Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

16 abril 2022

Lua



Olho a Lua

Como se estivesse nua

A Lua, minha única companhia 

Nela me vejo ao espelho 

Ela me ilumina na noite fria.


Olho a Lua

O seu brilho me ilumina.

A Lua, essa alma antiga

Tão antiga, quanto a minha.


A Lua 

Tão próxima da minha presença

Sinto-a como se fosse parte dela.


A Lua

Essa luz que me acalma.


Olho a Lua

Que me faz sentir nua

Não tenho segredos com Ela

Ela tudo sabe de mim

Tão íntima, tão chegada

Tão Bela.


in: A Lua, de Ana Paula Gaspar, Poema escrito na noite de 13 de Abril de 2022.  

Obra de Arte: LUA, de Ana Gaspar, Acrílico sobre Tela, 2006


03 abril 2022

A Potência de Existir | Michel Onfray

 

(…) A matéria desse corpo acumula energias consideráveis, capazes de dobrar, torcer e partir um ser em dois. Existem forças, tensões e nódulos ontológicos que trabalham ininterruptamente no interior dessa máquina que não só é desejante como também nuclear, em todos os sentidos do termo. A infância- mas mesmo antes dela, a pré-história inconsciente - acumula informações similares a cargas eléctricas que entram em relações conflituosas. A resolução deste conflito pressupõe esse hápax existencial: um momento como este assinala a solução favorável e feliz daquilo que, de outra forma, provavelmente teria destruído o ser. (…)

O filósofo é filósofo vinte e quatro horas por dia, mesmo quando faz a lista da lavandaria antes de retomar o argumento habitual (…)

Defendo, com efeito, um pensamento vigoroso, sólido, estruturado, coerente, e pretendo examinar a totalidade dos saberes possíveis. O hedonismo disponibiliza o tema; as minhas diferentes obras fornecem as suas variações. Foi por isso que propus uma ética - A Escultura de Si - uma erótica - Teoria do Corpo Amoroso - uma política - A Política do Rebelde - uma estética - Arqueologia do Presente - uma epistemologia - (…)

Todo o ser evolui de forma precária no dispositivo do outro; cada qual mantém-se no centro do seu; toda a gente ocupa um lugar provisório. Só a tensão ética, o cuidado moral e a ação justa permitem a permanência num pólo de excelência.


in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Campo da Comunicação, Lisboa, 2009

28 dezembro 2021

A Divina Comédia | Dante Alighieri


Dir-se-ia que, muito avant la lettre, a escrita de Dante tem uma qualidade visualmente cinematográfica (…)

A Divina Comédia, que, «como todas as grandes obras canónicas, destrói a distinção entre escrita sagrada e secular», é também, entre muitas outras coisas, essa tensão vertiginosa entre micro e macrocosmos, esse confronto do indivíduo concreto com o universo dos seus saberes integrados, numa epopeia do conhecimento humano apostado na busca obsessiva de uma verdade do Ser, busca essa que, aqui culmina na visão de Deus, termo do arco sustentado que vai do desespero humano e da miséria humana a uma absoluta serenidade final. (…)

Conviveu com autores e outros artistas (sobretudo músicos e pintores), construiu a sua própria noção de modernidade estética, teve experiências sentimentais de vária ordem, das quais uma decisiva para a vida e para a sua obra, pelo menos no plano literário. (…)

Acresce que ele faz também a longa e irreversível experiência do exílio e da conspiração, sabendo-se condenado à morte, se regressar a Florença. Guiado pela sombra de Virgílio, primeiro, pelas presenças de Beatriz e de S. Bernardo, depois, acompanhado longamente por Estácio, entretanto fará a sua jornada transcendente, da abjeção das trevas à redenção da luz. (…)

(…)

Ó musas e alto empenho, me ajudai;

ó mente que escreveste do que vias,

tua nobreza aqui provar-se vai.

(…)

Eu sou Beatriz, ora a fazer-te andar;

do lugar venho a que voltar pretendo,

e amor me move, que me faz falar.

(…)

«Ora desçamos pois ao cego mundo»,

começou o poeta a empalidece:

«irei primeiro e tu irás segundo.»

(…)

É Homero, o poeta soberano;

o outro Horário sátiro que vem;

o outro Ovídeo e o último Lucano.

(…)


in: A Divina Comédia, de Dante Alighieri, Quetzal Editora, Lisboa, 2021

Obra de Arte: Inferno XXXIV, de Rui Chafes, («Se transmutem em longos cabelos femininos - e ganham corpo em ferro e desestabilizam, em suspensão, o espaço»), 2014

13 dezembro 2021

O Infinito Num Junco | Irene Vallejo

A Lenda de Alexandria não parou de crescer. Dois séculos depois de se escrever o diálogo de Gílide e da rapariga tentada, Alexandria foi o cenário de um dos maiores mitos eróticos de todos os tempos: a história de amor entre Cleópatra e Marco Aurélio. (…) Certa vez, durante uma madrugada alcoólica, num gesto de ostentação provocadora, ela dissolveu uma pérola de tamanho fabuloso em vinagre e bebeu-a. Por isso, Marco Aurélio escolheu um presente do qual não poderia desdenhar com um ar aborrecido: pôs aos seus pés duzentos mil volumes para a Grande Biblioteca. Em Alexandria, os livros eram combustível para as paixões. (…)

Ptolomeu instalou-se no Egipto, onde passaria o resto da sua vida. (…) Tudo ali era surpreendente: as pirâmides; as íbis; as tempestades de areia; as ondas de dunas; o galope dos camelos; os estranhos deuses com cabeça de animal; os eunucos; as perucas e as cabeças rapadas; as enchentes humanas nos dias de festa; os gatos sagrados, que era crime matar; os hieróglifos; as cerimónias palacianas; os templos à escala sobre-humana; o enorme poder dos sacerdotes; o negro e lamacento Nilo a arrastar-se pelo seu delta rumo ao mar; os crocodilos; as planícies onde as abundantes colheitas se alimentam dos ossos dos mortos; a cerveja; os hipopótamos; o deserto, onde nada permanece a salvo do tempo destruidor; o embalsamento; as múmias; a vida ritualizada; o amor pelo passado; o culto da morte. (…) Ptolomeu destinou grandes riquezas para a construção do Museu e da Biblioteca de Alexandria. (…)

Para um grego, um museu era um recinto sagrado em honra das musas, as filhas da Memória, as deusas da inspiração. A Academia de Platão e, mais tarde, o liceu de Aristóteles tinham a sua sede em pequenas florestas dedicadas às musas porque o exercício do pensamento e da educação podiam entender-se como atos metafóricos e luminosos de culto às nove musas. O museu de Ptolomeu chegou mais longe: foi uma das instituições mais ambiciosas do helenismo, uma versão primitiva dos nossos centros de investigação, universidades e laboratórios de ideias. Eram convidados para o Museu os melhores escritores, poetas, cientistas e filósofos da época. Os escolhidos mantinham o posto para sempre, libertados de qualquer preocupação material, para que pudessem dedicar todas as suas energias a pensar e a criar. Ptolomeu atribuía-lhes um salário, alojamento gratuito e um lugar num luxuoso refeitório coletivo. Para além disso, eximia-os de pagarem impostos, talvez o melhor presente em tempos de voracidade das arcas reais.

Durante séculos, o museu reuniu, como deseja Ptolomeu, uma resplandecente constelação de nomes: o matemático Euclides, que formulou os teoremas da geometria; Estratão, o maior físico da época; o astrónomo Aristarco de Samos; Erastóstenes, que calculou o perímetro da Terra com admirável exactidão; Herófilo, pioneiro da anatomia; Arquimedes, inventor da hidrostática; Dionísio de Trácia, que escreveu o primeiro tratado de gramática; os poetas Calímaco e Apolónio de Rodes. Em Alexandria nasceram teorias revolucionárias, como o modelo heliocêntrico do sistema solar, que resgatado no século XVI, provocaria a revolução copernicana e a condenação de Galileu. Quebrou-se o tabu das dissecações de cadáveres - e também, segundo as más-línguas, de presos vivos das prisões - que permitiram avançar na medicina. Desenvolveram-se novos ramos de saber, como a trigonometria, a gramática e a conservação de manuscritos. Ali, teve início o estudo filológico dos textos. (…)

A Biblioteca tinha um lugar essencial naquela pequena cidade de sábios. Poucas vezes na História se fez um esforço parecido, consciente e deliberado, para reunir num único lugar as mentes mais brilhantes da época. E nunca antes os melhores pensadores tiveram acesso a tantos livros, à memória do saber anterior, aos sussurros do passado com os quais aprender o ofício de pensar.

O Museu e a Biblioteca faziam parte do recinto do palácio, protegidos pelos muros da fortaleza. A vida daqueles primeiros investigadores profissionais era passada no isolamento do espaço fortificado. A sua rotina consistia em dar conferências, aulas e discussões públicas, mas, acima de tudo, era a silenciosa investigação que dominava. (…)

Desde os primeiros séculos da escrita até à Idade Média, a norma era ler em voz alta, para si próprio ou para os outros, e os escritores pronunciavam as frases à medida que as escreviam ouvindo assim a sua musicalidade. Os livros não eram uma canção que se cantava com a mente, como agora, mas sim uma melodia que saltava para os lábios e soava em voz alta. O leitor convertia-se no intérprete que lhe emprestava as suas cordas vocais. Um texto escrito entendia-se como uma partitura muito básica e por isso apareciam as palavras, uma atrás de outra, numa cadeia contínua sem separações nem sinais de pontuação- era preciso pronúncia-las para entendê-las. Quando se lia um livro costumava haver testemunhas. Eram frequentes as leituras em público, e os relatos que agradavam andavam de boca em boca. (…) 

Talvez por esse motivo, os primeiros a ler como você, em silêncio, em conversa muda com o escritor, tenham chamado poderosamente a atenção. No século IV, Agostinho de Hipona ficou tão intrigado ao ver o bispo Ambrósio de Milão ler desta forma que anotou nas suas Confissões. Era a primeira vez que alguém fazia algo assim à sua frente. (…)

A nossa pele é uma grande página em branco; o corpo, um livro. O tempo vai escrevendo pouco a pouco a sua história nas faces, nos ventres, nas barrigas, nos sexos, nas pernas. Acabados de chegar ao mundo, imprimem-nos na barriga um grande «O», no umbigo. Depois vão aparecendo lentamente outras letras. As linhas da mão. Os sinais, como pontos finais. Os riscos que os médicos deixam quando abrem a carne e depois a cosem. Com os anos, as cicatrizes, as rugas, as manchas e as ramificações varicosas traçam as sílabas que relatam a vida. (…)

Só há uma presença feminina no cânone literário grego: Safo. (…)

Safo - conta-o ela própria- era baixinha, morena e pouco atraente. Nasceu numa família aristocrática em decadência. Ao contrário de Cleobulina, não era filha de reis. O seu irmão esbanjou a fortuna da família, ou o que restava dela. Casaram-na com um estranho, como era habitual, e teve uma filha. Tudo a encaminhava para uma vida anónima. As mulheres gregas não escreviam poesia épica, claro. (…)

Safo escreveu: «Alguns dizem que nada é mais belo na negra terra do que um esquadrão de ginetes, ou de infantes, ou de naus. Mas eu digo que o mais belo é a pessoa amada.» Estas simples palavras escondem uma revolução mental. Quando foram escritas, no século VI a.C., quebraram os esquemas tradicionais. Num mundo profundamente autoritário, o poema surpreende porque múltiplas perspectivas, e até parece celebrar a liberdade do desacordo. Para além disso, atreve-se a questionar aquilo que a maioria admira: os desfiles, os exércitos, a exibição e o alarde de poder. (…) Diante das aborrecidas exibições de força guerreira, ela preferia sentir e evocar o desejo. «O mais belo é o que cada um ama.» Inesperado, este verso afirma que a beleza está primeiro no olhar do amante; que não desejamos quem nos parece mais atraente, mas sim parece-nos mais atraente porque o desejamos. Segundo Safo, quem ama cria a beleza; não se rende a ela como as pessoas costumam pensar. Desejar é um ato criativo, tal como escrever versos. Favorecida com o dom da música, a pequena e feia Safo podia decorar o minúsculo mundo que a rodeava com as suas paixões e embelezá-lo. (…) O seu casamento acabou e ela trocou as rotinas do lar por uma nova atividade (…) Sabemos que orientou um grupo de raparigas novas, filhas de famílias ilustres. Sabemos também que se apaixonou em momentos sucessivos por algumas delas - Átis, Dica, Irana, Anactória - e que juntas compunham poesia, faziam sacrifícios a Afrodite, entrançavam coroas de flores, sentiam desejo, acariciavam-se, cantavam e dançavam, alheias aos homens. (…) Dizem-nos que na ilha de Lesbos havia grupos parecidos, orientados por mulheres a quem a Safo considera inimigas. (…) Os gregos achavam que o amor era a principal força educadora. (…)

Num fragmento de apenas uma linha que chegou até nós por acaso, lemos: «eu afirmo que alguém se lembrará de todas nós.» E, embora aquela possibilidade parecesse ser quase impossível, após trinta séculos continuamos a ouvir a voz ténue daquela mulher baixinha.    


Ovídio foi um explorador de novos territórios literários, e o primeiro escritor a prestar uma atenção singularizada às suas leitoras. (…) Numa época de rápida expansão nos horizontes de leitura, Ovídio juntou-se com agrado à transgressão dos valores arcaicos e das velhas normas. A sua literatura jovem, inconformista e erótica atraía as romanas da época; ele sabia-o e jogava com os limites. Não via o abismo que pisava. (…) Ovídio lançou um olhar revolucionário sobre algumas questões essenciais na Roma do século I a.C.: o prazer, consentimento e a beleza. Naquela época os casamentos eram uma combinação entre famílias, que costumavam entregar raparigas adolescentes a homens poderosos já maduros. (…) Ovídio desfez todas essas convenções e clichés ao escrever que gostava de mulheres maduras, não de crianças. E que o seu prazer erótico precisava do prazer da sua companheira. Eis uma passagem de A Arte de Amar: «Prefiro uma amante que tenha ultrapassado os trinta e cinco anos e já tenha cabelos grisalhos na sua melena: que os apressados bebam o vinho novo; eu gosto mais de uma mulher madura que conheça o seu prazer. Tem experiência, que constitui todo o talento, e conhece mil posições no amor. A voluptuosidade nela não é falsa. E, quando a mulher goza ao mesmo tempo que o seu amante, é o cúmulo do prazer. Odeio o abraço em que um e outra não se entregam inteiramente. Odeio essas uniões que não deixam os dois exaustos. Odeio uma mulher que se entrega porque tem de fazê-lo, que não se humedece, que pensa nas suas tarefas. Não quero uma mulher que me dê prazer por dever. Que nenhuma mulher faça amor comigo por obrigação! Gosto que a sua voz traduza a sua alegria, que murmure que é preciso ir mais devagar, que ainda me devo conter. Gosto de ver a minha amante a usufruir com os olhos vencidos e que desfaleça e não permita que a acaricie mais.» (…)

A Arte de Amar foi considerado um livro imoral e perigoso. (…)

No ano 8, Ovídio, que tinha acabado de fazer cinquenta anos, foi desterrado repentinamente, através de édito imperial, para a aldeia de Tomi - a atual Constança, na Roménia. (…) O poeta partiu sozinho para o exílio. (…) Ovídio ia ficar separado de tudo aquilo que, na sua opinião, tornava a vida digna de ser vivida: amigos, amor, livros, conversas e, sobretudo, paz. (…) Sobreviveu nove anos, a enviar constantes súplicas para Roma e a escrever as suas Tristia, um precedente da carta De Profundis que séculos mais tarde redigiria desde a prisão outro grande bon vivant castigado, Oscar Wilde. (…)

A Arte de Amar, esse livrinho alegre e erótico, perseguido por um dos imperadores mais poderosos do Império e várias vezes proibido em épocas posteriores por ser obsceno e escandaloso, encontrou o caminho até às nossas bibliotecas. A sua história é a de um longo salvamento, levado a cabo século após século pelos leitores em quem Ovídio confiou, contra as autoridades. A subversão também cria clássicos.


Obra de Arte: Escultura de Safo, 1883, do Artista Italiano Francesco Confalonieri (1850-1925), Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa

in: O Infinito Num Junco, de Irene Vallejo, Bertrand Editora, Lisboa, 2021

24 outubro 2021

Azul | História de uma Cor

 

O Sol | Ponto de Partida 

Os romanos, como antes deles os Gregos, conhecem o índigo asiático. Distinguem-no nitidamente do pastel-dos-tintureiros dos Celtas e dos Germanos e sabem que é uma tintura potente que vem das Índias, daí o seu nome em latim: indicum. Mas desconhecem a natureza vegetal desse produto e crêem tratar-se de uma pedra, porque o índigo chega do Oriente sob a forma de blocos compactos, resultantes do esmagamento das folhas, prensadas até se formar uma pasta que depois se pôs a secar. Pensam, por isso, que se trata de um mineral; alguns autores, seguindo Dioscórides, consideram-no até uma pedra semipreciosa, próxima do lápis-lazúli. Esta crença na natureza mineral do índigo perdurará na Europa até ao século XVI. (…)

A nova moda dos tons azuis a partir do século XIII é favorecida pelos progressos das tinturas e pelo desenvolvimento da cultura do pastel-dos-tintureiros, uma planta crucífera que cresce espontaneamente em solos argilosos em muitas regiões da Europa. O princípio corante, a indigotina, encontra-se essencialmente nas suas folhas. Desde cerca de 1230 que, tal como a garança, é objeto de uma verdadeira cultura industrial destinada a satisfazer a crescente procura por parte de fabricantes de tecidos e tintureiros. As operações necessárias para se obter o corante azul são longas e complexas. Uma vez colhidas, as folhas são moídas numa atafona até se conseguir uma pasta homogénea que é deixada a fermentar durante duas ou três semanas. Em seguida, com essa pasta - o célebre pastel - formam-se umas bolas ou «pães», de cerca de quinze centímetros de diâmetro, que ficam a secar sobre crivos, ao abrigo das intempéries. Ao cabo de algumas semanas, são por fim vendidas ao comerciante de pastel: é ele quem se encarrega de transformar essas bolas em tintura. Trabalho lento, delicado, sujador, nauseabundo, que requer uma mão-de-obra especializada - e por isso o pastel é um produto tão caro, apesar de o pastel-dos-tintureiros crescer facilmente em variadíssimos solos e de, para tingir, não ser preciso (ou quase não ser preciso) mordaçar, ao contrário do que sucede com as tinturas em vermelho. (…)

A nova moda dos azuis contribui para a fortuna dos tintureiros especializados nessa cor; pouco a pouco tomam a liderança da profissão, passando a ocupar o lugar até então detido pelos poderosos tintureiros de vermelho. (…)

O século XVII é de facto o grande século das investigações sobre a Natureza e a medida da luz. Desde 1666 que, a partir das célebres experiências do prisma, Isaac Newton decompõe a luz branca em raios de cor e descobre o espectro, uma nova ordem das cores no seio da qual o preto e o branco deixam de ter o seu lugar; a ciência vem assim confirmar o que a moral e a sociedade há muito praticam: a exclusão do preto e do branco do universo das cores. Uma ordem em que a posição central também já não é ocupada pelo vermelho, como nos sistemas antigos e medievais, mas sim pelo azul e pelo verde. Além disso, Newton mostra que a cor, que tem a sua origem na transmissão e na dispersão da luz, pode, tal como esta, medir-se. A partir de então a colorimetria invade as artes e as ciências. (…)

 in: Azul, História de uma Cor, de Michel Pastoureau, Orfeu Negro, Lisboa, 2016

Obra de Arte: O Sol | Ponto de Partida, de Ana Gaspar, Ecoline sobre papel Fabriano, 2019/2020

20 setembro 2021

Apologia de Sócrates | Platão

 O conhecimento é a base para a vida autêntica, a vida examinada que vale a pena viver, acima do senso comum e das tradições não examinadas.

Se há uma erótica socrática, este livro insinua-a é uma erótica do conhecimento, um conhecimento que funda o valor do indivíduo, protegendo a sua vida - ou o que hoje chamaríamos os seus direitos - ao conceder-lhe a possibilidade de pensar e verificar a verdade por si mesmo, nessa liberdade se sustentando, depois, a amizade aos outros, o amor, o bem estar, o deleite físico e espiritual, em suma, a felicidade. 

Há uma erótica socrática, a do seu ferocíssimo individualismo. Em nome da verdade, a livre expressão autoriza a cada indivíduo a faculdade de perguntar. (…)

E a felicidade requer que nos examinemos moralmente. (…) Como é que se pensa? Fazendo perguntas. (…)

Cada um de nós, homens, é o mais sábio de todos se, como Sócrates, se reconhecer que, na verdade, não tem valor nenhum o que julga ser o seu saber. (…)

Por consequência, os que são examinados por eles enfurecem-se comigo, em vez de se zangarem com eles, vindo dizer que Sócrates é um ignóbil que corrompe a juventude. (…)

Tenho o maior respeito e amor por vós, homens de Atenas, mas terei de obedecer ao deus e não a vós, e enquanto respirar e tiver forças não deixarei de filosofar. (…)

Não é do dinheiro que vem a virtude, é da virtude que vem o dinheiro e todas as outras coisas, para bem dos homens. (…)

Não vos enfureceis comigo por vos dizer mais uma verdade: não há ninguém no mundo que sobreviva, se genuinamente se vos opuser; a vós ou a outra maioria popular … Todo aquele que queira, na verdade, lutar pela justiça deve viver como um cidadão privado e não como uma figura pública, se deseja preservar a própria vida por algum tempo. (…)

 Nunca fui mestre de ninguém; (…) O que lhes agrada é testemunhar a forma como examino homens que pensam ser sábios quando não o são. (…) 

E, ainda melhor, continuaria o meu exame do verdadeiro e falso conhecimento, descobrindo lá quem é sábio, e quem finge ser sábio e não o é. (…)

Portanto, juizes, encarai a morte com esperança, e meditai nesta verdade - nenhum mal pode acontecer a um homem bom, nem na vida nem na morte. 


in: Apologia de Sócrates, de Platão, Guerra e Paz Editores, Lisboa, 2020

16 setembro 2021

Na Casa e no Museu Vieira da Silva


A partir de um eventual "fio de Ariane" … 

"Com que fios se tece a eternidade…" 

Suspenso, suspensão, delicado, poucas cores ou ausência de cor.

Apenas cru, branco, tonalidade suave clara.

Suavidade.

Clareza. Luz.

Linhas, linhas verticais.

Suspensão, fluidez.

Leveza, leve, fluído.

Transparência.

Linhas de cozer, ligar!

Ligação.

Como tecer a vida! Cozer, ligar as partes, unir tudo e deixar fluir, suspenso e ao sabor de quem passa!

Um por dia! Um dia de cada vez.

Mas, eis que surge um duplicado, um par de cada vez!

Quão fio de Ariane… tecendo a vida… ligando.

Frágil.

Fragilidade.

A linha que conduz a vida.


in: Ana Gaspar, em Residência Artística na Casa Maria Helena Vieira da Silva, Lisboa, de 3 a 13 de Agosto de 2021. 

18 julho 2021

Vieira da Silva | Artista Portuguesa

         

Sobre um fundo verde, irregularmente delimitado, pinceladas brancas sugerem uma escada de corda, pendurada numa estranha armação preta. Uma rapariguinha, vista de costas, está no meio dos degraus. Olhando para cima, está prestes a continuar a subida. A escolha do título deste Auto-Retrato (1932) surpreende o espectador. 

Quando Maria Helena Vieira da Silva realizou esta auto-representação da criança, suspensa entre o céu e terra, tinha 24 anos e retratara-se já várias vezes como jovem. O guache remete para o imaginário genuíno da sua infância. Conversas e entrevistas com a artista confirmam a importância dos primeiros anos de vida para a sua pintura. 

«As recordações, que guardo da minha vida, situam-se muito cedo. Comecei a viver aos dois anos. Comecei realmente a viver, a pensar … E essa vida tornou-se para mim um universo.»

A artista evoca com insistência o ambiente da casa do avô em Lisboa, onde viveu com a mãe de 1911 a 1926: «Cheguei à pintura, assim, em menina. Era a única criança numa casa muito grande, onde me perdia, onde havia muita coisa, muitos livros, mapas, pianos. Nesta casa, com a minha mãe, viúva desde muito nova, não tinha amiguinhas, não ia à escola… muitas vezes não havia ninguém … Ensinaram-me a ler quando era pequena, em português, em francês, em inglês, quase ao mesmo tempo e a tocar piano… Havia muitos livros ilustrados e eu olhava para as imagens e, ao mesmo tempo, lia, lia em qualquer sítio, sem restrição e podia mexer em tudo. Vivia assim, quase isolada, num mundo de adultos que escutava. E foi assim que cresci. Às vezes estava completamente só e às vezes estava triste, muito triste, mesmo muito triste. Refugiava-me então no mundo das cores e no mundo dos sons. Creio que tudo isto se fundia em mim num todo único.»

Para fugir ao enfado e à solidão seguia os conselhos dos adultos que lhe diziam: «Olha, olha os livros, olha a árvore, olha o pássaro … Ouve a música, ouve o barulho, ouve a chuva, ouve… é tão bonito! 

E diziam-lhe também: - Olha o céu, olha as estrelas!» e a rapariguinha folheava livros do avô e encontrou uma revista portuguesa ilustrada com representações de gravuras de Durer. (…)

Vieira nunca frequentou a escola. Foi instruída em casa, onde, a partir de 1919, começou a estudar três novas disciplinas- música, desenho e pintura. (…) A opção pela pintura revelou-se, contudo, definitiva. 

A partir de 1915 passou os verões em Sintra, numa casa que a mãe comprara. Situada na encosta do Palácio da Vila, abarcava uma vista que a fascinava. Ali desenhou os primeiros esboços da natureza. (…)

A vista de Sintra com as duas colinas quase simétricas no horizonte da pequena várzea guardaria para ela o carácter de uma visão, face à qual os seus futuros quadros teriam de se sair bem. 

Em 1932, em Paris, tentaria representá-la de cor em duas telas pequenas para explicar ao pintor Arpad Szenes a sua experiência. Foi também em Sintra, com dezassete anos, que Vieira leu sem parar, escondida numa árvore no jardim da casa, o Prometeu de Ésquilo. Tornou-se para ela uma parábola do Mundo: - «Todas as misérias do Homem já se encontram ali. Para mim foi uma grande descoberta, fiquei muito abalada. É de uma tal beleza, é de uma tal grandeza».

Com dezoito anos começou a questionar-se: - «Como fazer para pintar tudo isto e ser na mesma altura do meu tempo? Consolava-me dizendo que ia encontrar o caminho em Paris». Na companhia da mãe, no início de 1928, mudou-se para a capital francesa: - «Para o meu trabalho chegara o momento em que tinha necessidade de ir para Paris. Já não podia progredir em Lisboa. A pintura que aí fazia já não me satisfazia. Não sabia como fazer, nem que fazer. Começara, entretanto, a esculpir, o que me foi de grande utilidade porque me deu o contacto com o real.»

in: Vieira da Silva, Taschen, Lisboa, 1998

16 maio 2021

Um Ponto Verde no Espaço | Fundación Antonio Gala

A Terra, um Ponto Verde no espaço!

A Casa do Antonio Gala, Artista e Escritor-Poeta, recebeu-me muito bem, para criar um projeto artístico.

Esta Casa situada num antigo Convento do Século XVII, na cidade de Córdoba, em Espanha, designado por Convento do Corpo de Cristo. Um espaço em que o silêncio marca o tempo de reflexão e de profundidade espiritual e dele brota um Amor profundo cuja amplitude se eleva ao céu.

E, tendo como ponto de partida a própria casa, na qual estive uma semana, e em completo retiro espiritual, proporcionando-me um momento especial de criação conceptual, e permitindo-me um total despojamento.

Neste contexto, tão único e especial, nasceu um projeto artístico, também ele único, pois nunca voltará a repetir-se todo este processo físico e espiritual, cujo resultado aqui se demonstra sob o registo da fotografia.

O impacto de cada dia no meu corpo e na minha alma de artista e de mulher, provocou não só um êxtase de iluminação interior como uma dinâmica de dor e sofrimento pela existência de Ser. Todo este processo teve com certeza um resultado de elevação da alma e de um coração, aos mais profundos sentimentos, cuja sensibilidade se revelou através das caminhadas pela casa e pelos claustros em pleno silêncio.

O projeto foi-se revelando pela procura de um ponto verde na casa. Um ponto, um local, um lugar, ou seja um sítio onde brotassem flores e árvores, um pedaço de terra com erva fresca e água. Este ponto servia de ligação entre a terra e o céu, numa ligação entre as profundezas da alma e as que a elevam. Este ponto serviu para reflexão e para viagens ao interior e exterior de mim, e que me une a todo o Universo, através de um ponto verde neste Cosmo: a Terra.

Assim, foi neste contexto que persegui com passos determinados todos os cantos e recantos desta Casa, e levei comigo o Ponto Verde da Terra, e aí fui-me aproximando cada vez mais de cada momento único e especial para a minha conexão com as obras de arte ali expostas e com os lugares recolhidos deste espaço.

À medida que todo este processo se desenvolvia, também se desenvolvia em mim algo novo, cuja  transcendência me invadia de um modo transformador, e que sentia a cada segundo no meu corpo e alma.

Percorri então o Claustro com a fonte e a laranjeira, as arcadas, o Claustro com a relva, as árvores e a buganvília cor de rosa, a Biblioteca e os ateliês dos vários artistas residentes.





in: Um Ponto Verde no Espaço, de Ana Gaspar, Residência Artística na Fundação António Gala, em Córdoba, Espanha, Maio de 2021

14 abril 2021

A Simplicidade da Vida | Cor




"Uma das misteriosas leis da vida é que descobrimos sempre tarde demais os seus autênticos e essenciais valores: a juventude quando a perdemos, a saúde assim que nos abandona, e a liberdade, essa essência preciosíssima da nossa alma, só quando está a ponto de nos ser arrebatada ou quando já o foi."

in: Montaigne

Obra de Arte: tinta ecoline sobre papel japonês, 4 camadas unidas por linha e suportado por bambu, de Ana Paula Gaspar, "Índia", Abril de 2021

01 abril 2021

Criar Linhas | Percursos





 
 

É com Amor que tudo nasce.

É sem Amor que tudo morre.

É o ciclo infinito da Vida.


Obras:Criar Linhas/Percursos na Vida - Desenhos, de Ana Gaspar, 16. Março 2021

Poema: Amor, de Ana Gaspar, Março 2021

27 fevereiro 2021

Renasci - Obra/Poema


Já não sei se morri se nasci.

Já não sei se sou deste Planeta.

Ou, são os outros.

E, eu sou de outro.

Só sei que não sei para onde ir.


in: Renasci - Obra/Poema, de Ana Paula Gaspar, Serra do Louro, Portugal, 27 de Fevereiro 2021.

Obra: Linhas de Percurso Pessoal, Caneta sobre Papel, Janeiro de 2021

15 fevereiro 2021

Sentir e Saber | António Damásio

Esta abordagem começa com esses mesmos fenómenos mentais, quando nos empenhamos em observá-los usando a introspecção e anotando o que observamos. A introspecção tem os seus limites mas não tem nem rivais nem substitutos. Oferece-nos a única perspectiva direta sobre fenómenos que queremos entender e serviu memoravelmente os génios de William James, Sigmund Freud, Marcel Proust e Virginia Woolf. 

Os resultados da introspecção podem ser hoje enriquecidos pelos dados obtidos por diversos métodos que também visam fenómenos mentais mas que os investigam obliquamente e se dirigem a (1) manifestações comportamentais e (2) correlações biológicas, neurofisiológicas, físico-químicas e sociais. (…) Os textos que se seguem resultam da combinação destas abordagens com a introspecção. 

… há quatro mil milhões de anos. Mas a vida evoluiu sem palavras e sem pensamentos, sem sentimentos e sem raciocínio, desprovida de mentes e de consciência. Não obstante, os organismos vivos detetavam a presença de outros como eles e detetavam diversos elementos do seu ambiente. (…) Podemos dizer que «detetar» é uma forma primitiva de «sentir» e que resulta numa forma primitiva de «saber». Ainda mais curioso, os organismos vivos reagiam com inteligência ao que detetavam. Essa sua inteligência não se baseava na forma de conhecimento explícito que as nossas mentes empregam hoje em dia, dependendo, isso sim, de uma competência oculta que visava única e exclusivamente a sobrevivência. Esta inteligência não-explícita estava encarregue da curadoria da vida, gerindo-a de acordo com as regras e os regulamentos da homeostasia. 

… o objetivo da vida é a sobrevivência e a maneira mais lógica de conseguir sobreviver é seguir os ditames da homeostasia, o conjunto de procedimentos reguladores que possibilitam a vida logo quando esta floresceu nos primeiros organismos unicelulares. A seu tempo, quando os organismos multicelulares e multissistema entraram na moda - há cerca de três mil e quinhentos milhões de anos - a homeostasia passou a contar com a ajuda de dispositivos coordenadores recém-evoluídos e conhecidos como sistemas nervosos. Estava aberto o caminho para que esses sistemas nervosos passassem a gerir ações e a mapear estruturas e seguir-se-iam as imagens, e assim se deu origem às mentes. Centenas de milhares de anos depois, a homeostasia começou a ser regida em parte por essas mentes, essas mentes capazes de sentir e dotadas de consciência, que os sistemas nervosos haviam, entretanto, possibilitado. Os sentimentos, por um lado, e o raciocínio criativo, por outro, viriam a desempenhar papéis importantes na nova gerência da vida permitida pela consciência. (…)

No ramo da história da vida em que nos encontramos podemos identificar três fases evolutivas distintas e consecutivas. A primeira fase teve como auge o ser. A segunda é dominada pelo sentir (o sentir que se constrói com sentimentos e não com a mera possibilidade de detetar aquilo que nos rodeia). A terceira fase é definida pelo processo do saber. Curiosamente, algo de semelhante a essas três fases acontece na mesma sequência em todos os seres humanos contemporâneos. (…)

Somos marionetas nas mãos da dor e do prazer, ocasionalmente libertados pela nossa criatividade. (…)

Assim sendo, a consciência é um estado mental particular que resulta de um processo biológico com múltiplos contribuidores. O funcionamento do interior do corpo, dado a conhecer através do sistema nervoso interocetivo, fornece o componente do sentimento, ao passo que as outras operações do sistema nervoso central fornecem a imagética que descreve o mundo em torno do organismo bem como a sua estrutura musculosquelética. (…) Mente e corpo são co-proprietários exclusivos, absolutos e notorizados deste magnífico conjunto.

… nem todos os estados mentais são necessariamente conscientes. Vejo a consciência como um estado mental enriquecido. (…) São os sentimentos que trazem à mente os factos através dos quais sabemos, de imediato, que aquilo que naquele momento temos na mente nos pertence e nos está a acontecer. Os sentimentos permitem-nos experienciar e tornarmos-nos conscientes. (…)

Aquilo que começa a dar origem à consciência é o enriquecimento da mente com o tipo de conhecimentos que apontam para o organismo como sendo proprietário dessa mente. (…)

A consciência não emerge só porque o conteúdo foi integrado apropriadamente. O resultado da integração é o alargamento da capacidade mental mas a consciência não tem a ver com a quantidade dos conteúdos mentais, mas sim com o significado de certos conteúdos. Aquilo que começa a dar consciência ao meu conteúdo mental é a identificação de mim próprio como dono dos presentes conteúdos mentais. 

(…)

in: Sentir & Saber - A caminho da Consciência, de António Damásio, Círculo de Leitores (Temas e Debates), Lisboa, 2020

24 dezembro 2020

Fernando Pessoa | Sónia Louro

Lá não fiz nenhum amigo, tal como não os fiz em lado algum … É uma criança que gosta de se isolar - ouvi repetidamente ao longo da minha infância e adolescência. (…) Gostava de brincar só e sentia muitos impulsos de raiva, de quase ódio, e muito medo. Mas nunca me isolei, pelo menos não da vida imaginária.

Há dias, melhor, há noites, em que as memórias me afogam no mar que é a minha cama e sinto-me um náufrago agarrado como última esperança ao meu cobertor como a um toco. O Chevalier de Pas não vem em meu auxílio porque já não sou criança, embora me sinta mais indefeso do que então. Mas nessa altura era feliz porque não tinha consciência de nada: da minha fragilidade, da minha solidão e do amor que era meu e me levaram. Sou mais indefeso agora porque sei que o sou, era feliz então porque não sabia que o era. 

Desde hoje estou só, humanamente abandonado e só. Era a partir de hoje que estava só, embora soubesse que sempre tivesse estado. 

Fechei o negócio das máquinas pelo telefone, sem ver nada antes. Só como um louco faria, assomou à minha ida para Portalegre, onde as máquinas se encontravam. (…) O deserto do Alentejo, emoldurado pela janela do comboio na viagem para Portalegre para ir buscar as máquinas para a minha tipografia, inspiravam-me palavras que, esperançosamente, escrevia junto do papel para não as perder.

E todos os versos do universo, os que já foram escritos e os que todos os poetas ainda hão-de escrever, volteiam na minha cabeça, como que a zombar por eu não conseguir apanhar nenhum. E sinto-me invadido por uma epifania divina sem razão de deus: e se existir apenas um único verso, daí a razão por um universo se chamar "uni-verso" e por todos os meus versos terem o valor que têm?

Sinto um desvairamento tal, como se tivesse deixado de ser senhor da minha lucidez. Eu vivo preso num dilema sem solução: "A solidão desola-me; a companhia oprime-me". 

O artista deve nascer belo e elegante, pois o que cultua a beleza não deve ser ele mesmo feio. E é seguramente uma terrível dor para um artista não descobrir absolutamente em si mesmo aquilo por que ele luta. (…) Que me restava então a mim, que tinha nascido feio, senão tentar ser elegante? E, sendo elegante, parecer assim menos feio. 

Por mais que a arca se enchesse, a minha cabeça nunca se esvaziava e não conseguia compilar um livro de versos, nem concluir uma das várias novelas … Eu queria esvaziar a minha cabeça e por isso escrevia tudo, tudo … 

Arre! Que um rio nunca se esgota por mais que se deite para o mar. As palavras nunca cessam por mais que tentasse ver-me livre delas, despejando-as para o papel. (…) Ah, porquê todas estas palavras que não param se não as consigo escrever melhor? Porém, ainda que não as escrevesse melhor, o que seria de mim se não as escrevesse? Seria um rio que galga a terra e causa enchentes …?

in:  Fernando Pessoa, de Sonia Louro, Edições Saída de Emergência, Portugal

01 dezembro 2020

Eternar a Natureza | Ana Gaspar


 


O Homem e a Arte. O Homem e a relação com a Natureza. 

Da interação com o espaço natural, e a partir dos materiais que dele se podem extrair, resultam momentos carregados de sentimentos e de emoções de fundo, como o prazer do instante e da "intimidade" desse espaço interior, cujo acto de espiritualidade e de entrega a esse local produz um acto criativo que daí até à sua interligação através dos materiais recolhidos no imediato se revelam numa criação eterna desse momento único. Este veículo de comunicação entre o indivíduo e a sua atitude revela um eternar a natureza, num registo visual cujo importância demostram ao universo da arte.

Desta relação "amorosa" entre Homem e Natureza, podem e resultam Obras de Arte únicas, que "vieram da Terra e para ela retornam", num "Eterno Retorno" do sentir da vida (tal como Nietzsche escreveu e pensou). Ainda e todo este encanto pela Beleza Natural à sua volta, o Homem-Artista desperta para um olhar sensível, curioso, e de uma entrega, à sua paixão de criação, tal como uma criança desperta a sua alegria, ao olhar a flor, a árvore, o céu, as cores, e a abundância de vida à sua volta, sentindo-se a ela ligada, como fazendo parte de um Todo, Natural e Humanizado, através da sua presença! (Tal como Einstein também chamou a atenção para a importância do "encanto" e da "curiosidade" na criança).

Em todo este processo, o Artista-Homem, com o seu poder criador, e com a sua visão ampliada pelo processo da vida natural, observando cada pormenor da vida vegetal e animal, se apropria de cada parte, proporcionando bem estar físico, emocional e ampliando este prazer aos olhos, através da sua criação neste espaço, proporcionando aos outros homens, um encanto, muitas vezes perdido, pela urbanidade, esquecida do contributo e da importância do verde, das cores, e sobretudo do movimento da Terra! 

A Terra, este local maravilhoso que permitiu a existência deste Artista-Homem sempre parte da vida natural, e a partir da qual aprendeu a criar, e potenciar a sua homeostasia nas suas criações fantásticas. A importância do movimento da Terra, do Sol, da Lua, e do próprio olhar e movimento do Homem ao longo destes milhões de anos carrega em si o poder da criação, como algo único e ancestral. 

No mundo contemporâneo, a necessidade de criação a partir do espaço natural é emergente e urgente, nesta relação antropológica, com a arte, e o ciclo natural.

in: Apontamentos de Ana Paula Gaspar, Maio de 2020

in: Obras de Arte: Círculo Nº 3 (Pinhas), e Círculo Nº 10 (Alfazema Selvagem), de Ana Paula Gaspar, 8 de Fevereiro 2020, e 22 de Março 2020. O núcleo é constituído por um total de 21 obras, designadas por Círculo e numeradas pela data de criação, desde Janeiro a Novembro de 2020. 

16 novembro 2020

Alexandrina Cereja | Ana Patrício

1. 

Alexandrina tinha vergonha daquela casa velha, de um amarelo desbotado, com dois ridículos limoeiros e uma nespereira num pequeno jardim quase impenetrável e incompreensível, entregue aos gatos. Também tinha vergonha do seu nome, porque mais ninguém se chamava Alexandrina. 

A mãe explicava às vezes que tinha ido, quando era nova, a uma festa, que bebera uns copos de vinho, e que sonhara depois com uma menina maravilhosa, chamada Alexandrina. 

E dizia que Alexandrina lembrava Alexandria, uma cidade no Egipto, cuja história incluía um Farol e uma Biblioteca. Às vezes Alexandrina tinha vontade de bater na mãe.

Mas aos onze anos as coisas mais simples parecem insuportáveis, e as coisas insólitas são aceites com naturalidade.

A casa e o nome eram as coisas mais simples da vida de Alexandrina e eram ao mesmo tempo as suas preocupações mais sérias. 

O resto da vida às vezes era triste, às vezes um bocadinho misterioso, às vezes assustava-a um pouco mas dava-lhe sempre a sensação de ser como as personagens dos livros; ainda que fosse uma vulgar rapariga de olhos e cabelos castanhos, essa sensação era reconfortante. 

2. 

O pai estava na América a estudar. Não era o seu verdadeiro pai, mas tinha um nome lindo: Renato. Era um médico importante de Lisboa, ainda muito novo e extremamente bonito, estava a especializar-se numa coisa que Alexandrina não sabia o que era, só que era parecido com Psiquiatria, mas mais complicado ainda - tinha a ver com descobertas novas que os americanos faziam e experimentavam.

Mandava-lhe todas as semanas um postal. Nunca a tratava pelo verdadeiro nome. Chamava-lhe Cereja, num pequeno código que tinham entre ambos, por ela gostar de cerejas.

Os postais da América eram incríveis. Alguns tinham música, outros vinham com perfume, e o pai escrevia sempre um PS: Toma conta da tua mãe!

Alexandrina sentia então uma momentânea responsabilidade, que depressa se dissipara. 

A mãe era linda. (…) Era louca e chamava-se Elisa. Raramente saía do quarto, onde bebia chávenas de chá e se enfeitava com lenços e pulseiras. Era uma mãe um bocadinho louca. (…)

7.

Alexandria passou o dia seguinte a limpar a casa. Telefonou à Daniela e disse que estava com febre, se ela não se importava de informar os professores. A Daniela disse que estava bem. 

Então, determinada, Alexandrina varreu todos os quartos, limpou as carpetes, fez as camas de lavado e lavou o chão gasto da cozinha, que ficou quase brilhante.

Pôs a roupa suja na máquina de lavar e telefonou para a clínica, de onde a informaram que a mãe não piorara, mas que ainda não recebia visitas.

A rapariga foi ao jardim, apanhou margaridas, rosas, camélias e umas outras flores amarelas e pequenas, que abundavam por ali. Enfeitou a casa toda com as flores.

Pé ante pé entrou no quarto da mãe, que cheirava a fumo e a fechado, e abriu a janela, para que o ar fresco da manhã lhe desse um ar saudável. 

Alexandrina despejou os cinzeiros, ajeitou as almofadas de veludo, apanhou os vestidos do chão e voltou a pendurá-los. Apanhou os livros espalhados e colocou-os nas prateleiras. Depois, numa jarra verde, de um vidro antigo, misturou todas as flores que trouxera do jardim. E achou que o quarto tinha ficado com um ar alegre. 

Em cima da cómoda estava aberto um caderno, onde se podia ver a letra incerta da mãe, mas Alexandrina não se atreveu a espreitar o que tinha escrito.

Fechou-o solenemente e deixou-o no lugar.

Estafada, sentou-se na cozinha a comer uma maçã- mas nem por um segundo lhe ocorreu pensar que tudo aquilo era injusto.

Durante cinco dias Alexandrina viveu completamente sozinha. (…)

Alexandrina disfarçou os soluços, limpou as lágrimas com as mãos, e respondeu que preferia ir para a avó Eduarda, para o campo. (…)

9.

As coisas na vida mudam às vezes tão rapidamente que quase não damos pela mudança. Aos onze anos é fácil adaptarmo-nos a tudo, principalmente à beleza.

E a Beira Alta era verde e bonita e a quinta da avó Eduarda um sítio óptimo para se viver.

Alexandrina aprendeu imenso sobre animais, sobre árvores de fruto e outras coisas interessantes.

Experimentou descer a correr uma pequena colina coberta de ervas altas, que levava a um riacho cristalino, e adorou a sensação. Parecia que tinha vivido sempre na Beira Alta.

Pela primeira vez na vida tinha muitas pessoas da sua idade para conviver. (…)

Alexandrina chegou à conclusão que uma escritora - agora já não acrescentava famosa tantas vezes - tinha que viver a proximidade da Natureza para ser realmente boa. E pensava que a mãe escrevia poemas porque crescera ali. (…)

Alexandrina gostava muito deles mas não tinha nenhuma vontade de voltar para Lisboa. Só quando fosse mais velha, para estudar literatura, grego e latim. (…)

Os nomes destes novos amigos tinham para Alexandrina um som doce, muito macio. (…)

10.

E assim a vida se desenlaçou como um novelo, como o decorrer das estações.

Um dia, quando Alexandrina já tinha treze anos, recebeu uma carta da mãe. A Câmara demolira a casa amarela e o Renato comprara uma casa ao pé do mar, numa terra chamada Azenhas do Mar. A mãe contava que cheirava sempre a mar, que ali era sempre feliz e convidara-a para ir viver com eles. E o Renato escreveu também: vem, Cereja!

Deu-lhe vontade de chorar. Lembrar-se dos postais da América, da casa amarela que agora era só uma estrada mais larga, por onde os autocarros podiam passar sem atropelos.

Lembrou-se do prédio moderno onde o pai vivia, daqueles fins-de-semana em que a convidavam por dever, e sentiu então que agora era dali, da Beira Alta, e de mais lugar nenhum.

(…)

E, como uma escritora verdadeira, saiu de casa, passeou lentamente até ao riacho, e pensou que a maior aventura da vida das pessoas era a amizade. Os seus livros, um dia, falariam disso.

 

in: Alexandrina Cereja, de Ana Patrício, Prémio Revelação 1996, Difel Editora

15 outubro 2020

O Estúdio de Alberto Giacometti | Jean Genet

 Ora a obra de Giacometti torna o nosso universo tão insuportável quanto este artista parece ter sabido afastar o que lhe perturba a visão, e descobre o que resta do homem expurgadas que sejam as aparências. É tão profunda a nostalgia que o fortaleceu no trabalho, que Giacometti também deve ter tido necessidade dessa inumana condição imposta. (…)

Aceito mal o que em arte se designa por inovador. Deverá uma obra ser entendida pelas gerações futuras? Porquê? Que quererá isso dizer? Que elas poderão utilizá-la? Em quê? Não vejo bem. Já vejo melhor - ainda que muito obscuramente - toda a obra de arte que pretenda atingir os mais altos desígnios deve, com paciência e uma infinita aplicação desde início, recusar milénios e juntam-se, se possível, à imemorial noite povoada pelos mortos que irão reconhecer-se nessa obra.

Nunca, nunca, o obra de arte se destina às novas gerações. Ela é oferenda ao inúmero povo dos mortos. Que a acolhem. Ou rejeitam. Mas os mortos de que falo nem vivos foram. Ou então esqueci-os. Porque foram-no suficiente para que os esqueçam, já que a vida teve como fim levá-los a cruzar esta tranquila margem de onde aguardam (…)

A obra de Giacometti transmite ao povo dos mortos o conhecimento da solidão de todos os seres e de todas as coisas, solidão, nossa mais certa glória. (…)

Zona secreta, solidão onde se refugiam os seres - e as coisas - é ela que dá beleza à rua: por exemplo, se for sentado num autocarro basta olhar pela janela. A rua cede o que o autocarro devassa. (…)

Solidão, como eu a entendo, não designa estatuto de miséria mas secreta soberania, nem profunda incomunicabilidade mas conhecimento mais ou menos obscuro de uma singularidade intocável. (…)

A mão vive, a mão vê. (…)

Alegria dos meus dedos bastantemente conhecida, sempre renovada ao passá-los - olhos fechados - sobre uma estátua. (…)

Giacometti, o escultor para cegos.


in: O Estúdio de Aberto Giacometti, de Jean Genet, Ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 1999

10 outubro 2020

Tríptico Azul

Tenho os pés cansados de caminhar.

Tenho o coração a arder de tanto amar.

Tenho o tempo nas mãos, que me foge como a areia do deserto com o vento.

E é esta a solidão que carrego desde que nasci.

Não adianta fugir.

Também não tenho para onde ir.

Só me resta o Azul do céu, o Branco das nuvens e o cansaço desta turbulenta Vida na Terra.



in: Poema, de Ana Paula Gaspar, 11 de setembro de 2020
in: Tríptico, de Ana Paula Gaspar, Pintura em Acrílico sobre tela, 1996

05 outubro 2020

O Banquete | Platão

 O que distingue eros de outros termos, também traduzíveis por "amor", como philia (amor/amizade) ou ágape (amor/afeição), é o cambiante típico de impulsividade e sobreposse, cujo potencial destrutivo a tragédia explora à saciedade, como é patente n'As Traquínias de Sófocles ou no Hipólito de Eurípides.

Independentemente desse cambiante, que passaria talvez despercebido no uso comum, eros é sempre um sentimento que mobiliza as forças da psique humana na prossecução de um objetivo - de algo que se quer ter ou dominar (…)

Sabe-se que a passagem do jantar à bebida era acompanhada de libações, preces e cânticos; seguidamente fixava-se um programa, estabelecendo-se não só o modo de beber mas também os assuntos que regulariam a conversação; um presidente (symposiarkhos) velava pela execução do programa - papel que neste diálogo será primeiro desempenhado por Fedro, o "pai do assunto", e mais tarde por Alcibíades. Por outro lado, era costume o dono da casa proporcionar aos seus hóspedes espectáculos variados e divertidos em que intervinham a tocadora de flauta, a dançarina ou mesmo uma companhia de artistas, como sucede em Xenofonte. O ambiente geral caracterizava-se pela boa disposição e liberdade, não raro terminando em orgia. (…)

… o amante (eron) é a parte activa da relação, competindo-lhe assumir as iniciativas e o encargo do aperfeiçoamento do amado (eromenos); a este cabe o papel meramente passivo, retribuindo o amor do amante com a philia, "amizade", e a obrigação de o gratificar (kharizesthai) em tudo o que lhe for solicitado. (…)

Com Aristófanes, penetramos numa esfera de sonho e idealidade onde a dynamis, "poder", do Amor se liberta de todas as suas implicações sociais e sociológicas para encontrar na physis humana a sua origem mais remota e verdadeira, e cujos padecimentos apenas eros pode curar. (…)

A realidade contraditória do Amor prefigura-se com o mito do seu nascimento (203 a-c), onde Platão alcança uma das suas mais belas e sugestivas criações artísticas: Eros, filho de Penia, a Pobreza, e de Poros, o deus Engenho, resume em si as qualidades antitéticas que opõem os seus progenitores: é por um lado pobre, o que equivale a dizer indigente e ignorante; por outro lado é rico, herdando do pai a sabedoria e o engenho que o levam a superar o estado natural de Pobreza, a sua mãe; ainda, o facto de ter sido concebido no dia do nascimento de Afrodite determina a sua natureza essencial como um "apaixonado do belo"(…)

Ao longo delas, o filósofo vai apreendendo, pelo amor, a beleza dos corpos, depois, a beleza das almas e dos conhecimentos, desviando-se a cada passo de um "belo objeto" para outro, onde lhe será possível gerar e produzir novos logoi, sucessivamente profundos e enriquecidos, pelos quais a sua ânsia de imortalidade se firma. É a revelação do Belo - o ser divino, simples e imutável - que culmina esta dialética ascendente do sensível ao inteligível. Pela sua contemplação e em união com ele (ephaptomenoi), o filósofo não só alcança gerar a verdadeira virtude (arete), mas ainda assegura uma imortalidade que lhe advém como prémio do seu esforço. (…) 

in: O Banquete, de Platão, Relógio d'Água Editores, 2018

03 setembro 2020

The Picture of Dorian Gray | Oscar Wilde

In the centre of the room, clamped to on an upright easel, stood the full-lenght portrait of a young man of extraordinary personal beauty, and in front of it, some little distance away, was sitting the artist himself, Basil Hallward, whose sudden disappearance some years ago caused, at the time, such public excitement, and gave rise to so many strange conjectures. 
(…)
'It is your best work, Basil, the best thing you have ever done', said Lord Henry, languidly. 
(…) 
'I don't think I shall send it anywhere,' he answered, tossing his head back in that odd way that used to make his friend laught at him at Oxford. 'No: I won´t send it anywhere. 
(…) 
'I know you will laugh at me,' he replied, but I really can´t exhibit it. I have put too much of myself into it.' 
(…) 
But beauty, real beauty ends where an intellectual expression begins. Intellect is in itself a mode of exaggeration, and destroys the harmony of any face. 
(…) 
Oh, I can't explain. When I like people immensely I never tell their names to anyone. It is like surrendering a part of them. I have grown to love secrecy. It seems to be one thing that can make modern life mysterious or marvellous to us. The commonest thing is delightfull if one only hides it. When I leave town now I never tell my people where I am going. If I did, I should lose all my pleasure. 
(…) 
I make a great difference between people. I choose my friends for their good looks, my acquaintances for their good characters, and my enemies for their good intellects. 
(…) 
An artist should create beautifull things, but should put nothing of his own life into them. 
(…) 
Because to influence a person is to give him one's own soul. 

 in: The Picture of Dorian Gray, by Oscar Wilde, Macmillan Collector's Library, London, 2017