Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

14 setembro 2016

Arts in Action | Portalegre 2016


Em Portalegre, uma cidade no Alto Alentejo de Portugal, recebeu em pleno verão de 2016, cerca de 70 jovens provenientes da Alemanha, Bélgica, Itália, Portugal e Suécia. Um projecto internacional desenvolvido e orientado por Altino Barradas, oriundo desta cidade e apaixonado pelos encontros multiculturais e diversificados um pouco por todo o mundo.

Um encontro designado por Arts in Action, que sob a forma de Residência Artística, iria permitir uma troca de experiências e de acções criativas em volta da cultura gastronómica, artística, citadina, de linguagens, de expressões corporais, intelectuais, de reconhecimento do território variado em ofertas, cuja dinâmica implica um crescimento afectivo e de partilha vasta.

Para este encontro foi definida a temática da Tapeçaria de Portalegre, trata-se de um dos patrimónios mais relevantes desta cidade, e neste projecto foram incluídos ambos os locais da cidade onde se podem encontrar as tapeçarias: a Manufactura de Portalegre e o Museu das Tapeçarias de Portalegre.

Após o convite de Fátima Reis para criar e orientar um Ensemble de Artes para esta iniciativa, e deste modo integrar ainda uma equipa de mais cinco ensambles: ginástica, canto, dança, percussão e vídeo; foi desde logo planeada uma estratégia de modo a dar resposta ao período de tempo necessário ao desenvolvimento das actividades criativas.

O projecto tinha desde o seu início como objectivo principal uma mostra pública na cidade de Portalegre. Ou seja, os resultados do trabalho diário de todos os ensambles seriam apresentados no dia 3 de Agosto de 2016, pelas 22h, na Praça da República, na cidade de Portalegre.

O tema decidido para o resultado final foi a Tapeçaria de Portalegre e o sub-tema: a manufactura da tapeçaria, ou seja, o seu processo de construção no tear. Deste modo, o tear, as tecedeiras, a lã, o desenho, o esquema das cores, a obra de arte e a aprovação final pelo artista. Todos estes pontos seriam representados e expressos em cenário público com actores e actrizes activos neste processo artístico; o que implicava que todos os participantes neste projecto iriam aparecer no resultado final. Este resultado implicava ainda uma ligação criativa e uma interacção entre todos os ensambles.

O Ensemble de Artes Plásticas abordou o tema: O Nosso Corpo é um Mecanismo, e como Sub- Tema: Os Nossos Cinco Sentidos. A partir de diversos mecanismos no processo de criação, a inspiração na natureza é determinante e assim o seu envolvimento neste projecto também o foi. Desde materiais naturais recolhidos no local à sua interligação e criação no espaço envolvente de peças artísticas cuja ligação à criatividade se estabeleceu com o corpo, a relação entre os corpos e a relação com a paisagem circundante. Incluiu-se ainda uma instalação de um "tear" ao ar livre e um percurso abrangente entre os elementos do grupo e a daí os respectivos resultados artísticos com a orientação criativa e plástica de autora do Ensemble: Ana Gaspar.

A seguinte transcrição mostra um dos momentos em que foi lido e representado este excerto, permitindo um encadeamento com todo o processo artístico da manufactura de uma tapeçaria: "(…) Nas férias as tecedeiras levavam os filhos para a manufactura e depois do lanche, as crianças dormiam no chão da manufactura. Era um espaço intimidante, mas belo, onde as crianças se calavam sem ninguém as mandar calar, como se soubessem que ali o som não fosse necessário, como se o que os filhos viam lhes bastasse ao espírito. (…)" in: Olho + Espírito Sónia Amor, Páteo, Portalegre, 2016



Fotografias: alguns resultados do Ensemble de Artes, 22 Julho a 5 Agosto, 2016

18 julho 2016

Calígula | Albert Camus

Helicon
E que querias tu?

Calígula
A Lua

Helicon
Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso.

Calígula
… Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível.
… Tenho, portanto, necessidade da Lua ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo.
… Os homens morrem e não são felizes.
… Porque lhes falta um professor que conheça aquilo que ensina.

Cipião
… que fazer sofrer é a única maneira de agente se enganar.

Calígula
… devem obrigatoriamente deserdar os filhos e testemunhar imediatamente a favor do Estado.
… Governar é roubar, toda a gente o sabe.
… por mim, roubarei francamente.
Acreditava, como toda a gente, que estar desesperado era uma doença da alma. Estava enganado, o corpo é que sofre.
… Como é duro, como é amargo a gente tornar-se um Homem!
… para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas, se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente, e com que decresça o sofrimento, se não posso impedir os seres de morrerem?
… Quero misturar o Céu com a Terra, confundir a beleza com a feldade, fazer explodir o riso, do sofrimento.
… quando a Lua for minha…

Cesónia
Nunca poderás negar o amor.

Calígula
O amor, Cesónia! Aprendi que não é nada.

Cherea
O que é insuportável é ver dissipar-se o sentido desta vida, ver desaparecer a nossa razão de existir.

Calígula
Qual é o castigo para os escravos preguiçosos?
O Chicote, suponho.

Cesónia
… as tuas mãos cheias de flores e de crimes.
… as tuas alegrias sem futuro…
… sacia-nos para sempre no teu coração negro e sujo.

Calígula
… Provei a esses deuses ilusórios que um homem, se tiver vontade, pode exercer sem aprendizagem o ridículo ofício deles.
… Compreendi simplesmente que só há uma maneira de nos igualarmos aos deuses e é tornarmo-nos tão cruéis como eles.
… se exerço este poder é por compensação.

Cipião
Por compensação? A quê?

Calígula
À estupidez e ao ódio dos deuses.
… Não Cipião, isto não é arte dramática! O erro de todos esses homens é não acreditarem o suficientemente no teatro. Se não fosse isso, saberiam que a qualquer homem é permitido representar as tragédias celestes e tornar-se deus. Basta endurecer o coração.
… Um homem honrado é um animal tão raro neste mundo, que a minha vista não o pode suportar durante muito tempo. Preciso de ficar só para saborear este grande momento.

Cherea
Tens alguma coisa de particular a dizer-me?

Calígula
Não. Cherea.
… Tenho necessidade de falar com alguém que seja inteligente.
… Cherea, acreditas que dois homens cuja alma e cuja altivez sejam iguais possam, ao menos uma vez na vida, abrir o coração e falar, como se estivessem nus, um diante do outro, despojados dos preconceitos, dos interesses particulares e das mentiras em que vivem?

Cherea
Penso que é possível, Caius. Mas julgo-te incapaz de o fazer.

Calígula
Tens razão. Só queria saber se pensavas como eu. Cubramo-nos então de máscaras. Utilizemos as nossas mentiras. Falemos como quem se bate, sempre em guarda. Porque é que não gostas de mim. Cherea?

Cherea
Porque em ti não há nada de que se possa gostar. Porque estas coisas não se controlam. E também, porque te compreendo o bastante para não te amar, e porque se não pode gostar, noutrem, daquilo que recalcamos em nós.

Calígula
Porquê odiares-me?

Cherea
Nisso, enganas-te Caius. Não te odeio. Apenas te julgo prejudicial e cruel, egoísta e vaidoso. Mas não te posso odiar, porque sei que és infeliz. E não te posso desprezar, porque sei que não és cobarde.

Calígula
Tu és inteligente, e a inteligência, ou se paga ou se nega. Eu pago. Mas tu, porque não queres negá-la, nem pagá-la?

Cherea
Porque tenho desejo de viver e de ser feliz. Creio que não se pode ter, indo até ao fim do absurdo, nem uma coisa nem outra. Sou como toda a gente. Para me sentir livre. Acontece que, às vezes, desejo a morte daqueles que amo, e convido mulheres que as leis da família ou da amizade me impediam de convidar. Para ser lógico, teria mesmo de matar ou de possuir. Mas penso que estas ideias vagas não têm importância. Se toda a gente se metesse a realizá-las, não poderíamos viver nem ser felizes. E insisto, é isso o que me importa.

Calígula
É preciso, então, que acredites em alguma ideia superior.

Cherea
Acredito que há acções belas e outras que o não são.
(…)

Velho Patrício
Não te importas de deixar de fazer filosofia? Horroriza-me.

Cherea
Reconheçamos, ao menos, que este homem exerce uma inegável influência. Obriga a pensar. Obriga toda a gente a pensar. A insegurança, eis o que o faz pensar. E é por isso que tantos ódios o perseguem.

Calígula
Então é porque há duas espécies de felicidade, e eu escolhi a dos assassinos. Porque sou feliz. Houve um tempo em que pensei atingir o limite da dor: pode-se ir mais longe ainda! (…)
… Mas o seu verdadeiro sofrimento não é tão fútil: é perceber que nem sequer o desgosto dura! Até a dor não faz sentido. (…)
… Sei que nada dura! Oh! Saber isto! Fomos só dois ou três, na história, que tivemos a verdadeira experiência disto, que pudemos atingir esta felicidade demente. (…)
… Vivo, mato, exerço o poder delirante do destruidor, ao pé do qual o do criador parece uma macaquice.
… enfim, a solidão eterna do desejo.


in: Calígula seguido de o Equívoco, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, Lisboa, 2002

04 junho 2016

Albert Camus | O Estrangeiro


…
Mas, pensando bem, nada tinha a dizer. Devo reconhecer, aliás, que o interesse que se tem em ouvir as pessoas não dura muito tempo.
(…)
Não me arrependia muito do que tinha feito. (…) Gostaria de lhe poder explicar cordialmente, quase com afeição, que nunca me arrependia verdadeiramente de nada.
(…)
Punha-me a escutar o coração. Não era capaz de imaginar que este barulho compassado, que me acompanhava há tanto tempo, podia um dia cessar. Nunca tive verdadeira imaginação.
…

in: O Estrangeiro, de Albert Camus, Livros do Brasil, 2016, p. 71, 72 e 81.

03 maio 2016

Tipografia | Eric Gill

…
Por outro lado, os que usam métodos humanos poderão atingir a perfeição mecânica, porque as escravaturas e as uniformizações do industrialismo são incompatíveis com a natureza dos homens.
A Tipografia Humana será, com frequência, comparativamente imperfeita & mesmo deselegante; mas, enquanto que uma certa deselegância não tem grande importância nas obras humanas, a deselegância não tem desculpa possível nas coisas produzidas pela máquina.
Assim, enquanto que na sociedade industrialista é, tecnicamente, fácil imprimir qualquer espécie de coisa, numa sociedade humana apenas é fácil imprimir uma espécie de coisa, mas há amplo espaço para a variedade e a experimentação no trabalho em si.
Quanto mais elaborado e fantasiado for o artigo industrial, mais repugnante se torna - a elaboração e a fantasia são indesculpáveis nestas coisas. Mas há todas as justificações para a elaboração e a fantasia nas obras dos seres humanos, desde que eles trabalhem e vivam de acordo com a razão; é educativo notar que, nos primórdios da impressão, quando a exuberância humana tinha amplo espaço, a impressão se caracteriza pela simplicidade e pela decência; mas que agora, quando tal exuberância já não existe no trabalhador (excepto quando está no trabalho), a impressão caracteriza-se por toda a espécie de exibicionismo grosseiro e por uma complexa indecência.
Mas, ai da humanidade, pois existe uma coisa chamada compromisso …

in: Ensaio sobre a Tipografia, de Eric Gill, Almedina, Coimbra, p. 97 e 98.

12 abril 2016

O Espelho de Vénus | Pintura


Vénus | Antiga deusa romana da vegetação e dos jardins, foi identificada com a Afrodite grega. Deste modo, na sua qualidade de mãe do herói Eneias, o fundador mítico do povo romano, foi considerada a antepassada da gens iulia (que se dizia descendente de Eneias) e a protectora da cidade de Roma.

in: O Espelho de Vénus, de Edward Burne-Jones (1833 - 1898), (Óleo sobre tela), 1895
in: Vénus, Dicionário Cultural da Mitologia Greco-Romana, Pub. Dom Quixote, p. 245.

07 abril 2016

Dignidade Perdida | Nietzsche


6 - Dignidade Perdida - A reflexão perdeu toda a sua dignidade da forma; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflecte; e já não se poderia continuar a tolerar um homem sábio da velha escola.
Pensamos demasiado depressa, e pelo caminho, em plena marcha, no meio de negócios de toda a espécie, mesmo quando se trate do que há de mais sério; temos necessidade de pouca preparação, e até de pouca tranquilidade: é como se tivéssemos na cabeça uma máquina que girasse incessantemente e que progredisse o seu trabalho, mesmo nas piores condições.
Antigamente, quando alguém se queria pôr a pensar - era uma coisa provavelmente excepcional! - era coisa que se notava de imediato; notava-se que queria tornar-se mais sábio e que se preparava para uma ideia: seu rosto ganhava uma expressão como em oração e detinha-se na sua marcha; ficava até mesmo imóvel durante horas na rua, apoiado em uma perna ou nas duas, quando a ideia lhe 'surgia'. Perdia, então, a 'dignidade da coisa'.

in: A Ciência Gaia, de Friedrich Nietzsche, p. 41.

29 março 2016

O Solitário | Nietzsche


Odeio seguir alguém, como também conduzir.
Obedecer? Não! E governar, nunca!
Quem não se mete medo não consegue metê-lo a
ninguém,
Somente aquele que o inspira é capaz de comandar.
Já detesto comandar a mim mesmo!
Gosto, como os animais, das florestas e dos mares,
De me perder durante um tempo,
Permanecer a sonhar num recanto encantador,
E forçar-me a regressar de longe ao meu lar,
Atrair-me a mim próprio… de volta a mim.

in: Poema 33. O Solitário, de Friedrich Nietzsche, in: A Gaia Ciência, Martin Claret, 2013, p. 27.

17 março 2016

3 + 18 = 21 | Exposição

   

É com muito orgulho que apresento a minha Exposição na ESTG de Portalegre!
A criação de uma obra de arte a partir de uma linha de pensamento.
Uma linha que desenha paisagens, caminhos, viagens, sonhos…
Três (3) anos de viagens enquanto estudante, mais (+) dezoito (18) anos de viagens enquanto docente de ensino superior, igual (=) a vinte e um (21) anos de viagens, de estudos, leccionação, aprendizagem, partilha de conhecimento, aquisição de sabedoria.

in: 3 + 18 = 21, de Ana Paula Gaspar, ESTG de Portalegre, 14.Março - 14.Abril . 2016

04 março 2016

Musas Inspiradoras | Calíope



A minha musa seria Calíope, figura grega mítica e musa da poesia, ciência e eloquência, muitas vezes retratada com um papiro. Achei que seria interessante juntar esses dois elementos - o da figura da musa e o do papel como material onde o acto criativo se regista.

in: Calíope, de Daniela Krtsch

O que significa ter inspiração? De onde vem? Como a manter?
A inspiração tem sofrido várias nuances temporais, com uma constante: uma certa forma de linha directa com o divino. Para a história que nos importa contar e partindo da matriz grega, as musas de belas vozes parecem ter surgido no cenário em torno de Hesíodo. Era ele um jovem pastor quando algumas dessas figuras (em número incerto mas em inspiração certa, dirigida à música, dança e poesia) o instaram à criação. (…)
Para os mais distraídos, o mesmo é repetir a célebre máxima reclamada por diversos autores, de que 90% da inspiração é transpiração. Ou seja, que a inspiração não é, por regra fruto do acaso e de fortuitas epifanias, mas de trabalho contínuo, tempo, da capacidade de relacionar o conhecimento (outro nome para a memória) e da determinação em procurar caminhos inexplorados.

in: Musas Inspiradoras, de Emília Ferreira, Casa da Cerca, Almada, Fevereiro de 2016

26 fevereiro 2016

A minha infância …

Lembro-me do cheiro da terra molhada
Quando chovia…
As primeiras chuvas de outono
O fim do verão…

Lembro-me da quinta…
Lembro-me de semear o feijão, um grão de cada vez, com um palmo de intervalo entre cada um…
Lembro-me de ajudar o meu pai e a minha mãe,
Ao fim de semana dedicavam-se a semear a terra,
Eram feijões, batatas, milho, hortaliças…
A terra era preparada, anteriormente era lavrada, e os regos eram feitos com enxada e eram todos certinhos e alinhados horizontalmente e verticalmente, como uma grelha…

Lembro-me de ter energia,
Lembro-me das oliveiras… de as trepar!
Recordo os momentos em que ajudava a preparar o almoço…
Descascar as batatas, cortar os grelos de nabiça, cozer o bacalhau e temperar tudo com azeite, das nossas oliveiras…

No verão…
Lembro as borboletas a voar de flor em flor,
As flores, tantas e tão variadas…
As suas cores, os cheiros, o céu azul…
O rio, a água transparente, um mergulho livre…

As lagartixas, as rãs e a fonte, uma nascente com água gelada e doce…
As caminhadas pela mata…
Andar de bicicleta, sozinha pela floresta de pinheiros…
Parar, respirar fundo e continuar!

Que saudades de ser feliz!
Que liberdade…
A simplicidade de estar…
Desfrutar simplesmente da natureza!

E no outono, nasciam os cogumelos…
E o prato delicioso da minha avó:
Cebola, azeite, cogumelos, batata e um ovo por cima!
Que cheirinho…

A maravilha da nossa terra…
O milagre da transformação através das estações do ano…
O tempo, a passagem do tempo…
Esse tempo que já não volta!

in: Diário, de Ana Paula de J. L. Gaspar, 7 de junho de 2014.

03 fevereiro 2016

Ovídeo | Arte de Amar

Livro III

Às Mulheres

Armas, eu as forneci aos Dánaos contra as Amazonas; armas me restam, ainda,
para te fornecer a ti, ó Pentesileia, e à tua gente.
Parti para a batalha em igualdade de condições; que vença quem a mãe Dione
favorecer, e o menino que voa sobre o mundo inteiro.
Não seria justo que enfrentásseis, despidas de armas, inimigos armados;
se assim fosse, também para vós a vitória seria uma vergonha, ó varões.

Uma Arte de Amar para as Mulheres

(…)
A mulher não desvia as chamas e as implacáveis flechas;
esses dardos, vejo eu que mais raramente são danosos aos homens.
Muitas vezes traem os homens; não tantas vezes as mulheres delicadas;
e, se procurares, poucos são os crimes de engano que nelas se encontram.
(…)
Qual foi a vossa perdição, eu vos direi: não soubeste amar;
faltou-vos arte; é a arte que faz perdurar o amor.
(…)
e disse-me, então: "que fizeram as pobres mulheres?
São um povo sem armas entregues a homens armados;
a eles, dois livros os tornaram peritos na arte;
também este grupo os teus preceitos têm de ensiná-lo.

Aproveitar a Juventude

Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo na ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
(…)
Tempo há-de vir em que tu, que agora enjeitas os amantes,
hás-de dormir, enregelada e velha, na solidão da noite,
e não há-de a tua janela ser quebrada por briga nocturna,
nem vais encontrar, pela manhã, rosas espalhadas à tua porta.
Bem depressa, pobre de mim!, o corpo amolece de rugas,
e desaparece, no rosto que era luzidio, a cor,
e os cabelos brancos que juras que tinhas já em rapariga,
de súbito se espalham por toda a cabeça.
(…)

Cuidar da Beleza

(…)
A beleza é um dom dos deuses; da sua beleza, quão poucas se podem orgulhar!
Grande parte de vós não possui um tal dom.
(…)

A Poesia

Conhece a musa de Calímaco, conhece a do Poeta de Cós,
conhece, ainda, a do ancião de Teos, afeiçoado ao vinho;
conhece, também, Safo (pois que é que existe mais lascivo do que ela?)
e aquele que põe um pai a ridículo, vítima dos ardis do manhoso geta.
(…)

Homens a Evitar

Mas evitai os homens preocupados com a elegância e a beleza
e que têm o cabelo bem penteado;
o que vos dizem a vós, disseram-no já a mil mulheres;
vai deambulando e não se fixa em sítio algum e seu amor.
(…)
Há os que avançam a coberto de uma espécie enganosa de amor
e, por tais caminhos, são ganhos indecentes que buscam.
(…)
Talvez o mais elegante de entre todos eles
seja um ladrão e esteja a arder por amor do que trazes vestido.
"Devolve o que é meu!", gritam, muitas vezes, depois de roubadas, as mulheres,
(…)
Aprendei com as desgraças das outras a temer as vossas;
não se abra a vossa porta a um homem falso.

Amores Furtivos

(…)
Atenta nas palavras que lês; das próprias palavras terás de depreender
se está a fingir ou se as súplicas vêm do fundo do coração e da ansiedade;
depois de fazeres esperar um pouco, responde. A espera estimula sempre
os amantes, se for por tempo razoável.
Mas nem te entregues facilmente ao jovem que te namora
nem negues, de coração endurecido, o que ele te pede.
Faz com que alimente, à uma, temor e esperança; e, sempre que responderes,
mais firme se lhe torne a esperança e menos intenso o medo.
Palavras elegantes, mas usuais no convívio social, ó mulheres,
é o que deveis escrever! O ar vulgar da conversa dá gosto.
Ah, quantas vezes se inflamou diante de uma mensagem um amante inseguro!
Quantas vezes foi danosa uma língua bárbara a uma grande beleza!
(…)
Que se diga sempre ser mulher o amante a quem se escreve;
seja uma "ela", em vossas mensagens, o que devia ser um "ele".

Cultivar a Doçura

(…)
Olha quem te olha; a quem te sorri com doçura, sorri;
Faz-te um aceno? Responde, também tu, que percebeste o sinal.

Amar os Poetas

Quem nos impede de colher de temas elevados exemplos para coisas
banais e de não ter receio da palavra "chefe"?
Um bom chefe confia a um cem soldados, para com o bastão de vide os comandar,
a outro cavaleiros, a um terceiro entrega-lhe a guarda dos estandartes;
também vós, observai para que função cada um de nós é mais conforme
e ponde cada um no posto adequado:
o rico debe dar presentes; aquele que for versado em leis dê o seu apoio;
o que tem o dom da palavra que defenda, muitas vezes, a causa da sua cliente;
nós, que fazemos versos, devemos limitar-nos a enviar versos;
somos nós, mais que todos os outros, o tal coro capaz para o amor;
nós fazemos ouvir longe o pregão da beleza que nos encanta;
é famosa Némesis, Cíntia é famosa;
a estrela da tarde e os confins do Oriente conhecem Lícoris,
e muitos perguntam quem é a minha Corina;
acresce que não existe perfídia entre os divinos poetas,
e que a nossa arte nos molda, também, à sua feição;
e não nos move a ambição nem o amor da riqueza,
desprezamos o foro e cultivamos o leito e as sombras;
mas facilmente nos apegamos e deixamos-nos consumir num fogo abrasador
e sabemos amar com lealdade inquebrável.
(…)
existe um deus em nós e mantemos diálogo com o céu;
é das planuras do céu que nos vem a inspiração.

A Cada idade seu Encanto

(…)
O velho soldado ama sem dor e com sabedoria
e suporta muitas coisas que o recruta não consegue padecer;
e não rebenta com as portas nem lhes deita fogo com chamas terríveis,
nem se atira com as unhas ao rosto delicado da sua dama,
nem rasgará a sua túnica ou a túnica da amada,
nem fará de um cabelo arrancado causa de pranto.
Tais atitudes ficam bem a rapazinhos, no calor da idade e do amor;
aquele suportará cruéis feridas, de coração robustecido;
é em fogo lento, caramba!, que há-de arder, como feno húmido,
como a madeira acabada de cortar nos bosques da montanha.
(…)

Rivais: Não dar Ouvidos a Boatos

Aonde me leva a minha loucura? Porque avanço, de peito aberto,
contra o inimigo e me denuncio com os sinais que eu mesma forneço?
Não revela o pássaro ao caçador como pode ser caçado,
nem ensina o veado os cães assanhados a persegui-lo.
A vantagem ficará desvendada; eu, aquilo que comecei, fielmente o hei-de consumar
e às mulheres de Lemnos hei-de dar armas para me matarem.
Fazei (é fácil consegui-lo) que nós acreditemos no vosso amor;
para quem está apaixonado, a crença vem ao encontro do desejo.
(…)

in: Arte de Amar, de Ovídeo, Livros Cotovia, Lisboa, 2006

02 fevereiro 2016

Ovídio | Arte de Amar

Livro II

Introdução. 
Conservar o Amor

(…)
Não baste que a mulher venha até junto de ti, graças ao meu canto;
foi a minha arte que a cativou, é a minha arte que tem de preservá-la;
conservar o que se alcançou não é virtude menor do que bus.cá-lo;
aqui interfere o acaso, ali é a obra de arte.
Agora, mais que nunca, ó menino, ó Citereia, favorecei a minha empresa,
agora, ó Érato, já que tens nome de Amor.
Grandioso é o que me apresto a cantar: por que artes consegue segurar-se
o Amor, um menino tão vagabundo na vastidão do universo.
ligeiro é ele e possui um par de asas, com que voa;
bem difícil é pôr-lhes travão.
(…)

Amabilidade e Elegância

Guarda-te de tudo quanto é vedado! Para seres amado, sê amável,
coisa que te não darão apenas o rosto ou a beleza.
Ainda que sejas Nireu, a quem o velho Homero amava,
ou o delicado Hilas, arrebatado pelo crime das Náiades,
para conservares a tua amada e não teres a surpresa de ser por ela abandonado,
junta os bens do espírito às qualidades do corpo.
A beleza é um bem frágil; à medida que vão avançando os anos,
vai diminuindo e, por força da idade, vai murchando;
não ficam todo o tempo em flor as violetas nem os lírios de pétalas abertas,
e a roseira, depois de cair a flor, enrijece de espinhos, que é o que lhe resta.
Também a ti, ó jovem esbelto, te hão-de chegar os cabelos brancos,
e logo virão as rugas a sulcar-te o corpo.
Suaviza já o teu espírito, por forma a perdurar, e ajunta isso à tua beleza;
só ele logra permanecer até às preces derradeiras;
e não tenhas em menos conta educar o carácter por meio das boas artes
e aprender as duas línguas;
não era belo, mas era eloquente Ulisses,
e, no entanto, atormentou de amores deusas do mar.
(…)

Doçura e Bondade

A rectidão e a bondade, eis o que, em especial, cativa os corações;
a aspereza suscita o ódio e guerras cruéis.
(…)
É de doces palavras que tem de sustentar-se a brandura do amor.
(…)
Que a amante, pelo contrário, ouça sempre as palavras que deseja.
Não foi por mando de uma lei que viestes parar ao mesmo leito;
quem cumpre a sua função em vós é a lei do amor.
Doces meiguices e palavras aprazíveis ao ouvido
é o que tens de trazer-lhe, para ela ficar feliz com a tua vinda.
Não é aos ricos que venho ensinar a amar;
não tem qualquer precisão da minha arte aquele que é mãos largas;
já tem consigo o seu talento aquele que diz, sempre que lhe apetece: "aceita";
a esse cedo; agrada mais ele que os meus ensinamentos.
Eu sou o poeta dos pobres, pois foi pobre que amei;
já que não podia ofertar presentes, oferecia palavras;
que o pobre âme com recato, que receie ser maldizente o pobre
e suporte muitas coisas que não seriam capazes de tolerar os ricos.

Persistência

Se não for meiga quanto baste nem corresponder ao teu amor,
porfia e persiste. Acabará por tornar-se carinhosa.
Dobra-se, quando vergado com jeito, o ramo da árvore;
vais parti-lo, se puseres à prova a tua força;
com jeito, a nado se passam as águas; mas não serás capaz de vencer
o rio, se nadares contra a corrente que com as águas se arrasta;
o jeito doma os tigres e os leões da Numídia;
no campo, o boi acaba por subjugar-se, pouco a pouco, ao peso do arado.
(…)

Ceder e Servir

Cede quando ela teima; se cederes, sairás vencedor;
trata, apenas, de agir, como ela determinar.
Se ela contestar, contesta; o que aprovar, aprova-o;
o que afirmar, afirma-o; o que negar, deves negá-lo;
se rir, ri-te; se chorar, lembra-te tu de chorar;
seja ela a ditar as leis às tuas feições.

Robustez e Vigor 

O amor é uma espécie de serviço militar. Batei em retirada, gente indolente!
Tais estandartes não são para ser confiados a homens medrosos.
A noite e o Inverno e jornadas sem fim e dores terríveis
e toda a sorte de padecimentos, eis o que nos espera nos campos de doçura;
muitas vezes terás de suportar a chuva que cai das nuvens do céu
e muitas vezes vais dormir, enregelado, sobre a terra nua.
(…)

Prendas

(…)
ah, malditos sejam aqueles que com presentes enganam!

 Gerir a Ausência e a Saudade

Mas o vento a que soltaste as velas ao deixares a praia,
dele não deves servir-te, agora, depois de te tornares senhor do alto mar.
Enquanto dá passos incertos o novo amor, deve buscar no uso as suas forças;
se bem o souberes alimentar, com o tempo ficará firme.
O touro que te mete medo, costumavas tu, quando era vitelo, fazer-lhe festas;
a árvore à sombra da qual agora repousas, foi, antes, um arbusto;
nasce bem delgado, mas ganha forças, à medida que avança,
o rio e, por onde passa, uma imensidão de correntes vai recebendo.
Faz com que se acostume a ti; nada tem mais força que a habituação;
até a alcançares, não fujas a nenhum dissabor;
que te veja a todo o tempo, que a todo o tempo te escute,
que a noite e o dia lhe mostrem o teu rosto.
(…)

Amar com sabedoria

Aquele a quem a natureza concedeu beleza, seja graças a ela que dê nas vistas;
aquele que possui uma pele formosa durma muitas vezes de ombros à mostra;
o que tem uma conversa agradável evite os silêncios taciturnos;
o que canta com elegância, que cante; o que bebe com elegância, que beba.
(…)
Todo o que amar com sabedoria triunfará e quanto reclamar de minha arte, vai consegui-lo.

in: Arte de Amar, de Ovídio, Livros Cotovia, Lisboa, 2006

22 janeiro 2016

Ovídio | Arte de Amar

Livro I

O mestre do Amor

Se alguém das nossas gentes não conhece a arte de amar,
leia este canto; e, depois de o ter lido, entregue-se, com sabedoria, ao amor.
É a arte e as velas e os remos que fazem mover as naus,
é a arte que faz mover, ligeira, a quadriga. É a arte que deve reger o Amor.
(…)

Plano

Antes de mais, o que quiseres amar, trata de procurá-lo,
tu que acabas de entrar, feito soldado, em novo exército;
logo depois, hás-de empenhar-te em fazer ceder aquela que te agradou;
em terceiro lugar, farás por que dure tempo o amor.
(…)

A Procura

Enquanto te for consentido e puderes, solto de amarras, caminhar por toda a parte,
escolhe aquela a quem hás-de dizer: "só tu me agradas!"
(…)

O Banquete

Facilitam, também, a aproximação os banquetes, à mesa;
há qualquer coisa além do vinho, que aí deves buscar.
(…)

A mulher e o Desejo

Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas podem ser conquistadas; e vais conquistá-las; basta que estendas as redes.
Mais depressa, na Primavera, se hão-de calar os pardais, e, no Verão, as cigarras,
e o cão de Ménalo voltará costas à lebre
do que resistirá a mulher ao jovem que com doçura a quer namorar.
Até mesmo aquela que podes supor que não quer… quer.
Tal como Vénus furtiva é grata ao homem, assim o é também à mulher;
o homem disfarça mal; ela é com mais recato que alimenta o desejo.
Se a nós, homens, nos der mais jeito não sermos os primeiros a pedir,
logo a mulher, vencida, há-de assumir o papel de quem pede.
Na mansidão do prado, é a fêmea que solta mugidos ao touro,
é a fêmea sempre que relincha ao cavalo de rijos cascos.
(…)

A Paixão Feminina

Todos estes actos foram movidos por paixão de mulheres;
é mais intensa que a nossa e possui fúria bem maior.
(…)

A Arte da Palavra

Aprende as boas artes, esse é o meu conselho, ó juventude de Roma,
e não apenas para defender réus temerosos;
tal como o povo e o juiz severo e os eleitos do senado,
assim também a mulher, vencida, há-de render as mãos à tua eloquência. (…)
Se te ler e não quiser responder, não a forces;
procura, apenas, que leia as tuas palavras delicadas até ao fim;
Se quiser ler, há-de querer responder ao que leu;
a resposta chega com seu ritmo e seu passo;
talvez te chegue, primeiro, uma carta triste,
a pedir-te que não mais a procures;
se pede, é porque receia que não aconteça; se não pede, deseja que insistas.
Prossegue! Bem cedo verás realizado o teu desejo.

in: Arte de Amar, de Ovídio, Livros Cotovia, Lisboa, 2006

20 dezembro 2015

Ao Sol e à Lua | Colares

CAPÍTULO 9º
DOS CIPOS DO SOL E LUA

Outra memória de basas * digna de lembrar e de imitar dos fiéis, faziam os antigos e infiéis, como eu vi, quando me o Infante Dom Luis, vosso tio que Deus tem, levou a mostrar a Serra de Sintra, mandando-me para isso chamar a Lisboa, quando vim de Itália. E vimos em a foz do rio de Colares, prezada em outro tempo dos Romanos, sobre um pequeno outeiro junto do mar Oceano, um círculo ao redor cheio de cipos e memórias dos imperadores de Roma que vieram àquele lugar; e cada um punha um cipo com seu letreiro ao Sol Eterno e à Lua, a quem aquele promontório foi dos gentios dedicado.
O que nós, espiritualmente mudado, podemos converter em cipos ou embasamento dos pés das Cruzes que digo, em louvor e memória do verdadeiro Sol de justiça, (…).



11. OS CIPOS AO SOL E À LUA EM COLARES

Nota ao capítulo 9º

"Dos Cipos ao Sol e à Lua dá notícia Rezende em 1593. (…) O qual podia ter obtido a informação de Hollanda. (…)"
Na obra Cintra Pinturesca, ou Memória descriptiva da Villa e Cintra, Colares e seus arredores, da autoria do Visconde de Juromenha, publicada em Lisboa no ano de 1838, no parágrafo intitulado De algumas antiguidades romanas encontradas em Cintra, Colares e seus termos, vem o seguinte: "Nas abas da serra junto ao Oceano tinham eles (romanos) um sumptuoso templo consagrado ao Sol e à Lua, do qual existiam ruínas ainda em tempo de André de Resende, que as viu, e da sua dedicação se achou a inscrição do teor seguinte:

SOLI ET LVNAE
COECIVS ACCEDIVS PERENIS
LEG. AVG. PRO. PROVINCIA
LVSITANIAE

Quer dizer: "Cécio Accédio Pereno, Lugar - Tenente de Augusto na Província da Lusitânia, dedicou ao Sol e à Lua".
Na mesma obra se faz referência ao "grande número de inscrições romanas encontradas nos termos destas duas Vilas (Sintra e Colares)", donde conclui que "não deixa a mais pequena dúvida a julgar que estes conquistadores (romanos) tivessem feito o assento neste solo de mais de uma povoação considerável". E menciona uma lápide votiva na Ermida da Senhora de Milides junto a Colares também dedicada "ao Sol eterno e à Lua pela eternidade do Império e saúde do imperador César Septímio Severo…" além de numerosas lápides sepulcrais. (…)

in: Da Fábrica Que Falece à Cidade de Lisboa, de Francisco de Holanda, Livros Horizonte, 1984, p. 31, 90 e 91.



Após investigação histórica e arqueológica no sítio indicado pelos documentos assinalados, foram encontrados (2007) os elementos que demonstram a existência de um Santuário Romano consagrado ao Sol, à Lua e ao Oceano, ao centro das duas praias actuais em Colares: Praia das Maças e Praia Pequena. Local considerado o promontório mais ocidental do Império de Romano, e assinalado no mapa do século II d.c. do imperador Claudio Ptolomeu.
Após escavações arqueológicas (ainda em acção) foram encontrados um número considerável de vestígios que confirmaram a sua existência e ainda para além do monumento romano dedicado ao Sol e à Lua, encontrou-se ainda um Ribad (ritual muçulmano), bem como inscrições em pedra de origem grega tal como:

AO SOL, À LUA, AS DADIVAS GRAVADAS AS MUSAS

in: «SOLI INVICTO - Ao Sol Invencível», Conferência Comemorativa do Solstício de Inverno, por José Cardim Ribeiro, Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (Sintra), 19 de Dezembro de 2015.

29 outubro 2015

Odisseia | Homero


Musa, fala-me do herói dos mil estratagemas, que tanto errou depois de a sua astúcia ter feito saquear a acrópole sagrada de Tróade, que visitou as cidades e conheceu os costumes de tantos homens! Quão grandes tormentos o seu coração padeceu por sobre o mar, quando ele lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros! Mas não conseguiu salvá-los apesar do seu desejo: o desvario deles perdeu-os, insensatos que devoraram os bois de Hélios Hiperíon. E este não os deixou ver o dia do regresso. Conta-nos a nós também estas aventuras, deusa nascida de Zeus, começando por onde te aprouver.
Nesse tempo todos os que haviam escapado ao brusco trespasse estavam já nos seus lares, salvos da batalha e do mar. Só Ulisses almejava ainda pelo regresso e pela esposa. Uma ninfa, Calipso, uma deusa augusta, retinha-o nas suas grutas profundas, ansiando por tê-lo como marido.

in: Odisseia, de Homero, Europa-América, 1990, p. 13.

29 setembro 2015

O Terceiro Chimpanzé | Jared Diamond

As pistas que nos levam a perceber quando, porquê e de que maneira deixámos de ser apenas outra espécie de grande mamífero surgiram de três tipos de dados científicos.
(…)
Uma questão fundamental tem que ver simplesmente com a dimensão das diferenças genéticas entre nós e os chimpanzés.
(…)

in: O Terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond, Círculo de Leitores, 2014

05 agosto 2015

Gaivota | Richard Bach

Fernão passava os dias sozinho, a experimentar, fazendo centenas de voos rasos.
(…)
Cuidadoso como era, esforçando-se até ao limite, perdia o controle a alta velocidade.
(…)
Caiu outra vez no mesmo erro terrível, e, a cento e trinta quilómetros horários, foi como se tivesse sido atingido por dinamite.
(…)
As suas asas eram barras de chumbo despedaçado, mas o peso do fracasso era-lhe mais doloroso. Desejou, debilmente, que o peso fosse suficiente para o arrastar docemente até ao fundo, e acabar de uma vez.
(…)
O lugar de uma gaivota à noite é a costa, e a partir desse momento prometeu a si mesmo ser uma gaivota normal. Assim, todos ficariam felizes.
(…)
No entanto, não sentia remorsos de por não ter cumprido as promessas que fizera a si próprio.

in: Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, Publicações Europa-América, Lisboa, 2001

14 julho 2015

Humanidade


O esperma não é uma pessoa, o óvulo também não o é, nem o embrião. A humanidade surge num homem, não com a sua forma (humana), mas com a sua relação (humana) com o mundo. O simples facto de estar no mundo não é suficiente; a barata também está no mundo. É necessária uma conexão, uma relação interactiva, um vínculo com a realidade tangível.

in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Campo da Comunicação, p. 186.

23 abril 2015

Criar imagens



"Não há arte sem um olhar que a veja como arte."
A arte em geral existe em virtude de um regime de identificação - de disjunção - que dá visibilidade e significação a práticas de arranjo de palavras, de arranjo expositivo das cores, de modelagem, dos volumes ou de evolução dos corpos, que decidem, por exemplo, o que é uma pintura, o que se faz ao pintar e o que se vê num mural ou numa tela pintados."

in: O Destino das Imagens, de Jacques Rancière, Orfeu Negro, Lisboa, 2011, p. 99 e 101.
Obras: Poemas e Desenhos, de Ana Paula Gaspar

16 março 2015

3 + 17 = 1 [Uma Linha]



A linha e o desenho das estruturas do pensamento.
As ligações neuronais e o significado adquirido pelas palavras.
Os conceitos e a sua significação.
As palavras que aqui se encontram escritas, estão organizadas em conjuntos de cerca de três, e são unidas por uma linha. Esta desenvolve-se e interliga-se com as seguintes, criando deste modo uma única linha, que apesar de única é interrompida por um espaço, espaço dedicado ao pensamento e à passagem para outro ano (esta ligação remete para o que corresponde a um ano lectivo, do ponto de vista académico).
Entenda-se por viagens um percurso efectuado entre Lisboa e Portalegre e Portalegre e Lisboa durante dezassete anos consecutivos e três enquanto estudante e também eles seguidos.
O sentido e a sua significação advém de um sentimento profundo no que diz respeito à consciencialização de um percurso e das várias oportunidades em cada viagem e em cada momento que o próprio percurso proporciona, pois viaja com ele e o corpo e a mente.
É um desenho a partir de uma linha. É uma linha a partir de um desenho.
É um desenho de um pensamento que não se vê, mas que se sente.
É um desenho da linha que desenha a palavra e esta adquire um significado num contexto de simbiose entre o riscar e a continuidade desse traço, risco, linha, cuja transformação ocorre e ganha importância maior na leitura e nas várias leituras ao longo do seu caminhar, do percorrer, do recordar e sobretudo do tomar consciência.
A mostra de uma "única" linha é a tentativa de unir o que foi também um "único" percurso, constituído de variados percursos e de diversos pensamentos, sintetizados numa ideia: partilhar e consciencializar de uma linha que afinal vai sendo a linha da Vida.
Um percurso, uma linha, um desenho, um olhar, um pensamento, um passeio…

in: 3 + 17 = 1 [Uma Linha], Exposição de Ana Gaspar, Instituto Politécnico de Portalegre, 11 de Março. 2015

02 março 2015

Franz Kafka | O Abutre e Outras Histórias

Resoluções

Sair de um estado de espírito miserável, mesmo que o tenhamos de fazer por pura força de vontade, deveria ser fácil. Eu forço-me a sair da cadeira, a caminhar até à mesa, a exercitar a minha cabeça e pescoço, a fazer os meus olhos brilharem, a apertar os músculos à volta deles. Desafio os meus próprios sentimentos, dou entusiasticamente as boas-vindas a A supondo que ele me vem ver, tolero amavelmente B na minha sala, engulo tudo o que é dito em casa de C, qualquer que seja a dor e a preocupação que tal me possa custar, em longas goladas.
No entanto, o que eu consiga, um único deslize, e um deslize não pode ser evitado, interromperá o processo todo, seja ele fácil ou doloroso, e terei de me reduzir novamente ao meu próprio círculo.
Portanto, talvez o melhor recurso seja ir passivamente ao encontro de tudo, fazer de mim mesmo uma massa inerte e, se sentir que estou a deixar-me levar, para que não me deixe convencer a dar um único passo desnecessário, olhar os outros fixamente com os olhos de um animal, não sentir remorso; em suma, reduzir ao mínimo qualquer réstia de vida que ainda me sobre, ou seja, ampliar a paz final do cemitério e não permitir que, para além dela, algo mais sobreviva.
Um movimento característico numa tal condição é passar o dedo mínimo ao longo das sobrancelhas.

in: Resoluções, de Franz Kafka, in: O Abutre e Outras Histórias, Estrofes e Versos, 2009, p. 89 e 90.

16 fevereiro 2015

Monólito | Pedro Vaz


 

A exposição Monólito, de Pedro Vaz, apresenta-nos um desafio que parte de três elementos: uma pedra, um mapa e um filme. Marco inicial, desenho de projecto, a pedra e o mapa funcionam como indícios que o filme revela, incitando-nos à própria descoberta.
Acompanhando um curso de água, como a linha de uma escrita pré-determinada da paisagem, este vídeo - parte obra documental, parte ficção - permite-nos testemunhar o itinerário de uma personagem (um alter ego a que o autor se refere como "ele") na sua deambulação metafórica.
Narrativa evocadora da viagem essencial, "Monólito" é o resultado de um encantamento (ou uma invocação) pela pedra, pelo uno, pelo caminho como processo artístico (de que o mapa é também símbolo), da libertação para a elevação, conduzindo à criação, cujo corolário iremos descobrir no jardim Botânico O Chão das Artes, escondido entre as árvores da Mata.

in: Monólito, Excerto do texto de Emília Ferreira, Casa da Cerca, Almada, 14 de Fevereiro de 2015

14 fevereiro 2015

Dafnis e Cloé | Longus

… A época do ano também os excitava. Era já o fim da Primavera e o princípio do Verão: a vegetação inteira resplandecia de vigor, com as árvores cobertas de fruta e os campos de trigo ceifado. Encantador era o ruído das cigarras, suave o odor dos frutos, agradável o balir das ovelhas. Dir-se-ia que por seu turno os ribeiros cantavam correndo devagar, que os ventos tocavam flauta nos pinheiros, que as maçãs se deixavam cair por terra sob o efeito do amor, que o sol, guloso de beleza, despia toda a gente. Dafnis, que toda aquela atmosfera excitava, entrava nos ribeiros, umas vezes para neles se banhar, outras para pescar os peixes irrequietos. Muitas vezes bebia neles também, pensado apagar a febre que sentia em si. Quanto a Cloé, depois de ter mungido as suas ovelhas e a maior parte das cabras, passava muito tempo a coalhar o leite, porque as moscas a incomodavam imenso e a picavam quando ela as enxotava. Depois do que, lavava a cara, engrinaldava-se com raminhos de pinheiro, punha à volta da cintura a pele de gazela e, enchia de vinho e de leite preparando uma bebida que partilhava com Dafnis.
Mas quando chegava o meio dia, eles tornavam-se prisioneiros dos próprios olhares. Ela, ao olhar para Dafnis despido, sentia-se arrebatada por aquela beleza perfeita e sentia-se aniquilada diante daquele rapaz no qual ela não conseguia encontrar nada a criticar. Ele, ao vê-la com a pele de gazela e a grinalda de pinheiro, a estender-lhe a escudela, julgava estar a olhar para uma das Ninfas da gruta. Ele pegava nos raminhos de pinheiro que ela tinha na cabeça e fazia para si uma grinalda, depois de a ter levada aos lábios. Por seu lado, enquanto ele tomava banho todo nu, ela agarrava na roupa dele para se vestir com ela, depois de a ter igualmente levado aos lábios. Às vezes, atiravam maçãs um ao outro, e arranjavam as cabeleiras penteando-se um ao outro. Ela, comparava a cabeleira de Dafnis, a sebes de murta porque era escura. Ele, comparava o rosto de Cloé a uma maçã porque ele era branco e rosado. Ensinava-lhe também a tocar flauta e, quando ela começava a soprar, ele tirava-lhe a flauta e fazia correr os lábios sobre as canas: parecia corrigir os erros, na realidade, através daquela flauta, eram de facto beijos que ele dava a Cloé. …

in: Dafnis e Cloé, de Longus, (Canto Nono), Editorial Teorema, 1996  

01 fevereiro 2015

Numa Alma …


Numa alma não cultivada os desejos são todos materiais: sexo, alimento, poder, prazer físico. O desejo da alma é a posse: posse do amado, da fama, da fortuna, do poder.

Numa alma harmoniosa esses objectivos são substituídos pelo desejo da posse das ideias puras: o bom (justo/injusto). O verdadeiro e o belo. Quer-se possuí-los mas para isso tem que se fazer um longo caminho de aperfeiçoamento espiritual que nos permita anular os desejos que nos afastam do mundo das ideias e cultivar os pensamentos abstractos.

in: Os Primórdios da Psicologia na Grécia, de Rodrigo de Sá-Saraiva, 2014, p. 9.

22 janeiro 2015

Rainer Maria Rilke | Cartas a Um Jovem Poeta

Paris, 17 de Fevereiro de 1903


Estimado Senhor,

A sua carta chegou-me há poucos dias. Quero agradecer-lhe a sua grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer para além de agradecer. Não posso pronunciar-me sobre a qualidade dos seus versos, pois sou avesso a qualquer intenção crítica. Nada está mais longe de tocar numa obra de arte do que palavras críticas: delas resultam apenas mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas não são tão apreensíveis nem tão dizíveis como nos fazem crer; quase todos os eventos são inefáveis, desenrolam-se num espaço onde as palavras nunca entram, e os mais inefáveis entre eles são as obras de arte, existências misteriosas cuja vida, ao lado da nossa que se perde, perdura.
Tendo começado com este aviso, devo ainda dizer-lhe que os seus versos não têm um estilo próprio, embora traiam indícios silenciosos e velados de uma voz pessoal. Os mais evidentes encontram-se no seu último poema, «A minha alma». Há nele qualquer coisa que quer chegar à palavra e à forma. E no seu bonito poema «A Leopardi» talvez cresça já uma qualquer afinidade com esse grande solitário. Contudo, os seus poemas não têm ainda vida própria, não são autónomos, nem mesmo o seu último poema ou aquele que dedicou a Leopardi. A sua gentil carta, que acompanhava os poemas, veio esclarecer algumas das falhas que pressenti ao ler os seus versos sem que nesse momento conseguisse nomeá-las.
Pergunta-me se os seus versos são bons. Pergunta-me a mim. Já antes perguntou a outros. Envia-os a revistas. Compara-os com outros poemas, apoquenta-se quando algumas redacções rejeitam os seus esforços. Pois bem, e já que me permite aconselhá-lo, peço-lhe que desista de tudo isso. Está a olhar para fora de si, e é sobretudo isso que não deve fazer agora. Ninguém o pode aconselhar, ninguém o pode ajudar, ninguém. Há uma única via. Entre dentro de si. Investigue a razão que o leva a escrever, veja se ela lançou raízes no lugar mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade; a sua vida, mesmo nas horas mais indiferentes e pequenas, terá de ser um sinal e um testemunho deste ímpeto. Aproxime-se então da Natureza. Tente então dizer, como o primeiro homem, o que vê e o que vive e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite por ora as formas mais comuns e correntes: são elas as mais difíceis, pois só uma grande força, já amadurecida, conseguirá criar uma coisa própria por entre a abundância de boas e por vezes brilhantes prestações. Evite por isso os motivos gerais e prefira aqueles que o seu quotidiano lhe oferece; descreva as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a fé numa qualquer beleza - descreva tudo isso com sinceridade íntima, tranquila, modesta, e para lhes dar expressão sirva-se das coisas que o rodeiam, das imagens dos seus sonhos e dos objectos das suas recordações. Se o seu dia-a-dia lhe parecer pobre, não o acuse de pobreza; acuse-se a si próprio, reconheça que não é ainda poeta o bastante para conseguir invocar as suas riquezas; pois para um criador não há pobreza e nenhum lugar é indiferente e pobre. E mesmo que estivesse numa prisão, cujas paredes separassem os ruídos do mundo dos seus sentidos, teria ainda e sempre a sua infância, essa riqueza preciosa e imperial, a câmara do tesouro da lembrança. Dirija a ela a sua atenção. Tente levantar as sensações submersas desse passado longínquo; a sua personalidade fortalecer-se-á, a sua solidão estender-se-á até se tornar uma casa à luz do cair da tarde ou do amanhecer, por onde o ruído dos outros passa à distância. E se, depois deste movimento de introspecção, depois deste mergulho no seu próprio mundo, se depois nascerem versos, já não lhe ocorrerá perguntar a alguém se eles são bons. Também não tentará despertar o interesse das revistas por estes trabalhos, pois vê-los-á como propriedade sua, natural e preciosa, como uma parte e uma voz da sua vida. A boa obra de arte nasce da necessidade. É esta origem, e nada mais, que determina o juízo do seu valor. Por esta razão, caro Senhor, não posso dar-lhe outro conselho para além deste: entre dentro de si e sonde as profundezas donde brota a sua vida; é nesta fonte que se encontrará a resposta à pergunta: tenho de criar? Admita a resposta, qualquer que ela seja, sem a interpretar. Talvez venha a descobrir que nasceu para ser artista. Nesse caso, aceite o seu destino, carregue o seu peso e grandeza, sem perguntar por proveitos que possam vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo, tem de encontrar tudo dentro de si e na Natureza a que se uniu.
Talvez aconteça que, depois desta descida dentro de si e da sua solidão, tenha que renunciar a ser poeta; (como disse, basta sentir que se consegue viver sem escrever para não dever sequer tentá-lo). Mas mesmo então este exame de consciência que o insto a fazer não terá sido em vão. A sua vida encontrará em todo o caso os seus próprios caminhos, e que eles sejam bons, ricos e longos é o que eu lhe desejo mais do que consigo dizer.
O que devo acrescentar ainda? Parece-me que tudo foi sublinhado com a importância devida. Queria apenas aconselhá-lo, por fim, a velar em silêncio e com seriedade pelo seu crescimento; não há perturbação mais violenta do que olhar para fora e esperar respostas exteriores a perguntas a que talvez só a sua sensibilidade mais íntima, nas horas de maior silêncio, poderá responder.
Foi com grande alegria que encontrei na sua carta o nome do Professor Horacek; tenho uma grande admiração por este amável erudito e uma gratidão acalentada ao longo dos anos. Peço-lhe que lhe transmita os meus sentimentos; é muita bondade dele lembrar-se ainda de mim, e sei dar-lhe o justo valor.
Devolvo-lhe os versos que amigavelmente me enviou. E agradeço-lhe uma vez a sua grande e amável confiança, de que tentei ser mais digno, através da sinceridade e boa-fé desta minha resposta, do que como estranho realmente sou.
Com grande estima e dedicação,

Rainer Maria Rilke

in: Cartas a um jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke (Tradução de Isabel Castro Silva), Edições Quasi, (1875-1926)

14 dezembro 2014

A Vida | Nietzsche

Frederico-Guilherme Nietzsche nasceu em 1844, no presbitério de Roecken, numa região da Turíngia anexada à Prússia. Nietzsche foi educado em Naumburg, num meio feminino, com a sua irmã mais nova, Elisabeth. Ele era a criança prodígio; guardam as suas dissertações, os seus ensaios de composição musical. Faz os estudos em Pforta, depois em Bona e em Leipzig. Escolhe a filosofia contra a teologia. Mas já a filosofia o assombra, com a imagem de Schopenhauer, pensador solitário, podendo proceder do sofrimento, do mal-estar ou da angústia - apesar de o filósofo, o tipo de filósofo segundo Nietzsche, ter um excesso de sofrimento. Mas tão-pouco concebe a doença como um acontecimento que afecte de fora um corpo-objecto, um cérebro-objecto. Na doença, ele vê de preferência um ponto de vista sobre a saúde; e na saúde um ponto de vista sobre a doença. (…) A doença como avaliação da saúde, os momentos de saúde como avaliação da doença: tal é a "inversão", o "deslocamento das perspectivas", em que Nietzsche vê o essencial do seu método e da sua vocação para uma transmutação de valores. (…)
Em Nietzsche tudo é máscara. A sua saúde é uma primeira máscara para o seu génio; os seus sofrimentos, uma segunda máscara para o seu génio e para a sua saúde, ao mesmo tempo. Nietzsche não acredita na unidade de um Eu e não o experimenta: relações subtis de poder e de avaliação entre diferentes "eu" que se escondem, mas que exprimem também forças de outra natureza, forças da vida, forças do pensamento - tal é a concepção de Nietzsche, a sua maneira de viver. Wagner, Schopenhauer e até Paul Rée foram vividos por Nietzsche como as suas próprias máscaras. Depois de 1890, acontece que alguns amigos (Overbeck, Gast) pensam que a demência, para ele, é uma última máscara. Ele escrevera: "E, por vezes, a própria loucura é uma máscara que esconde um saber fatal e demasiado seguro." (…)
Em Nietzsche, sucedem-se, cada vez mais densas, as alternâncias de euforia e de depressão. Ora tudo lhe parece excelente: o alfaiate, o que come, o acolhimento das pessoas, a fascinação que julga exercer nas lojas. Ora o desespero o domina: a ausência de leitores, uma impressão de morte, de traição. (…)
Ao mesmo tempo, Nietzsche constrói de si mesmo uma imagem mundial cósmica provocadora "um dia a lembrança de qualquer coisa de formidável estará ligada ao meu nome", "só a partir de mim é que há a grande política na Terra"; mas também se concentra no momento, preocupa-se com um sucesso imediato. (…)
Diagnostica-se uma "paralisia progressiva". (…) Ora calmo ora em crise, parecendo ter esquecido toda sua obra, fazendo música ainda. A evolução da doença prosseguiu lentamente até à apatia e à agonia. Morre em Weimar em !900.

in: Nietzsche, de Gilles Deleuze, Edições 70, Biblioteca Básica de Filosofia, Lisboa, 2001

25 novembro 2014

Luz | Jorge Calado


A energia solar é o resultado da fusão atómica: átomos de hidrogénio que se combinam para formar hélio - afinal, o mecanismo da bomba de hidrogénio. (…)
O papel da ciência é fazer perguntas, boas perguntas. (…)
A química é a resposta a uma curiosidade fundamental: de que são feitas as coisas?
O hidrogénio reage com o oxigénio do ar para formar água, libertando energia que se reconhece pela explosão. A chama é sinal de uma química muito activa. As substâncias combinam-se ou decompõem-se para formar outras substâncias. (…)
O nome da ciência deriva de chemeia ou chemia, termo alexandrino que designava a arte egípcia. Plutarco achava que a palavra chem traduzia a cor escura do solo egípcio - daí a contaminação do significado da química com as artes negras da magia.
O papel dos alquimistas foi assumido, em pleno século XX, pelos físicos nucleares!
São os problemas que fazem nascer as ciências. (…)
Os quatro elementos de Empédocles - terra, água, ar e fogo - valiam pelas suas qualidades. Não é por acaso que os três primeiros correspondem aos três estados fundamentais da matéria - sólido, líquido e gasoso - e o quarto representa a indispensável energia que permite fundir sólidos e vaporizar líquidos (para além de tudo o resto). Nada acontece sem energia; ou melhor, se não houver variação de energia em nenhuma parte do sistema, este pode considerar-se morto.
As velhas crenças levam tempo a morrer. Pensando melhor, não morrem de todo; continuam presentes numa espéci de estado comatoso, à espera de recuperação (ou re-incarnação). (…)

Andrew Marvell notou enfaticamente que
Nenhuma criatura gosta de espaço vazio;
Os seus corpos crescem à medida do lugar.

Ainda mais horrível que o vazio era a noção de penetrabilidade da matéria. A matéria é impenetrável, isto é, dois corpos diferentes não podem ocupar o mesmo espaço. (…)
Dois electrões não podem partilhar o mesmo estado. Se têm a mesma energia e um roda num sentido (spin), o outro tem de rodar no sentido oposto. (…) A metáfora é apropriada, pois o poder não se partilha. Um ditador, tal como um electrão, exclui outro.

De onde vem a electricidade atmosférica? A origem é química. As moléculas são feitas de átomos, e estes, de electrões (carregados negativamente), protões (carregados positivamente) e neutrões (partículas neutras). (…) Os ventos põem grandes massas de ar em andamento; movimento causa atrito; atrito produz electrização.

in: Haja Luz!, de Jorge Calado, Edição Instituto Superior Técnico, Lisboa, 2011

14 novembro 2014

Sintonia | Saber Ouvir

Sintonia é a atenção que vai mais além da empatia momentânea, uma presença plena e continuada que facilita a relação. Oferecemos a alguém a nossa atenção total e escutamos plenamente. Procuramos compreender a outra pessoa em vez de expressarmos a nossa opinião.
Esta capacidade de escutar plenamente parece ser uma aptidão natural. No entanto, como acontece com todas as dimensões da inteligência social, é possível aperfeiçoá-la. E todos nós podemos promover esse aperfeiçoamento prestando intencionalmente mais atenção. A maneira de falar de uma pessoa dá boas indicações sobre a sua capacidade de ouvir profundamente. Durante momentos de genuína conexão, aquilo que dizemos será responsivo ao que o outro sente, diz e faz. Quando a conexão é má, pelo contrário, as conversas tornam-se balas verbais: a mensagem que transmitimos não se altera de modo a adequar-se ao estado de espírito da outra pessoa, limita-se a reflectir o nosso. Ouvir faz toda a diferença. Falar com uma pessoa em vez de escutar o que ela diz reduz a conversa a um monólogo.
(…)
Descobriu-se que saber ouvir é o que distingue os melhore gestores, professores e líderes. (…)
A atenção total, tão ameaçada nesta época de multitarefas, perde acuidade sempre que dividimos o nosso foco. A auto-absorção e as preocupações reduzem o nosso enfoque, deixando-nos menos capazes de reparar nos sentimentos e necessidades dos outros, quanto mais responder-lhes com empatia. A nossa capacidade de sintonia ressente-se, sufocando a relação.
A plena presença não exige, todavia, assim tanto de nós. «Uma conversa de cinco minutos pode ser um momento humano totalmente significativo», nota um artigo publicado na Harvard Business Revue. «Para que resulte, tem de pôr de lado seja o que for que estiver a fazer, pousar o memorando que está a ler, largar o computador, sair do seu devaneio e concentrar-se na pessoa que tem à sua frente.»
Ouvir plenamente maximiza a sincronia fisiológica, de modo que as emoções se alinham. (…) Prestar intencionalmente mais atenção a alguém pode ser a melhor maneira de encorajar o nascimento de uma relação. Escutar atentamente, com uma atenção indivisa orienta os nossos circuitos neurais para a conectividade, pondo-os no mesmo comprimento de onda. Isto maximiza a probabilidade de os ingredientes essesnciais da outra pessoa para a relação - sincronia e pensamentos positivos - despertam e desabrocham.

in: Inteligência Social, de Daniel Goleman, pp. 135 a 138.

28 outubro 2014

Plátano de Hipócrates | Jardim do Príncipe Real


À semelhança de Platão e de outros filósofos da Grécia clássica, Hipócrates, considerado o pai da medicina, instruía os seus discípulos ao ar livre. Platão preferia um bosque sagrado chamado Akademia, que derivou no significado moderno da palavra academia.
Hipócrates meditava e leccionava à sombra de um plátano na ilha de Cós, que ficou para a história como Plátano de Hipócrates ou Árvore da Saúde. Um propágulo desta famosa àrvore foi oferecida a Portugal pelo rei Paulo da Grécia e plantado no Jardim França Borges (Príncipe Real) a 9 de janeiro de 195. Ainda hoje lá permanece, majestoso, na esquina sudoeste do Jardim.

in: Árvores de Lisboa, Monumentos Vivos, de Tomás Collares Pereira, 2014

25 setembro 2014

O Jardim | Poema


O jardim é o meu refúgio
As árvores protegem
As flores sorriem
Os pássaros cantam
As plantas salpicam a terra

Tudo enquanto descanso
As folhas que se soltaram esvoaçam por ali
Tudo tranquilo
O ritmo da vida na Terra é sereno

Só nós corremos contra o vento
Corremos contra nós mesmos
Corremos para uma morte anunciada

O jardim esse adapta-se
Congratula-se pelas estações do ano
Veste-se e despe-se naturalmente
Deixa-se estar
Vive simplesmente.

17 setembro 2014

Simples Diários Complexos | Edgar Morin

Opor questões científicas com humanistas, para Morin, é perder dos dois lados. Vivemos em um mundo onde nunca se disseminou tanto conhecimento e, por isso, articular as diferentes áreas nunca foi tão necessário, segundo o filósofo. Justamente pelo facto de o mundo ter ficado mais complexo, Morin busca novas estruturas mentais de compreensão desse novo universo, formas alternativas de integração.
(…)
Quando se escreve um livro vira uma testemunha.
(…)
Há muitas razões: para os críticos, os escritores, os filósofos, os sociólogos, eu sou uma espécie de camaleão, não sou um escritor, não sou um filósofo, um sociólogo, não tenho forma, não tenho etiqueta, logo não inspiro interesse. Então, uma maneira de fazer as minhas ideias serem conhecidas é fazê-las passar também pelas entrevistas. Me sinto um pouco obrigado a dar entrevistas.
(…)
Bom, para começar a curiosidade é própria das crianças, mas se os professores não têm paixão, se estão entediados, acabam arrefecendo a curiosidade delas. Creio que há dois problemas: uma coisa que diria Platão é que para ensinar é necessário amor, paixão. Essas condições não estão num manual, porém são fundamentais; o segundo problema é que precisamos relacionar as disciplinas múltiplas. Se você fizer a seguinte pergunta: "o que é ser humano?" Essa é uma pergunta sobre os diversos saberes que temos em relação ao ser humano. Eu vejo que as ciências humanas estão dispersas, a Psicologia, a Sociologia. Também temos os conhecimentos que nos dá a Literatura, porque ela nos ensina sobre o ser humano. Podemos pensar também na Biologia… Se você ensina o que é o ser humano aos seus alunos, você os cativa. Eu acho que uma ciência muito interessante é a História.
(…)
Bom, a complexidade foi formulada pela primeira vez entre matemáticos, engenheiros e cibernéticos. … Eu creio que nós estamos numa época em que a complexidade se impõe sobre a compartimentação. É um novo caminho para o mundo, para o ensino. Isso já acontece em alguns países da América Latina, o Brasil, por exemplo. Sobretudo é necessária uma mudança de estrutura mental.
(…)
É muito difícil definir a inteligência porque não é um quociente individual. A inteligência é um conjunto de qualidades muito diferentes porque necessita de capacidades de síntese, de análise e, no mínimo, de capacidade reflexiva e autocrítica. A inteligência necessita também de sensibilidade, porque a razão fria é muito limitada, mas uma paixão sem razão é muito limitada também. É necessária a mistura de razão e paixão. Então penso que a inteligência não tem uma definição simples. Há uma complexidade de elementos que permitem a inteligência. Há outra coisa que ultrapassa a inteligência, que é a capacidade de criar. A criatividade é algo em que é preciso capacidade intelectual, mental, cerebral. A possibilidade de fazer uma combinação nova, de fazer descobertas novas também exige inteligência. … Então, a inteligência é a capacidade de admiração, de se inquietar, a curiosidade… muitas coisas se somam à inteligência, é um coktail, e quando bem feito é como uma boa caipirinha.

in: Simples Diários Complexos, Edgar Morin por Sérgio Mélega, Revista Filosofia, Nº 78, 2013, pp. 5 a 13.

10 setembro 2014

No Teu Deserto | Miguel Sousa Tavares

… tu foste tomar banho em primeiro lugar. E porque a porta da casa de banho não encostava bem - e não sei se reparaste nisso - de onde eu estava, estirado na cama, a repousar das oito horas ao volante mais o resto, vi-te a despir, a ficares toda nua e a entrares na banheira de água quente e nem por um momento me ocorreu deixar de o fazer. Estava cansado de mais para desviar o olhar.
(…)
Dormias profundamente, com a cara virada para mim e a tua mão direita pousada sobre o meu ombro. Como se fôssemos íntimos.
(…)
- Claudia, desculpa se te tratei mal: estava muito cansado. Mas, por favor, vem para a tenda!
O meu querido companheiro do deserto!
(…)
- Vira-te de costas, que me vou despir.
Mas, depois, veio e deitou-se abraçada a mim. Ou assim me pareceu.
(…)
Sim, é verdade: eu encostei-me a ti e abracei-te, nessa primeira noite na nossa tenda, no camping de Ghardaia, quando nos deitámos as duas horas que faltavam antes de partirmos para o deserto.
Encostei-me a ti e abracei-te sem sequer pensar no que estava a fazer: apeteceu-me, senti que não havia nenhuma razão para não o fazer. O teu cansaço comoveu-me e a tua delicadeza, ao deixares tanto espaço livre para mim ao lado do teu saco-cama, foi irresistível.
(…)
- Claudia, não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.
(…)
- Mas tu não poupas as palavras: tu escreves. Todas as noites gastas uma hora a escrever um diário nesse teu caderno…
(…)
Não me acordes agora, não me fales alto antes de me falares ao ouvido, não me tragas de volta do deserto.
(…)
- Sabes apetecia-me estar lá, no deserto. Não consegui ainda habituar-me a isto.
- Tens de te habituar. A vida é assim mesmo, nada dura para sempre. Só os rios e as montanhas, como diziam os índios da América.
(…)
Sem que eu tivesse de pensar em nada quando acordava, sem ter de planear os dias, de encher os dias, de enganar o vazio de tudo. Era isso, meu querido, mais do que tudo, que me dava essa incrível sensação de conforto, de segurança. Eras tu: tu estavas ali, tu tinhas tudo planeado e pensado e, por mais insuportável que às vezes me parecesse essa tua obsessiva organização e teimosia, por mais que tantas vezes te contrariasse só para te ver irritado ou para simular uma revolta que de todo não sentia nem queria que sentisses, esses foram os dias inesquecíveis em que soube que alguém cuidava de mim, que alguém me tinha pegado na mão e me conduzia por onde não havia nada - nem estradas, nem casas … nem árvores … - e a minha única tarefa era deixar-me conduzir por ti, entre a lucidez e o sonho.
(…)
Já sei, já sei que nada dura para sempre - só as montanhas e os rios, meu sábio.

in: No Teu Deserto, de Miguel Sousa Tavares, Oficina do Livro, Lisboa, 2009, p. 54, 62, 73, 89, 91, 97, 100, 105, 107, 108, 111.

05 setembro 2014

Quando as Paixões Ultrapassam a Razão | Daniel Goleman

(…) Mal-grado estas restrições sociais, as paixões estão permanentemente a sobrepor-se à razão. Esta constante da natureza humana decorre da arquitectura básica da vida mental. Em termos de concepção biológica do circuito neuronal de emoções básico, aquilo com que nascemos é o resultado melhor para as últimas 50 000 gerações humanas. As forças lentas e deliberadas da evolução que moldaram as nossas emoções fizeram o seu trabalho ao longo de um milhão de anos; os últimos 10 000 - apesar de terem assistido à rápida ascenção da civilização humana e à explosão da população de cinco milhões para cinco biliões - quase não deixaram marca nas nossas matrizes biológicas para a vida emocional.
Para o melhor ou para o pior, a nossa avaliação de cada encontro pessoal e as nossas respostas a estes encontros não são determinadas apenas pelo nossos juízos racionais ou a nossa história pessoal, mas também pelo nosso passado ancestral. (…) Em resumo, muito frequentemente confrontamos dilemas pós-modernos com um repertório emocional feito à medida das exigências do Pleistoceno.

in: Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, p. 27.

11 agosto 2014

Três Níveis de Subtileza


Três níveis distintos de informação e compreensão (...) Neste sentido, um famoso rabi do século XVII, Menasseh ben Israel, dizia que o Pentateuco, tem, como o homem, três níveis de subtileza:

. O Corpo Físico - o nível mais básico e imediatista, lido e entendido histórica e literalmente, (com proveito!), pelos "homens ignorantes".
. A Alma Racional - o nível intermédio, objecto do estudo dos "homens eruditos".
. O Espírito Imortal - o nível superior, sobre o qual os "homens sábios" meditam.

  in: Letras Sagradas e Textos Inspirados, Revista Biosofia, Nº 41, 2012, p. 14.

31 julho 2014

O Guardador de Rebanho | Alberto Caeiro

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol,
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-do-sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

(…)

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

in: O Guardador de Rebanhos, (Textos seleccionados), de Alberto Caeiro, Edição Alma Azul, Coimbra, Poema I, p. 3 e 4.

22 junho 2014

William Morris | Casa da Cerca





Padrões de William Morris (1834 - 1896), um dos fundadores do movimento de Artes e Ofícios. Artista inglês, escritor e poeta.

in: Casa da Cerca, Almada, Portugal, Junho de 2014.

09 junho 2014

O Donjuanismo

Se amar fosse bastante, as coisas seriam simples de mais.
Quanto mais amamos mais o absurdo se consolida. Não é por falta de amor que Don Juan vai de mulher em mulher. É ridículo representá-lo como um iluminado, em busca do amor total. Mas é porque ele as ama com idêntico entusiasmo e sempre com inteireza, que lhe é necessário repetir esse dom e esse aprofundamento. Daí todas esperarem ofertar-lhe aquilo que nunca ninguém lhe deu. De todas as vezes se enganam profundamente e só conseguem fazer-lhe sentir a necessidade de tal repetição. «Finalmente - exclama uma delas - dei-te o amor.» E há quem se espante por Don Juan sorrir dessa ingenuidade. «Finalmente, não - diz ele - mas uma vez mais.» Porque seria necessário amar raramente para amar muito?
(…)
Não saber alegrar a alma já era vendê-la. Don Juan domina, pelo contrário, a saciedade. Se deixa uma mulher, não é em absoluto porque já não a deseja. Uma mulher bela é sempre desejável. É, sim, porque deseja outra, e, de facto, não se trata da mesma coisa.
Esta vida satisfá-lo, nada pior que perdê-la. Esse louco é um grande sábio. Mas os homens que vivem de esperança dão-se mal neste universo, onde a bondade cede o seu lugar à generosidade, a ternura ao silêncio viril, a convulsão à coragem solitária. E todos dizem: «Era um fraco, um idealista ou um santo.» Assim se minimiza a grandeza que insulta.
(…)
O inferno para ele é coisa que o provoca. Só tem uma resposta para dar à cólera divina, e é a honra humana: «Tenho honra - disse ele ao Comendador - e, cumpro a minha promessa porque sou cavaleiro.» Mas seria igualmente erróneo querer fazer dele um moralista. Pois ele é, a esse respeito, «como toda a gente»: tem a moral da sua simpatia ou da sua antipatia.
(…)
Seduzir é o seu estado. (…) O que Don Juan põe em acto é uma ética da quantidade, ao contrário do santo, que tende para a qualidade. Não acreditar no sentido profundo das coisas é próprio do homem absurdo. Percorre esses rostos calorosos ou maravilhados, enceleira-os e queima-os. O tempo avança com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo. Don Juan não pensa em «coleccionar mulheres». Esgota-lhes o número e com elas esgota as suas possibilidades de vida. Coleccionar é ser capaz de viver do seu passado. Mas ele recusa a saudade, essa outra forma de esperança. Não sabe olhar os retratos.
Será por isso egoísta? À sua maneira, sem dúvida. Mas ainda nesse ponto, temos que nos entender. Há aqueles que são feitos para viver e os que são feitos para amar. Don Juan, pelo menos, di-lo-ia de boa vontade. Mas di-lo-ia metendo por um atalho, à sua maneira. Porque o amor de que aqui se fala é enfeitado com as ilusões do eterno. Todos os especialistas da paixão no-lo dizem, não há amor eterno, a não ser contrariado. Não existe paixão sem luta. Tal amor só encontra fim na derradeira contradição, que é a morte. É preciso ser Werther ou nada. Ainda aí, há várias maneiras de alguém se suicidar, uma das quais é o dom total e o esquecimento de si próprio.
(…)
Só chamamos amor àquilo que nos liga a certos seres, em referência a um modo de ver colectivo, de que são responsáveis os livros e as lendas. Mas do amor só conheço essa miniatura de desejo, de ternura e de inteligência que se liga a determinado ser. Esse composto não é o mesmo em relação a outra qualquer criatura. (…) O homem absurdo ainda multiplica aqui aquilo que não pode unificar. Assim, descobre nova maneira de ser, que pelo menos, liberta tanto quanto liberta os que dele se aproximam. Não há amor generoso, a não ser aquele que ao mesmo tempo se sabe passageiro e singular.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, pp. 76 a 80.

04 junho 2014

A Liberdade Absurda


Viver é fazer viver o absurdo.
Fazê-lo viver é, antes de mais, olhá-lo. Ao contrário de Eurídice, o absurdo só morre quando dele nos afastamos, sem voltar a cara para trás. Uma das únicas posições filosóficas coerentes é, assim, a revolta. Ela é um confronto perpétuo do homem e da sua própria obscuridade. É a exigência de uma impossível transparência. Equaciona o problema do mundo a cada segundo. Tal como o perigo fornece ao homem possibilidades insubstituíveis de tomada de consciência, assim a revolta metafísica dilata a consciência ao longo da experiência. É a presença constante do homem em si próprio. Não é aspiração, pois é sem esperança. Esta revolta não passa da certeza de um destino esmagador, mas sem a resignação que deveria acompanhá-la.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, p. 59 e 60.

26 maio 2014

O Estúdio | Alberto Giacometti

Zona secreta, solidão onde se refugiam os seres - e as coisas - é ela que dá beleza à rua: por exemplo, se for sentado num autocarro basta olhar pela janela. A rua cede o que o autocarro devassa. Sigo demasiado depressa para ter tempo de reter rostos ou gestos, a velocidade exige do meu olhar igual velocidade, e por isso nem um rosto, um corpo, ou atitude sequer, me esperam: tudo está ali a nu. Registo: um homem enorme, curvado, muito magro, peito escavado, óculos, o nariz comprido; uma dona-de-casa gorda caminha lentamente, pesada, triste; um velho sem graça, uma árvore solitária, ao lado outra árvore solitária, e outra… um empregado, outro, uma multidão de empregados, a cidade inteira cheia de empregados curvados, todos juntos num pormenor que os meus olhos registam: bocas crispadas, ombros caídos… uma a uma, talvez devido à velocidade dos meus olhos e do veículo, as suas atitudes ficam rabiscadas tão depressa, tão rápido surpreendidas em seu arabesco, que cada ente é-me revelado no que tem de novo e insubstituível - invariavelmente uma ferida - graças à solidão onde essa ferida os coloca e eles mal reconhecem, se bem que todo o seu ser aí aflua…

in: O Estúdio de Alberto Giacometti, de Jean Genet, p. 35.

21 maio 2014

João da Câmara Leme | Designer


Uma linha recta
Convicta e correcta
é um grito de linha
que chega ao infinito

é a única estrada
que não vai dar a nada!

Um segmento de recta
pode parar na esquina
subir uma parede
beijar uma menina

Por sobre os longos campos
e o vale em flor e o mar,
desenhada pelo vento
lá vai ela a passar…

Um segmento de recta
pode ter alegria

pode subir às árvores
e num raio de luz
descer até ao chão
anunciando o dia!

in: Exposição de design gráfico, do Designer João da Câmara Leme, Museu das Tapeçarias de Portalegre, Maio.2014
Ver: https://almanaquesilva.wordpress.com/category/joao-da-camara-leme/?blogsub=confirming#subscribe-blog

04 maio 2014

Ser | Solitário

Acompanhado da fragilidade pós-moderna em todos os âmbitos da sociedade, os relacionamentos são mais uma questão a trazer angústia para indivíduos esvaziados e que vão buscar em um parceiro um alento para satisfazer suas frustrações. Mas que não sabem mais como se relacionar.
Segundo Arthur Schopenhauer, a felicidade vem de uma forma de vida auto-suficiente, e ainda segundo André Comte Sponville que diz que mesmo o amor a dois deve ser solitário.
Então, será que estar sozinho não pode ser uma opção, uma escolha? Não existe um meio-termo entre um relacionamento ortodoxo e um estilo de vida hedonista conhecido como "vida de solteiro"?
Não estar acompanhado de um parceiro parece estranho aos olhos da sociedade. Isso pode se dever ao facto de inúmeros exemplos no nosso quotidiano, seja no cinema, em letras de música, no senso comum, ou nas obras de autoajuda, em que proliferam abordagens simplórias sobre o amor e que alimentam ainda mais as frustrações de relacionamentos por oferecer visões distorcidas e incentivar um posicionamento romântico e raso sobre o tema. (…) A solidão não é outra possibilidade? E outros tipos de comportamentos em diferentes momentos da vida? Calma, tempo para si, contemplação… relacionamentos distintos, com outros contornos, não seriam válidos? (…)
Tratando-se do amor, especificamente, ele defendia que, em função da vontade, ambicionamos preservar a espécie. O amor, nessa esteira, seria uma ilusão: "Nenhuma união é tão infeliz quanto esses casamentos por amor - e precisamente pelo facto de que o seu objectivo é a perpetuação da espécie, e não o prazer do indivíduo". "Só um filósofo pode ser feliz no casamento, e os filósofos não casam". O verdadeiro mote, por trás da vontade de reproduzir, seria, em suma, a preservação da espécie, e para isso, "cada qual procura um companheiro que vá neutralizar seus defeitos, para que esses não sejam transmitidos".  

Amor e Relacionamento Versus Felicidade, in: Filosofia, Ano VII, Nº 76, Novembro 2012, pp. 14 a 23.

21 abril 2014

O Suícidio Filosófico

Existe um facto evidente que parece absolutamente moral: é que o homem é sempre a presa das suas verdades. Uma vez reconhecidas, não pode libertar-se delas. É preciso pagar esse preço. Um homem que se torna consciente do absurdo fica-lhe ligado para todo o sempre. O homem sem esperança e consciente disso, já não pertence ao futuro. Isso está na ordem natural das coisas. Mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é o criador.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, p. 41.