Muito se escreve por aí
Muito se fala por aí
Mas muito pouco se diz a verdade
Andam todos como cordeirinhos a pastar
A vida tornou-se monótona
A vida tornou-se demasiado vulgar
O mundo está igual
A pobreza abunda
A mente está doente
«Nove dias antes da sua morte, Immanuel Kant foi visitado pelo médico. Velho, doente e quase cego levantou-se da sua cadeira, fraco e trémulo, a murmurar palavras ininteligíveis. Por fim o seu fiel companheiro acabou por compreender que ele não se tornaria a sentar antes que o visitante também se sentasse. Assim fez, e Kant permitiu-se então ser ajudado a sentar e, após recuperar as forças, disse: "Das Gefuhl fur Humanitat hat mich noch nicht verlassen" - "O sentimento pela humanidade ainda não me abandonou" (Immanuel Kant, 1804, vol. III | Biblioteca de Berlim)
in: Erwin Panofsky, O Significado nas Artes Visuais, p. 15.
A água do rio continua a correr… O presente espaço é uma partilha de palavras e de imagens, desabafos e expressões com emoção e significado próprio…
15 novembro 2012
12 novembro 2012
O Mundo | Algures, de certo modo
A capacidade que temos para manobrar o mundo complexo que nos rodeia
depende desta possibilidade de apreender e de recordar -
apenas reconhecemos pessoas e locais porque criamos registos da sua aparência
e recuperamos parte desses registos na altura própria.
A nossa capacidade para imaginar eventuais acontecimentos
também depende da aprendizagem e da recordação,
e é o fundamento do raciocínio e da navegação imaginária do futuro e,
de uma forma mais geral, da criação de soluções inovadoras para um problema.
Para entendermos como tudo isto acontece temos de desvendar no cérebro os segredos
do "certo modo" e localizar o "algures".
Esse é um dos problemas mais complexos da neurologia contemporânea.
(…)
Aquilo que normalmente nos referimos como sendo a memória de um objecto
é a memória composta das actividades sensoriais e motoras com a interacção
entre o organismo e o objecto durante um certo período de tempo.
A gama de actividades sensório-motoras varia com o valor do objecto e com as circunstâncias,
o mesmo sucedendo com o registo dessas actividades.
As nossas memórias de determinados objectos são regidas pelo conhecimento passado de objectos comparáveis ou de situações semelhantes àquela que estamos a viver.
As nossas recordações são afectadas por preconceitos, na verdadeira acepção do termo, dada a nossa história passada e as nossas crenças.
A memória inteiramente fidedigna é um mito,
apenas aplicável a objectos triviais.
A noção de que o cérebro retém seja o que for como uma "memória isolada do objecto" não parece sustentável.
O cérebro retém uma memória daquilo que aconteceu durante a interacção,
e a interacção inclui de forma relevante o nosso próprio passado, e muitas vezes o passado da nossa espécie biológica e da nossa cultura.
O facto de apreendermos por interactividade, e não por recepção passiva, é o segredo do
"efeito proustiano" na memória, a razão pela qual muitas vezes recordamos contextos e não apenas coisas isoladas.
in: António Damásio, O Livro da Consciência, p. 169 a 171.
depende desta possibilidade de apreender e de recordar -
apenas reconhecemos pessoas e locais porque criamos registos da sua aparência
e recuperamos parte desses registos na altura própria.
A nossa capacidade para imaginar eventuais acontecimentos
também depende da aprendizagem e da recordação,
e é o fundamento do raciocínio e da navegação imaginária do futuro e,
de uma forma mais geral, da criação de soluções inovadoras para um problema.
Para entendermos como tudo isto acontece temos de desvendar no cérebro os segredos
do "certo modo" e localizar o "algures".
Esse é um dos problemas mais complexos da neurologia contemporânea.
(…)
Aquilo que normalmente nos referimos como sendo a memória de um objecto
é a memória composta das actividades sensoriais e motoras com a interacção
entre o organismo e o objecto durante um certo período de tempo.
A gama de actividades sensório-motoras varia com o valor do objecto e com as circunstâncias,
o mesmo sucedendo com o registo dessas actividades.
As nossas memórias de determinados objectos são regidas pelo conhecimento passado de objectos comparáveis ou de situações semelhantes àquela que estamos a viver.
As nossas recordações são afectadas por preconceitos, na verdadeira acepção do termo, dada a nossa história passada e as nossas crenças.
A memória inteiramente fidedigna é um mito,
apenas aplicável a objectos triviais.
A noção de que o cérebro retém seja o que for como uma "memória isolada do objecto" não parece sustentável.
O cérebro retém uma memória daquilo que aconteceu durante a interacção,
e a interacção inclui de forma relevante o nosso próprio passado, e muitas vezes o passado da nossa espécie biológica e da nossa cultura.
O facto de apreendermos por interactividade, e não por recepção passiva, é o segredo do
"efeito proustiano" na memória, a razão pela qual muitas vezes recordamos contextos e não apenas coisas isoladas.
in: António Damásio, O Livro da Consciência, p. 169 a 171.
05 novembro 2012
Cogumelos | Homenagem à minha Avó
1. Azeite e cebola cortada às rodelas
27 outubro 2012
Contigo, corri um grande perigo.
- Não estou apaixonado por nenhuma mulher. Nunca estive. A minha única paixão é o meu trabalho. Contigo, corri um grande perigo.
Como podíamos conversar e tínhamos tanto a ver um com o outro, fiquei contigo mais tempo do que devia.
Esqueci-me do meu trabalho.
Elena viria mais tarde a repetir muitas vezes estas palavras. Lembrava-se da cara dele ao pronunciá-las, dos seus olhos, que haviam perdido todo o poder hipnótico e que eram agora, apenas, os olhos de um homem que obedece às ordens que lhe dão e não às leis do desejo e do amor.
in: Delta de Vénus, de Anais Nin, p. 83
23 outubro 2012
Não tenho …
Sou um ser criado pela natureza,
Mas não sei quase nada.
Não tenho jeito para falar com as outras pessoas,
Não tenho jeito para escrever,
Nem sei sequer falar.
Sou pouco dada a confidências,
Sobretudo da vida alheia.
Apenas sei que sinto o vento no meu rosto,
Apenas sei que sinto o sol na minha pele.
Por vezes sinto um bater forte do coração.
As emoções fazem-me chorar,
Libertar lágrimas com "cor de vermelho" tornam-me suave.
Descalça, nua e selvagem encontro finalmente a minha natureza.
in: Apontamentos breves, de Ana Paula Gaspar
26 setembro 2012
Provas de …
… Tal como não há Amizade, mas provas de amizade, ou Amor, mas provas de Amor, ou Ódio, mas provas de ódio, etc., os factos e os gestos fazem de uma aritmética que permite deduzir, mediante reconhecimento, a natureza da relação: amizade, amor, ternura, camaradagem, ou o contrário …
Os dois movimentos são simples: eleição e evitação. Força centrífuga, força centrípeta. Aproximação rumo a si, expulsão para fora. Esta ética é dinâmica, ininterrupta, sempre em movimento, em permanente relação com o comportamento de outrem. (…)
in: Michel Onfray, A Potência de Existir, p. 107/108
Os dois movimentos são simples: eleição e evitação. Força centrífuga, força centrípeta. Aproximação rumo a si, expulsão para fora. Esta ética é dinâmica, ininterrupta, sempre em movimento, em permanente relação com o comportamento de outrem. (…)
in: Michel Onfray, A Potência de Existir, p. 107/108
23 setembro 2012
Miguel Torga | Bichos
…
Ora eu sou teu irmão, nasci quando tu nasceste, e prefiro chegar ao juízo final contigo ao lado, na paz de uma fraternidade de raiz, a ter de entrar lá solitário como um lobo tresmalhado.
Ninguém é feliz sozinho, nem mesmo na eternidade.
…
in: Miguel Torga, Bichos (Contos), 15º ed., Coimbra, 1985, p. 9.
Ora eu sou teu irmão, nasci quando tu nasceste, e prefiro chegar ao juízo final contigo ao lado, na paz de uma fraternidade de raiz, a ter de entrar lá solitário como um lobo tresmalhado.
Ninguém é feliz sozinho, nem mesmo na eternidade.
…
in: Miguel Torga, Bichos (Contos), 15º ed., Coimbra, 1985, p. 9.
09 agosto 2012
África Negra | Mali
Conta-se que um viajante sedento, cansado (a um quilómetro atrás o seu camelo morrera), olhando o horizonte distante acreditou estar a ver uma cidade atravessada por canais cujas águas corriam lentamente; mas estava a ver o Saara.
Porém, um árabe, antigo condutor de caravanas, que também atravessava o deserto, desiludiu o viajante ao dizer-lhe que não eram canais o que os seus olhos viam, mas somente sulcos infinitos e inacabados, que aumentavam como línguas de fogo sobre as areias quentes do Saara e, que nesse instante estavam na blad al atach (em Árabe quer dizer terra de sede) e, para chegar a esses canais era necessário seguir na direcção do "meio-dia" até encontrar Tombuctu, a capital do deserto no Sudão francês (actual Mali).
No dia seguinte o viajante chegou a Tombuctu e, pode ver aquilo que anteriormente fora uma ilusão de óptica provocada pela sede. Isto é, viu os canais, os verdadeiros canais que a atravessavam, com as águas que correm lentamente ou desaparecem absorvidos pelo insuportável calor, que se ergue na atmosfera. Um desses canais que permite a navegação foi construído pelo Imperador Mohammed Askia, porém, em seguida, foi devorado pelas areias levadas pelos ventos persistentes e implacáveis.
in: África Negra, de Maria Paula da Costa (Filosofia) e Susana Marta Pinheiro (História), Uma Contribuição para o Conhecimento Histórico e Geográfico de África, p. 125.
06 agosto 2012
Salman Rushdie | Nasci na cidade de Bombaim…
«Era uma vez uma mãe que para ser mãe tinha aceitado mudar de nome; que aceitara a tarefa de amar o marido fragmento a fragmento, mas que nunca foi capaz de amar uma parte, curiosamente aquela parte que tornou possível a sua maternidade; que coxeava por causa dos calos dos pés e que carregava dolorosamente aos ombros o peso dos pecados do mundo; cujo órgão pouco amado do marido nunca recuperou das consequências dum congelamento; e que, tal como o marido, acabou por sucumbir aos mistérios do telefone, gastando longos minutos a ouvir os que se enganavam no número …
Os sofrimentos que se passam em nome da virtude! As pancadas e os rombos que se apanham! Respirar, com os dentes cerrados, a atmosfera da mala e o cheiro da borracha! E o medo constante de se poder ser descoberto … »
in: Os Filhos da Meia Noite, de Salman Rushdie, Publicações Dom Quixote, p. 203
Orelha | Anish Kapoor
O simbolismo mais importante da orelha é aquele que se relaciona com o mito de Vaishvanara como Inteligência Cósmica: as orelhas correspondem às direcções do espaço, o que é muito interessante, se nos lembrarmos do papel que a ciência contemporânea atribui aos canais semicirculares.
Em África, a orelha simboliza sempre a animalidade. Para os Dogons e Bambaras do Mali, a orelha é um duplo símbolo sexual: sendo o pavilhão o pénis, e o conduto auditivo, uma vagina. O que se explica pela analogia entre a palavra e o esperma, ambos homólogos da água fecundante, concebida pela divindade suprema. A palavra do homem, dizem os Dogons, é tão indispensável à fecundação da mulher como o seu líquido seminal. A palavra masculina desce pela orelha, tal como o esperma desce pela vagina, para se enrolar em espiral em torno do útero e fecundá-lo.
in: Dicionário dos Símbolos, de Jean Chevalier & Alain Gheerbrant
[A Fotografia é de Ana Paula Gaspar, a obra de arte é de Anish Kapoor, artista indiano, a peça encontra-se no Centro Cultural de Belém, em Lisboa]
02 agosto 2012
Deepak Chopra | 7 Leis Espirituais
I | A Lei da Potencialidade Pura
O nosso verdadeiro Eu é potencialidade pura, aliamo-nos ao poder que manifesta tudo no Universo.
II | A Lei da Dádiva
O Universo opera através da troca dinâmica … dar e receber constituem diferentes aspectos do fluxo de energia do Universo.
III | A Lei do Karma ou da Causa - Efeito
Toda a acção gera uma força de energia que nos é devolvida na mesma espécie … aquilo que semeamos é aquilo que colhemos.
IV | A Lei do menor esforço
A inteligência da natureza funciona com um mínimo de esforço … com despreocupação, harmonia e Amor.
V | A Lei da intenção e do Desejo
Todas as intenções e desejos contêm a sua própria possibilidade de realização. A intenção e o desejo possuem um poder organizador infinito.
VI | A Lei do Desprendimento
A libertação do passado, do conhecido, da prisão da circunstância do passado.
VII | A Lei do "Dharma" ou da Finalidade da Vida
Todas as pessoas possuem uma finalidade na vida … uma dádiva singular, ou um talento especial para oferecer aos outros.
in: As Sete Leis Espirituais do Sucesso, de Deepak Chopra, Editorial Presença
O nosso verdadeiro Eu é potencialidade pura, aliamo-nos ao poder que manifesta tudo no Universo.
II | A Lei da Dádiva
O Universo opera através da troca dinâmica … dar e receber constituem diferentes aspectos do fluxo de energia do Universo.
III | A Lei do Karma ou da Causa - Efeito
Toda a acção gera uma força de energia que nos é devolvida na mesma espécie … aquilo que semeamos é aquilo que colhemos.
IV | A Lei do menor esforço
A inteligência da natureza funciona com um mínimo de esforço … com despreocupação, harmonia e Amor.
V | A Lei da intenção e do Desejo
Todas as intenções e desejos contêm a sua própria possibilidade de realização. A intenção e o desejo possuem um poder organizador infinito.
VI | A Lei do Desprendimento
A libertação do passado, do conhecido, da prisão da circunstância do passado.
VII | A Lei do "Dharma" ou da Finalidade da Vida
Todas as pessoas possuem uma finalidade na vida … uma dádiva singular, ou um talento especial para oferecer aos outros.
in: As Sete Leis Espirituais do Sucesso, de Deepak Chopra, Editorial Presença
27 julho 2012
Sebastião da Gama | A Companheira
Não te busquei, não te pedi: vieste.
E desde que nasci houve mil coisas que a meus olhos se deram com igual simplicidade:
O Sol, a manhã de hoje, essa flor que é tão grácil que a não quero,
o milagre das fontes pelo estilo …
Vieste.
O Sol veio também, a flor, a manhã de hoje, as águas …
Alegria, mas calada alegria, mas serena,
entendimento puro, natural encontro,
natural como a chegada do Sol, da flor, das águas,
da manhã de ti, que eu não buscava nem pedira.
E o Amor? E o Amor?
E o Amor?
… : Vieste.
in: Museu Sebastião da Gama, Vila Fresca de Azeitão, (C.M. de Setúbal)
E desde que nasci houve mil coisas que a meus olhos se deram com igual simplicidade:
O Sol, a manhã de hoje, essa flor que é tão grácil que a não quero,
o milagre das fontes pelo estilo …
Vieste.
O Sol veio também, a flor, a manhã de hoje, as águas …
Alegria, mas calada alegria, mas serena,
entendimento puro, natural encontro,
natural como a chegada do Sol, da flor, das águas,
da manhã de ti, que eu não buscava nem pedira.
E o Amor? E o Amor?
E o Amor?
… : Vieste.
in: Museu Sebastião da Gama, Vila Fresca de Azeitão, (C.M. de Setúbal)
25 julho 2012
Michel Onfray | A Arqueologia do Presente
A miséria intelectual e cultural do nosso tempo exibe-se também em diversas propostas estéticas contemporâneas. Se queremos defender a arte contemporânea, devemos evitar celebrá-la em bloco, sendo necessário, para isso, a paciente operação de uma inventariação: separar a positividade magnífica da negatividade residual. Defender a força activa e recusar a força reactiva.
Ao estilo da medicina forense.
in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Campo da Comunicação, p. 147.
19 julho 2012
Ana Gaspar | Libertar o Leão
Todos somos uma só mente
A doença do outro é a nossa doença
A alegria que é nossa também é do outro
Estamos todos unidos pela criação
Estamos unidos pela força do Amor pela Vida
União ao Universo da Criação
Somos seres criadores.
Ana Paula Gaspar, 17 de Julho de 2012
A doença do outro é a nossa doença
A alegria que é nossa também é do outro
Estamos todos unidos pela criação
Estamos unidos pela força do Amor pela Vida
União ao Universo da Criação
Somos seres criadores.
Ana Paula Gaspar, 17 de Julho de 2012
15 julho 2012
Darwin | Evolução
Nós somos um exemplo do que se poderia chamar "a sobrevivência do tangencialmente adequado". Temos orgulho na nossa capacidade intelectual e na nossa cultura, mas como espécie somos medianos em muitos aspectos. Em quase todos os habitats somos mais lentos, frágeis e menos eficientes do que os animais circundantes, incluindo os predadores mais ferozes. Não somos sequer grande coisa nas tarefas em que nos julgamos especiais, como pensar ou caminhar com a postura erecta. Fazemos raciocínios errados com frequência, alguns dos quais fatais. Esquecemo-nos de informações importantes, apressamo-nos em conclusões erradas, ignoramos a realidade. Os nossos cérebros são atreitos a ilusões e alucinações, e as emoções podem tomar conta de nós, levando-nos a estranhos comportamentos. Mas, e ainda assim, em regra saímo-nos bem com o cérebro que nos coube, por mais imperfeito que seja. A postura erecta trouxe muitas vantagens, como libertar as mãos para o transporte de alimentos e a manipulação de utensílios. Esta solução está longe de ser perfeita, porém. (…)
Embora haja entraves à Evolução, o seu poder não deixa de ser incrível, até majestoso. Perceber que um processo tão simples deu origem à diversidade que existe na natureza continua a ser tão arrebatador hoje como foi no tempo de Darwin.
"Há grandeza nesta visão da vida", escreveu ele, encantado por perceber que, "de um começo tão modesto, inúmeras formas mais belas e mais maravilhosas evoluíram e vão evoluindo".
Todas as criaturas, da bactéria mais minúscula à baleia azul, estão num dos ramos da grande árvore da vida. Eis-nos assim chegados ao grande final que te fará sentir um formigueiro na espinha:
Tu és parente de cada pessoa, de cada espécie, de cada um dos seres vivos que alguma vez apareceram neste planeta. De todos e de cada um.
in: Evolução, de Daniel Loxton, Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 24/25.
[A fotografia que aqui se apresenta, foi recolhida no Field Museum, Chigado, em Outubro, 2010]
13 julho 2012
Michel Onfray | A Potência de Existir
Um sistema hedonista.
Sugiro amiúde esta máxima de Chamfort, por ela funcionar como imperativo categórico hedonista: desfruta e faz desfrutar, sem fazeres mal a ti ou a alguém: eis toda a moral.
Está tudo dito nesta máxima: fruição de si, é certo, mas também e sobretudo fruição de outrem, porque sem ela nenhuma ética é possível ou pensável, pois só o estatuto do outro a define como tal. Sem outro - como no Marquês de Sade - , nenhuma moral é possível… No terreno consequencialista, a densidade desta máxima de Chamfort comporta desenvolvimentos infinitos.
A máquina celibatária.
A minha definição do celibatário não coincide com a habitual acepção do estado civil. A meu ver, o celibatário não vive necessariamente sozinho, sem companheiro ou companheira, sem marido ou mulher, sem esposo regular. Na verdade, o celibatário define aquele que, ainda que comprometido numa história dita amorosa, conserva as prerrogativas e o uso da sua liberdade. Esta figura aprecia a sua independência e deleita-se com a sua soberana autonomia. O contrato no qual se instala não tem um prazo indeterminado, mas determinado, possivelmente renovável, é certo, mas não de uma forma obrigatória.
in: Michel Onfray, A Potência de Existir, Editora Campo da Comunicação, pp. 77/125.
Sugiro amiúde esta máxima de Chamfort, por ela funcionar como imperativo categórico hedonista: desfruta e faz desfrutar, sem fazeres mal a ti ou a alguém: eis toda a moral.
Está tudo dito nesta máxima: fruição de si, é certo, mas também e sobretudo fruição de outrem, porque sem ela nenhuma ética é possível ou pensável, pois só o estatuto do outro a define como tal. Sem outro - como no Marquês de Sade - , nenhuma moral é possível… No terreno consequencialista, a densidade desta máxima de Chamfort comporta desenvolvimentos infinitos.
A máquina celibatária.
A minha definição do celibatário não coincide com a habitual acepção do estado civil. A meu ver, o celibatário não vive necessariamente sozinho, sem companheiro ou companheira, sem marido ou mulher, sem esposo regular. Na verdade, o celibatário define aquele que, ainda que comprometido numa história dita amorosa, conserva as prerrogativas e o uso da sua liberdade. Esta figura aprecia a sua independência e deleita-se com a sua soberana autonomia. O contrato no qual se instala não tem um prazo indeterminado, mas determinado, possivelmente renovável, é certo, mas não de uma forma obrigatória.
in: Michel Onfray, A Potência de Existir, Editora Campo da Comunicação, pp. 77/125.
11 julho 2012
Jacques Rancière | A pintura no texto
Não há arte sem um olhar que a veja como arte. Contrariamente à sã doutrina que pretende que um conceito seja a generalização das propriedades comuns a um conjunto de práticas ou de objectos, é estritamente impossível exibir um conceito de arte que defina as propriedades comuns à pintura, à música, à dança, ao cinema ou à escultura.
O conceito de arte não é a exibição de uma propriedade comum a um conjunto de práticas, nem sequer uma dessas "semelhanças de família" que os discípulos de Wittgenstein convocam em último recurso.
A arte, tal como a designamos, só existe há uns meros dois séculos. Não nasceu graças à descoberta do princípio comum às diferentes artes - senão seriam precisos esforços superiores aos de Clement Greenberg para fazer coincidir a sua emergência com a conquista para cada arte do seu "medium" próprio. A arte nasceu num longo processo de ruptura com o sistema das belas-artes, isto é, com um outro regime de disjunção no seio das artes.
A arte em geral existe em virtude de um regime de identificação - de disjunção - que dá visibilidade e significação a práticas de arranjo das palavras, de arranjo expositivo das cores, de modelagem dos volumes ou de evolução dos corpos, que decidem, por exemplo, o que é a pintura, o que se faz ao pintar e o que se vê num mural ou numa tela pintados.
in: O Destino das Imagens, de Jacques Rancière, Orfeu Negro, pp. 99 a 101
O conceito de arte não é a exibição de uma propriedade comum a um conjunto de práticas, nem sequer uma dessas "semelhanças de família" que os discípulos de Wittgenstein convocam em último recurso.
A arte, tal como a designamos, só existe há uns meros dois séculos. Não nasceu graças à descoberta do princípio comum às diferentes artes - senão seriam precisos esforços superiores aos de Clement Greenberg para fazer coincidir a sua emergência com a conquista para cada arte do seu "medium" próprio. A arte nasceu num longo processo de ruptura com o sistema das belas-artes, isto é, com um outro regime de disjunção no seio das artes.
A arte em geral existe em virtude de um regime de identificação - de disjunção - que dá visibilidade e significação a práticas de arranjo das palavras, de arranjo expositivo das cores, de modelagem dos volumes ou de evolução dos corpos, que decidem, por exemplo, o que é a pintura, o que se faz ao pintar e o que se vê num mural ou numa tela pintados.
in: O Destino das Imagens, de Jacques Rancière, Orfeu Negro, pp. 99 a 101
10 julho 2012
Nietzsche | Arte e Estética
A palavra Dionísio significa mais para Nietsche, de acordo com interpretação de Muller-Lauter. Para ele, a experiência dionisíaca deve permitir respirar na "mais monstruosa paixão e altitude".
Um tal exercício requer uma saúde peculiar que, para além de perigosas escaladas, possibilite a aventura de percorrer os limites da alma.
"A saúde pertence a quem tem sede na alma de percorrer com sua vida todo o horizonte dos valores e de quanto foi desejado até hoje, quem tem sede de circum-navegar as costas deste ideal 'mediterrâneo'. (NIETZSCHE, 1882:280)
A experiência dionisíaca propõe a intensificação da vida em condições extremas.
A "inesgotabilidade do fundo dionisíaco do mundo" (FINK, 1983:20) permite que o fenómeno da arte seja colocado no centro, a partir dele se torna possível decifrar o mundo.
Na confrontação entre o homem científico e o homem artístico proposta por Nietzsche, Fink observa que o homem artístico é o tipo superior em comparação com o lógico e o cientista (1983:35). Para o homem artístico o questionamento e destruição dos velhos limites impostos pela dureza dos conceitos pode ser uma resposta criadora da intuição. Nesse sentido, a criança como metáfora de inocência e esquecimento nega um certo tipo de tradição do conhecimento, que se constrói a partir de uma criteriosa memorização e ordenação de saberes.
Nietzsche considera que para ser artista, também é necessário esquecer, ignorar! (1882:14).
O esquecimento como hábito elegante é capaz de inaugurar novas impressões, compreensões. Ao mesmo tempo, tal hábito enfurece os mais velhos e os eruditos, que passam a ser entendidos como perspectivas, e podem até ser ignorados.
Nietzsche engenha uma estilização da vida, onde gestos, palavras, pensamentos e todo o entorno, criado por cada um, sejam a representação mais perfeita de si, onde a beleza está associada ao estilo - forma única e original de ser.
"O estilo deve provar que o sujeito acredita em seus pensamentos, e que não apenas os pensa, mas sente." (Nietzsche, 1884:60)
A existência como projecto estético, para além de qualquer sentido, valoriza a dimensão artística da vida, onde o belo é um eterno vir a ser.
in: Nietzsche, arte e estética: uma interpretação do belo, por Marisa Forghieri, Revista de Filosofia, Edição 08, pp. 32 a 39.
Um tal exercício requer uma saúde peculiar que, para além de perigosas escaladas, possibilite a aventura de percorrer os limites da alma.
"A saúde pertence a quem tem sede na alma de percorrer com sua vida todo o horizonte dos valores e de quanto foi desejado até hoje, quem tem sede de circum-navegar as costas deste ideal 'mediterrâneo'. (NIETZSCHE, 1882:280)
A experiência dionisíaca propõe a intensificação da vida em condições extremas.
A "inesgotabilidade do fundo dionisíaco do mundo" (FINK, 1983:20) permite que o fenómeno da arte seja colocado no centro, a partir dele se torna possível decifrar o mundo.
Na confrontação entre o homem científico e o homem artístico proposta por Nietzsche, Fink observa que o homem artístico é o tipo superior em comparação com o lógico e o cientista (1983:35). Para o homem artístico o questionamento e destruição dos velhos limites impostos pela dureza dos conceitos pode ser uma resposta criadora da intuição. Nesse sentido, a criança como metáfora de inocência e esquecimento nega um certo tipo de tradição do conhecimento, que se constrói a partir de uma criteriosa memorização e ordenação de saberes.
Nietzsche considera que para ser artista, também é necessário esquecer, ignorar! (1882:14).
O esquecimento como hábito elegante é capaz de inaugurar novas impressões, compreensões. Ao mesmo tempo, tal hábito enfurece os mais velhos e os eruditos, que passam a ser entendidos como perspectivas, e podem até ser ignorados.
Nietzsche engenha uma estilização da vida, onde gestos, palavras, pensamentos e todo o entorno, criado por cada um, sejam a representação mais perfeita de si, onde a beleza está associada ao estilo - forma única e original de ser.
"O estilo deve provar que o sujeito acredita em seus pensamentos, e que não apenas os pensa, mas sente." (Nietzsche, 1884:60)
A existência como projecto estético, para além de qualquer sentido, valoriza a dimensão artística da vida, onde o belo é um eterno vir a ser.
in: Nietzsche, arte e estética: uma interpretação do belo, por Marisa Forghieri, Revista de Filosofia, Edição 08, pp. 32 a 39.
22 junho 2012
Agradecer | Obrigado
Agradecimento:
agradeço à Luz
agradeço à Vida
agradeço à Terra que me viu nascer…
[A obra de arte que aqui se inclui é uma criação do artista Allan Mc Collum]
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