservar energia.
(…)
A cultura moderna vive obcecada com a velocidade desde a invenção da locomotiva a vapor, nos começos do século XIX. A nossa percepção do espaço contraiu-se progressivamente e desmoronou-se por causa da nossa capacidade de atravessar distâncias enormes quase magicamente e sem esforço. Muitas queixas de saúde, crónicas e relacionadas com o stress, agravam-se seguramente por este ritmo precipitado que perturbou a nossa percepção física do tempo.
(…)
 Os poetas do amor, na tradição lasciva do carpe diem, sempre souberam que o tempo é transitório, como que inscrito no corpo humano, que só floresce para depois decair.
(…)
Somos mergulhados numa paisagem mental em que o impulso sexual representa energia pura e eterna juventude. Não há cansaço nem hesitação; a resistência serve apenas de jogo para inflamar o desejo. A subordinação nunca é degradação, tal como acontece tantas vezes no Marquês de Sade, cujas vítimas passivas se tornam não-pessoas, como carne passada por uma trituradora. Em Tom of Finland, pelo contrário, o parceiro que fica por baixo mantém a sua monumentalidade e carga explosiva. A rendição não é aniquilação, mas sim um jogo excitante.
(…)
Mas o preço emocional pode ser a solidão crónica, uma melancolia subliminar substituída pela ação, pela conquista ou pela mera exibição.
(…)
Neumann definiu aquilo que teorizou como os quatro estádios fundamentais do desenvolvimento psicológico da mulher. O primeiro é uma matriz indiferenciada ou unidade psíquica, em que o ego e o inconsciente ainda se encontra fusionados. Chamou-lhe estádio "matriarcal" e simbololizou-o através da serpente Ouroboros, um símbolo antigo de uma serpente que morde a própria cauda, devorando-se e dando em simultâneo origem a si mesma, uma Imagem tanto de solipsismo como de fertilidade. No segundo estádio, dá-se a invasão espiritual e a dominação por parte do arquétipo do Grande Pai (associado ao racionalismo e ao monoteísmo), percebido como destruidor ou violador. No terceiro estádio de desenvolvimento, Neumann incorpora o masculino num indivíduo normativo, um herói salvador que liberta a jovem mulher do pai controlador, submetendo-a, porém, ao jugo do casamento convencional, sob uma nova autoridade masculina. Os papéis sexuais encontram-se polarizados, sendo a masculinidade e a feminilidade mutuamente exclusivas. O quarto e último estádio descrito por Neumann tem implicações feministas: nele, a mulher em plena maturidade descobre o seu eu autêntico e a sua voz. Ao tomar de empréstimo o princípio masculino, os papéis sexuais tornam-se indistintos.
(…)

in: Provocações, de Camille Paglia, Editora Relógio D'Água, Lisboa, 2019

10 outubro 2019

De Volta à Natureza


Estou de volta,
À Mãe Natureza.
Sou como Ela,
Uma Vadia.

Sou uma semente.
À deriva,
Pela Terra.

Sou semente de outras sementes,
Sou livre.
Mas, sem raízes na Terra,
Como as Árvores.

Sou frágil.
Mas, amparada pelo Vento,
E envolvida pelo Universo.

in: De Volta à Natureza, Poema de Ana Gaspar, Escrito à Beira Rio, 10 de Agosto 2019

10 agosto 2019

A Náusea | Jean - Paul Sartre

Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. A mais desagradável também. Mas, enfim, tenho de reconhecer que sou sujeito a estas transformações súbitas. Sucede que só muito raramente penso; assim uma infinidade de pequenas metamorfoses vai-se acumulando em mim sem eu dar por isso, e depois, um belo dia, produz-se uma verdadeira revolução. Foi o que deu à minha vida estes solavancos, este aspeto incoerente.
(…)
Se não me engano, todos os sinais que se vão acumulando são precursores duma nova transformação brutal na minha vida, então tenho medo. Não que a minha vida seja rica, importante ou preciosa. Mas tenho medo do que vai nascer, apoderar-se de mim - e arrastar-me… para onde? Vou ter outra vez de partir, deixar tudo a meio, as minhas pesquisas, o meu livro? Voltarei a acordar daqui a alguns meses, daqui a alguns anos, derreado, desiludido, no meio de novas ruínas? Queria ver claramente o que se passa em mim, antes que seja tarde de mais.
(…)
Eu então vivo sozinho, absolutamente sozinho. Nunca falo a ninguém; não me dão nada, não dou nada a ninguém.
(…)
Dantes - mesmo muito tempo depois de me ter deixado - Anny inspirava os meus pensamentos, como se eu quisesse ser-lhe útil. Agora já não penso em ninguém; nem sequer me ocupo a procurar palavras. Mais ou menos depressa, uma corrente flui dentro de mim, mas não retenho nada, deixo andar. A maior parte das vezes, como não se prendem a palavras, os meus pensamentos ficam em estado de nevoeiro. Desenham formas vagas e engraçadas, depois imergem: e esqueço-me logo deles. … Quando se vive sozinho, deixa de se saber o que seja narrar: a verosimilhança desaparece ao mesmo tempo que os amigos. E os acontecimentos também: deixamo-los afundarem-se veem-se surgir bruscamente pessoas que se põem a falar e se retiram, mergulhamos em histórias sem pés nem cabeça: que execrável testemunha se seria nestes casos!
(…)
Os objetos não deviam impressionar-nos o tato, visto que não vivem. Servimo-nos deles, pomo-los no seu lugar, vivemos no meio deles: são úteis, nada mais. E, a mim, os objetos tocam-me; é insuportável. Tenho medo de entrar em contacto com eles, como se fossem animais vivos.
Agora percebo; lembro-me melhor do que senti, no outro dia, à beira-mar, quando tinha a pedra na mão. Era uma espécie de enjoo adocicado. Que desagradável que era! E a sensação vinha da pedra, tenho a certeza, passava da pedra para as minhas mãos. Sim é isso, é exatamente isso: uma espécie de náusea nas mãos.
(…)
Estou emocionado; sinto o meu corpo como uma máquina de precisão em descanso. Eu, sim, tive verdadeiras aventuras.
(…)
Alguma coisa começa para acabar: a aventura não admite prolongamentos artificiais; só da sua morte lhe vem o sentido. Sem possibilidade de voltar atrás, sou arrastado para essa morte, que talvez seja também a minha. Cada instante só aparece para trazer os que se lhe seguem. Sinto-me ligado a cada um, do fundo do coração: sei que ele é único, insubstituível - e não faria, porém, um gesto para o impedir de voltar ao substituível - e não faria, porém, um gesto para o impedir de voltar ao nada.
(…)
Viver é isto. Mas quando se conta a nossa vida, tudo muda.
(…)
Como pude eu escrever ontem esta frase absurda e pomposa: "estava sozinho, mas caminhava"
(…)
Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos enterros, nos casamentos.
(…)
É preciso não ter medo.
(…)
Mandar não é um direito da elite, é o seu principal dever.
(…)
O Senhor é demasiado modesto. Para suportar a sua condição, a condição humana, precisa como toda a gente, de muita coragem.
(…)
Uma árvore raspa a Terra por debaixo dos meus pés com uma unha negra … a existência penetra em mim. Não posso dizer que me sinta aliviado, nem contente; pelo contrário estou esmagado. A náusea sou eu.
(…)
A última palavra perde-se na garganta.
(…)
Vou sobrevivendo a mim própria. Sei que nunca mais encontrarei coisa nenhuma nem ninguém que me inspire paixão. Sabes? Pôr-se uma pessoa a amar alguém não é tarefa fácil. É preciso ter energia, uma generosidade. É preciso cegueira… Há um momento, logo ao princípio, em que se tem de saltar por cima dum precipício: quem reflete não salta- E eu sei que nunca mais saltarei.
(…)
É isto, exatamente. Não há aventuras, não há momentos perfeitos.
(…)
Anny está sozinha como eu.
(…)
Mas isso só me interessava se Anny se tivesse entregado de todo o coração. Agora, nenhuma curiosidade me resta … Pequenos clarões de sol à superfície de um mar escuro e frio.
(…)
Tenho um medo pavoroso de voltar à minha solidão.
(…)
Só os safados é que julgam ganhar. Agora vou fazer como a Anny vou sobreviver. Comer, dormir - dormir, comer. Existir lentamente, suavemente, como aquelas árvores, como uma poça de água.
(…)
As cidades só dispõem de um único dia, que volta igualzinho todas as manhãs. Aos domingos é que enfeitam um pouco mais. Que imbecis! Repugna-me pensar que vou voltar a ver-lhes as caras fechadas e aquietadas. Pessoas que legislam, que escrevem romances populistas, que se casam, que cometem a extrema tolice de fazer filhos.
(…)
É da existência que tenho medo.
(…)
Estava a começar a sua aprendizagem de solidão.
(…)
Vou-me embora, sinto-me vago. Não me atrevo a tomar uma decisão. Se tivesse a certeza de ter talento… Mas, nunca - nunca, escrevi nada nesse género...  

in: A Náusea, de Jean-Paul Sartre, Porto Editora, 2018

19 julho 2019

Quanto Mais Aprendo …

… muito particularmente Epicuro. Quanto mais aprendo sobre este extraordinário pensador ateniense, mais fortemente o reconheço como psicoterapeuta "proto-existencial"…
Muitas pessoas familiarizam-se com o seu nome através da palavra epicurista, que significa uma pessoa devotada aos prazeres, sobretudo aos gastronómicos. Mas, na realidade, Epicuro não era defensor de prazeres sensuais ou refinados, estando mais preocupado em alcançar a tranquilidade (ataraxia).
Epicuro exercia "filosofia médica" e insistia que da mesma maneira que um médico trata o corpo, o filósofo deve cuidar da alma. Na sua opinião, a filosofia tinha um único objectivo: aliviar a miséria humana. E quanto à raiz dessa tragédia? Epicuro acreditava que se devia ao nosso omnipresente medo da morte. A visão assustadora da inevitabilidade da morte, dizia, interfere com a satisfação que retiramos da vida, não deixando prazer algum intocado.

As ideias têm poder. O insight de muitos dos grandes pensadores e escritores, ao longo dos séculos, ajuda-nos a domar pensamentos destrutivos associados à morte e a descobrir caminhos importantes à medida que vamos atravessando a nossa existência. …
A ideia da morte inevitável, assustadora para qualquer um de nós, insistia Epicuro, interfere com a capacidade de gozar a vida e não deixa qualquer prazer incólume. Porque nenhuma actividade pode satisfazer a nossa ânsia de vida eterna, todas elas são intrinsecamente incapazes de nos satisfazerem completamente. Escreveu que muitas pessoas vão mesmo criando um ódio à vida até, ironicamente, ao ponto do suicídio; outras envolvem-se freneticamente em actividades sem objectivo, que não têm outro propósito a não ser evitar a dor inerente à condição humana.
Epicuro lidava com esta ânsia sem fim de preenchermos o nosso quotidiano com actividades novas, encorajando-nos a que, em lugar disso, optássemos por guardar e evocar as memórias profundas de experiências positivas. Sugere que, se formos capazes de aprender a recorrer a essa base de dados repetidamente, não teremos então qualquer necessidade de embarcarmos na busca incessante de situações hedonistas.
Diz a lenda que seguiu os seus próprios conselhos e, no leito de morte (de complicações subsequentes a cálculos renais), Epicuro conservou a equidade, apesar das dores terríveis, usando este mesmo exercício, ou seja, recordando as conversas agradáveis com o seu círculo de amigos e estudantes, que lhe haviam dado tanto prazer.
Faz parte do génio deste filósofo ter antecipado a visão contemporânea do inconsciente: enfatizava ele que, na maioria dos casos, as preocupações com a morte não são conscientes mas devem ser inferidas a partir de manifestações secundárias, por exemplo, uma religiosidade excessiva, a necessidade imparável de acumulação de riqueza, a procura cega de poder e privilégios, tudo coisas que oferecem uma versão falsificada de imortalidade.
Se somos mortais e a alma não sobrevive, insistia Epicuro, então nada temos a temer numa vida eterna. Não haverá consciência, nem tão-pouco remorsos pela vida perdida, nada a temer dos deuses.

Assumir que cada um de nós é finito e destinado a atravessar o desfiladeiro da infância até à maturidade, seguindo daí para o derradeiro declínio.

Uma das frases preferidas de Nietzsche é amor fati (ame o seu destino), ou, por outras palavras, crie um destino que seja capaz de amar.

O que somos. Somente o que somos é fundamental. Uma consciência em ordem, diz Schopenhauer, vale muito mais do que uma boa imagem. O nosso objectivo primeiro deveria ser a saúde e a riqueza intelectual, que nos conduz a um manancial sem fim de ideias criativas, a uma vida independente e moral. A equanimidade interior nasce do facto de sabermos que não são as coisas em si que nos perturbam, mas a interpretação que lhe damos.


in: De Olhos Fixos no Sol, Ultrapassar o Terror da Morte, de Irvin D. Yalom, Editor Luís Corte Real, Janeiro de 2016

01 abril 2019

Poema | Ana Gaspar


Ando pela cidade
Como uma folha de árvore caída
Ando pela cidade como o vento
Que bate numa vidraça

Ando pela cidade
E oiço as conversas frias
E sinto o cheiro dos perfumes
Caros
Observando os fatos
Aprumados e encarrapitados

Ando pela cidade
Como quem anda despida
Ao vento e ao frio
Triste e vazia

Ando pela cidade
Como quem anda sozinho
Pelo mundo
À deriva como o vento.

in: Poema, de Ana Paula Gaspar, escrito ao descer a Avenida da Liberdade, no dia 21 de Março de 2019, em Lisboa

01 março 2019

Escritos sobre Arte | Paul Klee

Cada personalidade, que dispõe da sua própria forma de expressão, tem aqui o seu valor. Só os fracos, aqueles que em lugar de procurarem em si próprios, procuram naquilo que já existe, devem desistir. A modernidade é um alívio da individualidade, num novo domínio até as repetições se transformarem em novas formas do eu. Neste campo não se pode falar de fraqueza quando muitos se juntam num lugar, porque aí cada um é elevado a transformar-se num eu com marcas próprias.
(...)
Teríamos de dar aulas nos feriados, fora das instalações escolares. Ao ar livre, debaixo das árvores, perto dos animais, junto dos rios ou em rochedos no mar.
(...)
Na base está a necessidade de expressão.
Escrita e imagem, isto é, escrever e dar forma, constituem uma unidade na sua raiz.


(...)
Dimensão claro-escuro: na dimensão "em cima - em baixo" situa-se o conceito de iluminação, no extremo superior, a luz do Sol, no extremo inferior, o conceito de Noite.
A natureza dá-nos uma infinidade de sugestões cromáticas: o mundo das plantas, o reino animal, a minerologia, a composição a que se chama paisagem, tudo isto nos dá motivo para pensar e sermos gratos a cada instante.
(...)
A beleza, que talvez não deva ser separada da arte, não se refere ao objecto, mas sim à representação criadora. É assim, e não de outra forma, que a arte supera o feio, sem o evitar.

in: Escritos sobre Arte, de Paul Klee,Edições Cotovia, Lisboa, 2001

21 fevereiro 2019

Corpo de Mulher | Sabedoria …

Ter filhos e lutar para equilibrar o meu trabalho e a minha família mudou coisas que mais nada conseguiria mudar. Em vez de aprender com os livros e professores, estava agora a aprender, por experiência própria, o que as feministas queriam dizer com "o que é pessoal é político". Aprendi que não existe maternidade a meio tempo. Depois de uma mulher ter um bebé, essa criança faz parte dela vinte e quatro horas por dia de uma forma que ninguém pode explicar antes de lhe acontecer. Não estava preparada para a dor que encheu o meu coração quando deixei o meu bebé para ir trabalhar todos os dias. (…)
A consciência cria o corpo. Os nossos corpos são constituídos por sistemas de energia dinâmicos
que são afectados pelas nossas dietas, relações, hereditariedade e cultura, e pela interacção de todos estes factores e actividades. (…)
Os seres humanos são formados por energia e por ela mantidos. Os nossos corpos são campos dinâmicos de energia em permanente mudança, e não estruturas físicas estáticas. São um holograma em que cada parte contém informação sobre o todo. (…)
Apesar de todo o corpo ser afectado pelos pensamentos e emoções, e das suas diversas partes comunicarem entre si, a linguagem do corpo de cada pessoa é única. (…)
Quando ficamos obcecadas, fechamos energia - chi, ki, prana, ou qi -  num processo negativo que afasta as células. Os processos celulares vitais tornam-se, assim, vazios. Falta-nos energia em situações em que a nossa raiva ou medo estejam a controlar a nossa parte dos médicos não relaciona o início de uma doença com estas faltas de energia, é interessante ver que já existe alguma investigação clínica a apoiar esta constatação. (…) Quase nunca temos consciência destas fugas de energia. Mas se estas persistem sem serem tratadas, muitas vezes o resultado é o esgotamento físico. (…)
A maioria dos bloqueios nos nossos sistemas de energia são emocionais por natureza. É bom pensar no seu sistema de energia como um rio ou como água a correr. Enquanto esta corrente de energia for saudável e a pessoa se sentir bem consigo mesma, há muito menos risco de contrair uma doença. (…)
As filosofias tradicionais orientais descrevem a interacção profunda entre a energia da Terra e a do corpo humano, bem como a forte ligação entre a energia feminina e a própria força da gravidade natural da Terra. (…)
A força centrípeta de atracção é apenas uma forma de caracterizar a energia feminina. Também temos sete centros específicos de energia nos nossos corpos, chamados chakras. (…)
A vergonha pode ser o resultado da programação social que diz que a mulher é inferior, e pode ser consequência de relações familiares, tais como uma relação pouco saudável com os filhos ou vergonha do estatuto social do seu companheiro. A vergonha relativa à violação, seja física, emocional ou psicológica, afecta a zona da vagina.
A investigação comprova estas disfunções da energia. (…)
Compreender a anatomia da energia é a chave para um verdadeiro tratamento, em vez de um mero disfarce dos nossos sintomas, porque oferece uma visão global e compreensiva de como cada uma de nós colabora na criação de saúde ou doença. (…)
O nosso corpo trata-se melhor quando estamos a viver no presente. (…)

in: Corpo de Mulher, Sabedoria de Mulher, de Christiane Northrup, Editora Sinais de Fogo, Lisboa, 2003

13 janeiro 2019

Roger Scruton | Como Ser …

Defendi que a "liberdade é um cavalo muito bom, para cavalgar, mas para cavalgar até algum sítio."
(…)
Decidi abandonar o mundo académico e socorrer-me dos meus próprios recursos para ganhar a vida.
(…)
A confissão e o perdão são os costumes que tornaram a nossa civilização possível.
(…)
… a nossa herança judaico-cristã é viver no mundo da lua. É não ter em conta a cultura que, no decurso dos séculos, se concentrou na prática do arrependimento.
(…)
O medo do escuro, a repugnância pelo incesto, o impulso para nos agarrarmos à mãe - são adaptações mais profundas do que a razão. Outras - a culpa, a vergonha, o amor pela beleza, o sentido de justiça - nascem da própria razão e reflectem a rede de relações interpessoais e de discernimento através das quais nos situamos como sujeitos livres numa comunidade de outros como nós. Em ambos os níveis - o instinto e o pessoal - a capacidade de sacrifício nasce, num caso como um cego afecto, no outro como um sentido de responsabilidade para com os outros e para com um modo de vida moral.
(…)
A sociedade, acreditava Burke, depende de relações de afecto e lealdade, e estas só podem ser construídas a partir da base, pela interacção cara a cara. (…) Quando a sociedade está organizada a partir de cima, seja pelo governo centralizado de uma ditadura revolucionária, seja pelos decretos impessoais de uma burocracia imperscrutável, a responsabilização desaparece rapidamente da ordem política, e também da sociedade. Um governo centralizado gera indivíduos irresponsáveis, e o confisco da sociedade civil pelo Estado conduz a uma recusa generalizada dos cidadãos em agirem por sua conta.
(…)
O conservadorismo é a filosofia do vínculo afectivo. Estamos ligados a coisas que amamos, e desejamos protegê-las da decadência. Mas sabemos que não podem durar para sempre.


in: Como Ser Um Conservador, de Roger Scruton, Guerra & Paz, Lisboa, 2018