Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

21 outubro 2013

De noite na cama, eu fico pensando




De noite na cama, eu fico pensando, é uma instalação constituída por várias fronhas brancas, sobre fundo azul céu, com fragmentos de textos bordados a linha vermelha, retirados do livro A Arte de Viajar, de Alain de Botton, que, abordando os prazeres e desilusões, ou frustrações de viajar, lhe permite evocar, através de um jogo entre texto e objecto, a ideia de uma viagem essencialmente interior e afectiva.

De noite na Cama, fico pensando, de Ana Pérez-Quiroga, in: Casa Ocupada, Casa da Cerca, Almada, 2013

17 outubro 2013

Como é que se esquece alguém que se ama? | Miguel Esteves Cardoso


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Amor, de Miguel Esteves Cardoso, in: Último Volume

16 outubro 2013

A Mensageira das Violetas


Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é louro como teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites cousteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço.

Florbela Espanca, in: "A Mensageira das Violetas"

15 outubro 2013

Feijoeiro Mágico



A partir da história "João e o Pé de Feijão" representa-se o feijoeiro mágico deste conto popular, mas reveste-se de outros níveis de significação e conotações simbólicas. Podemos afirmá-lo ainda como uma metáfora da "casa", que à semelhança de uma planta ou árvore, configura também uma ideia de enraizamento, de fixação ao lugar, de desenvolvimento e transformação.

Ver: Casa da Cerca, Casa Ocupada, Outubro de 2013
Feijoeiro, de João Pedro Vale, 2005

08 outubro 2013

Emergir | Identify Specific


Emergir - Identify specific, é uma instalação de Maria Tomás, com curadoria de Cristina Azevedo Tavares.

Um espaço a descobrir, e a criar admiração pela dimensão das peças ali expostas, e em total diferenciação de escala com a nossa envolvente. Fazem parte da história, de uma vida, e são parte da nossa percepção.
O contexto em que ali foram salvaguardadas e a sua redescoberta pelo olhar dos artistas plásticos renova ainda o próprio local e a sua interligação com a nossa contemporaneidade.


Ver: Casa dos Gessos, do Museu Militar de Lisboa (Campo de Santa Clara nº 62, junto ao Panteão Nacional).

01 outubro 2013

O Desencadear das Emoções


A cadeia de fenómenos que leva à emoção inicia-se com o aparecimento na mente do estímulo-emocional-competente. Em termos neurais, as imagens do estímulo competente são apresentadas nas diversas regiões sensoriais que mapeiam as suas características, por exemplo, nos córtices visuais ou auditivos. Chamamos a esta parte do processo a fase de "apresentação". Na fase seguinte, sinais ligados à representação sensorial do estímulo são enviados para vários outros locais do cérebro, nomeadamente para os locais capazes de desencadear emoções. Podemos conceber esses locais como fechaduras que apenas se podem abrir com as chaves que lhe correspondem. Essas chaves são, evidentemente, os estímulos emocionais competentes. Deve notar-se que as chaves "seleccionam" uma fechadura preexistente e que não instruem o cérebro na construção de uma fechadura nova.
A actividade nestes locais desencadeadores é a sua causa imediata do estado emocional que ocorre no corpo e no cérebro. Mais tarde ou mais cedo, esta cadeia de acontecimentos pode reverberar e amplificar-se ou reduzir-se e terminar.
Em conclusão, em linguagem neuroanatómica ou neurofisiológica, a cadeia começa quando os sinais neurais correspondentes a um certo objecto (por exemplo, os sinais que representam um objecto ameaçador nos córtices visuais) são comunicados em paralelo ao longo de diversas projecções neurais para outras regiões do cérebro.
Algumas das regiões recipientes, como, por exemplo, a amígdala, entram em acção quando detectam uma certa configuração de sinais - ou seja, quando a chave serve na fechadura - e, por sua vez, iniciam sinais que alvejam outras regiões cerebrais, continuando desta forma a cadeia de acontecimentos que virá a tornar numa emoção.
Estas descrições lembram de certo modo as de um antigénio (por exemplo, um vírus) que entra na corrente sanguínea e que leva a uma resposta imunitária feita de numerosos anticorpos capazes de neutralizar o antigénio.
O processo neural e o processo imunitário têm uma certa parecença formal.
No caso da emoção, o "antigénio" é apresentado através do sistema nervoso e o "anticorpo" é a resposta emocional.

in: António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, p. 71.

24 setembro 2013

Emoções e Submissão/Liderança

É muito provável que a existência de emoções sociais tenha tido um papel no desenvolvimento dos mecanismos culturais da regulação social. É também verdade que algumas das emoções sociais humanas são provocadas sem que o estímulo seja imediatamente aparente, nem para os observadores, nem para quem exibe a emoção. As reacções de dominância ou submissão social são um exemplo notável que encontramos a cada passo no mundo dos desportos, da política e nos locais de trabalho em geral.
Uma das razões por que algumas pessoas se tornam líderes e outras seguidoras, por que algumas inspiram respeito e outras se acobardam, tem muitas vezes pouco a ver com os conhecimentos ou aptidões dessas pessoas, mas muitíssimo a ver com qualidades físicas que promovem certas respostas emocionais nos outros.
Para quem observa tais respostas e, por vezes, para quem as exibe, estas emoções aparecem sem qualquer motivo aparente, porque a sua origem reside nos mecanismos automáticos da emoção social.
Devemos agradecer a Darwin, uma vez mais, por nos ter orientado para a história evolucionária destes fenómenos.

in: António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, as Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, p. 62.

08 agosto 2013

Compreender a Biologia das Emoções


Numa sociedade moderna, a zanga é contraproducente, tal como a tristeza. As fobias são um enorme obstáculo. E, no entanto, está bem de ver que a zanga e o medo salvaram numerosas vidas ao longo da evolução.
(...)
Compreender a biologia das emoções e o facto de que o valor das diferentes emoções depende das circunstâncias actuais, oferece oportunidades novas para a compreensão moderna do comportamento humano. Podemos compreender, por exemplo, que certas emoções são más conselheiras e procurar modos de suprimir ou reduzir as consequências desses maus conselhos. Estou a pensar nas reacções que levam a preconceitos raciais e culturais e que se baseiam em emoções sociais cujo valor evolucionário residia no detectar de diferenças em outros indivíduos - porque essas diferenças eram indicadoras de perigos possíveis - e no promover de agressões ou retraimento. Este tipo de reacções deverá ter produzido resultados extremamente úteis numa sociedade tribal, mas não é útil nem aceitável no mundo actual.

in: António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, p. 54.

15 julho 2013

Ao Encontro de Espinosa | António Damásio


… Espinosa fuma o seu cachimbo e o aroma do tabaco colide com o da aguarrás durante as perguntas e respostas. Entardece. Atrás destas janelas Espinosa recebeu centenas de visitantes, desde vizinhos e familiares dos Van der Spijk a jovens estudantes, desde Gottfried Leibniz e Christiaan Huygens a Henry Oldenburg, presidente da Royal Society inglesa então acabada de criar. A julgar pelo tom da sua correspondência, Espinosa era simpático com a gente simples e impaciente com os seus pares. Ao que parece tolerava aqueles que eram tolos mas modestos, mas não o resto dos tolos.
(…)
O Deus de Espinosa não era judeu nem nem cristão. O Deus de Espinosa estava em toda a parte, dentro de cada partícula do universo, sem princípio nem fim, mas não respondia nem a preces nem a lamentações. Enterrado e desenterrado, judeu e não judeu, português mas não exactamente, holandês mas não completamente, Espinosa não pertencia a parte nenhuma e estava em toda a parte.

in: Ao Encontro de Espinosa - As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, de António Damásio, 2012, pp. 33 e 37.

23 junho 2013

A Sagração da Primavera



"E num corpo que já não é seu, num tempo que a transcende e antecede, ela dança.
Selvagem, brusca, bruta, sensual; uma consciência desperta para o existir pleno e superior.
Exausta, acabará por cair, por fim.
Depois, o prelúdio.
O recomeço.
Os mesmos rituais, os mesmos círculos, as eternas revelações daquilo que foi e sempre será.
Tudo se repete num perpétuo retorno de momentos. Não há início nem ocaso.
A terra, as raízes, os homens.
Os sentidos, as emoções, as rivalidades.
O quotidiano, os excessos, o medo, a imaginação e a criação.
As crenças. A fé. Os sacrifícios: a busca constante de actuação do divino através da adoração ou oferenda do que é terreno e material - Homem ou objecto; a expressão pura da libertação, uma tentativa de fuga ao que nos oprime e angustia.
A sagração. Do tempo, esse que é limitado, cíclico, inexorável, que nos trespassa e se repete. Constantemente. Eternamente. Sem fim. Renasce, recria-se, reencontra-se.
E num corpo que já não é seu..."

in: A Sagração da Primavera, direcção de Olga Roriz, Culturgest, Junho de 2013
Texto: Paulo Reis, Maio 2013

05 junho 2013

Uma pedagogia da Morte | Obrigação de viver




Assim, em benefício da morte voluntária: a necessidade existe, mas não há qualquer obrigação de viver por necessidade; é possível escolher abandonar a vida por opção própria; o nosso corpo pertence-nos e podemos usá-lo como quisermos; a existência não vale pela quantidade de vida vivida, mas sim pela sua qualidade; morrer bem é melhor do que viver mal; deve-se viver o que se deve, não o que se pode; escolher uma (boa) morte vale mais do que padecer uma (má) vida.

in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, p. 190.

29 maio 2013

Bertolt Brecht


Do rio que tudo arrasta se diz que é violento mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem. 
Bertolt Brecht

Ver: http://www.astormentas.com/brecht.htm

22 maio 2013

Todos são especiais | Aceitar


Todas as pessoas são especiais.
O erro do ser humano foi pensar que alguns são mais importantes do que outros.
A inteligência ou as capacidades que uns possam ter em relação a outros foram dádivas da natureza e sensibilidades diversificadas, o que significa a riqueza da humanidade.
O grande desafio é aceitar as diferenças entre cada um no conjunto de todos.

[Imagem] S/Título, Sem Data, de Emmerico Nunes

14 maio 2013

Michel Onfray | O Desejo


A codificação ascética.
A priori, o desejo estimula uma formidável força anti-social.
Antes da sua captura e domesticação pelas formas que se apresentam como socialmente aceitáveis, o desejo representa uma energia perigosa para a ordem estabelecida.
Sob a sua tutela, aquilo que constitui um ser socializado já não conta para nada: utilização do tempo ordenado e repetitivo, prudência na acção, poupança, mansidão, obediência, tédio.
É assim que triunfa tudo o que se opõe a isto: liberdade total, soberania do capricho, imprudência generalizada, despesas sumptuosas, insubmissão aos valores e aos princípios vigentes, rebelião em face das lógicas dominantes, total falta de socialidade.
Para poder ser e durar, a sociedade tem que submeter essa força selvagem e sem lei.

in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Campo da Comunicação, p. 119.

08 maio 2013

Simone de Beauvoir | Ninguém nasce mulher: torna-se mulher




LOVE  LOVE  LOVE
Não faço filhos, faço livros.
Simone de Beauvoir


A Ciência mostrou que o "instinto materno" não é inato e pode ser vivido de diversos modos. As transformações culturais trouxeram a oportunidade de fazer opções, o que ajudou muita gente a chegar à conclusão de que não quer engravidar - algo simplesmente impensável na época das nossas avós.
No entanto, ao serem questionadas as mulheres percebem na curiosidade alheia a pressão e as críticas disfarçadas, como se a opção de não terem sido mães as fizesse pessoas especialmente egoístas ou fosse sinal de algum "grande problema" em relação à sua feminilidade. Nas pesquisas efectuadas, o estudo revelou que as mulheres sem filhos se sentiram estigmatizadas como se fossem cidadãs de segunda categoria. "É como se, de certa forma, a maternidade fosse a garantia de nos tornarmos pessoas melhores", observa Maria Letizia Tanturri, professora de Demografia na Universidade de Pavia, Itália.

As mulheres criaram outros interesses. A neurologista Rita Levi-Montalcini (ganhadora do prémio Nobel da Fisiologia e Medicina, em 1986) e a escritora Simone de Beauvoir, não foram mães, mas criaram conhecimento.
A filósofa Elisabeth Badinter, publicou O Conflito: a mulher e a mãe. Hoje, as mulheres têm melhores condições socioeconómicas, podem escolher, e, pelo menos na Europa, uma em quatro mulheres não parece estar interessada em ter filhos, afirma a socióloga inglesa Catherine Hakim, pesquisadora da London School of Economics.

in: Revista Scientific American, Filhos? Não, Obrigado, Ano XIX, Nº 231, p. 37.

06 maio 2013

Pedro Tamen | Dentro de Momentos


Ao lado da manhã nasceu outra manhã
Onde o teu pé, só por tocar o chão,
Imobiliza o tempo.

Aquele que não ama nem odeia,
Por não ferver, azeda como o leite.


(Texto) in: Dentro de Momentos, de Pedro Tamen, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, pp. 20 e 29.
(Imagem) Colagens, de Fernando de Azevedo, in: Exposição - Razões Imprevistas, Centro de Arte Moderna,  Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Maio, 2013

30 abril 2013

A Face Oculta dentro de si mesmo | Dois "eus" encaixados



Apelos da Natureza e Viagens do corpo e da alma.

Assim é o Amor: capaz de encantar, desnortear, entusiasmar, enlouquecer, enlevar, fascinar, fazer viver, adoecer e morrer. Transforma a pessoa comum em poeta, a rotina em ocasião especial, pequenos gestos se tornam imensos, faz o coração bater, amplia horizontes ou estreita na cegueira do fanatismo. O facto é que não há quem escape das alegrias e dos males de amor. E, à felicidade extrema decorrente de sua concretização, opõe-se o enorme sofrimento quando o amor vem acompanhado de um obstáculo que impeça a sua realização. A dor da separação é descrita, por exemplo, por São João da Cruz, em seu Cântico espiritual, poema pertencente ao livro A noite escura da alma. Angústia, agonia, depressão, sofrimento, abandono, desespero, solidão são algumas das emoções das quais padecem aqueles que conhecem a travessia nocturna pelo mar, a descida aos abismos profundos do ser, onde a escuridão habita dia e noite.

[Texto] in: Jung e o Amor, por Maria Helena R. Mandacarú Guerra, in: Revista Mente e Cérebro, Nº 230, p. 47.
[Imagem] Cartaz, Kasbah marroquina, Rosa's do deserto, uma Pinha e uma Folha, in: Exposição - A Face Oculta, ESTGP, Abril de 2013.

29 abril 2013

Carl Gustav Jung | O Amor


Jung e o Amor
O psiquiatra Carl Jung (1875 - 1961) foi um homem erudito, cientista, estudioso, pesquisador, intelectual criativo. Com grande capacidade para apreender profundamente o psiquismo, partindo das suas experiências e das dos seus pacientes, propôs um modelo de funcionamento mental. Durante alguns anos aproximou-se muito de Sigmund Freud, criador da psicanálise, e manteve com ele correspondência assídua e contactos frequentes, até que os dois protagonizaram uma ruptura que durou até ao fim da vida.
Autor de uma obra vastíssima, são dele, por exemplo, alguns conceitos, como inconsciente colectivo, arquétipo, Self, anima, animus, complexo, sombra e sincronicidade.
Jung desenvolveu também uma tipologia psicológica, concebendo quatro funções da consciência (pensamento, sentimento, intuição e sensação) e duas atitudes (introversão e extroversão), que combinadas duas a duas formam oito tipos. (…) Assim, na medida em que nos aprofundamos no caminho do auto conhecimento, abrimos espaço também para nos percebermos iguais a todas as outras pessoas. Vivemos, portanto, algo paradoxal: sermos iguais e, ao mesmo tempo, absolutamente únicos.
Aqueles que trilham esse caminho sabem que raramente o percurso ocorre sem tensão ou conflito. E não foi diferente com Jung.

As Duas Mulheres
Para ele o Amor ocupava um lugar fundamental. Aos 84 anos, em entrevista aMiguel Serrano, intelectual chileno que viveu na Índia como embaixador de seu país, Jung afirmou: "Nada é possível sem amor, uma vez que somente a pessoa apaixonada põe em jogo toda a sua personalidade e arrisca até mesmo a vida. O amor é a flor mística da alma, o centro, é o si-mesmo. Ninguém entende isso, a não ser alguns poetas, somente eles me compreenderão…"
A fidelidade a seu processo de individuação, o respeito ao que acreditava e à sua essência deram a Jung coragem para viver algo completamente repudiado e fora da tradição religiosa e social do Ocidente: a bigamia. Ele introduziu Toni Wolf em sua vida pessoal e profissional, ao lado de Emma, fazendo questão que ela fosse respeitada como sua segunda mulher. Emma e Toni trabalharam como analistas junguianas, recebendo pacientes e convivendo socialmente.
Jung encontrou nelas companheiras de existência, mantendo os dois relacionamentos até ao fim. E sobreviveu a ambas.

in: Scientific American, in: Revista Mente e Cérebro, Ano XIX, Nº 230, p. 49.

16 abril 2013

Michel Onfray | A Potência de Existir


1.
Sem necessidade de ser justo, o terror oferece, por si só, uma forma de governação: " para que nos obedeçam, temos que ser receados", este era o pensamento que estava em vigor em França antes de Maio de 68. [p. 33]

2. 
O filósofo é filósofo vinte e quatro horas por dia, mesmo quando faz a lista da lavandaria antes de retomar o argumento habitual… Platão é filósofo quando escreve contra o hedonismo no Filebo, mas também quando o vendedor ascético morre durante um banquete; tanto na redacção do seu Parménides como no seu desejo de queimar as obras de Demócrito; na sua fundação da Academia e no seu passado enquanto autor dramático e lutador; ele é filósofo quando publica A Republica e As Leis, assim como quando vive como cortesão junto de Dionísio de Siracusa; etc. Um e outro, um é o outro. Decorre disto a necessidade de uma íntima relação entre teoria e prática, entre reflexão e vida, entre pensamento e acção. A biografia de um filósofo não se reduz somente ao comentário das suas obras publicadas, ela abrange a natureza do vínculo entre os seus escritos e os seus comportamentos. Só se pode chamar obra ao conjunto. O filósofo deve mais do que ninguém, manter unidos esses dois tempos tão amiúde colocados em oposição.
A vida alimenta a obra que, por sua vez, alimenta a vida: Montaigne foi quem primeiro o descobriu e demonstrou; ele sabia que, quando se faz um livro, tornamo-lo tanto mais notável quanto ele por sua vez nos constitui. [p. 73]

3. 
O conjunto converge num ponto focal: o hedonismo. 
Sugiro amiúde esta máxima de Chamfort, por ela funcionar como imperativo categórico hedonista: desfruta e faz desfrutar, sem fazeres mal a ti ou a alguém: eis toda a moral.
Está tudo dito nesta máxima: fruição de si, é certo, mas também e sobretudo fruição de outrem, porque sem ela nenhuma ética é possível ou pensável, pois só o estatuto do outro a define como tal. [p. 77.]

in: Michel Onfray, A Potência de Existir, Editora Campo da Comunicação, 2009

03 abril 2013

Graça Morais | A Terra



A artista Graça Morais nasceu em 1948, em Vieiro, Trás-os-Montes,
 e local onde vive actualmente.
As suas produções são "impregnadas de uma matriz expressionista".
Graça Morais pinta por ciclos, cada um deles surgidos por impulsos contraditórios, por receios e audácia, num nervosismo que tolda o próprio deslumbramento sentido perante alguns comportamentos humanos.
A sua arte intuitiva assimila o que o corpo conhece, sofre, luta.
A sua experiência pessoal. A da sua mãe.
Os temas da sua obra: os ciclos da vida das mulheres, a terra, os rostos, os corpos, bem como a fragilidade do ser humano.