Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

04 agosto 2026

Da Amizade | Michel de Montaigne

 Escolheu primeiro o lugar mais belo, no centro de cada parede, para aí pintar um motivo com toda a destreza de que era capaz; depois preencheu os espaços vazios em redor com arabescos, pinturas de pura fantasia, que apenas agradam pela sua variedade (…)

É de facto verdade que a amizade representa, na sociedade, o mais alto grau de perfeição. (…)

Nas relações dos filhos com os pais, é antes o respeito que predomina. A amizade requer um contínuo intercâmbio de pensamentos, o qual não pode reinar entre eles (…) Mais ainda, os filhos não podem dar conselhos nem repreender os pais, o que é uma das primeiras obrigações da amizade. (…)

O calor da amizade estende-se a todo o nosso ser: é universal, mas temperado e sempre igual; é um calor constante, soberanamente doce e delicado, que nada tem de áspero nem de excessivo. O amor é, sobretudo um desejo violento daquilo que nos foge (…)

O amor enfraquece e cai em languidez; a fruição extingue-o, porque o seu fim é carnal e a sociedade o apazigua. A amizade, ao revés, acentua-se com o desejo que dela se tem; eleva-se, desenvolve-se e cresce com a fruição, porque é de essência espiritual, e o uso refina a alma. (…) 

Já quando se trata da amizade, nada de alheio intervém - não está em causa, senão ela. Somente. (…)

Que sob influência dessa beleza espiritual que o amado descobria no amante, nascesse nele o desejo de participar dessa superioridade intelectual e moral, sem atender, no companheiro, à beleza do corpo - coisa nele acidental e inteiramente secundária (…)

Exercendo por vezes influência decisiva na defesa da justiça e da liberdade (…)

Procurávamo-nos antes mesmo de nos havermos visto (…) creio sinceramente que nisso houve o efeito de algum decreto da Providência. Sem nos conhecermos os nossos nomes já nos eram caros. (…) Sentido-nos tão atraídos um pelo outro, tão conhecidos um do outro, tão ligados um ao outro, que desde então nada foi tão próximo como nós o fomos reciprocamente. (…)

As nossas almas caminhavam tão completamente unidas, estavam presas uma à outra por tão ardente afeição - dessa afeição que penetra e lê até ao mais íntimo de nós mesmos - que não só eu conhecia a dele como a minha própria, quanto nele do que em mim próprio. (…)


in: Da Amizade, de Michel de Montaigne, Penguim Clássicos, Lisboa, 2026