Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

15 novembro 2025

Se Isto é Um Homem | Primo Levi

As suas mulheres foram ciosas e rápidas, de forma a terem tempo para o luto; e quando tudo ficou pronto, as fogaças cozidas, as trouxas atadas, então tiraram os sapatos, soltaram os cabelos, dispuseram no chão as velas fúnebres, acenderam-nas conforme o costume dos antepassados, sentaram-se no chão em círculos para a lamentação, e toda a noite rezaram e choraram. Muitos de nós parámos diante da sua porta, e nas nossas almas desceu, nova para nós, a dor antiga do povo que não tem terra, a dor sem esperança do êxodo renovado século após século. (…)

Toquei o fundo. A apagar o passado e o futuro aprende-se rapidamente, se a necessidade empurra. Passados quinze dias da chegada, já sofro da fome regulamentar, a fome crónica desconhecida dos homens livres, que provoca sonhos de noite e se espalha em todos os membros dos nossos corpos; já aprendi a não me deixar roubar, pelo contrário, se encontro alguma colher, um cordel, um botão que possa apanhar sem perigo de punição, ponho-os no bolso e passo a considerá-los meus de pleno direito. Já apareceram, na sola dos meus pés, as chagas que não saram. Empurro vagões, trabalho com a pá, canso-me à chuva, tremo ao vento; até o meu próprio corpo já não me pertence. (…)

Vamos morrer todos, estamos prestes a morrer; se me sobrarem dez minutos entre o acordar e o trabalho, quero dedicá-los a outras coisas, fechar-me em mim próprio, fazer o balanço, ou então olhar o céu e pensar que talvez esteja a vê-lo pela última vez; ou mesmo só deixar-me viver, conceder-me o luxo de um breve ócio. (…)

Que somos escravos, privados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, condenados quase com certeza à morte, mas que uma faculdade nos restou, e temos de a defender com todo o vigor porque é a última: a faculdade de negar o nosso consentimento. Temos portanto, sem dúvida de lavar a cara sem sabão na água suja, e limparmo-nos ao casaco. Temos de engraxar os sapatos, não porque a tal obriga o regulamento, mas por dignidade e por propriedade. Temos de caminhar direitos, sem arrastar as socas, certamente não em homenagem à disciplina prussiana, mas para nos mantermos vivos, para não começarmos a morrer. (…)

Os dias são todos iguais, e não é fácil contá-los. (…) Homens e mais homens, escravos e patrões, os patrões eles próprios escravos; uns empurrados pelo medo, os outros pelo ódio, todas as outras forças emudeceram. Todos são nossos inimigos ou nossos rivais. (…)

Não se deve sonhar: o momento de consciência que acompanha o acordar é o sofrimento mais intenso. Mas não nos acontece muitas vezes, e os sonhos não duram muito tempo: mais não somos do que animais cansados. (…)

A fama de sedutor, de «organizado», provoca, ao mesmo tempo, inveja, escárnio, desprezo e admiração. Quem deixa que o vejam, enquanto come qualquer coisa de «organizado» é julgado muito severamente; trata-se de uma falta grave de pudor e de diplomacia (…)

21. Janeiro. (…) Desejava apenas uma coisa: ficar na cama debaixo dos cobertores, abandonar-me ao cansaço total de músculos, nervos e vontade, esperar que acabasse, ou não, era a mesma coisa, como um morto. (…)


 in: Se Isto é um Homem, de Primo Levi, Coleção Mil Folhas, Porto, Maio 2002 (1ª Ed. 1958) 

Devaneios com Linhas | Exposição

 


in: Devaneios com Linhas, de Ana Gaspar, 2019, 2020 e 2021

28 outubro 2025

Alice no País das Maravilhas | Lewis Carroll

 «Era muito mais agradável em casa, quando não estava sempre a crescer e a encolher, nem a receber ordens de ratos e de coelhos» pensou a pobre Alice. «Quase me arrependo de ter descido pela toca do coelho… E, no entanto… no entanto… Este género de vida é muito interessante! O que me terá acontecido? Era isso que gostava de saber! Dantes, quando lia contos de fadas, julgava que aquelas histórias não aconteciam, e agora estou no meio de uma! Deviam escrever um livro acerca de mim - ah, isso é que deviam! Quando eu for grande hei-de escrevê-lo.» (…)

- Lamento não ser capaz de lhe explicar melhor - retorquiu Alice, com toda a delicadeza. - Para começar, porque nem eu entendo. E depois, porque é muito confuso ter vários tamanhos diferentes num só dia. (…)

- Mas oito centímetros é uma altura excelente! - ripostou a Lagarta, levantando-se (media exatamente sete centímetros e sessenta e dois milímetros). 

- Mas eu não estou habituada - defendeu-se a pobre Alice, numa voz chorosa. E para consigo: «Quem me dera que estes bichos não se ofendessem tão facilmente!» (…)

- Que género de pessoas moram aqui? 

- Naquela direção - disse o Gato, acenando a pata direita - vive o Chapeleiro. E naquela direção (acenou a outra pata) vive a Lebre de Março. Podes visitar quem tu quiseres: são ambos malucos.

- Mas eu não quero estar no meio de malucos - observou a Alice. 

- Oh, não podes evitá-lo. Aqui, somos todos malucos. Eu sou maluco. Tu és maluca.

- Como é que sabes que eu sou maluca? 

- Deves ser, ou não terias chegado até aqui. (…)

- Se conhecesses o Tempo tão bem como eu, não falarias assim - disse o Chapeleiro. - O Tempo é um senhor. (…) Ele não suporta que o marquem. Mas, se o tivesses tratado como deve ser, ele faria com o relógio quase tudo o que quisesses. (…)

- Bom, eu não tinha completado o primeiro verso - continuou o Chapeleiro - quando a Rainha deu um salto e berrou: «Ele está a matar o tempo! Cortem-lhe a cabeça!» 

- Que crueldade horrorosa! exclamou Alice.

- E desde aí, o relógio deixou de fazer o que lhe peço - concluiu o Chapeleiro, com tristeza. - Agora são sempre seis da tarde. (…)

- Juro que nunca mais hei-de voltar ali! - exclamou Alice, enquanto caminhava em direção à floresta. (…) Ainda mal acabara de dizer isso quando notou que uma das árvores tinha uma porta por onde se podia entrar. «Muito interessante», pensou. «Mas hoje é tudo interessante. Acho que vou já entrar.» E assim foi. (…) Então, atravessou aquela passagem estreita e viu-se, finalmente, no lindo jardim de flores viçosas e fontes refrescantes. (…)

Havia uma grande roseira à entrada do Jardim. Dava rosas brancas, mas três jardineiros estavam muito atarefados a pintá-las de vermelho. (…) 

Alice nunca vira um campo como aquele, todo aos altos e baixos. As bolas eram porco-espinhos vivos, os maços eram flamingos (também vivos) e os soldados tinham de se dobrar em semicírculo para formarem os arcos, apoiados nos pés e nas mãos.

- Assim é - concordou a Duquesa. - E a moral que devemos retirar daí é: «Oh, é o amor! É o amor que faz girar o mundo!» (…)

E a moral disso é: «Olha pelo significado, que o significado olha por si.» (…)


in: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, Editora Fábula, Lisboa, 2022

30 setembro 2025

Perto do Coração Selvagem | Clarice Lispector

 Mente-se e cai-se na verdade. (…) Ser livre era seguir-se afinal e eis de novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro de si. Perdido pois o gosto de imaginar. (…)

Lembro-me de um estudo cromático de Bach e perco a inteligência (…) Quem sou? (…)

Piedade é a minha forma de amor. (…) Por ter sofrido e continuar docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, Deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. (…)

Era um pouco de febre sim. Se existisse pecado, ela pecara. Toda a sua vida fora um erro, ela era fútil. Onde estava a mulher da voz? Onde estavam as mulheres apenas fêmeas? (…)

Ser feliz é para se conseguir o quê? (…) Não gosto de me divertir, disse Joana com orgulho. (…)

Desceu das rochas, caminhou fracamente pela praia solitária até receber a água nos pés. (…) Era uma coisa que vinha do mar, que vinha do gosto de sal na boca, e dela, dela própria. Não era tristeza, uma alegria quase horrível (…)

A impossibilidade de ultrapassar a eternidade era a eternidade. (…)

O pensamento só era igual à música criando-se. (…)

Era a segunda vertigem num só dia! (…) Com mais raiva de tudo (…) No entanto, não era raiva, era amor. Amor tão forte que só se esgotava no ódio. (…) Sozinha. (…)

Liberdade é pouco, o que desejo ainda não tem nome. (…) Grito-me. (…) O movimento explica a forma. (…)

A plenitude tornou-se dolorosa e pesada e Joana era uma nuvem prestes a chover. (…) Sofrer pelo que a tornara terrivelmente feliz! (…) Sabia que o professor adoecera e fora abandonado pela mulher. (…) 

Porque tudo segue o caminho da inspiração. O início de toda a construção é porquê? (…)

Jamais se entregara. (…) É que tudo o que tenho não se pode dar. (…) Tudo o que sei nunca aprendi e nunca poderei ensinar. (…)

A solidão está misturada à minha essência. (…) Está gravado em mim que o amor cessa na morte. (…) Pois seu corpo, nunca precisava de ninguém, era livre. (…)

Eternidade é não ser. (…) Imortal para todo o sempre. (…) Uma nova matéria e não sabia (…)

Nada impedirá meu caminho até à morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo. 


in: Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, Companhia das Letras, Lisboa, Março 2025

13 agosto 2025

Uma Sociedade | Virginia Woolf

- Poesia! Poesia! - gritámos, impacientes.

- Lê-nos poesia! - Nem consigo descrever a desolação que se apoderou de nós quando ela abriu um pequeno volume e começou a declamar a verbosa e sentimental tolice que continha. (…)

- Deve ter sido escrito por uma mulher - atalhou uma de nós.

Mas não. Ela disse-nos que fora escrito por um jovem, um dos mais célebres poetas do momento. Mal podem imaginar o estado de choque em que esta descoberta nos deixou. (…)

Ficámos todas em silêncio; e, nesse silêncio, ouvia-se a desgraçada da Poll a soluçar: 

- Porquê que o meu pai me ensinou a ler? 

Clorinda foi a primeira a cair em si.

- A culpa é toda nossa - disse. Todas nós sabemos ler. Mas nenhuma de nós, tirando a Poll, se deu ao trabalho de o fazer. Eu, por exemplo tomei como certo que era dever de uma mulher passar a juventude a dar à luz. Venerava a minha mãe por ter tido dez filhos; a minha avó, que pôs quinze neste mundo; a minha própria ambição, devo confessar, era ter uma vintena. Ao longo de todo este tempo, sempre acreditámos que os homens eram igualmente laboriosos e que as suas obras tinham igual mérito. Enquanto dávamos à luz os filhos, eles, julgávamos nós, davam à luz os livros e as pinturas. Nós povoámos o mundo. Eles civilizaram-no. Mas, agora que sabemos ler, o que nos impede de julgar os resultados? Antes de trazermos outra criança ao mundo, devemos prometer que iremos descobrir a verdadeira natureza deste. 

Por isso, constituímo-nos numa sociedade destinada a fazer perguntas. (…)

- Desde Safo, não houve mais nenhuma mulher de primeira categoria … - começou a Eleanor, citando um semanário. (…)

- Assim, nunca mais chegaremos a nenhuma conclusão - queixou-se. - Como a civilização parece muito mais complexa do que imaginámos, não seria melhor limitarmos-nos à nossa questão original? Concordámos que o objetivo da vida era produzir boas pessoas e bons livros. (…)

- Assim que aprender a ler, só há uma coisa em que podes ensiná-la a acreditar, e é em si mesma. (…)

 

in: Uma Sociedade, de Virginia Woolf, Penguim Clássicos, Nº4, Lisboa, 2025

28 julho 2025

A Dama de Espadas | Puskine

O jogo interessa-me muito- disse Hermann - mas não posso arriscar o necessário para obter o supérfluo. 

- Hermann é alemão: é económico, está tudo dito - observou Tomski. - Mas, se há alguém a quem eu, neste caso, não compreenda, é a minha avó, a condenssa Ana Fédovna. (…) - Ora essa! - disse Narumof. - Que pode haver de estranho em que uma mulher de oitenta anos não jogue? (…) - Pois então, ouçam.

Antes de mais, importa dizer-lhes que a minha avó, há uns sessenta anos, foi a Paris, onde fez furor. Seguiam-na aos grupos; toda a gente queria ver a Vénus Moscovita. Richelieu, que lhe fez corte, quase se suicidou por ela não corresponder aos seus desejos. Nesse tempo as damas tomavam atitudes de rainhas. (…) Uma noite, na corte, a minha avó, que estava a jogar contra o duque de Orleães, perdeu (…) confessou a sua dívida ao meu avô; convidou-o a pagá-la. (…) Temia-a como ao fogo. (…) Em resumo, recusou-se a pagar. A avó deu-lhe uma bofetada e, para consumar a desgraça, foi dormir noutro quarto. (…) 

Mas, meu caro Conde - respondeu a minha avó - já lhe disse que não ficámos com dinheiro nenhum! - Nem é preciso - replicou Saint- Germain. - Ora faça favor de ouvir o que lhe vou dizer … E revelou-lhe então um segredo que qualquer de nós pagaria por um bom preço … Os jovens jogadores redobraram de atenção. Tomski acendeu o cachimbo, tirou uma fumaça e continuou: (…) 

Como está o tempo? Há vento, não? - Não, excelência - respondeu o criado de quarto - está muito agradável. - Vocês respondem sempre ao acaso. Abre a janela. Bem dizia eu! Está vento; e um vento desabrido. Manda desatrelar! Lisanka, não saímos. (…) "E é isto a minha vida!" pensou Lisavete Ivanovna. 

 Lisavete Ivanovana era na verdade, muito infeliz. (…) Era avara e comprazia-se num pio egoísmo, como todos os velhos para os quais o amor morreu e que são hostis ao presente. (…) Vestida e pintada à moda antiga, ficava sentada a um canto, adorno repugnante e obrigatório dos salões de baile. (…) Em sociedade, o seu papel era dos mais miseráveis. Todos a conheciam, ninguém reparava nela. (…)

A condessa não respondeu. Hermann apercebeu-se então de que estava morta. (…) Ninguém chorava (…) A condessa era tão velha que a sua morte não podia surpreender ninguém e há muito tempo os parentes a consideravam como já não fazendo parte deste mundo. (…) 

Mas a mulher vestida de branco aproximou-se mais, colocou-se diante dele e Hermann reconheceu a condessa. (…) Vim a tua casa contra a minha vontade - disse em voz firme - Mas foi-me ordenado que satisfizesse o teu pedido. Terno … sete … às … ganharão a seguir,  mas é preciso que jogues só uma carta por noite e que nunca mais voltes a jogar em toda a tua vida. Perdoar-te-ei a minha morte com a condição de casares com a minha protegida Lisavete Ivanovna. (…) e escreveu a narrativa da sua visão. (…) Hermann bebeu um copo de limonada e voltou para casa. (…)

O às ganha! Disse Hermann - A sua dama perdeu - disse Tchekalinski com suavidade. Hermann estremeceu: com efeito, em vez de um ás, tinha na mão a dama de espadas. Não acreditava no que lhe diziam os seus olhos, não compreendia qual a razão do seu equívoco. No mesmo instante pareceu-lhe que a dama de espadas piscava maliciosamente um olho e lhe sorria. De súbito, reparou na semelhança extraordinária … - A velha! - exclamou espantado. Tchekalinski recolhia as notas. (…)

Hermann enlouqueceu. (…) murmura numa obcecação contínua: «Terno, sete, às! Terno, sete, dama!»


in: A Dama de Espadas, de Puskine, Publicações Europa-América, Lisboa, Julho de 2007 (Diário de Notícias)

12 julho 2025

O Coração da Bruxa | Genevieve Gornichec

 Asgard era um lugar novo, apareceu uma bruxa vinda dos confins dos mundos. Conhecia muitos feitiços antigos, mas era especialmente habilidosa com seior, uma magia que permitia viajar para fora do corpo e adivinhar o futuro. (…)

Espetaram-lhe lanças e queimaram-na três vezes, e três vezes a bruxa renasceu. (…) Quando os Vanir souberam do modo como os Aesir a estavam a tratar, ficaram furiosos, e assim foi declarada a primeira guerra no cosmos. De terceira vez que renasceu, Gulleveig fugiu, no entanto, deixou algo para trás: o coração trespassado por uma lança e ainda a fumegar na pira. Foi aí que ele o encontrou. (…) 

Encontrou a bruxa a contemplar a deusa floresta e as montanhas que se viam ao longe (…) o sol brilhava, mas ela estava sentada à sombra, encostada ao tronco de uma árvore, com as mãos cruzadas no colo. (…)

És uma mulher difícil de encontrar (…) Estava ali para devolver o que ela deixara no salão de Odin (…) algo o atraía nesse dia, até à floresta de ferro, com o coração da bruxa no saco. (…) A princípio a bruxa não respondeu, optando por estudar o estranho homem que se aproximava. (…) Admiro sinceramente o teu trabalho. (…) consegues semear o caos onde quer que vás. Fazes com que os poderosos lutem pelos seus talentos. É realmente impressionante. - Não era essa a minha intenção - replicou a bruxa, passado um momento. (…)

Angrboda fez a sua casa no extremo oriental da Floresta de Ferro, onde as árvores se agarram precariamente às montanhas escarpadas (…)

Não sabia quanto tempo passara desde que se tinham encontrado junto ao rio, mas o seu cabelo castanho-claro já tinha crescido, liso e bonito. (…)

E assim Skadi construiu-lhe uma mesa, dois bancos e um estrado de cama, que encostaram à parede e cobriram com cobertores e peles (…) mas a melhor criação da caçadora foi a última: uma cadeira, para colocar junto à lareira. Angboda gravou-a com padrões e espirais e colocaram peles sobre o assento para ficar mais confortável. (…)

Desde que chegara à Floresta de Ferro, depois de ter sido queimada, os bosques tornavam-se mais verdes a cada primavera (…)

Loki (…) quando deixo o meu corpo sinto-me ligada a tudo. Sou parte de todos os mundos (…) coisas que ainda não aconteceram (…)

Ali ficaram a olhar uma para a outra (…) passou o dedo numa das espirais que gravara no braço à muito tempo! (…)

Havia aqui uma bruxa que deu à luz os lobos (…)

Com poções e feitiços curou os doentes (…) aquela ajuda parecia-lhe natural. (…)

Dormia quase sempre sozinha, sob a capa, nas florestas ou nas montanhas (…) os únicos ornamentos que possuía eram as contas de âmbar, o cinto e a faca (…) Por vezes a cabeça doía-lhe tanto que nem sequer conseguia andar (…) 

Concebe o último desejo a uma mulher morta - sussurrou Skadi (…) e deixa-me partilhar a tua cama, partilhá-la verdadeiramente, esta e todas as noites até ao fim. E, Angrboda assim fez. Os meses que se seguiram pareciam quase um sonho (…)

Quando o dera à luz, era apenas uma cobra verde, pequena, agora a sua cabeça assemelhava-se mais à de um dragão. (…)

Quando voltou a abrir os olhos (…) envolta dos ombros da amante. (…) Conseguiste. Está na hora. (…) 

(…) a faca de cabo de cifre de Angboda, aquela que usava no cinto (…) olhou para a espada à cintura de Skadi e perguntou: - Era do teu pai? (…)


in: O Coração da Bruxa, de Genevieve Gornichec, Editora Minotauro, 2023

10 junho 2025

Sobre a Serenidade do Homem Sábio | Séneca

O homem sábio está seguro, e nenhuma injúria nem insulto pode afectá-lo. (…)

Sim, irão tentar, mas a injúria não o alcançará. O homem sábio está tão longe dos seus inferiores, que nenhum impulso maligno manterá a sua força até o alcançar. (…)

Aliás, não sei se a sabedoria não se demonstra melhor pela calma no meio do incómodo. (…)

Sozinho e idoso (…) carrego comigo tudo o que alguma vez tive. (…)

As muralhas que protegem o homem sábio estão a salvo do fogo e das invasões hostis; não têm passagem; são altas, impermeáveis, divinas. (…)

Além disso, aquilo que fere deve ser mais forte, do que aquilo que é ferido. Ora a maldade não é mais do que a virtude, logo, o sábio não pode ser ferido. Só os maus tentam ferir os bons. Os homens bons vivem em paz e entre si; os maus são igualmente perversos com os bons e uns com os outros. (…)

Ora, o homem livre de erros não se perturba; ele é senhor de si mesmo, gozando de repouso mental profundo e tranquilo. (…) Pensa que o homem sábio pertence a esta classe - a dos homens que, pela prática longa e fiel, adquiriram força para suportar e causar toda a violência dos seus inimigos. (…)

Há outras coisas que atingem o homem sábio (…) como a dor física e a fraqueza, a perda de amigos e filhos, e a destruição de seu país em tempo de guerra (…) O que faz ele então? Recebe alguns golpes, mas quando se eleva acima deles, cura-os e põe-lhes fim. (…)

O homem sábio lida com todos os homens do mesmo modo, que o médico lida com todos os pacientes. (…) O sábio entende que aqueles que se pavoneiam em togas roxas, saudáveis e bronzeados, têm um problema mental, considera-os doentes e loucos. Por isso não se irrita com eles. (…)

A vergonha da pobreza atormenta alguns homens, e quem a esconde faz dela uma vergonha para si. Por isso se fores o primeiro a reconhecê-la, tiras o tapete dos que te insultam e escarnecem de ti - ninguém ri de quem começa por rir de si próprio. (…)

Por vezes perderemos até o que nos faria bem, enquanto torturados por essa dor feminina de ouvir algo que não é do nosso agrado. (…) A liberdade consiste em elevar a mente acima das injúrias e tornar-se alguém cujos prazeres vêm apenas de si próprio. (…)

Quanto mais nobre um homem for por nascimento, reputação ou herança, mais corajosamente se deve comportar, lembrando-se que os homens mais altos ficam na linha da frente na batalha. (…) Mantém o posto que te foi atribuído pela natureza. Perguntas tu: que posto é esse? O de ser homem. (…) Não lutes contra a tua própria vantagem e, até que tenhas encontrado o caminho para a verdade, mantém viva essa esperança na tua mente (…) É do interesse da humanidade que haja alguém inexpugnável, alguém contra quem a fortuna não tenha poder. (…)

Isso não pode ser feito sem ócio (…) Na verdade o pior dos nossos males é mudarmos os nossos vícios. (…) 

O dever de um homem é ser útil aos seus semelhantes; se possível a muitos deles; não o sendo, ser útil a alguns; não o sendo, ser útil aos seus vizinhos, e, não o sendo, a si mesmo. Pois, quando ele ajuda os outros, promove os interesses gerais da humanidade. (…)

Compreendamos que existem duas repúblicas: uma vasta e verdadeiramente «pública», que contém deuses e homens; (…) e outra à qual fomos designados pelo acidente do nascimento. (…) Alguns homens servem os dois Estados, o maior e o menor (…) Podemos servir a comunidade maior mesmo quando estamos em ócio. (…) Investigamos o que é virtude, se ela é uma ou muitos, se é a Natureza ou a Arte que torna os homens bons. (…)

A grande paixão pelo desconhecido (…) a nossa curiosidade (…) A Natureza deu-nos uma disposição inquiridora e, conhecendo bem a sua própria habilidade e beleza, produziu-nos para sermos espectadores das suas vastas obras. (…)

Porque mesmo a contemplação não é desprovida de ação. (…)

Além disso, há três tipos de vida, e é uma questão recorrente qual dos três é o melhor: o primeiro é dedicado ao prazer, o segundo à contemplação e o terceiro à ação. (…)

Um homem pode viver no ócio; não apenas suportando-o, mas escolhendo-o. (…)

      

in: Sobre a Serenidade de Um Homem Sábio, de Séneca, Publicado em Portugal por: Ideias de Ler, Porto, Janeiro de 2025

08 abril 2025

Eros | Anne Carson

 Foi Safo quem primeiro chamou a Eros amargo e doce. (…)

A experiência de muitos amantes validaria tal cronologia, especialmente na poesia, em que a maior parte dos amantes termina mal. (…) O amor e ódio constroem entre si a maquinaria do contacto humano. (…) «E o ódio começa onde o amor parte …» sussurra Annak. (…)

Eros derruba um amante com o choque entre quente e frio no poema de Anacreonte (…) ao passo que Sófocles compara a experiência a um pedaço de gelo a derreter em mãos quentes. (…)

O desejo não é simples. Em grego, o acto de amar é um acto de misturar, e o desejo derrete os membros. Fronteiras do corpo, categorias do pensamento confundem-se. O deus que derrete membros procede para quebrar o amante, como faria um inimigo no campo de batalha épico. (…)

A palavra grega Eros denota «escassez», «a carência», «desejo pelo que está em falta». O amante quer o que não tem. (…) Um espaço deve ser mantido, ou o desejo acaba. (…) 

Foi Safo quem assemelhou uma rapariga a uma maçã. (…)

Eros tem que ver com fronteiras. Ele existe porque certas fronteiras existem (…) a fronteira que engendra Eros: a fronteira de carne e ser entre ti e mim. (…) Quando necessito de ti, uma parte de mim desaparece: a minha necessidade de ti toma parte de mim. Assim raciocina o amante no limite de Eros. (…) Os seus pensamentos viram-se para questões de identidade pessoal: ele deve recuperar e reincorporar o que se perdeu para poder ser uma pessoa completa. (…)

Os interlocutores são levados a reconhecer que todo o desejo é anseio por aquilo que propriamente pertence àquele que deseja, mas foi de alguma forma perdido ou subtraído - ninguém explica como. (…) Assim, Sócrates dirige-se aos dois rapazes, os seus interlocutores, e diz: (…) o desejo e o amor e o anseio são dirigidos àquilo que se assemelha ao próprio, segundo parece. Por Isso (…) pertencem um ao outro. (…) 

O desejo muda o amante. «Como é curioso»: ele sente a mudança acontecer, mas não tem categorias à mão que a avaliem. A mudança dá-lhe um relance sobre uma versão do eu que ele ainda não conhecia. (…) O amante aprende à medida que a perde, a valorizar a entidade delimitada de si próprio. (…)

Quando as pessoas começam a aprender a ler e a escrever (…) se a presença ou ausência de literacia afeta o modo como uma pessoa entende o seu próprio corpo, sentidos e eu, esse efeito irá influenciar a vida erótica. (…) 

Controlar as fronteiras é possuir-se a si próprio. (…)

Asas e respiração transportam Eros do mesmo modo que asas e respiração comunicam palavras: torna-se aqui aparente uma analogia antiga entre linguagem e amor. (…)

A imaginação é o centro do desejo. Age no centro da metáfora. É essencial para a actividade da leitura e da escrita. (…) Ao escrever sobre desejo, os três poetas arcaicos criaram triângulos com as palavras. (…) envolver dois factores (amante e amado) em termos de três (amante, amado e o espaço entre eles, de alguma forma tornado real). (…)

O poder de mudar a realidade eroticamente. (…)

As palavras que lemos e as palavras que escrevemos nunca dizem exatamente o que queremos dizer (…) Eros está entre. (…)

O tempo passa. O tempo é um riacho que flui (…)

A este estranho poder que a escrita tem (…) No Fedro é um jovem que se apaixonou por um texto escrito. (…) A escrita Fedro, tem esse estranho poder, na verdade muito se assemelha à pintura. (…)

Jardins e escritores (tempo)… Amantes e leitores têm desejos semelhantes (…) No meio está o Eros. (…)

Como é que acontecimentos exteriores entram e tomam posse da psique de uma pessoa? Eros toma conta da mente e do corpo (…) Ninguém pode lutar contra Eros! (…)

Os fatos são os de que Eros muda tão drasticamente que pareces tornar-te uma pessoa diferente. (…)

Põe-nos asas na alma. (…) As asas são um instrumento de dano e de poder irresistível. (…) «Faz voar o meu coração» (…) 

Como poderia eu fugir a pé de quem me persegue com asas? (…) Têm raízes naturais em cada alma, um resíduo dos seus inícios imortais. (…) São as tuas asas a brotar. É o início daquilo que pretendes ser. (…)

A única preocupação do amante é estar com quem ama. (…)

Ao adicionar pt a Eros, os deuses criam Pteros, que é um jogo com a palavra grega Pteron, que significa «asa». (…) O desejo envolve uma «necessidade que dá asas». 

Pteros é mais verdadeiro que Eros. (…)

Eros, algo que se move no espaço intermédio. E é isso que há de mais erótico em Eros. (…) 

Uma cidade sem desejo é uma cidade sem imaginação. (…) Um acto de imaginação a que se chama phantasia. (…)  

Eros faz de todo o homem um poeta! (…)

Quando a mente se dispõe a conhecer abre-se um espaço do desejo e torna-se evidente a ficção (…)


in: Eros, Amargo e Doce, de Anne Carson, Edições 70, Lisboa, Out. 2024

21 fevereiro 2025

Lady Susan | Jane Austen

Minha querida Fanny:

Sou a criatura mais feliz do mundo, uma vez que acabo de receber uma proposta de casamento do senhor Watts. É a primeira que recebo e não sei como avaliá-la. Que triunfo o meu nome sobre as Dutton! Não tenho intenção de a aceitar, pelo menos é isso que penso, mas, como não estou completamente certa, dei-lhe uma resposta um tanto ambígua e fui-me embora. E agora, minha querida Fanny, queria que me aconselhasse se devo, ou não, aceitar a proposta. Mas, para que possa julgar os seus méritos e as circunstâncias da situação, far-lhe-ei um relato dos mesmos. Trata-se de um homem bastante mais velho, de uns trinta e dois anos, muito feio, tão feio que mal consigo olhar para ele. É extremamente desagradável e odeio-o mais do que a qualquer outra pessoa no mundo. Tem uma fortuna enorme e propõe -se pôr muitos bens em meu nome no contrato pré-nupcial, mas … goza de muito boa saúde. Resumindo, não sei que fazer. Se o rejeito, é perfeitamente capaz de ir pedir Sophia em casamento. Se ela recusar, pede a Georgiana e eu não seria capaz de ver nenhuma das duas casas antes de mim. Se aceito, sei que vou ser uma desgraçada o resto da minha vida, uma vez que tem um temperamento terrível, sendo irritante, extremamente ciumento e tão mesquinho, que viver a seu lado não é viver. (…) E prometeu-me que iria ter uma nova carruagem para a ocasião. No entanto, quase acabámos por discutir acerca da cor, porque eu insisti que deveria ser azul com pequenas bolas prateadas e ele declarou que deveria ser cor de chocolate e lisa. Para me provocar ainda mais, disse-me que deveria ser tão baixa como a antiga, de que era proprietário. Assim, juro que não me caso com ele. Disse-me que voltaria amanhã para conhecer a minha resposta final, pelo que julgo que devo agarrar enquanto posso. Sei que serei invejada pelas Dutton e poderei acompanhar Sophy e Georgiana em todos os bailes de inverno. Mas de que servirá tal coisa, se o mais provável é que não me deixe ir, dado que odeia dançar e é incapaz de pensar que alguém possa gostar de algo que ele odeia. Por outro lado, passa o dia a dizer que as mulheres deveriam estar sempre em casa e tolices do género. Acho que nunca me vou casar com ele. (…)

- Por favor, Sophy, diga-me, pretende casar-se?

- Casar-me! Não faço a menor intenção. Mas, porque é que me pergunta? Conhece alguém que quer pedir-me em casamento? (…)

- Por favor, minha senhora, não force a Menina Stanhope a comportar-se com delicadeza. Se ela não aceitar a minha mão, pode oferecê-la a outra pessoa, uma vez que, se é certo que sinto por ela especial predileção, acima das suas irmãs, é-me indiferente casar com qualquer uma das três.

Será possível imaginar alguém mais canalha! Sophy ficou vermelha de raiva e eu senti-me terrivelmente despeitada. 

- Bem, nesse caso - disse Mary em tom depreciativo - e uma vez que devo fazê-lo, casar-me-ei com o senhor Watts.  

- Sempre pensei, menina Stanhope, que fazendo um pedido como lhe fiz, e em condições tão vantajosas, não haveria grande dificuldade em aceitá-lo. (…)

- Lambre-se do estipulado para os meus alfinetes: duzentas libras por ano. 

- Cento e setenta e cinco, minha senhora. 

- Duzentas, caro senhor - disse a minha mãe. (…)

O senhor Watts dispunha-se a continuar, quando Mary o interrompeu, dizendo:

- Deve construir-me uma estufa muito elegante e enchê-la de plantas até ao teto. Tem de permitir passar todos os invernos em Bath, todas as primaveras na cidade, todos os verões em viagem e todos os outonos numas termas. Se estivermos em casa o resto do ano (Sophy e eu rimo-nos), terá de se responsabilizar pela  organização de bailes e festas durante o tempo todo. Tem de mandar construir um salão com esse objetivo e um teatro onde se possa representar. A primeira obra de teatro que aí se representará será Quem é o Homem e eu interpretarei Lady Bell Bloomer.

- E a menina Stanhope pode dizer-me o que vou obter em troca de tudo isso? - perguntou o senhor Watts.

- O que vai obter? Vai ver-me contente!

- Seria estranho que não o estivesse. No entanto, minha senhora, as suas expectativas são excessivamente altas para a mim e, agora, devo dirigir-me à menina Sophy. Talvez as dela não sejam tão elevadas. 

- Engana-se ao supor tal coisa, cavalheiro - disse Sophy - porque, apesar de as minhas expectativas não serem da mesma ordem que as da minha irmã, são tão elevadas como as dela, uma vez que quero que o meu marido tenha bom caráter e seja alegre. Que em todos os seus atos, pense na minha felicidade e que me ame com constância e sinceridade. 

O senhor Watts ficou a olhá-la perplexo. (…)

- Graças a Deus que se foi embora! Como o odeio!

Em vão, a mamã tentou explicar-lhe como era impróprio detestar a pessoa com quem se ia casar, ela continuou a falar da sua aversão àquele homem e do muito que gostaria de nunca mais o ver. Que belo casamento há de ser! 

Adeus, minha querida Anne.

Sua amiga afetuosa (…)


in: Lady Susan, Escritos da Juventude, de Jane Austen, Cranford Collection, 2022

14 janeiro 2025

Thomas More | Peter Ackroyd

 No ar, pairariam todos os odores da madeira, da pedra e do fumo, das ervas secas e das carnes assadas. (…) Estas famílias ricas da Idade Média tardia viviam confortavelmente. (…)

A vida escolar podia, porém, ser severa, e o castigo, ou a ameaça de castigo, era um aspeto permanente da educação de uma criança. Há toscas xilogravuras que nos mostram o interior de uma sala de aula; em algumas, o mestre segura um livro, noutras, empunha uma vara; em Utopia, More fala dos maus professores que preferem bater a educar os seus alunos. (…)

Em A Dialogue of Confort Against Tribulation, escrito na cela de prisão que foi a sua última morada neste mundo, More condenava o «buliço labirinto circular desse mal a que chamamos negócios». (…)

Andava agora constantemente rodeado por acompanhantes e a sua eminência na corte real era tal que, na Primavera do ano seguinte, foi-lhe concedido o lucrativo cargo de vice-tesoureiro. Neste papel, estava encarregado de supervisionar o trabalho da Fazenda, onde os funcionários registavam o apropriado desembolso ou coleta de taxas. (…) O vice-tesoureiro tinha direito ao titulo de cavaleiro, segundo o costume, e assim foi que Master More se viu transformado em Sir Thomas More. Tornara-se, nas palavras do próprio rei, «o nosso fiel e amado conselheiro Thomas More, agora feito cavaleiro». Era eques auratos, obrigado a usar a corrente de cavaleiro e esporas douradas quando montasse. Era um cavaleiro de ar jovial, mas por detrás desta assunção de condição continuava a haver uma tradição viva de honra e cavalheirismo que More teria absorvido de Chaucer, Malory e Lydgate: o «parfit gentil» cavaleiro era alguém que amava «a verdade e a honra, a liberdade e a cortesia». (…)

No seu Elogio da Loucura, Erasmo tinha já deixado claro que os loucos são na verdade sábios em comparação com a sabedoria vulgar do mundo, e More parecia ficar deliciado quando o duque de Norfolk lhe censurava a loucura e, em Coventry, troçou dele por ser «louco». Era louco como Sócrates e Luciano eram loucos; eram os verdadeiros sábios da humanidade que, na sua loucura, recusavam aceitar as loucuras da era. Quando Richard Pace foi criticado por usar uma capa de bobo numa mascarada, More terá supostamente respondido: «Não, não. Desculpai-o. É menos pernicioso para a comunidade quando os homens sábios se disfarçam de tolos na brincadeira do que quando os tolos se disfarçam de homens sábios a sério.»

O Bobo é maleável e sabe representar muitos papéis, como o próprio More fazia; e sabe também dizer a verdade através do humor. (…)

A guerra, a heresia e a anulação eram, pois, as três grandes preocupações que afligiam o espírito de More. (…)

More ajoelhou e o carrasco ofereceu-se para lhe vendar os olhos; mas ele recusou e cobriu o rosto com um pano de linho que levara consigo. (…) Assim terminou a vida de Thomas More, um dos poucos londrinos alguma vez canonizados e o primeiro laico inglês a ser beatificado como mártir.


in:  Thomas More, Biografia, de Peter Ackroyd, Bertrand Editora, Lisboa, 2003

30 dezembro 2024

Exposição Museu Municipal de Portalegre

 


in: As Árvores e Não Só, Desenhos de Ana Gaspar, Uma Exposição no Museu Municipal de Portalegre, Outubro e Novembro de 2024

10 dezembro 2024

Matarás Um Culpado e Dois Inocentes | Rodrigo Guedes de Carvalho

 Os dois homens que falam com Miguel Serafim são as maiores cumplicidades de uma vida inteira. Amigos de todo o espantoso, difícil, arriscado, enervante, embriagado período da adolescência, que parece que nunca mais passa quando estamos lá dentro, e depois é uma adulta vida inteira a desejar reviver esses anos. E todos temos o mais impossível dos pedidos - regressar à juventude com a manha sábia de um velho. (…)

Às vezes tento explicar à malta mais nova que não há maior fortuna do que esta. Não ter vivido uma guerra. Mas ninguém liga. Não percebem. 

- Sempre muito zangadinhos e tristonhos nas vidinhas confortáveis. (…)

E Miguel Serafim é o Maestro antes de ser maestro. É a alcunha mais curiosa, uma inusitada coincidência. Foi-lhe dada muito antes de ele decidir que seria músico de profissão e conduzir orquestras. Chamavam-lhe Maestro porque desde pequeno demonstrava comportamentos comandados por pequenas e grandes obsessões, extremamente incomuns para a idade. Manias de ordem, simetria e higiene. Gestos adultos, repetidos como rituais. Maestro. (…)

Quando toda a gente se conhece, vêm coisas boas, e outras menos. Sabem uns dos outros os nomes e famílias, e moradas, e manias, se as houver. Sabem horários da escola, da farmácia, do mercado, do cemitério. Falta privacidade, a quem a deseja, embora quase todos estejam habituados a ser livro aberto, condição compensada pelo conforto de auxílio rápido se alguém precisa de ajuda. (…)

Por vezes, e isto é estranho, uma mesma frase, sem tirar nem pôr, pode ser dita com desprezo, ou receio, ou admiração 

- A Benilda fala com os mortos.

- A Bernarda entende malucos.

- A Berenice vi-a eu a descer a colina com um lobo ao lado.

E de Benedita não havia nada de especial a apontar, que não fosse o sorriso permanente, e se era matéria sobre as irmãs - com quem falavam ou deixavam de falar - então que seja dito que Benedita falava com toda a gente e toda a gente falava com ela, talvez por ser a mais nova e para sempre a mais pequena, que não tendo crescido tanto como as irmãs ganhava na alegria simples de cirandar a ver se estavam todos bem ou se alguém precisava de alguma coisa. (…)

O amor não correspondido traz uma dose de enervamento. A não consumação. O desconhecimento do toque, odor, textura do objeto de desejo. O que nunca foi, e para sempre estará vedado. (…)

- Hoje ja tens idade para saberes que andávamos há muito tempo com a ideia de nos suicidarmos juntas. Até foi a Benedita a primeira a falar disso. (…)

Há desde sempre amos e servos. E a dinâmica entre amos e servos engole tudo, qualquer resistência, acabou por devorar utopias de igualdades, as que já foram e as que os ingénuos do futuro ainda hão-de tentar reerguer. Sazonalmente, que é como quem diz umas duas vezes ao século, nasce alguém que julga que vai inventar outra vez a roda e descobrir o fogo. Depois de tropeções, aparentes progressos, descaminhos e linhas retas que começam a entortar, sobeja, paciente, a rir-se de algumas pontes frágeis, a linha funda entre amos e servos. (…)

O mais extraordinário e macabro é que Feliciana matou as irmãs porque pensou que se podia safar. Era só defender e fortalecer a velha teoria de que elas se queriam suicidar. Nenhuma delas, nem mesmo a desconfiada Bernarda, podia sequer imaginar que houvesse uma força assim dentro de alguém. Um ódio tão violento, desmedido, um ódio nascido de um cruzamento complicado com o amor. Com o que ela julgava ser amor. Com o amor que ela conhecia. Um amor que anda sempre, sempre, de braço dado com mais completo e simples e horrível ciúme. O ciúme do porque sim. O ciúme da posse pela posse, que julga poder segurar o amor à força de o estrangular. E que estrangular o amor vai fazê-lo ficar, vai fazê-lo amar de volta. Esse eterno e bruto equívoco que mudou cursos da História. (…)

Fiz ao meu corpo o que quis, sem a permissão dele. (…)

Só que as pessoas são animais de hábitos, ainda pior se são animais mascarados de pessoas. (…)


in: Matarás um Culpado e Dois Inocentes, de Rodrigo Guedes de Carvalho, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2024

18 novembro 2024

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá | Jorge Amado

O Vento a ajudaria a apagar as estrelas, a acender o Sol, a secar o orvalho e a abrir a flor denominada Onze Horas que a Manhã, só de ranheta, para contrariar, abre todos os dias entre as nove e meia e as dez. Se casasse com o Vento sairia com o marido mundo afora, sobrevoando o cimo altíssimo das montanhas, esquiando nas neves eternas, correndo sobre o dorso verde do mar, saltando com as ondas, repousando nas cavernas subterrâneas onde a escuridão se esconde durante o dia para descansar e dormir. (…)

Tantas queixas recebidas, tão grande atraso, o Tempo sente-se obrigado a ralhar com a Manhã, se bem, ao lhe chamar a atenção e ameaçar castigo, esconda um sorriso cúmplice no rosto solene de barbas e rugas. (…) 

Íntimos, demasiadamente íntimos, o Vento e a Chuva, companheiros de vadiagem. (…)

O Gato Malhado estirou os braços e abriu os olhos pardos (…) e sim, todo o corpo ágil, de riscas amarelas e negras. Tratava-se de um gato de meia-idade, já distante da primeira juventude, quando amara correr por entre as árvores, vagabundear nos telhados, miando à lua cheia canções de amor, certamente picarescas e debochadas. Ninguém podia imaginá-lo entoando canções românticas, sentimentais. 

Assim vivia ele quando a primavera entrou pelo parque adentro, num espalhafato de cores, de aromas, de melodias. Cores alegres, aromas de entontecer, sonoras melodias. O Gato Malhado dormia quando a primavera irrompeu, repentina e poderosa. Mas sua presença era tão insistente e forte que ele despertou do seu sono sem sonhos, abriu os olhos pardos e estirou os braços. O Pato Negro, que casualmente o olhava, quase caiu de espanto porque teve a impressão de que o Gato malhado estava sorrindo. Fixou o olhar, chamou a atenção da pequena Pata Branca:

- Não parece que ele está rindo?

- Santo Deus! Está rindo mesmo…

Jamais o tinham visto rir. (…) De repente rebolou-se na grama como se fora um jovem gato adolescente, soltou um miado que mais parecia um gemido. Foi uma emoção geral pelo parque. (…)

Foi uma triste constatação. Primeiro deixou de sorrir, mas depois encolheu os ombros num gesto de indiferença. Era um gato orgulhoso, pouco lhe importava o que pensavam dele. Até piscou - num gesto um pouco forçado - um olho malandro para o Sol (…) O Gato Malhado aspirou a plenos pulmões a primavera recém-chegada. Sentia-se leve, gostaria de dizer palavras sem compromisso, andar à toa, até mesmo de conversa com alguém. Procurou mais uma vez com olhos pardos, mas não viu ninguém. Todos haviam fugido. Não, todos não. No ramo de uma árvore a Andorinha Sinhá fitava o Gato Malhado e sorria-lhe. Somente ela não havia fugido. (…)

Andorinha Sinhá, além de bela, era um pouco louca. Louquinha, fica-lhe melhor. (…) Amiga das flores e das árvores, dos patos e das galinhas, dos cães e das pedras, dos pombos e do lago. Com todos ela conversava, um arzinho suficiente, sem se dar conta das paixões que ia espalhando ao seu passar. (…)

Assim são as andorinhas, o que se pode fazer? - não há forma de fazê-las compreender a verdade mais rudimentar, a mais provada e conhecida, se elas se metem a duvidar. São cabeçudas e se deixam guiar pelo coração. O Gato Malhado era a sombra na vida clara e tranquila da Andorinha Sinhá. (…)

Quanto ao Gato Malhado, também ele pensou na arisca Andorinha Sinhá, naquela primeira noite da primavera, ao repousar a cabeça no travesseiro. Aliás, eis uma coisa que ele não possuía: travesseiro. (…) Sendo de pouco luxo, não reclamava. Falta sentia de outras coisas: de afeição, de carinho e de salsichas vienences. (…) Creio que estou doente. - Colocou a pata sobre a testa e concluiu: - Estou ardendo em febre… Quando, ao cair da noite, voltava para a sua cama - um velho trapo de veludo - olhou uma flor e nela viu refletidos os rasgados olhos da Andorinha. (…)

Desejo dizer que há gente que não acredita em amor à primeira vista. Outros, ao contrário, além de acreditar afirmam que este é o único amor verdadeiro. Uns e outros têm razão. É que o amor está no coração das criaturas, adormecido, e um dia ele desperta, com a chegada da primavera ou mesmo no rigor do inverno. (…) 

De repente, o amor desperta de seu sono à inesperada visão de um outro ser. Mesmo se já o conhecemos, é como se o víssemos pela primeira vez e por isso se diz que foi amor à primeira vista. Assim o amor do Gato Malhado pela Andorinha Sinhá. (…)

Se eu não fosse um gato, te pediria para casares comigo…

A Andorinha ficou calada, num silêncio de noite profunda. Surpresa? - não creio, ela já adivinhara o que se passava no coração do Gato. Zanga? - não creio tampouco, aquelas palavras foram gratas ao seu coração. (…)

Não apenas com um manto contra o frio cobria-se o Gato Malhado naquela manhã de lírica inspiração: cobria-se também com o manto do amor. A poesia não está somente nos versos, por vezes ela está no coração, e é tamanha, a ponto de não caber nas palavras.


in: O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, uma história de amor, de Jorge Amado, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999

05 novembro 2024

Dentro da Loja Mágica | Dr. James Doty

Achava que tinha sorte quando, ao contrário da maioria dos meus amigos, nunca tinha de estar em casa a horas certas (…) Por vezes, aquilo que mais queremos é apenas ter alguém que fale connosco, que nos diga qualquer coisa. Porque isso significa que somos importantes. (…) Os adolescentes anseiam por liberdade, mas só se tiverem um suporte estável e seguro. (…)

Na escola de Medicina iria estudar o coração. (…)

Eu nunca ouvira dizer que cientistas famosos tivessem odiado os pais ou tido problemas com colegas de escola. (…) Hoje sei que grande parte do que Ruth começou a ensinar-me nesse primeiro dia está relacionado com o cérebro e com uma resposta extrema ao stress, ou aquilo a que a maioria das pessoas chama "lutar ou fugir". Se o cérebro deteta uma ameaça ou se teme pela sua sobrevivência, aquela parte do sistema nervoso autónomo chama sistema simpático reage e liberta pinefrina. (…)

Passa-se o mesmo com as feridas do coração. Precisamos de dar-lhes atenção, para que possam sarar. Caso contrário, a ferida continuará a fazer-nos sofrer. E por vezes durante muito tempo. Todos sofremos. É assim que as coisas são. Mas a verdade é que aquilo que nos magoa e nos faz sofrer também tem um importante propósito. É quando são feridos que os nossos corações se abrem. Através da dor, vamos crescendo. Crescemos com as situações difíceis. É por isso que temos de aceitar cada problema que surge na nossa vida. Tenho pena das pessoas que não têm problemas, que nunca passaram por momentos difíceis. Perderam a recompensa. Perderam a magia. (…)

Passara grande parte da vida a comparar-me com amigos (…)

A outra parte do processo de abrir o coração que vais ter mesmo de praticar - é importares-te contigo mesmo. Eu importava-me comigo. Isso ia ser fácil. (…) Cada um de nós escolhe o que é aceitável na sua vida. (…)

Jim, muitas vezes aqueles que nos magoam são os que mais estão a sofrer. (…)

E se conseguíssemos curar as nossas próprias feridas (…) Algo que todo o ser humano tem em comum é o primeiro som que ouve. O bater do coração da mãe. (…)

Quando os monges ouviram isto, desatar a rir. (…) »Toda a gente sabe que a compaixão não vem do cérebro, mas sim do coração.» A investigação mostra que o coração é um órgão inteligente. (…)

Ruth estava a melhorar a minha capacidade para controlar as emoções, a aumentar a minha empatia, as minhas aptidões sociais (…) Tentei abrir o coração. Fiz todos os esforços para recitar as minhas afirmações. Porém na minha mente eu continuava a ser o menino pobre, que vivia num pequeno apartamento e que tinha muitas vezes fome de comida e de amor. (…) Ruth ensinou-me a levantar-me sozinho. (…)

Há um velho provérbio, que diz: «Quando o estudante está pronto, o professor aparece.» Eras tu quem estava pronto. (…)

Há um imenso poder contido no propósito de cada um. (…) Cada um pode alterar o seu cérebro, percepções, reações e até mesmo o seu destino. Foi o que aprendi com a magia de Ruth. Podemos usar a energia das nossas mentes e a dos nossos corações para criar tudo o que quisermos. É um trabalho duro. (…) 

A energia não pode ser criada nem destruída. No entanto, pode mudar de forma e fluir de um local para outro! Essa é a dádiva que nos foi concedida. A energia do Universo está dentro de nós. Está na poeira das estrelas que nos enforma. Todo esse poder de criação. De expansão. Todo esse poder maravilhoso simples, sincronizado. A energia pode fluir de um sítio para outro. E de uma pessoa para outra. (…)

O tronco encefálico desenvolve-se e coordena as funções vitais essenciais, tais como o ritmo cardíaco, a respiração ou a pressão sanguínea - criando as condições para a vida fora do útero. (…) O cérebro não tem hipótese de se reformar - e cada experiência importa. (…)

Continuei a despejar o meu coração, durante o que pareceu uma eternidade (…) Sabem que não há a mínima prova de que um GPA elevado equivalha a vir a ser um bom médico. (…) Então o reitor levantou-se e apertou-me a mão. (…)

Nunca planeei tornar-me neurocirurgião. (…) Mais ainda, ser cirurgião plástico dos ricos e famosos era financeiramente compensador (…)

Aprendera a visualizar o que queria (…) Tornara-me arrogante. Conseguir tudo o que queria(…)

Como se estivesse a sonhar, vi-os embater de frente, contra uma árvore enorme. Nessa altura ficou tudo preto. (…) E tudo, ficou escuro. (…) Ainda tinha os olhos fechados, mas conseguia ouvir o hip dos monitores. (…)

Ao longo da vida podemos morrer milhares de vezes e essa é uma das maiores dádivas de estar vivo. (…) Senti o calor da luz e a unidade com o Universo. (…)

Bússola do coração. (…) Ao longo da vida, todos passamos por situações que nos fazem sofrer. Chamamos-lhe feridas do coração. Se as ignorarmos elas não saram. (…)

O teu coração é uma bússola e é o teu bem mais precioso. (…) O que pensas querer, nem sempre é o melhor para ti. Pensei que queria dinheiro. Na verdade, eu tivera dinheiro, mas parecia nunca era suficiente. (…) E eu continuava tão só, assustado e perdido como no primeiro dia em que conheci Ruth. (…) 

Adormecera a visualizar o meu coração. (…) Fechei os olhos e imaginei o meu coração a abrir-se (…) Enviei amor e perdão a mim próprio. (…)

Era altura de recomeçar a tornar-me realmente uma pessoa cujo valor não tinha a ver com dinheiro que possuía. (…) O cérebro tem os seus mistérios, mas o coração tem segredos que eu estava determinado a descobrir. (…)

Existe um epidemia de solidão (…)

Depois de ter perdido a minha riqueza, dediquei-me a ajudar os outros (…) Agir com bondade e compaixão e com um propósito. (…) 

Quando o amor é dado livremente, muda tudo e todos!


in: Dentro da Loja Mágica, de Dr. James R. Doty, 4ª Edição, Editora Leya, 2024 

12 outubro 2024

Annie Ernaux | Os Armários Vazios

Um calor estranho espalha-se logo como uma flor, algures no baixo-ventre. (…)

Estas palavras fascinam-me, quero agarrá-las, pô-las em mim, na minha escrita. Apropriava-me delas e, ao mesmo tempo, era como se me apropriasse de todas as coisas de que falavam os livros. (…) Adoro as palavras dos livros, aprendo-as todas. A minha mãe oferece-me o Larousse de páginas rosadas a meio, ela conta orgulhosamente à professora que passo horas com o nariz enfiado no dicionário. (…)

Aos poucos, as leituras tornavam-se inúteis, invento sozinha um nome, uma cidade, uma família. (…)

A égua preta! (…) Sempre a ler, a não fazer nada, no quarto, ou na cozinha, nunca na loja nem no café. (…)

A ligeireza, eis o que as distingue, e sempre impecáveis, asseadas. Os outros, os outros assemelham-se todos aos clientes. (…)

Por vezes sonho ser órfã. Ou faço resoluções, não volto a criticar nada, vou fingir que a casa me agrada. (…)

Os professores que me dizem que devo agradecer, que devo ser querida para ela, não aguentariam um dia em minha casa, ficariam repugnados, não param de dizer que têm pavor de gente grosseira, fazem cara de asno quando espirramos ruidosamente, se nos coçamos, se não nos sabemos exprimir. E queriam eles que eu fosse querida … Para me safar, tinha de fechar os olhos, fingir que comia, lia, dormia num hotel qualquer. Acima de tudo, não podia ver o que era feio, sujo, esfarrapado. (…)

No entanto, nada me escapou. Eu fingia simplesmente que não via, fechava-me no quarto com os meus livros, ignorava as bebedeiras no bar. (…) Farta. Detesto tudo. Atada de pés e mãos. (…)

O dia mais belo da minha vida teria incluído um frigorífico, cubinhos de gelo nos copos, iogurtes frescos, para convidar as minhas amigas. Não podia. E havia coisas piores, a ausência de casa de banho, o penico no quarto, ou a latrina no pátio, a merda a céu aberto. (…)

Nas aulas de Ciências Naturais, eu aprendia as regras de higiene, a luta contra os micróbios, forno de esterilização, lixívia, e vejo as moscas a redemoinharem de volta do patê, dos queijos, a minha mãe a apanhar as beatas com os dedos, os bêbados físicos a destilarem a sua porcaria no fumo que serpenteia do café à cozinha, paira sobre os nossos pratos. Lavar-me, uma obsessão, a grande banheira a transbordar de espuma. A felicidade. O meu primeiro duche, na cidade universitária, aos dezoito anos. Nem sequer tive prazer, cheirava a dia de lavar a roupa, eu ouvia a rapariga ao lado a esfregar-se. Senti-me constrangida. (…) 

A culpa é deles se … que se lixe o que os professores dizem sobre os pais. Eu era um pequeno monstro, uma miúda suja, perdida lá no fundo. (…) Não posso continuar a odiar sozinha. Queria que me vissem como eu que os clientes deles, a casa, era tudo mau, feio, humilhante, humilhante … «Deixa-nos em paz! Concentra-te nos teus estudos!» e «Mais tarde, fazes o que quiseres, estuda (…)»

Ninguém acreditaria que fui criada assim. Sozinha. Com o meu asco, os meus ataques de raiva. A culpa é deles … Não, eles nasceram assim. (…) Detestava-me por não ser querida para eles, por não ser como as outras, tão meigas, tão afetuosas. (…) Catorze anos e o mundo deixara de me pertencer. (…)

Eu estava farta de mim própria, ao ponto de explodir, não havia um canto, uma brecha onde enfiar a vergonha, o reconhecimento obrigatório aos pais, o obrigada a Deus por ter podido continuar os estudos e merda, lá se foram as tretas morais. (…)

Odeio-os mais do que nunca. Os meus pais não sabem nada, são uns ignorantes, uns labregos, nem música, nem pintura, nada lhes interessa a não ser vender litros de vinho, comer frango sem falar ao domingo. (…)

A minha amiga é filha de uns agricultores sovinas, vem à escola numa velha bicla, mal-vestida. Odette, a segunda melhor aluna da turma. Nunca falamos dos nossos pais. (…) Boas alunas. (…) Não gosto verdadeiramente dela. o professor de literatura cita Montaigne «porque era ele, porque era eu». (…) Umas marginais juntas, sem o sabermos. (…)

Tinha, no entanto, a impressão de guardar em mim uma graciosidade escondida, um ritmo de dança paralisado, a heroína dos romances pronta a ganhar vida. (…)

Eles faziam tudo por mim. (…)

Grávida e isso não faria sentido nenhum. Eu não queria morrer.


in: Os Armários Vazios, de Annie Ernaux, Livros do Brasil, Porto Editora, Abril de 2024

20 setembro 2024

A Idade do Sol | Exposição Ana Gaspar



in: A idade do Sol, (Exposição de Pintura: ecoline sobre papel de aguarela), de Ana Gaspar, na Biblioteca de Azeitão, 2 a 25 de Setembro 2024

18 setembro 2024

As Cinco Mães de Serafim | Rodrigo Guedes de Carvalho

Miguel Serafim tem uma convicção - quem sobrevive à morte de um grande amor nunca mais terá medo de nada. Nunca mais encontrará um adversário à altura e derrotará todas as circunstâncias. Qualquer outro acontecimento será menor, qualquer problema se resolverá. 

Miguel Serafim é o menos suicida de todos os seres. Tudo na morte o repugna e não lhe reconhece nenhuma vantagem. (…) Nenhuma flor sobre as campas o atrai. (…) A morte é só feia e invencível. (…)

A morte só entra em festas para caçar. (…) Estamos só todos em pânico, nada mais. O que fazemos com o medo é o que nos distingue - uns controlam-se, outros enlouquecem. (…)

Serafim quer cá estar. Jovem e bonito seria bom, mas se só lhe derem uma vida eterna de velho, tudo bem, aceita. (…) odeia a morte. É um ódio que traz desde sempre (…) Detesta as chamadas actividades radicais e os que as inventam e praticam, e impingem aos outros o suposto interesse de uma filosofia de constante desafio à morte. (…) Não se chama a morte para a mesa, não se lhe deixa a porta aberta, à espera de ver o que fará ela com uma oportunidade. (…) Miguel Serafim despreza quem despreza a vida. A extraordinária riqueza que nos cabe, de um dia nascermos e andarmos por aqui, num planeta de maravilhas. A dádiva da vida. Despreza quem demonstra não a merecer de facto (…) Pensou em muitas ideias, frases, imagens, antes de concluir que esta é, afinal, a expressão exata - a dádiva da vida. Há que respeitá-la acima de todas as coisas, de todos, de tudo o que possa suceder. A dádiva da vida trás um contrato e ele despreza quem não o leu ou não o compreendeu. A morte é para ser combatida. Evitada, sempre, até já não ser possível. É a luta que nos entregam assim que pela primeira vez respiramos, na primeira vez que abrimos os olhos, na primeira vez que reagimos a um ruído. Miguel Serafim acha que não devemos bater muitas vezes à porta do Diabo, que um dia ele vai abrir. (…)

Os amigos reconhecem-se e acenam, a contarem os segundos (…) e quem estiver a ver perceberá que no momento em que se abraçam com força imensa sorriem e choram, e não falam. Porque têm hoje sessenta anos e estão no mesmo sítio onde deram um abraço triste de despedida, e tinham então dezanove anos (…)

O suicídio é a coragem suprema ou a cobardia mais indigna? (…) Ou o extraordinário corajoso que abraça a morte no momento que escolheu porque não tem medo de nada (e isto, sim, é não ter medo de nada. Ou o desprezível fraco que tem tanto medo da vida que escolhe a saída fácil, a que se diz que acaba todo o sofrimento (…)

Quando Miguel Serafim desatou num choro nervoso. As cores estavam todas misturadas, numa amálgama que escangalhava o arco-íris em palete que fascinava o menino, o degradê de azulão, celeste, verde, alface, amarelo, laranja, vermelho, lilás, roxo, mais o preto e o branco nas pontas, e porque a caixa tinha agora uns montinhos de lápis de cor aflitos fora do lugar, Miguel Serafim irritou-se por eles, e antes que a mãe lhe aplicasse duas palmadas no traseiro (não suportava birras de sono) o pai tratou de arranjar a disposição das cores, em dois perfeitos noventa graus que se encostam, simétricos, e iluminam o céu depois da chuva, e o filho acalmou-se. Foi este comportamento que fez com que colegas e professores reparassem nele logo na primária. A lentidão meticulosa com que tirara da pasta os lápis, as canetas e o caderno, e os colocava no tampo da carteira sempre, mas sempre na mesma posição. Como em qualquer infância, foi por aqui que o atacaram: não se pode exibir de tal forma o calcanhar de Aquiles. Não tardaram os episódios em que fervia de ansiedade se lhe misturavam os objetos. Quanto mais se enervava, mais o provocavam. Depois os colegas e os professores habituaram-se. Já em pequeno Miguel Serafim só  entendia a existência como uma orquestra, a cada instrumento uma missão específica, de entrada e duração marcada na pauta. E todos constroem e respeitam uma harmonia. E um dia alguém se lembrou de lhe passar a chamar Maestro porque Miguel Serafim estendeu a obsessão à geral, o que significava que por vezes, distraído, alinhava os objetos das outras carteiras, aventurava-se até à secretária da professora, endireitava três ou quatro livros que ela tinha empilhado de qualquer maneira e, havendo no quadro negro alguns rabiscos mal apagados da aula anterior, apagava-os em círculos lentos, até a lousa voltar a brilhar. (…)

Os artistas pertencem à classe dos bandidos. De pequeno delito, a maioria, embora se conheçam saques de monta. Acontece porque o artista necessita de combustível para carburar. Por isso observa muita gente e muita coisa, o que o distingue das pessoas que olham só para ver por onde vão e não tropeçar, e que de resto se limitam a respirar, comer e trabalhar para ganhar dinheiro que lhes permita continuar a comer. Pessoas que se concentram nessa resposta básica que alimenta o corpo básico. Enquanto o artista está sempre a fazer perguntas, a interrogar-se, a questionar a forma como os mecanismos da vida funcionam. O artista é bandido por espia e rouba. Uma estratégia é espiar a vida dos outros e depois escrever o que observou. (…)

Tornou-se maestro contra o caos do mundo. Ninguém sabe que não era só a música. Era a ordem, a simetria, a matemática implacável das partituras. (…) Ninguém sabe que o Miguel Serafim gostava de chegar primeiro do que os músicos, vê-los ocupar cada um o seu espaço, como alinhavam a cadeira e o suporte de pauta, como verificavam se a luz está bem posicionada. Os que aprumam a fatiota, orgulhosos e confortáveis, os que estão sempre a desejar que pudessem actuar mais informais. As peças de xadrez todas  a mexerem-se, gestos, barulhos, risos, tosses, o violoncelo a fazer escalas para afinar, as falanges dos violinistas a sentirem as cordas, ainda sem arco. Depois ele ergue a batuta, imóvel por segundos em posição de profeta, e tudo acontecerá consoante a sua vontade e mandamento. Tornou-se maestro na busca de uma ordem. Uma serena limpidez que o impedisse de desistir e matar-se. Pensou nisso muitas vezes desde o horror. Levou muito tempo a abandonar a ideia e a passar para o oposto. Decidiu viver, com todos os custos, sozinho contra a violência do que perdeu. (…)

Mas todos os grandes músicos amam o silêncio, que vale tanto ou mais do que uma nota a tinir. Gostava do silêncio acima de todas as coisas, e pessoas assim tendem a ligar-se só a quem respeite e compreenda. O que poderá explicar porque é que os grandes amigos ficam tantas vezes calados, lado a lado, a olhar a mesma paisagem. (…)

Que sabem realmente as pessoas da vida dos outros? Porque falam tanto, cheias de certezas, porque apontam factos os meros e gratuitos palpites? (…)

Os dias são candeeiros de lava, uma matéria pastosa que parece quase parada mas move-se, impulsiona e transforma a forma seguinte. (…)

Até para chorar é preciso estar com cabeça e disponibilidade. Com quantas emoções conseguimos lidar ao mesmo tempo? (…)


in: As Cinco Mães de Serafim, de Rodrigo Guedes de Carvalho, Editora Dom Quixote, Lisboa, 2023

13 agosto 2024

Medusa | Jessie Burton

Falas como uma poetisa - disse Perseu. - Uma poetisa marinheira. (…) Fechei os olhos. Vá lá, Medusa. Tu és mais forte do que isso. As minhas cobras juntaram-se mais, formando uma auréola protectora, mas não me senti mais forte. (…)

O ar é fresco. O céu desvanece-se de um azul carregado para um negro profundo. E há sempre uma brisa, um silêncio para o coração perturbado. Um sítio secreto. Eu lembro-me. - Perseu ficou em silêncio por um momento. (…) Toquei nas minhas cobras, que agora dormiam tranquilas. (…)

Infância, esse país de onde vimos mas nunca conseguimos identificar com precisão no mapa. (…)

Não interessa - eu nunca conseguiria explicar a este rapaz dourado e brilhante como era ter o azar a acumular-se, imparável, aos nossos pés, até sentirmos que nos estávamos a afogar na nossa própria tristeza. (…)

Claro que as minhas irmãs tinham razão. Eu havia mudado, só que desta vez, felizmente, era uma mudança que não se podia ver. (…) Pensei em Perseu escondido na gruta. Tinha sido tão fácil falar com ele. Era o meu segredo. Eu nunca tivera um segredo, ainda para mais escondido das minhas irmãs, que haviam feito tudo o que era possível para me proteger depois da vida ter corrido mal. (…) Um segredo era uma fissura no chão entre nós. (…) Durante muito tempo o amor fora um fantasma. (…)

Percebi que o meu cabelo tinha desaparecido e que no lugar havia agora uma coroa de serpentes, vigorosas, fortes, de todas as cores do arco-íris. (…) Medusa - prosseguiu a deusa. - ouve bem. Ai do infeliz que se atreva a olhar para ti agora! (…) 

Senti-me deslocada em relação a mim mesma, como se o meu coração e a minha alma tivessem sido removidos do seu lugar. Percebia que as minhas cobras não gostavam. (…) Teria que passar o resto da minha vida escondida numa caverna? (…) Acariciei a cabeça da pequena Eco, tentando reconfortá-la. Calisto, uma cobra maior, de cor magenta profundo (…)

Já provaram algum perigo doce? (…) Pior, porque depois de o provarmos, tudo o que vier a seguir só pode ser enfadonho. (…)

Aquilo de que nos lembramos e de que modo o lembramos faz de nós o que somos. Talvez tenhamos uma escolha ou talvez não. (…)

Ouve - disse Euríale, começando a perder a paciência - és diferente de todas as mulheres do mundo. Deverias desfrutar disso. (…)

Eu estava encurralada. Era a única pessoa que nunca poderia escapar. (…) Mas, não eu era Medusa. Um monstro. Uma rapariga que se escondia. (…) Se eu fosse uma caixa trancada, Perseu poderia ter sido o único a encontrar a chave. (…) Ambos éramos centenários e cordeiros. Eu esperava pelo amor. (…)

Eu e Perseu. A Lua e o Sol, a prata e o ouro. Para que tinha ele aquela espada, aquele capacete, aquele escudo? (…) Como metais preciosos, os nossos corpos tinham sido transformados em armas. (…)

Eu sou teimosa. Sou um mapa inacabado e quero ser eu a traçar o meu percurso, não que alguém o faça por mim. Era o meu barco, Perseu. A minha vida. (…)

Não foi mau. Comia o pão, deixando metade para Atena (…) de costas voltadas para o mar. (…) 

Eu era dona da minha história. Só eu a podia conservar ou rejeitar. (…) 

Compreendo que somos semelhantes. Somos sobreviventes. (…)

Mas não é possível começar novo capítulo antes de terminar o anterior. (…) Uma mecha não pega sem faísca, e o fogo não havia sido apenas obra de Perseu. (…)

Porém, embora a luz nos permita ver claramente, também nos deixa sem um sítio para nos escondermos. (…) Como «ouro de tolos» em lápis-lázuli. (…)

Só me queria esconder já fora demasiado castigada apenas por ser eu mesma. (…)

E não com a felicidade de Medusa, ou com o seu direito de andar à vontade com o seu corpo, sem medos? Não. A verdade é que estás com inveja, Atena. (…) Vejo-o com bastante clareza - disse Esteno. A Medusa é mais bonita do que tu. (…) - As palavras podem magoar mais profundamente do que o golpe de uma espada. (…) Percebi que algo mau vinha na minha direção. (…)

O olhar de Atena queimou-me a pele, a sua fúria cobriu-me como mortalha. À medida que o seu poder entrava em mim. (…) E tu, agora, apesar de tudo, gostarias de regressar? Perguntei a mim mesma. (…)

Todos merecem ser amados. (…) Foram invejosas e interesseiras, e a seguir cruéis e críticas, e tu acreditaste sempre no que elas tinham a dizer sobre ti. (…)

Isso não faz sentido, Perseu. Como podes cortar a cabeça de alguém que não é real? (…) Sempre soubera que dentro das coisas novas crescem sementes da perda, mas não esperava que a minha perda fosse tão imediata. (…) 

Sou Medusa. O monstro que querias encontrar. (…)

Não tinha acabado, que a minha história estava apenas a começar. (…)

A morte seria um escape. Perseu recuperaria a mãe e eu obteria paz. Os deuses poderiam finalmente ficar satisfeitos. (…) Mas eu não queria morrer. (…) Devemos sempre dar ouvidos ao nosso instinto. (…) Seria o amor mais fácil quando um já não existe? E então lembrei-me do aviso de Atena: «Ai do infeliz que se atreva a olhar para ti agora!» (…) Ambos sabíamos que o tempo acabaria por nos apanhar. (…)

Quando a minha história se tornou finalmente minha. (…) Vi o meu rosto naquele escudo e pareceu-me bem. Perseu atacou-me por causa de uma história, e não foi a que contei aqui. Devem ter cuidado com quem conta a vossa história. (…) Mas, sabia que o meu tempo chegaria.

 

in: Medusa, de Jessie Burton, Minotauro (Uma chancela de Edições Almedina), Coimbra, Julho 2024

08 julho 2024

Cisnes Selvagens | Jung Chang

Com quinze anos de idade, a minha avó tornou-se concubina de um caudilho militar, o general chefe da polícia de um vago governo nacional chinês. Corria o ano de 1924 e a China estava mergulhada no caos. Em grande parte do território, incluindo a Manchúria, onde vivia a minha avó, o poder era exercido por chefes militares, os senhores da guerra. Yixian, situada no sudoeste da Manchúria, acerca de 150 quilómetros da Grande Muralha e 380 quilómetros a nordeste de Beijing. Como a maioria das pequenas cidades chinesas, Yixian fora construída como uma fortaleza. Tinha a protegê-la uma cerca de muralhas do tempo da dinastia Tang (618-907 d.c.), com dez metros de altura e mais de três e meio de espessura, suficientemente larga no topo para permitir passagem fácil a um cavaleiro, encimada por ameias e reforçada por dezasseis bastiões dispostos a intervalos regulares. O acesso fazia-se por quatro grandes portas, uma em cada ponto cardeal, todas elas defendidas por portões exteriores. O conjunto da fortificação estava cercado por um profundo fosso. (…) uma alta torre sineira ricamente decorada, construída em pedra castanho-escuro, cujas origens remontam ao século VI, quando o Budismo se difundira na região. (…)

Ser funcionário significava poder, e poder significava dinheiro. Sem poder e sem dinheiro nenhum chinês podia considerar-se a salvo das exações do funcionalismo ou da violência gratuita. (…) chegar a mandarim era a única maneira de um filho de uma família plebeia poder escapar ao ciclo de injustiça e medo. (…) Uma vez que a família não tinha preocupações intelectuais e não detinha qualquer cargo oficial, e tratando-se de uma rapariga, nem sequer lhe deram um nome. Sendo a segunda filha, tratavam-na simplesmente por «rapariga número dois». O pai morreu quando ela era ainda uma criança, de modo que foi criada por um tio. (…) O casamento era visto acima de tudo como um dever, um arranjo entre duas famílias. Com sorte podiam apaixonar-se depois. Quando casou, com catorze anos, e tendo feito até aí uma vida muito protegida, o meu bisavô pouco mais era do que um rapazito. (…)

A minha avó era uma beldade. Tinha um rosto de forma oval, com faces rosadas e pele sedosa. Usava cabelos, negros, compridos e muito brilhantes, entretecidos numa grossa trança que lhe caía até à cintura. Sabia ser discreta quando a ocasião o exigia, o que significava quase sempre, mas sob aquele exterior recatado fervilhava um vulcão de energia reprimida. Era de pequena estatura, um pouco menos de um metro e sessenta, e tinha uma figura muito esbelta, de ombros descaídos, o que era considerado o ideal. O seu grande valor residia, porém, nos seus pés enfaixados, chamados em chinês «lírios dourados» com oito centímetros (San-tsun-gin-lian). Significava isto que caminhava «como um tenro rebento de salgueiro numa brisa primaveril», no dizer tradicional dos connoisseurs chineses de mulheres. A visão de uma mulher a caminhar vacilantemente sobre uns pés enfaixados tinha supostamente um efeito erótico nos homens, em parte, sem dúvida, porque a vulnerabilidade dela despertava em quem a via um impulso protetor. (…)

Depois punha-se a cortar pedaços de pele morta. A dor era provocada não só pelos ossos partidos, mas também pelas unhas, que cresciam para dentro das pontas dos dedos. Na realidade, os pés da minha avó tinham sido enfaixados precisamente na altura em que a prática estava prestes a desaparecer para sempre. Quando a irmã dela nasceu, em 1917, o costume já tinha sido praticamente abandonado, de modo que conseguiu escapar ao tormento. Na época em que a minha avó cresceu, no entanto, a atitude prevalecente numa cidade pequena como Yixian era ainda a de que os pés enfaixados eram essenciais para um bom casamento - embora fossem apenas um começo. Os planos que o pai tinha para ela envolviam treiná-la para ser uma senhora perfeita ou uma cortesã de grande classe. Desprezando a sabedoria tradicional da época - segundo a qual era virtuoso para as mulheres das classes inferiores serem iletradas - mandou-a para uma escola de raparigas que tinha sido instalada na cidade em 1905, e onde ela aprendeu igualmente a jogar xadrez chinês, ma-jongg e go. Estudou desenho e bordado. O seu motivo preferido eram os patos mandarins (que simbolizam o amor porque nadam sempre aos pares, e costumava bordá-los nos minúsculos sapatos de seda que fazia para os seus próprios pés. Para culminar a lista das suas prendas, foi contratado um professor para ensiná-la a tocar Qin, um instrumento musical parecido com a cítara. A minha avó era considerada a beldade da terra. Os habitantes locais costumavam dizer que ela se destacava como «um grou no meio de galinhas». (…) Em 1924 tinha quinze anos, e o pai começava a preocupar-se com o facto de o tempo estar a esgotar-se no que respeitava ao seu único verdadeiro bem e à sua única possibilidade de conseguir uma vida descansada. (…) O casamento era uma transação, não uma questão de sentimentos. (…) Naqueles tempos, uma mulher respeitável não podia ser apresentada a estranhos (…)

 O meu bisavô tinha feito bem os planos. A posição em que a minha avó estava ajoelhada revelara não só as calças de seda, bordadas a fio de ouro como o casaco, mas também os minúsculos pés enfaixados, nos seus sapatinhos de cetim bordado. Quando acabou de rezar (…) Ela corou, baixou a cabeça, e em seguida fez meia volta e afastou-se, o que era exatamente o que devia fazer. O pai adiantou-se um pouco e apresentou-a ao general. (…) 

No dia do casamento, uma liteira fechada, envolta em pesados panejamentos de seda vermelha bordada a ouro e de cetim, apareceu diante da casa dos Yang. Precedia-se uma procissão transportando pendões, faixas e lanternas de seda em que estava pintada a imagem de uma fénix dourada, o mais belo símbolo da mulher. (…) Fazer muito barulho era considerado essencial para um bom casamento (…) Depois de ter sido mostrada à cidade, chegou ao seu novo lar, uma grande e bonita casa. Yu-fang estava satisfeita. (…)

Era permitido visitar os pais, mas mesmo isso de má vontade, e não podia passar a noite em casa deles. Embora fossem as únicas pessoas com quem estava autorizada a falar, as visitas que lhes fazia eram sempre penosas (…) Estava muito bem uma mulher ter saudades do marido, isso era virtuoso, mas uma mulher não podia queixar-se. (…) Passaram seis anos. (…) Tinha saudades dele, embora soubesse que era apenas uma das suas muitas concubinas, provavelmente espalhadas um pouco por toda a China, e nunca lhe passou pela cabeça que ficaria para sempre a seu lado. (…)

Pouco tempo depois, a minha avó apercebeu-se que estava grávida. No décimo sétimo dia da terceira lua, na Primavera de 1931, deu à luz uma menina: a minha mãe. Escreveu ao general Xue a dar-lhe a notícia, e ele respondeu-lhe dizendo-lhe que desse à menina o nome de Bao Qin e a levasse a Lulong logo que estivessem ambas suficientemente fortes para viajar. A minha avó ficou encantada por ter a filha. Agora, sentia, a sua vida ter um objetivo, e canalizou para a minha mãe todo o seu amor. Assim se passou um ano de felicidade. (…)

Já no exterior, a esposa intimou a minha avó a não perturbar o amo. (…) A minha avó ficou aterrorizada. Como concubina, o seu futuro e o da filha estavam em perigo, talvez num perigo mortal. Não tinha quaisquer direitos. Se o general morresse, ficaria inteiramente à mercê da viúva, que tinha sobre ela um poder de vida e de morte. Poderia fazer o que quisesse: vendê-la a um homem rico, ou inclusivamente para um bordel, o que era bastante comum. Se isso acontecesse nunca mais voltaria a ver a filha. Soube então que tinham de fugir dali o mais depressa possível. (…)

A minha avó, porém, nunca o viu: ignorou o chamamento e não esteve presente no funeral. A próxima coisa que aconteceu foi que o gerente da casa de penhores deixou de aparecer com a mesada. Cerca de uma semana mais tarde, os pais dela receberam uma carta da esposa de Xue. As últimas palavras do meu avô tinham sido para devolver à minha avó a sua liberdade. O gesto, na época, era extremamente invulgar, e Yu-fang quase não queria acreditar em tanta sorte. Com vinte e quatro anos de idade, estava livre. (…)


in: Cisnes Selvagens, de Jung Chang, Editora Quetzal, Lisboa, 2018