Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

31 março 2014

Albert Camus

O Absurdo e o Suicídio

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio.
Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder. E, se é verdade, tal como Nietzsche o quer, que um filósofo, para ser estimável, deve dar o exemplo, avalia-se a importância desta resposta, visto que ela vai preceder o gesto definitivo. São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso aprofundá-las para as tornar claras ao espírito.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, p. 15.

15 março 2014

Às Vezes | Poema



Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.

in: Às Vezes, de Sophia de Mello Breyner Andresen
[Fotografia na Praia Grande, Sintra | Portugal]

07 março 2014

Pragmatismo | Filosofia


Charles Sanders Peirce (1839-1914, EUA)
Mais conhecido como um dos fundadores da abordagem filosófica americana denominada "pragmatismo", C. S. Peirce foi influenciado por Kant e influenciou muito o seu amigo William James*.

Peirce foi mais um cientista profissional do que um filósofo e a sua experiência laboratorial foi uma influência central no seu pensamento. Contra a tradição moderna da filosofia, ele defendia que o conhecimento podia ser adquirido, não por um investigador solitário em busca da certeza, mas através da abordagem experimental de uma comunidade de investigadores científicos que examinem incertezas dentro de um sistema de crenças aceites.
Kant foi a principal influência filosófica de Peirce, que se via como um continuador do projecto de Kant à luz dos avanços modernos na lógica, muitos feitos por ele próprio. Segundo o pragmatismo de Peirce, o significado de um termo esgota-se pelos efeitos práticos que tem sobre as nossas acções e pela forma como conduzimos a investigação, sendo definível em termos da sua utilidade racional.
Em vida, Peirce não foi famoso, não tendo conseguido manter nenhum cargo académico durante mais de uns anos. Contudo, produziu um vasto conjunto de textos (Philosophical Papers, 1931-5) que ajudaram a consolidar a sua importância.

* Wiliam James (1842-1910, EUA)
A sua carreira desenrolou-se em Harvard, tendo começado pela Medicina e passado pela Psicologia e depois pela Filosofia. Num dos primeiros textos, A Vontade de crer (1897), revelou a sua atracção pela crença religiosa, defendendo que a crença em Deus pode ser justificada por outra coisa além dos dados.

in: Filosofia, Stephen Law, p. 313.

03 março 2014

A Experiência Partilhada




Cada experiência das nossas vidas é acompanhada por algum grau de emoção, por mais pequeno que seja, e este facto é especialmente notável em relação a problemas sociais e pessoais importantes. Quer a emoção responda a um estímulo escolhido pela evolução, tal como acontece no caso da simpatia, ou a um estímulo apreendido individualmente, tal como acontece no medo que podemos ter adquirido em relação a um certo objecto, como consequência de o termos associado a um estímulo de medo primário, o facto é que as emoções, positivas ou negativas, bem como os sentimentos que se lhes seguem, se tornam componentes obrigatórios das nossas experiências sociais.
A ideia que estou a apresentar é a de que, ao longo do tempo, não respondemos apenas aos componentes de uma situação social com o repertório de emoções sociais inatas de que dispomos. Sob a influência das emoções sociais (desde a simpatia e a vergonha ao orgulho e à indignação moral), e das emoções que são induzidas pelas punições e recompensas (que são variantes da alegria e da mágoa), somos capazes de categorizar gradualmente as situações de que temos experiência. Categorizamos os erros em que participamos, os seus componentes e o seu significado em termos de grande narrativa pessoal. Somos capazes, além disso, de associar as categorias conceptuais que vamos formando - tanto a nível mental como a nível neural - com os dispositivos cerebrais que desencadeiam as emoções. (…)
Dou especial valor às emoções e sentimentos ligados às consequências futuras das decisões, visto que eles constituem uma antecipação da consequência das acções, uma espécie de previsão do futuro.

in: Ao Encontro de Espinosa, António Damásio, p. 161.
[Imagem: Maquetes do Designer Raul Cunca, in: O Design Plural, Casa da Cerca, Almada, Fevereiro de 2014]

21 fevereiro 2014

O Que Importa


Às vezes apetece mudar tudo
Uma libertação de quase tudo

Fraca, demasiadamente fraca
A fraqueza, a falta de quase tudo
Quando não se precisa de quase nada

Apenas ar, sol e alegria
E também da música
Quase tudo o que é preciso.

O que importa uma multidão
O que importam os objectos
O que importa quase tudo
O que importa quase nada

O que realmente importa
A relação, a troca
O tempo, o tempo que não é contado
A sabedoria, a humildade, a simplicidade.

in: Fevereiro, 2014

20 fevereiro 2014

Reacção Emocional | Modelo


(…) A partir de um estudo da emoção, área emergente das ciências cognitivas no contexto contemporâneo, destacamos o mecanismo da emoção, enquanto resultado de uma lógica. Assim uma emoção é o resultado de um mecanismo de ordens, e/ou de comportamentos, que resultam das primeiras acções experimentadas. O que significa que o nosso cérebro grava modelos que se repetem, ou seja, um estímulo provoca uma resposta e o cérebro constrói um modelo. Deste modo a lógica do entendimento da acção e reacção permite a construção de modelos de estímulo-resposta. Assim, as pessoas são como 'máquinas' no sentido em que reagem por hábitos, por informação codificada, gestos controlados, imitação, dados que são gravados no cérebro e repetidos, os ditos modelos. (…)

in: Socio-Emotional Design of Personal Robots, Cynthia Breazeal, (7th International Conference on Design and Emotion), Chicago, 2010

 (…) Segundo António Damásio 'nós pensamos com o nosso corpo' e as "emoções são literalmente 'corporalizadas'. O nosso cérebro é um detector de emoções e "até mesmo as pessoas 'normais' quando vêm imagens carregadas de grande emoção, têm secreções sudoríparas aumentadas. No caso das pessoas sujeitas a lesões cerebrais, não há nenhuma resposta epidérmica."

in: O Cérebro à Procura da Alma, de António Damásio, (Neuropsicologia, Édition Spéciale Science & Vie), 1996

14 fevereiro 2014

Amor | Alimento


A.M.O.R.  
»»» Sen-ti-men-to que nos im-pe-le para o objecto dos nossos de-se-jos…
»»» Objecto da nossa afeição; paixão; afecto; inclinação…

» A.LI.MEN.TAR. O. A.M.O.R.»

Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da luz e do barulho das portas a abrir.
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter. Em Portugal quase tudo se resume a começos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma "iniciativa", que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte. É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores não nos faltam. Chefes não nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Faltam-nos guardiões.

É como no Amor.
A manutenção do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer durar uma paixão. O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas - é o que distingue os seres humanos. O nascimento e a morte não têm valor - são os fados da animalidade. Procriar é bestial. O que é lindo é educar. Estou um pouco farto de revolucionários. Sei do que falo porque eu próprio sou revolucionário. Como toda a gente. Mudo quando posso e, apesar dos meus princípios, não suporto a autoridade. (…)

Mudar é um instinto animal.
Conservar, porque vai contra a natureza, é que é humano. Gosto mais de quem desenterra do que de quem planta. Gosto mais do arqueólogo do que do arquitecto. Gosto de académicos, de coleccionadores, de bibliotecários, de antologistas, de jardineiros.
Percebo hoje a razão por que Auden disse que qualquer casamento duradoiro é mais apaixonante do que a mais acesa das paixões. Guardar é um trabalho custoso. As coisas têm tendência horrível para morrer. Salvá-las desse destino é a coisa mais bonita que se pode fazer. Haverá verbo mais bonito do que "Salvaguardar"? É Fácil para uma pessoa bater com a porta, zangar-se e ir-se embora. O que é difícil é ficar. Isto ensinou-me o amor da minha vida, rapariga de esquerda, a mim, rapaz conservador. (…)

Preservar é defender a alma do ataque da matéria e da animalidade. Deixadas sozinhas, as coisas amarelecem, apodrecem e morrem. Não há nada mais fácil do que esquecer o que já não existe. Começar do zero, ao contrário do que sempre pretenderam todos os revolucionários do mundo, é gratuito. Faz com que não seja preciso estudar, aprender, respeitar, absorver, continuar. Criar é fácil. As obras de arte criam-se como as galinhas. O difícil é continuar.

in: As Minhas Aventuras na República Portuguesa, por Miguel Esteves Cardoso, 2014

10 fevereiro 2014

Pieter Brueghel | MNAA




Pieter Brueghel, conhecido como "O Velho", para distingui-lo de seu filho mais velho, Pieter Brueghel, "O Jovem". Foi o primeiro de uma família de pintores flamengos, e considerado um dos melhores pintores do século XVI.

in: Rubens, Brueghel, Lorrain, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Fev. 2014
Ver o Filme "A Procissão e o Calvário" [neste Blogue com a data: 7.Agosto.2012]

04 fevereiro 2014

MUDE | Museu do Design



. INVESTIGAR .
in.ves.ti.gar / v. [Do lat. investigare] Averiguar, indagar, sondar, inquirir, interrogar. Aprender. Descobrir, encontrar. Verificar, confirmar, infirmar.

Ali estão elas, algumas das Teses de Doutoramento realizadas no Doutoramento em Design, na Faculdade de Arquitectura, da Universidade de Lisboa. Entre elas a minha:
. Autora: Ana Paula de J. L. Gaspar
. Título: A Provocação dos Sentidos no Cartaz de Divulgação da Arte Contemporânea em Portugal 1989-2009
. Data: Lisboa, 18. Julho. 2012

in: Em Exposição no MUDE - Museu do Design e da Moda, em Lisboa [http://www.mude.pt]

22 janeiro 2014

Como foi …

Como foi na tarde o nosso abraço
Perfeito circular
Abrigo?
De manso rodeámos outras ilhas de certezas
E promessas: fomos plantando uma árvore
Em cada nosso olhar
E destruímos os medos os contornos
De nossos medos. Depois
Fomos de braços vazios a avenida
Andar conversar
Ou só olhar.
Não inventámos histórias não quisemos
Razões
Não discutimos alamedas
Nem futuros
Não nos ligámos às juras nem aos projectos
Nem ao menos quisemos percorrer
Os íntimos continentes
Ao fim do encontro amigo:
Como foi na tarde o nosso abraço
Circular perfeito
Abrigo!

in: Sem Título, de João David Pinto Correia, Madeira (ilha portuguesa)

20 janeiro 2014

Depressão | Vírus

Os mapas relacionados com a mágoa, tanto no sentido estreito como largo da palavra, estão associados a estados de desequilíbrio funcional. A facilidade da acção reduz-se. Nota-se a presença da dor, de sinais de doença ou de sinais de desacordo fisiológico, todos eles indicando uma coordenação diminuída das funções vitais. Se a mágoa não é corrigida seguem-se a doença e a morte.
(…)
De acordo com o que Espinosa disse quando discutiu a noção de tristitia, os mapas da mágoa estão associados a uma transição do organismo para um estado de menor perfeição. O poder e a liberdade de atuar reduzem-se. Na perspectiva espinosiana, a pessoa invadida pela tristeza é separada do seu conatus, é separada da sua tendência natural para a autopreservação. Esta descrição aplica-se, por certo, aos sentimentos que se encontram nas depressões graves e às suas consequências últimas no suicídio. A depressão pode ser vista como uma parte de uma «síndroma de doença». Os sistemas endócrinos e imunológicos participaram na depressão crónica tal como se um agente patogénico, por exemplo uma bactéria ou um vírus, tivesse invadido o organismo. De forma isolada, momentos de tristeza, medo ou zanga não precipitam a espiral de deterioração da doença. Contudo, toda e cada ocasião de emoção negativa coloca o organismo num estado marginal. Quando a emoção é o medo, esse estado marginal pode ter vantagens - desde que o medo seja justificado e não seja o resultado de uma apreciação incorrecta da situação, ou sintoma de uma fobia. O medo justificado é uma excelente apólice de seguros, que tem salvado ou melhorado muitas vidas.

in: Ao Encontro de Espinosa, de António Damásio, p. 153.

14 janeiro 2014

Fado do Amor | José Régio

Passaste por mim um dia,
Eras mulher e criança,
Tinhas uma expressão mansa
Coma de triste alegria…
Luz do luar, luz do dia,
Luz do céu do amanhecer,
Que luz posso eu conceber
Que teu sorriso não desse,
Teu olhar não recolhesse,
Eras criança e mulher…?

Passaste por mim, passaste
Num dia da minha vida,
E hora jamais esquecida,
Em que ambos dois resgataste,
Foi aquela em que deixaste
Teu olhar no meu cair,
A tua boca sorrir,
(Nem sei se me viste ou não…)
E a tua mansa expressão
Benzer todo o meu porvir!

Eras criança e mulher,
Tinhas petulante e doce,
Um jeito como se fosse
De quem quer dar, receber…
Eu começava a saber
Que era uma pobre criatura
Das que vivem na loucura
De redimir tudo, e todos,
E têm falas e modos
De altiva e triste figura…

Passaste, olhaste, sorriste,
Naquela semana inteira,
Com sempre a doce maneira
Como de alegria triste.
Nem sei, sequer, se me viste,
Não vou jurar que me vias
Depois passaram-se os dias,
A vida meteu-se ao meio,
Quanto havia de vir veio,
Fui-me embora e tu partias…

Há quantos anos foi!,
Pensas que pude esquecer-te?
Crês que deixei de rever-te
Na saudade que me dói?
Sim, já não sou esse herói
Vibrante e meditabundo
Que nada via no mundo
Senão luz dum mais-além…
Mas tu caíste também,
Qual de nós caiu mais fundo?
(…)

in: Fado, de José Régio, p. 43 e 44.

13 janeiro 2014

A Razão de eu escrever | Leonard Cohen

A razão de eu escrever
é fazer algo
tão belo como tu

Quando estou contigo
Quero ser o tipo de herói
que queria ser
quando tinha sete anos
um homem perfeito
que mata

in: Poemas e Canções, de Leonard Cohen, p. 235.

24 dezembro 2013

Alegria e Mágoa


Agora que sabemos o que são os sentimentos, é altura de perguntar: para que servem?
Como se constroem a alegria e a mágoa? Que representam?
A alegria e a mágoa começam com a apresentação de um estímulo emocionalmente competente. (...)

Os sentimentos são, em suma, as manifestações mentais do equilíbrio e da harmonia, da desarmonia ou do desacordo. (…) Referem-se mais imediatamente à harmonia e ao desacordo que acontecem no interior da carne. A alegria e a mágoa, bem como os sentimentos que se relacionam com elas, são primariamente ideias do corpo no processo de obter estados de sobrevida óptimos.

in: Ao Encontro de Espinosa, de António Damásio, p. 151 a 154.

11 dezembro 2013

Uma coisa curiosa … | António Damásio

Gostava ainda de chamar a atenção para uma coisa curiosa e também cronicamente esquecida: os sensores nervosos que transmitem informações do corpo para o cérebro e os núcleos e feixes nervosos que mapeiam essa informação são, eles próprios, feitos de células vivas, sujeitos ao mesmo risco de vida de qualquer outra célula, e precisam, também eles, de regulação homeostática. Estas células nervosas não são observadores passivos e imparciais. Não são espelhos inocentes à espera de reflectir o que quer que seja, ou ardósias limpas à espera de que alguém nelas inscreva uma fórmula mágica. Os neurónios encarregados de sinalizar e mapear têm qualquer coisa a dizer no que toca àquilo que sinalizam e mapeiam. É evidente que as atividades do corpo dão uma certa forma ao mapa, lhe conferem uma certa intensidade e perfil temporal, e contribuem no seu conjunto para aquilo que sentimos. Mas uma certa parte da qualidade daquilo que sentimos depende, provavelmente, do desenho íntimo dos próprios neurónios. A qualidade daquilo que sentimos depende, provavelmente, do "meio" (medium) em que são instanciados. (…)
Em conclusão, os sentimentos baseiam-se em representações integradas do estado da vida a par e passo com os ajustamentos necessários para que esse estado seja compatível com a sobrevida. Aquilo que sentimos tem, portanto, a ver com o seguinte:
1. O desenho íntimo do processo da vida num organismo multicelular com um cérebro complexo.
2. As operações do processo da vida.
3. As reacções correctivas que certos estados da vida provocam automaticamente, e as reacções inatas e adquiridas que os organismos desencadeiam quando certos objectos e situações são mapeados nos seus cérebros.
4. O facto de que, quando se desencadeiam as reacções regulatórias, o fluir da vida se torna mais eficiente ou, pelo contrário, menos eficiente.
5. A natureza do medium neural no qual todas estas estruturas e processos são mapeados.
Várias vezes me tem sido perguntado se estas ideias podem explicar a negatividade ou positividade dos sentimentos, sendo a implicação da pergunta que o sinal positivo dos sentimentos não pode ser explicado. Discordo dessa posição. Há estados do organismo em que a regulação da vida se torna extremamente eficiente, óptima, digamos, fluindo com facilidade e liberdade. Isto é um facto fisiológico bem estabelecido. Não se trata de uma hipótese. Os sentimentos que acompanham esses estados fisiológicos ideais são naturalmente considerados "positivos". São caracterizados não só pela ausência de dor, mas também por variedades de prazer. E há também estados do organismo em que os processos da vida lutam arduamente por recuperar o equilíbrio e podem até perder essa luta e entrar em caos. Os sentimentos que ocorrem nesses estados são considerados "negativos" e caracterizam-se não só pela ausência de prazer, mas por variedades de dor.
Julgo que é possível dizer, com alguma confiança, que os sentimentos positivos e negativos são determinados pela regulação da vida. O sinal positivo ou negativo é conferido pela proximidade ou distância relativamente aos estados que representam uma regulação óptima da vida.
A propósito, a intensidade dos sentimentos também está naturalmente provavelmente ligada ao grau de correcções que é necessário fazer nos estados ditos negativos, e à medida em que os estados ditos positivos excedem o nível homeostático necessário para a sobrevida e traduzem uma regulação optimizada.

in: Ao encontro de Espinosa, de António Damásio, p. 143 a p. 145.

03 dezembro 2013

Perder o Apetite | Qual a diferença entre mim e uma árvore?


E se uma árvore perder o apetite?
Morre.

Mas, se eu estou a perder o apetite!
Irei morrer.

Não, por falta de nutrição, não!
Mas, por falta de prazer, sim.


Por exemplo, na parte do cérebro conhecida como hipotálamo, grupos de neurónios leem directamente a concentração de glucose ou água presentes na corrente sanguínea e atuam de acordo com essa leitura produzindo uma pulsão ou apetite.
A diminuição da concentração de glucose leva a um estado de fome e ao início de comportamentos que visam a ingestão de alimentos e, eventualmente, a correcção do nível de baixo de glucose. Da mesma forma, uma diminuição de da concentração de água leva à sede e à preservação da água. Os rins travam a eliminação da água e a respiração é alterada em paralelo, de forma que menos água se perca no ar que respiramos. (…)
Estes convertem sinais químicos trazidos pela corrente sanguínea em sinais neurais transmitidos ao longo de projecções nervosas dentro do cérebro.
O resultado é o mesmo: o cérebro mapeia o estado do corpo.
O pormenor deste mapeamento local e global, nervoso e químico, é verdadeiramente espantoso.
Não é de todo correcto dizer, como tantas vezes fazemos, que os sinais que provêm do tronco cerebral e do hipotálamo nunca se tornarem conscientes. Pelo contrário, julgo que uma parte desses sinais entra continuamente na consciência sob forma particular: a forma de sentimentos de fundo. E se é verdade que os sentimentos de fundo muitas vezes nos escapam, também é verdade que em muitas circunstâncias atraem a atenção e dominam a nossa consciência. Basta apenas pensar na forma como nos sentimos quando o mal-estar da doença nos invade ou quando a energia da saúde nos faz sentir no topo do mundo. 

in: António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, p. 139 e 140.
[Fotografia: Barragem de Montargil, Alentejo/Portugal]

02 dezembro 2013

Amarelo | Cor da Contradição


O Amarelo está presente em experiências e símbolos relacionados com o Sol, a luz e o ouro. Então, porquê que é tão pouco apreciado? O Amarelo é a cor do optimismo, mas também da mentira e da inveja. O Amarelo é a cor da  iluminação, do entendimento, mas também a dos desprezíveis e dos traidores.
O Amarelo é desta forma contraditório.
O Sol é a nossa experiência elementar do amarelo.
O Amarelo é, tal como o azul e o vermelho, uma das três cores primárias, as que não se obtêm de nenhuma mistura de cores. É a mais clara de todas as cores vivas. O Amarelo é a cor preferida de 6% das mulheres e dos homens. Preferem-na mais as pessoas mais velhas do que os jovens.

in: A Psicologia das Cores, de Eva Heller, p. 85.

20 novembro 2013

A Química do Sentimento | As Drogas da Felicidade


É bem sabido que certos medicamentos psicotrópicos transformam os sentimentos de tristeza ou de incapacidade em sentimentos de contentamento e segurança. Muito antes da fase Prozac da nossa vida cultural, sabia-se que o álcool, os narcóticos, os analgésicos e hormonas, tais como os estrogéneos e a testosterona, alteravam, sem qualquer dúvida, os sentimentos. Está bem de ver que a acção dessas substâncias é devida à estrutura das suas moléculas. Mas como é que essas moléculas produzem os seus notáveis efeitos?
(…)
As drogas da felicidade
As frases dos toxicómanos contêm referências frequentes às alterações do corpo que acontecem durante os highs da droga e constituem mais uma linha de evidência no que diz respeito à relação entre corpo e sentimento. Algumas declarações: "O meu corpo estava cheio de energia e ao mesmo tempo relaxado", É como se todas as células e ossos do meu corpo estivessem a dançar deliciosamente", "É como se tivesse tido um orgasmo no corpo inteiro".
(…)
Todas estas declarações descrevem alterações no corpo - relaxamento, calor, anestesia, analgesia, libertação orgástica, energia. (…) Todas estas sensações são geralmente acompanhadas por uma colecção de pensamentos bem sintonizados com a natureza das sensações - pensamentos que se referem a acontecimentos positivos, a uma capacidade aumentada de «compreensão», a um aumento do poder físico e intelectual, a um remover de limites e preocupações. Curiosamente, as drogas que levaram a estas declarações são diferentes. (…)
Por exemplo, a cocaína e a anfetamina actuam através da dopamina. Mas a variante de anfetamina que está na moda, o ecstasy, uma molécula de nome complicado conhecida pelas iniciais MDMA actua através da serotonina. (…)
A distribuição anatómica dos receptores em que estas diferentes substâncias actuam é extremamente variada e diferente para cada uma das drogas. E, no entanto, os sentimentos que as várias drogas produzem são semelhantes.
Dado que todos os sentimentos contêm como ingrediente fundamental um componente de dor ou de prazer, e dado que as imagens mentais a que chamamos sentimentos têm origem em mapeamentos do estado do corpo, é legítimo propor que a dor e as suas variantes correspondam a uma certa configuração dos mapas do estado do corpo.
Do mesmo modo, o prazer e as suas variantes são o resultado de um certo mapeamento do corpo. Sentir dor ou sentir prazer resulta da presença de uma certa imagem do corpo tal como é representada, em certo momento, em mapas do corpo. A morfina ou a aspirina podem alterar essa imagem. O uísque ou o ecstasy também. E os anestéticos. E certas formas de meditação. E o desespero. E a esperança.

in: Ao Encontro de Espinosa, as Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, de António Damásio, pp. 133 a 138.

13 novembro 2013

Corpo | A minha definição


O nosso corpo e mente é um organismo vivo, reage aos meios envolventes tais como: frio, calor e outras variações de temperatura, vozes, sons, gestos, cheiros, atitudes, reacções e comportamentos vários.
Somos como uma "esponja do mar", sensível a qualquer variação do seu habitat, exibe-se no conforto e prazer do seu ambiente e retrai-se no frio e no medo, reagindo e até morrendo.
A expressividade é a libertação da mente e do corpo, ou seja é uma liberdade física e mental, indispensável ao conforto e prazer de viver.

12 novembro 2013

Alberto Carneiro | Colecção de Arte da CGD



Os diversos núcleos que compõem o espólio artístico da Caixa Geral de Depósitos acolhem hoje cerca de duas mil obras de artistas portugueses, bem como de artistas brasileiros e africanos de expressão portuguesa. Atravessando uma multiplicidade de disciplinas artísticas e cobrindo um período que se inicia ainda no século XIX para chegar aos nossos dias, este corpo de obras mantém-se como uma das mais consequentes iniciativas públicas no que à criação de um património artístico colectivo diz respeito. (…)
Núcleos de artistas dos primórdios da contemporaneidade artística do nosso país e os seus mais recentes desenvolvimentos, as escolhas de Fernando Calhau lograram reforçar núcleos de artistas como Lourdes de Castro, Alberto Carneiro ou Álvaro Lapa, ao mesmo tempo que inauguram a presença de outros, bem mais jovens, como Pedro Sousa Vieira, Gilberto Reis ou Francisco Rocha.

Ver Exposição: Sentido em Deriva, Obras da Colecção da Caixa Geral de Depósitos, Culturgest, Lisboa, Outubro 2013 a Janeiro de 2014 (Na imagem: obra de Alberto Carneiro)