A água do rio continua a correr… O presente espaço é uma partilha de palavras e de imagens, desabafos e expressões com emoção e significado próprio…
09 março 2018
Albert Einstein | A Pessoa …
É um jovem inteligente, Einstein, muito inteligente. Mas, tem um grande defeito - não admite que lhe digam nada!
(…)
Ninguém é profeta na sua Terra.
(…)
Vivo a minha paixão com muita alegria e êxito. (…) Sou muito próximo dos meus alunos e espero conseguir estimular alguns.
(…)
Fui efectivamente alvo de alguns sentimentos de ódio. Mas, nunca me atingiram, pois vinham de um outro mundo, com o qual em nada me identifico.
(…)
Ele nunca foi um homem de seguir normas. O seu isolamento fazia-se notar em tudo.
(…)
O seu forte não era lidar com pessoas.
(…)
Einstein considerava a curiosidade a fonte da criação. Esta surgiria em todas as crianças saudáveis e expressar-se-ia como um 'interesse afectuoso por um objecto ou uma necessidade de verdade e compreensão. Seria a característica psicológica mais forte, sem a qual Einstein não teria conseguido criar a sua obra. Esta curiosidade seria induzida pelo espanto, pela admiração, pelo minari que já Platão descrevia apaixonadamente. O espanto estaria no 'berço de toda a ciência e arte'. (…) Quando se esgota a curiosidade, uma pessoa, está, por assim dizer 'morta'.
(…)
Qualquer forma de pressão, qualquer tipo de violência impede o desenvolvimento do Eu, impede a curiosidade, o pensamento autónomo, a autoconfiança, a franqueza, todo o 'estilo de vida saudável'. A liberdade seria o terreno fértil onde tudo o que fosse criativo pudesse germinar.
(…)
in: Albert Einstein, de Johannes Wickert, Barcelona, 2011
10 janeiro 2018
Um Olhar, Um Sentir
Já não sei em que sou especialista…
Arte
Pensamento
Filosofia
Natureza
…
Os seres humanos já não me atraem
Apenas as árvores
Algumas peças artísticas
O Sol
A Lua
…
O único encanto é olhar um céu estrelado à noite
O voo dos pássaros
E a música
…
Sou apenas uma forma incerta a passar por um corpo efémero…
14 dezembro 2017
O Movimento em Círculos | Exposição
O Sol e a Lua, interligados pelo ritmo de um movimento contínuo…
Ambos tão presentes e tão influentes no meu corpo feminino…
A diversidade de possibilidades de luz entre cada um deles, um nasce, um dorme, e um constante renovar de lugares, uma repetida e constante paleta de cores, um modo de olhar o universo, entre ambos a passagem do tempo, um tempo repetido infinitamente no espaço…
Enquanto, eu, aqui contemplando e escrevendo através das palavras, uma procura de mim, e uma interligação com estes ritmos diários, semanais, anuais até um dia me transformar também eu, em átomos redondos e em contínuo movimento…
in: O Movimento em Círculos, Exposição de Ana Gaspar, Centro de Interpretativo da Identidade Local, em Esperança, C. M. de Arronches, Dezembro de 2017
08 dezembro 2017
A Vida é uma Viagem | Exposição
A caligrafia na dança e na arte da escrita emocional.
A paixão dos ritmos, no ciclo da vida, o tempo que se repete infinitamente…
As viagens continuam e as palavras fluem como rios…
O Sol, a Lua, o Tempo na criação, e o universo na matéria.
O espaço vazio e o espaço preenchido, no cruzar dos dois encontra-se o equilíbrio.
A vida é uma Viagem com um tempo infinito, definido entre uma forma passada e uma nova transformação, uma viagem plena de ritmos, movimentos e sequências criadas pela viagem em si…
in: A Vida é uma Viagem, Biblioteca Municipal de Ferreira do Zezêre, Novembro de 2017.
22 setembro 2017
Da Natureza das Coisas | Lucrécio
Tal como na Natureza também Lucrécio é simultaneamente sombrio e luminoso.
…
Uma obra mais vasta de Epicuro, que se perdeu, os Trinta e Sete Livros … "Sobre a Natureza", título comum à obra de Empédocles, cuja formação poética é imitada por Lucrécio, e que está na origem do título da obra.
…
Na Villa dos Papiros, em Herculano, foram recuperados
…
E eis que até tu procuras afastar-te de nós uma vez ou outra, vencido pelas palavras assustadoras dos adivinhos! É na realidade, quantas fantasias eles são capazes de inventar, que podem mesmo alterar os critérios de comportamento e perturbar com o medo todas as alegrias da tua existência!
…
Sobretudo quando é necessário tratar de muitos assuntos com palavras novas, por causa da pobreza da língua e da novidade dos assuntos. Mas a tua virtude e o prazer que espero da tua suave amizade persuade-me a suportar qualquer canseira e leva-me a passar acordado noites tranquilas, procurando com que palavras e com que versos poderei finalmente espargir diante da tua mente uma luz clara, com a qual possas perscrutar coisas profundamente escondidas.
…
Portanto, nenhuma coisa regressa ao nada, mas todos regressam por desagregação aos átomos da matéria.
…
Portanto, não perece completamente tudo aquilo que parece morrer, porque a Natureza forma de novo uma coisa a partir de outra, e não permite que nada seja gerado senão com a ajuda da morte de outra coisa.
…
E impedirá que aquele que anda errante duvide e investigue constantemente sobre o universo e desconfie do que nós dizemos.
…
Do mesmo modo, o tempo em si não existe, mas a sua percepção resulta das próprias coisas, aquilo que passou no tempo, depois que coisa está agora presente e ainda o que depois se seguirá.
…
in: Da Natureza das Coisas, de Lucrécio, Edição Relógio D'Água, Lisboa, 2015
21 julho 2017
Metafísica do Amor | Arthur Schopenhauer
… no amor, apaixonado, é importante, em dado casal, que o grau de masculinidade do homem corresponda ao grau de feminilidade da mulher. Ninguém é cem por cento homem, nem cem por cento mulher. Do encontro feliz destas duas proporções, acende-se e flameja a chama amorosa. Mas, diz Schopenhauer, o inteiro ajuste desse mecanismo é inconsciente, "é algo sentido instintivamente".
in: Metafísica do Amor, Metafísica da Morte, de Arthur Schopenhauer, Martins Fontes, São Paulo, 2000
04 junho 2017
O Tempo … | Exposição
As palavras que dão voz à Poesia.
A caligrafia na dança e na arte da escrita emocional.
A paixão dos ritmos, no ciclo da vida, o tempo que se repete infinitamente…
As viagens continuam e as palavras fluem como rios …
O Sol, a Lua, o Tempo na criação, o universo da matéria.
O espaço vazio e espaço preenchido, no cruzar dos dois encontra-se o equilíbrio.
in: O Tempo …, Exposição de Ana Paula Gaspar, Galeria da Biblioteca Municipal de Palmela, 3 de Junho a 12 de Agosto, 2017.
24 abril 2017
Procura-se um Coração … | Exposição
… A Vida é um Turbilhão de Emoções …
… As Árvores morrem de pé …
… Procura-se um Coração …
Esta exposição revela-se num conjunto de 10 obras de arte.
Entre elas interliga-se um registo de poesia visual e um conjunto de colagens em papel japonês.
A relação entre o interior e o exterior, uma troca constante entre emoções que não se vêm e aquelas que se vêm, as lágrimas, um sorriso…
A vida vai correndo como um rio…
Um dia serei areia no deserto…
Um dia serei odor a terra molhada…
Entre uma escrita de diário e uma intíma demonstração de texturas, cores e laços entre recortes e colagens, numa sintonia de ritmos e de expressões próprias de um contexto e de um momento único.
in: Procura-se um Coração …, de Ana Gaspar, no Museu Municipal de Portalegre, 23 de Março a 29 de Abril de 2017.
19 fevereiro 2017
A Tua Voz é Música … | Artigo
Actualmente a maioria
da informação está no mundo digital, o professor no entanto é real, e devido ao
facto de estar presente e perante uma “plateia” faz toda a diferença no
processo de comunicação e na transferência de informação aos respectivos
receptores, ou seja, os alunos.
A voz é extremamente importante para desencadear o processo de audição, tal como num processo de ouvir música.
A voz do professor na passagem de informação, numa aula é antes de tudo emocional, essa carga de emoções “cantadas” que visam vivenciar uma experiência emocional daquele momento e que implicam a activação da memória.
A voz é extremamente importante para desencadear o processo de audição, tal como num processo de ouvir música.
A voz do professor na passagem de informação, numa aula é antes de tudo emocional, essa carga de emoções “cantadas” que visam vivenciar uma experiência emocional daquele momento e que implicam a activação da memória.
A voz de cada pessoa possui um ritmo, um
timbre, uma frequência específica, desde aguda a grave.Tal como no contexto da música e nos
seus constituintes de padrão, a voz tem uma sequência que transmite um
sentimento agradável ou desagradável.
Na construção inteligível de uma mensagem são referenciais a estrutura do ouvido. Criando-se uma relação entre emissor e receptor, resultando a partir destes uma interpretação da mensagem.
Na construção inteligível de uma mensagem são referenciais a estrutura do ouvido. Criando-se uma relação entre emissor e receptor, resultando a partir destes uma interpretação da mensagem.
Através da comunicação oral são
estabelecidos laços de carácter auditivo, tais como as saudades de um conjunto
de sons. Estes laços estabelecidos proporcionam o sentimento de entrega, ou
seja, a chegada e a partida, o processo, o ensino, a aprendizagem do docente, a
partilha com o aluno. Ocorre deste modo, um ciclo de movimentações e de ritmos,
tal como na música, a voz tem uma importância maior numa sala de aula, como
propagador de uma mensagem.
O timbre, o ritmo, a respiração, a melodia, estão todos envolvidos e transmitem uma emoção, com paixão ou sem paixão, fazendo toda a diferença no processo de ensino e no modo de relacionamento.
Fazendo a partir deste âmbito, uma viagem no tempo e de modo a entender a sua origem, será talvez importante estabelecer uma associação com a questão do som e da voz… O som algo que se fez sentir no choque de partículas à milhões de anos…
A voz é um elemento estrutural no processo de aprendizagem. Fomos criando mecanismos de resposta cujo contributo nos permitiu desenvolver todo um sistema cognitivo, sensitivo e estético, o que nos possibilitou uma evolução em relação às outras espécies, e o prazer que sentimos está relacionado com a aquisição de conhecimento.
in: A Tua Voz é Música para os Meus Ouvidos, de Ana Gaspar, 5º EIMAD, Castelo Branco, 3 de Fevereiro de 2017
O timbre, o ritmo, a respiração, a melodia, estão todos envolvidos e transmitem uma emoção, com paixão ou sem paixão, fazendo toda a diferença no processo de ensino e no modo de relacionamento.
Fazendo a partir deste âmbito, uma viagem no tempo e de modo a entender a sua origem, será talvez importante estabelecer uma associação com a questão do som e da voz… O som algo que se fez sentir no choque de partículas à milhões de anos…
A voz é um elemento estrutural no processo de aprendizagem. Fomos criando mecanismos de resposta cujo contributo nos permitiu desenvolver todo um sistema cognitivo, sensitivo e estético, o que nos possibilitou uma evolução em relação às outras espécies, e o prazer que sentimos está relacionado com a aquisição de conhecimento.
in: A Tua Voz é Música para os Meus Ouvidos, de Ana Gaspar, 5º EIMAD, Castelo Branco, 3 de Fevereiro de 2017
12 janeiro 2017
Poema | Ana Gaspar
Poema:
… um dia vou morrer … e a tudo quanto existe me hei-de unir …
… serei erva no meu jardim, serei água no rio … serei chuva sobre a terra …
… serei odor a terra molhada … um dia serei poeira no deserto …
… afinal sou a força da natureza sob a forma de mulher …
in: Um Dia vou Morrer, de Ana Gaspar (poema em português com tradução para francês por um amigo), Quinta do Anjo, 15 de Maio de 2015.
19 dezembro 2016
Roma, 23 de Dezembro de 1903 | Rainer Maria Rilke
Meu caro Senhor Kappus,
não há-de ficar sem uma saudação da minha parte, agora que estamos à beira do Natal, e numa altura em que o Senhor, em plena festividade, suporta a sua solidão mais dificilmente que o costume. Mas ao notar que ela é grande, regozije-se com isso; pois o que seria (pergunte-se a si mesmo) uma solidão que não tivesse grandeza; só há uma solidão, e essa é grande e não é difícil de suportar, e quase todos a experimentam horas em que muito gostariam de a trocar por uma qualquer convivência, por mais banal e desprezível que seja, pela aparência de uma limitada harmonia com o primeiro que apareça, com o mais indigno… Mas talvez sejam precisamente essas as horas em que a solidão cresce; porque o seu crescer é doloroso como o crescer dos adolescentes e triste como o começo das primaveras. Mas não permita que isso o desoriente. Aquilo que faz falta é apenas isto: solidão, grande solidão interior. Entrar dentro de si mesmo e não estar com ninguém durante horas, - é isso que é preciso ser capaz de alcançar. Ficar solitário, como se ficava solitário em criança, enquanto os adultos andavam para cá e para lá, enredados em coisas que pareciam importantes e grandes, porque as pessoas grandes pareciam tão ocupadas e porque nada se compreendia dos seus afazeres.
E quando um dia se percebe que as suas ocupações são miseráveis, que as suas profissões são algo de entorpecido e que já não estão ligadas à vida, então por que motivo não havemos de continuar a olhá-las, à maneira das crianças, como coisa estranha, a partir da profundidade do nosso próprio mundo, a partir da distância da nossa solidão que é, ela mesma, trabalho e dignidade e profissão? Por que motivo querer trocar o sábio não entender de uma criança pelas atitudes defensivas e pelo desprezo, já que não-entender é um estar só, ao passo que a defensiva e o desprezo são participação naquilo de que uma pessoa quer separar-se à custa desses meios.
Pense, caro Senhor, no mundo que transporta em si, e chame a esse pensamento o que quiser; seja recordação da infância de cada um ou anseio pelo próprio futuro, - esteja somente atento ao que se ergue dentro de si e coloque-o acima de tudo aquilo de que se apercebe à sua volta. O seu acontecer mais interior merece todo o seu amor, é nele que tem de trabalhar, seja de que modo for, e não perder demasiado tempo e demasiada coragem a clarificar a sua atitude para com as pessoas. Afinal, quem é que lhe diz que tem uma atitude? (…)
in: Cartas a um jovem Poeta, de Rainer Marie Rilke, Antígona, 2016, p. 61 a 65.
não há-de ficar sem uma saudação da minha parte, agora que estamos à beira do Natal, e numa altura em que o Senhor, em plena festividade, suporta a sua solidão mais dificilmente que o costume. Mas ao notar que ela é grande, regozije-se com isso; pois o que seria (pergunte-se a si mesmo) uma solidão que não tivesse grandeza; só há uma solidão, e essa é grande e não é difícil de suportar, e quase todos a experimentam horas em que muito gostariam de a trocar por uma qualquer convivência, por mais banal e desprezível que seja, pela aparência de uma limitada harmonia com o primeiro que apareça, com o mais indigno… Mas talvez sejam precisamente essas as horas em que a solidão cresce; porque o seu crescer é doloroso como o crescer dos adolescentes e triste como o começo das primaveras. Mas não permita que isso o desoriente. Aquilo que faz falta é apenas isto: solidão, grande solidão interior. Entrar dentro de si mesmo e não estar com ninguém durante horas, - é isso que é preciso ser capaz de alcançar. Ficar solitário, como se ficava solitário em criança, enquanto os adultos andavam para cá e para lá, enredados em coisas que pareciam importantes e grandes, porque as pessoas grandes pareciam tão ocupadas e porque nada se compreendia dos seus afazeres.
E quando um dia se percebe que as suas ocupações são miseráveis, que as suas profissões são algo de entorpecido e que já não estão ligadas à vida, então por que motivo não havemos de continuar a olhá-las, à maneira das crianças, como coisa estranha, a partir da profundidade do nosso próprio mundo, a partir da distância da nossa solidão que é, ela mesma, trabalho e dignidade e profissão? Por que motivo querer trocar o sábio não entender de uma criança pelas atitudes defensivas e pelo desprezo, já que não-entender é um estar só, ao passo que a defensiva e o desprezo são participação naquilo de que uma pessoa quer separar-se à custa desses meios.
Pense, caro Senhor, no mundo que transporta em si, e chame a esse pensamento o que quiser; seja recordação da infância de cada um ou anseio pelo próprio futuro, - esteja somente atento ao que se ergue dentro de si e coloque-o acima de tudo aquilo de que se apercebe à sua volta. O seu acontecer mais interior merece todo o seu amor, é nele que tem de trabalhar, seja de que modo for, e não perder demasiado tempo e demasiada coragem a clarificar a sua atitude para com as pessoas. Afinal, quem é que lhe diz que tem uma atitude? (…)
in: Cartas a um jovem Poeta, de Rainer Marie Rilke, Antígona, 2016, p. 61 a 65.
19 novembro 2016
Flores Murchas | Sebastião da Gama
… um cheiro doce
Que vai pra longe; longe de viagem,
Deixando as flores murchas pelo chão
Servindo apenas p'ra um herbolário
Pra estudo ou somente colecção.
in: Flores Murchas, de Sebastião da Gama, in: Diário, Obras Completas de Sebastião da Gama, p. 230.
18 outubro 2016
A Potência de Existir | Michel Onfray
A escultura de si.
Conservemos a antiga metáfora da escultura: Plotino utiliza-a nas Eneidas e incita cada um de nós a ser o escultor da sua própria estátua. Porque, a priori, o ser está vazio e oco. A posteriori, ele é o que foi feito e o que dele se faz. Trata-se de uma formulação moderna: a existência precede a essência. Cada um segue sendo, neste sentido, parcialmente responsável pelo seu ser e pelo seu futuro. Sucede o mesmo com o bloco de mármore bruto e sem identidade, enquanto o escopro do escultor não se decidir a conceder-lhe uma forma. Esta última não está oculta, em potência, na matéria, mas é produzida com o desenvolvimento de um trabalho. A obra constrói-se dia após dia, hora após hora, segundo após segundo. Cada instante contribui para o futuro.
Que se deve procurar produzir? Um Eu, um Si mesmo, uma Subjectividade radical. Uma identidade sem duplo. Uma realidade individual. Uma pessoa recta. Um estilo notável. Uma força única. Uma potência magnífica. Um cometa que traça um caminho inédito. Uma energia que inaugura um percurso luminoso no caos do cosmos. Uma bela individualidade, um temperamento, um carácter. Sem querer a obra-prima, sem visar a perfeição - o génio, o herói ou o santo - é necessário tender para a epifania de uma soberania inédita.
A tradição filosófica declara não gostar do Eu; ela apregoa, em todas as circunstâncias, o seu ódio ao Si. Muitos filósofos contemporâneos defendem, sem pestanejar, esta posição teórica, disseminando-se depois em obras e artigos com vista a oferecer os detalhes da infância própria, fornecer a biografia e dar testemunhos sobre a sua formação intelectual e primeira juventude. (…)
Esta esquizofrenia dá lugar a uma contradição: se eles estão certos ao condenarem o eu, então que se calem; se falam na primeira pessoa, então que façam concordar o seu pensamento com os seus desabafos. Sou a favor de uma necessária revisão teórica e de uma continuação da auto-análise existencial que, a meu ver, permite uma melhor compreensão da origem de um pensamento, daquilo que ele é e da direcção na qual ele se encaminha.
in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Editora Campo da Comunicação, p. 97 e 98.
Conservemos a antiga metáfora da escultura: Plotino utiliza-a nas Eneidas e incita cada um de nós a ser o escultor da sua própria estátua. Porque, a priori, o ser está vazio e oco. A posteriori, ele é o que foi feito e o que dele se faz. Trata-se de uma formulação moderna: a existência precede a essência. Cada um segue sendo, neste sentido, parcialmente responsável pelo seu ser e pelo seu futuro. Sucede o mesmo com o bloco de mármore bruto e sem identidade, enquanto o escopro do escultor não se decidir a conceder-lhe uma forma. Esta última não está oculta, em potência, na matéria, mas é produzida com o desenvolvimento de um trabalho. A obra constrói-se dia após dia, hora após hora, segundo após segundo. Cada instante contribui para o futuro.
Que se deve procurar produzir? Um Eu, um Si mesmo, uma Subjectividade radical. Uma identidade sem duplo. Uma realidade individual. Uma pessoa recta. Um estilo notável. Uma força única. Uma potência magnífica. Um cometa que traça um caminho inédito. Uma energia que inaugura um percurso luminoso no caos do cosmos. Uma bela individualidade, um temperamento, um carácter. Sem querer a obra-prima, sem visar a perfeição - o génio, o herói ou o santo - é necessário tender para a epifania de uma soberania inédita.
A tradição filosófica declara não gostar do Eu; ela apregoa, em todas as circunstâncias, o seu ódio ao Si. Muitos filósofos contemporâneos defendem, sem pestanejar, esta posição teórica, disseminando-se depois em obras e artigos com vista a oferecer os detalhes da infância própria, fornecer a biografia e dar testemunhos sobre a sua formação intelectual e primeira juventude. (…)
Esta esquizofrenia dá lugar a uma contradição: se eles estão certos ao condenarem o eu, então que se calem; se falam na primeira pessoa, então que façam concordar o seu pensamento com os seus desabafos. Sou a favor de uma necessária revisão teórica e de uma continuação da auto-análise existencial que, a meu ver, permite uma melhor compreensão da origem de um pensamento, daquilo que ele é e da direcção na qual ele se encaminha.
in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Editora Campo da Comunicação, p. 97 e 98.
14 setembro 2016
Arts in Action | Portalegre 2016
Em Portalegre, uma cidade no Alto Alentejo de Portugal, recebeu em pleno verão de 2016, cerca de 70 jovens provenientes da Alemanha, Bélgica, Itália, Portugal e Suécia. Um projecto internacional desenvolvido e orientado por Altino Barradas, oriundo desta cidade e apaixonado pelos encontros multiculturais e diversificados um pouco por todo o mundo.
Um encontro designado por Arts in Action, que sob a forma de Residência Artística, iria permitir uma troca de experiências e de acções criativas em volta da cultura gastronómica, artística, citadina, de linguagens, de expressões corporais, intelectuais, de reconhecimento do território variado em ofertas, cuja dinâmica implica um crescimento afectivo e de partilha vasta.
Para este encontro foi definida a temática da Tapeçaria de Portalegre, trata-se de um dos patrimónios mais relevantes desta cidade, e neste projecto foram incluídos ambos os locais da cidade onde se podem encontrar as tapeçarias: a Manufactura de Portalegre e o Museu das Tapeçarias de Portalegre.
Após o convite de Fátima Reis para criar e orientar um Ensemble de
Artes para esta iniciativa, e deste modo integrar ainda uma equipa de mais cinco ensambles: ginástica, canto, dança, percussão e vídeo; foi desde logo planeada uma estratégia de modo a dar resposta ao período de tempo necessário ao desenvolvimento das actividades criativas.
O projecto tinha desde o seu início como objectivo principal uma mostra pública na cidade de Portalegre. Ou seja, os resultados do trabalho diário de todos os ensambles seriam apresentados no dia 3 de Agosto de 2016, pelas 22h, na Praça da República, na cidade de Portalegre.
O tema decidido
para o resultado final foi a Tapeçaria de Portalegre e o sub-tema: a manufactura da tapeçaria, ou seja, o seu processo de
construção no tear. Deste modo, o tear, as tecedeiras, a lã, o desenho, o esquema
das cores, a obra de arte e a aprovação final pelo artista. Todos estes pontos seriam representados e expressos em cenário público com actores e actrizes activos neste processo artístico; o que implicava que todos os participantes neste projecto iriam aparecer no resultado final. Este resultado implicava ainda uma ligação criativa e uma interacção entre todos os ensambles.
O Ensemble de Artes Plásticas abordou o tema: O Nosso Corpo é um Mecanismo, e como Sub- Tema: Os Nossos Cinco Sentidos. A partir de diversos mecanismos no processo de criação, a inspiração na natureza é determinante e assim o seu envolvimento neste projecto também o foi. Desde materiais naturais recolhidos no local à sua interligação e criação no espaço envolvente de peças artísticas cuja ligação à criatividade se estabeleceu com o corpo, a relação entre os corpos e a relação com a paisagem circundante. Incluiu-se ainda uma instalação de um "tear" ao ar livre e um percurso abrangente entre os elementos do grupo e a daí os respectivos resultados artísticos com a orientação criativa e plástica de autora do Ensemble: Ana Gaspar.
A seguinte transcrição mostra um dos momentos em que foi lido e representado este excerto, permitindo um encadeamento com todo o processo artístico da manufactura de uma tapeçaria: "(…) Nas férias as tecedeiras levavam os filhos para a manufactura e depois do lanche, as crianças dormiam no chão da manufactura. Era um espaço intimidante, mas belo, onde as crianças se calavam sem ninguém as mandar calar, como se soubessem que ali o som não fosse necessário, como se o que os filhos viam lhes bastasse ao espírito. (…)" in: Olho + Espírito Sónia Amor, Páteo, Portalegre, 2016
Fotografias: alguns resultados do Ensemble de Artes, 22 Julho a 5 Agosto, 2016
18 julho 2016
Calígula | Albert Camus
Helicon
E que querias tu?
Calígula
A Lua
Helicon
Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso.
Calígula
… Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível.
… Tenho, portanto, necessidade da Lua ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo.
… Os homens morrem e não são felizes.
… Porque lhes falta um professor que conheça aquilo que ensina.
Cipião
… que fazer sofrer é a única maneira de agente se enganar.
Calígula
… devem obrigatoriamente deserdar os filhos e testemunhar imediatamente a favor do Estado.
… Governar é roubar, toda a gente o sabe.
… por mim, roubarei francamente.
Acreditava, como toda a gente, que estar desesperado era uma doença da alma. Estava enganado, o corpo é que sofre.
… Como é duro, como é amargo a gente tornar-se um Homem!
… para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas, se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente, e com que decresça o sofrimento, se não posso impedir os seres de morrerem?
… Quero misturar o Céu com a Terra, confundir a beleza com a feldade, fazer explodir o riso, do sofrimento.
… quando a Lua for minha…
Cesónia
Nunca poderás negar o amor.
Calígula
O amor, Cesónia! Aprendi que não é nada.
Cherea
O que é insuportável é ver dissipar-se o sentido desta vida, ver desaparecer a nossa razão de existir.
Calígula
Qual é o castigo para os escravos preguiçosos?
O Chicote, suponho.
Cesónia
… as tuas mãos cheias de flores e de crimes.
… as tuas alegrias sem futuro…
… sacia-nos para sempre no teu coração negro e sujo.
Calígula
… Provei a esses deuses ilusórios que um homem, se tiver vontade, pode exercer sem aprendizagem o ridículo ofício deles.
… Compreendi simplesmente que só há uma maneira de nos igualarmos aos deuses e é tornarmo-nos tão cruéis como eles.
… se exerço este poder é por compensação.
Cipião
Por compensação? A quê?
Calígula
À estupidez e ao ódio dos deuses.
… Não Cipião, isto não é arte dramática! O erro de todos esses homens é não acreditarem o suficientemente no teatro. Se não fosse isso, saberiam que a qualquer homem é permitido representar as tragédias celestes e tornar-se deus. Basta endurecer o coração.
… Um homem honrado é um animal tão raro neste mundo, que a minha vista não o pode suportar durante muito tempo. Preciso de ficar só para saborear este grande momento.
Cherea
Tens alguma coisa de particular a dizer-me?
Calígula
Não. Cherea.
… Tenho necessidade de falar com alguém que seja inteligente.
… Cherea, acreditas que dois homens cuja alma e cuja altivez sejam iguais possam, ao menos uma vez na vida, abrir o coração e falar, como se estivessem nus, um diante do outro, despojados dos preconceitos, dos interesses particulares e das mentiras em que vivem?
Cherea
Penso que é possível, Caius. Mas julgo-te incapaz de o fazer.
Calígula
Tens razão. Só queria saber se pensavas como eu. Cubramo-nos então de máscaras. Utilizemos as nossas mentiras. Falemos como quem se bate, sempre em guarda. Porque é que não gostas de mim. Cherea?
Cherea
Porque em ti não há nada de que se possa gostar. Porque estas coisas não se controlam. E também, porque te compreendo o bastante para não te amar, e porque se não pode gostar, noutrem, daquilo que recalcamos em nós.
Calígula
Porquê odiares-me?
Cherea
Nisso, enganas-te Caius. Não te odeio. Apenas te julgo prejudicial e cruel, egoísta e vaidoso. Mas não te posso odiar, porque sei que és infeliz. E não te posso desprezar, porque sei que não és cobarde.
Calígula
Tu és inteligente, e a inteligência, ou se paga ou se nega. Eu pago. Mas tu, porque não queres negá-la, nem pagá-la?
Cherea
Porque tenho desejo de viver e de ser feliz. Creio que não se pode ter, indo até ao fim do absurdo, nem uma coisa nem outra. Sou como toda a gente. Para me sentir livre. Acontece que, às vezes, desejo a morte daqueles que amo, e convido mulheres que as leis da família ou da amizade me impediam de convidar. Para ser lógico, teria mesmo de matar ou de possuir. Mas penso que estas ideias vagas não têm importância. Se toda a gente se metesse a realizá-las, não poderíamos viver nem ser felizes. E insisto, é isso o que me importa.
Calígula
É preciso, então, que acredites em alguma ideia superior.
Cherea
Acredito que há acções belas e outras que o não são.
(…)
Velho Patrício
Não te importas de deixar de fazer filosofia? Horroriza-me.
Cherea
Reconheçamos, ao menos, que este homem exerce uma inegável influência. Obriga a pensar. Obriga toda a gente a pensar. A insegurança, eis o que o faz pensar. E é por isso que tantos ódios o perseguem.
Calígula
Então é porque há duas espécies de felicidade, e eu escolhi a dos assassinos. Porque sou feliz. Houve um tempo em que pensei atingir o limite da dor: pode-se ir mais longe ainda! (…)
… Mas o seu verdadeiro sofrimento não é tão fútil: é perceber que nem sequer o desgosto dura! Até a dor não faz sentido. (…)
… Sei que nada dura! Oh! Saber isto! Fomos só dois ou três, na história, que tivemos a verdadeira experiência disto, que pudemos atingir esta felicidade demente. (…)
… Vivo, mato, exerço o poder delirante do destruidor, ao pé do qual o do criador parece uma macaquice.
… enfim, a solidão eterna do desejo.
in: Calígula seguido de o Equívoco, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, Lisboa, 2002
E que querias tu?
Calígula
A Lua
Helicon
Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso.
Calígula
… Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível.
… Tenho, portanto, necessidade da Lua ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo.
… Os homens morrem e não são felizes.
… Porque lhes falta um professor que conheça aquilo que ensina.
Cipião
… que fazer sofrer é a única maneira de agente se enganar.
Calígula
… devem obrigatoriamente deserdar os filhos e testemunhar imediatamente a favor do Estado.
… Governar é roubar, toda a gente o sabe.
… por mim, roubarei francamente.
Acreditava, como toda a gente, que estar desesperado era uma doença da alma. Estava enganado, o corpo é que sofre.
… Como é duro, como é amargo a gente tornar-se um Homem!
… para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas, se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente, e com que decresça o sofrimento, se não posso impedir os seres de morrerem?
… Quero misturar o Céu com a Terra, confundir a beleza com a feldade, fazer explodir o riso, do sofrimento.
… quando a Lua for minha…
Cesónia
Nunca poderás negar o amor.
Calígula
O amor, Cesónia! Aprendi que não é nada.
Cherea
O que é insuportável é ver dissipar-se o sentido desta vida, ver desaparecer a nossa razão de existir.
Calígula
Qual é o castigo para os escravos preguiçosos?
O Chicote, suponho.
Cesónia
… as tuas mãos cheias de flores e de crimes.
… as tuas alegrias sem futuro…
… sacia-nos para sempre no teu coração negro e sujo.
Calígula
… Provei a esses deuses ilusórios que um homem, se tiver vontade, pode exercer sem aprendizagem o ridículo ofício deles.
… Compreendi simplesmente que só há uma maneira de nos igualarmos aos deuses e é tornarmo-nos tão cruéis como eles.
… se exerço este poder é por compensação.
Cipião
Por compensação? A quê?
Calígula
À estupidez e ao ódio dos deuses.
… Não Cipião, isto não é arte dramática! O erro de todos esses homens é não acreditarem o suficientemente no teatro. Se não fosse isso, saberiam que a qualquer homem é permitido representar as tragédias celestes e tornar-se deus. Basta endurecer o coração.
… Um homem honrado é um animal tão raro neste mundo, que a minha vista não o pode suportar durante muito tempo. Preciso de ficar só para saborear este grande momento.
Cherea
Tens alguma coisa de particular a dizer-me?
Calígula
Não. Cherea.
… Tenho necessidade de falar com alguém que seja inteligente.
… Cherea, acreditas que dois homens cuja alma e cuja altivez sejam iguais possam, ao menos uma vez na vida, abrir o coração e falar, como se estivessem nus, um diante do outro, despojados dos preconceitos, dos interesses particulares e das mentiras em que vivem?
Cherea
Penso que é possível, Caius. Mas julgo-te incapaz de o fazer.
Calígula
Tens razão. Só queria saber se pensavas como eu. Cubramo-nos então de máscaras. Utilizemos as nossas mentiras. Falemos como quem se bate, sempre em guarda. Porque é que não gostas de mim. Cherea?
Cherea
Porque em ti não há nada de que se possa gostar. Porque estas coisas não se controlam. E também, porque te compreendo o bastante para não te amar, e porque se não pode gostar, noutrem, daquilo que recalcamos em nós.
Calígula
Porquê odiares-me?
Cherea
Nisso, enganas-te Caius. Não te odeio. Apenas te julgo prejudicial e cruel, egoísta e vaidoso. Mas não te posso odiar, porque sei que és infeliz. E não te posso desprezar, porque sei que não és cobarde.
Calígula
Tu és inteligente, e a inteligência, ou se paga ou se nega. Eu pago. Mas tu, porque não queres negá-la, nem pagá-la?
Cherea
Porque tenho desejo de viver e de ser feliz. Creio que não se pode ter, indo até ao fim do absurdo, nem uma coisa nem outra. Sou como toda a gente. Para me sentir livre. Acontece que, às vezes, desejo a morte daqueles que amo, e convido mulheres que as leis da família ou da amizade me impediam de convidar. Para ser lógico, teria mesmo de matar ou de possuir. Mas penso que estas ideias vagas não têm importância. Se toda a gente se metesse a realizá-las, não poderíamos viver nem ser felizes. E insisto, é isso o que me importa.
Calígula
É preciso, então, que acredites em alguma ideia superior.
Cherea
Acredito que há acções belas e outras que o não são.
(…)
Velho Patrício
Não te importas de deixar de fazer filosofia? Horroriza-me.
Cherea
Reconheçamos, ao menos, que este homem exerce uma inegável influência. Obriga a pensar. Obriga toda a gente a pensar. A insegurança, eis o que o faz pensar. E é por isso que tantos ódios o perseguem.
Calígula
Então é porque há duas espécies de felicidade, e eu escolhi a dos assassinos. Porque sou feliz. Houve um tempo em que pensei atingir o limite da dor: pode-se ir mais longe ainda! (…)
… Mas o seu verdadeiro sofrimento não é tão fútil: é perceber que nem sequer o desgosto dura! Até a dor não faz sentido. (…)
… Sei que nada dura! Oh! Saber isto! Fomos só dois ou três, na história, que tivemos a verdadeira experiência disto, que pudemos atingir esta felicidade demente. (…)
… Vivo, mato, exerço o poder delirante do destruidor, ao pé do qual o do criador parece uma macaquice.
… enfim, a solidão eterna do desejo.
in: Calígula seguido de o Equívoco, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, Lisboa, 2002
04 junho 2016
Albert Camus | O Estrangeiro
…
Mas, pensando bem, nada tinha a dizer. Devo reconhecer, aliás, que o interesse que se tem em ouvir as pessoas não dura muito tempo.
(…)
Não me arrependia muito do que tinha feito. (…) Gostaria de lhe poder explicar cordialmente, quase com afeição, que nunca me arrependia verdadeiramente de nada.
(…)
Punha-me a escutar o coração. Não era capaz de imaginar que este barulho compassado, que me acompanhava há tanto tempo, podia um dia cessar. Nunca tive verdadeira imaginação.
…
in: O Estrangeiro, de Albert Camus, Livros do Brasil, 2016, p. 71, 72 e 81.
03 maio 2016
Tipografia | Eric Gill
…
Por outro lado, os que usam métodos humanos poderão atingir a perfeição mecânica, porque as escravaturas e as uniformizações do industrialismo são incompatíveis com a natureza dos homens.
A Tipografia Humana será, com frequência, comparativamente imperfeita & mesmo deselegante; mas, enquanto que uma certa deselegância não tem grande importância nas obras humanas, a deselegância não tem desculpa possível nas coisas produzidas pela máquina.
Assim, enquanto que na sociedade industrialista é, tecnicamente, fácil imprimir qualquer espécie de coisa, numa sociedade humana apenas é fácil imprimir uma espécie de coisa, mas há amplo espaço para a variedade e a experimentação no trabalho em si.
Quanto mais elaborado e fantasiado for o artigo industrial, mais repugnante se torna - a elaboração e a fantasia são indesculpáveis nestas coisas. Mas há todas as justificações para a elaboração e a fantasia nas obras dos seres humanos, desde que eles trabalhem e vivam de acordo com a razão; é educativo notar que, nos primórdios da impressão, quando a exuberância humana tinha amplo espaço, a impressão se caracteriza pela simplicidade e pela decência; mas que agora, quando tal exuberância já não existe no trabalhador (excepto quando está no trabalho), a impressão caracteriza-se por toda a espécie de exibicionismo grosseiro e por uma complexa indecência.
Mas, ai da humanidade, pois existe uma coisa chamada compromisso …
in: Ensaio sobre a Tipografia, de Eric Gill, Almedina, Coimbra, p. 97 e 98.
Por outro lado, os que usam métodos humanos poderão atingir a perfeição mecânica, porque as escravaturas e as uniformizações do industrialismo são incompatíveis com a natureza dos homens.
A Tipografia Humana será, com frequência, comparativamente imperfeita & mesmo deselegante; mas, enquanto que uma certa deselegância não tem grande importância nas obras humanas, a deselegância não tem desculpa possível nas coisas produzidas pela máquina.
Assim, enquanto que na sociedade industrialista é, tecnicamente, fácil imprimir qualquer espécie de coisa, numa sociedade humana apenas é fácil imprimir uma espécie de coisa, mas há amplo espaço para a variedade e a experimentação no trabalho em si.
Quanto mais elaborado e fantasiado for o artigo industrial, mais repugnante se torna - a elaboração e a fantasia são indesculpáveis nestas coisas. Mas há todas as justificações para a elaboração e a fantasia nas obras dos seres humanos, desde que eles trabalhem e vivam de acordo com a razão; é educativo notar que, nos primórdios da impressão, quando a exuberância humana tinha amplo espaço, a impressão se caracteriza pela simplicidade e pela decência; mas que agora, quando tal exuberância já não existe no trabalhador (excepto quando está no trabalho), a impressão caracteriza-se por toda a espécie de exibicionismo grosseiro e por uma complexa indecência.
Mas, ai da humanidade, pois existe uma coisa chamada compromisso …
in: Ensaio sobre a Tipografia, de Eric Gill, Almedina, Coimbra, p. 97 e 98.
12 abril 2016
O Espelho de Vénus | Pintura
Vénus | Antiga deusa romana da vegetação e dos jardins, foi identificada com a Afrodite grega. Deste modo, na sua qualidade de mãe do herói Eneias, o fundador mítico do povo romano, foi considerada a antepassada da gens iulia (que se dizia descendente de Eneias) e a protectora da cidade de Roma.
in: O Espelho de Vénus, de Edward Burne-Jones (1833 - 1898), (Óleo sobre tela), 1895
in: Vénus, Dicionário Cultural da Mitologia Greco-Romana, Pub. Dom Quixote, p. 245.
07 abril 2016
Dignidade Perdida | Nietzsche
6 - Dignidade Perdida - A reflexão perdeu toda a sua dignidade da forma; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflecte; e já não se poderia continuar a tolerar um homem sábio da velha escola.
Pensamos demasiado depressa, e pelo caminho, em plena marcha, no meio de negócios de toda a espécie, mesmo quando se trate do que há de mais sério; temos necessidade de pouca preparação, e até de pouca tranquilidade: é como se tivéssemos na cabeça uma máquina que girasse incessantemente e que progredisse o seu trabalho, mesmo nas piores condições.
Antigamente, quando alguém se queria pôr a pensar - era uma coisa provavelmente excepcional! - era coisa que se notava de imediato; notava-se que queria tornar-se mais sábio e que se preparava para uma ideia: seu rosto ganhava uma expressão como em oração e detinha-se na sua marcha; ficava até mesmo imóvel durante horas na rua, apoiado em uma perna ou nas duas, quando a ideia lhe 'surgia'. Perdia, então, a 'dignidade da coisa'.
in: A Ciência Gaia, de Friedrich Nietzsche, p. 41.
29 março 2016
O Solitário | Nietzsche
Odeio seguir alguém, como também conduzir.
Obedecer? Não! E governar, nunca!
Quem não se mete medo não consegue metê-lo a
ninguém,
Somente aquele que o inspira é capaz de comandar.
Já detesto comandar a mim mesmo!
Gosto, como os animais, das florestas e dos mares,
De me perder durante um tempo,
Permanecer a sonhar num recanto encantador,
E forçar-me a regressar de longe ao meu lar,
Atrair-me a mim próprio… de volta a mim.
in: Poema 33. O Solitário, de Friedrich Nietzsche, in: A Gaia Ciência, Martin Claret, 2013, p. 27.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


