Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

14 janeiro 2025

Thomas More | Peter Ackroyd

 No ar, pairariam todos os odores da madeira, da pedra e do fumo, das ervas secas e das carnes assadas. (…) Estas famílias ricas da Idade Média tardia viviam confortavelmente. (…)

A vida escolar podia, porém, ser severa, e o castigo, ou a ameaça de castigo, era um aspeto permanente da educação de uma criança. Há toscas xilogravuras que nos mostram o interior de uma sala de aula; em algumas, o mestre segura um livro, noutras, empunha uma vara; em Utopia, More fala dos maus professores que preferem bater a educar os seus alunos. (…)

Em A Dialogue of Confort Against Tribulation, escrito na cela de prisão que foi a sua última morada neste mundo, More condenava o «buliço labirinto circular desse mal a que chamamos negócios». (…)

Andava agora constantemente rodeado por acompanhantes e a sua eminência na corte real era tal que, na Primavera do ano seguinte, foi-lhe concedido o lucrativo cargo de vice-tesoureiro. Neste papel, estava encarregado de supervisionar o trabalho da Fazenda, onde os funcionários registavam o apropriado desembolso ou coleta de taxas. (…) O vice-tesoureiro tinha direito ao titulo de cavaleiro, segundo o costume, e assim foi que Master More se viu transformado em Sir Thomas More. Tornara-se, nas palavras do próprio rei, «o nosso fiel e amado conselheiro Thomas More, agora feito cavaleiro». Era eques auratos, obrigado a usar a corrente de cavaleiro e esporas douradas quando montasse. Era um cavaleiro de ar jovial, mas por detrás desta assunção de condição continuava a haver uma tradição viva de honra e cavalheirismo que More teria absorvido de Chaucer, Malory e Lydgate: o «parfit gentil» cavaleiro era alguém que amava «a verdade e a honra, a liberdade e a cortesia». (…)

No seu Elogio da Loucura, Erasmo tinha já deixado claro que os loucos são na verdade sábios em comparação com a sabedoria vulgar do mundo, e More parecia ficar deliciado quando o duque de Norfolk lhe censurava a loucura e, em Coventry, troçou dele por ser «louco». Era louco como Sócrates e Luciano eram loucos; eram os verdadeiros sábios da humanidade que, na sua loucura, recusavam aceitar as loucuras da era. Quando Richard Pace foi criticado por usar uma capa de bobo numa mascarada, More terá supostamente respondido: «Não, não. Desculpai-o. É menos pernicioso para a comunidade quando os homens sábios se disfarçam de tolos na brincadeira do que quando os tolos se disfarçam de homens sábios a sério.»

O Bobo é maleável e sabe representar muitos papéis, como o próprio More fazia; e sabe também dizer a verdade através do humor. (…)

A guerra, a heresia e a anulação eram, pois, as três grandes preocupações que afligiam o espírito de More. (…)

More ajoelhou e o carrasco ofereceu-se para lhe vendar os olhos; mas ele recusou e cobriu o rosto com um pano de linho que levara consigo. (…) Assim terminou a vida de Thomas More, um dos poucos londrinos alguma vez canonizados e o primeiro laico inglês a ser beatificado como mártir.


in:  Thomas More, Biografia, de Peter Ackroyd, Bertrand Editora, Lisboa, 2003