Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

29 outubro 2015

Odisseia | Homero


Musa, fala-me do herói dos mil estratagemas, que tanto errou depois de a sua astúcia ter feito saquear a acrópole sagrada de Tróade, que visitou as cidades e conheceu os costumes de tantos homens! Quão grandes tormentos o seu coração padeceu por sobre o mar, quando ele lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros! Mas não conseguiu salvá-los apesar do seu desejo: o desvario deles perdeu-os, insensatos que devoraram os bois de Hélios Hiperíon. E este não os deixou ver o dia do regresso. Conta-nos a nós também estas aventuras, deusa nascida de Zeus, começando por onde te aprouver.
Nesse tempo todos os que haviam escapado ao brusco trespasse estavam já nos seus lares, salvos da batalha e do mar. Só Ulisses almejava ainda pelo regresso e pela esposa. Uma ninfa, Calipso, uma deusa augusta, retinha-o nas suas grutas profundas, ansiando por tê-lo como marido.

in: Odisseia, de Homero, Europa-América, 1990, p. 13.

29 setembro 2015

O Terceiro Chimpanzé | Jared Diamond

As pistas que nos levam a perceber quando, porquê e de que maneira deixámos de ser apenas outra espécie de grande mamífero surgiram de três tipos de dados científicos.
(…)
Uma questão fundamental tem que ver simplesmente com a dimensão das diferenças genéticas entre nós e os chimpanzés.
(…)

in: O Terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond, Círculo de Leitores, 2014

05 agosto 2015

Gaivota | Richard Bach

Fernão passava os dias sozinho, a experimentar, fazendo centenas de voos rasos.
(…)
Cuidadoso como era, esforçando-se até ao limite, perdia o controle a alta velocidade.
(…)
Caiu outra vez no mesmo erro terrível, e, a cento e trinta quilómetros horários, foi como se tivesse sido atingido por dinamite.
(…)
As suas asas eram barras de chumbo despedaçado, mas o peso do fracasso era-lhe mais doloroso. Desejou, debilmente, que o peso fosse suficiente para o arrastar docemente até ao fundo, e acabar de uma vez.
(…)
O lugar de uma gaivota à noite é a costa, e a partir desse momento prometeu a si mesmo ser uma gaivota normal. Assim, todos ficariam felizes.
(…)
No entanto, não sentia remorsos de por não ter cumprido as promessas que fizera a si próprio.

in: Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, Publicações Europa-América, Lisboa, 2001

14 julho 2015

Humanidade


O esperma não é uma pessoa, o óvulo também não o é, nem o embrião. A humanidade surge num homem, não com a sua forma (humana), mas com a sua relação (humana) com o mundo. O simples facto de estar no mundo não é suficiente; a barata também está no mundo. É necessária uma conexão, uma relação interactiva, um vínculo com a realidade tangível.

in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Campo da Comunicação, p. 186.

23 abril 2015

Criar imagens



"Não há arte sem um olhar que a veja como arte."
A arte em geral existe em virtude de um regime de identificação - de disjunção - que dá visibilidade e significação a práticas de arranjo de palavras, de arranjo expositivo das cores, de modelagem, dos volumes ou de evolução dos corpos, que decidem, por exemplo, o que é uma pintura, o que se faz ao pintar e o que se vê num mural ou numa tela pintados."

in: O Destino das Imagens, de Jacques Rancière, Orfeu Negro, Lisboa, 2011, p. 99 e 101.
Obras: Poemas e Desenhos, de Ana Paula Gaspar

16 março 2015

3 + 17 = 1 [Uma Linha]



A linha e o desenho das estruturas do pensamento.
As ligações neuronais e o significado adquirido pelas palavras.
Os conceitos e a sua significação.
As palavras que aqui se encontram escritas, estão organizadas em conjuntos de cerca de três, e são unidas por uma linha. Esta desenvolve-se e interliga-se com as seguintes, criando deste modo uma única linha, que apesar de única é interrompida por um espaço, espaço dedicado ao pensamento e à passagem para outro ano (esta ligação remete para o que corresponde a um ano lectivo, do ponto de vista académico).
Entenda-se por viagens um percurso efectuado entre Lisboa e Portalegre e Portalegre e Lisboa durante dezassete anos consecutivos e três enquanto estudante e também eles seguidos.
O sentido e a sua significação advém de um sentimento profundo no que diz respeito à consciencialização de um percurso e das várias oportunidades em cada viagem e em cada momento que o próprio percurso proporciona, pois viaja com ele e o corpo e a mente.
É um desenho a partir de uma linha. É uma linha a partir de um desenho.
É um desenho de um pensamento que não se vê, mas que se sente.
É um desenho da linha que desenha a palavra e esta adquire um significado num contexto de simbiose entre o riscar e a continuidade desse traço, risco, linha, cuja transformação ocorre e ganha importância maior na leitura e nas várias leituras ao longo do seu caminhar, do percorrer, do recordar e sobretudo do tomar consciência.
A mostra de uma "única" linha é a tentativa de unir o que foi também um "único" percurso, constituído de variados percursos e de diversos pensamentos, sintetizados numa ideia: partilhar e consciencializar de uma linha que afinal vai sendo a linha da Vida.
Um percurso, uma linha, um desenho, um olhar, um pensamento, um passeio…

in: 3 + 17 = 1 [Uma Linha], Exposição de Ana Gaspar, Instituto Politécnico de Portalegre, 11 de Março. 2015

02 março 2015

Franz Kafka | O Abutre e Outras Histórias

Resoluções

Sair de um estado de espírito miserável, mesmo que o tenhamos de fazer por pura força de vontade, deveria ser fácil. Eu forço-me a sair da cadeira, a caminhar até à mesa, a exercitar a minha cabeça e pescoço, a fazer os meus olhos brilharem, a apertar os músculos à volta deles. Desafio os meus próprios sentimentos, dou entusiasticamente as boas-vindas a A supondo que ele me vem ver, tolero amavelmente B na minha sala, engulo tudo o que é dito em casa de C, qualquer que seja a dor e a preocupação que tal me possa custar, em longas goladas.
No entanto, o que eu consiga, um único deslize, e um deslize não pode ser evitado, interromperá o processo todo, seja ele fácil ou doloroso, e terei de me reduzir novamente ao meu próprio círculo.
Portanto, talvez o melhor recurso seja ir passivamente ao encontro de tudo, fazer de mim mesmo uma massa inerte e, se sentir que estou a deixar-me levar, para que não me deixe convencer a dar um único passo desnecessário, olhar os outros fixamente com os olhos de um animal, não sentir remorso; em suma, reduzir ao mínimo qualquer réstia de vida que ainda me sobre, ou seja, ampliar a paz final do cemitério e não permitir que, para além dela, algo mais sobreviva.
Um movimento característico numa tal condição é passar o dedo mínimo ao longo das sobrancelhas.

in: Resoluções, de Franz Kafka, in: O Abutre e Outras Histórias, Estrofes e Versos, 2009, p. 89 e 90.

16 fevereiro 2015

Monólito | Pedro Vaz


 

A exposição Monólito, de Pedro Vaz, apresenta-nos um desafio que parte de três elementos: uma pedra, um mapa e um filme. Marco inicial, desenho de projecto, a pedra e o mapa funcionam como indícios que o filme revela, incitando-nos à própria descoberta.
Acompanhando um curso de água, como a linha de uma escrita pré-determinada da paisagem, este vídeo - parte obra documental, parte ficção - permite-nos testemunhar o itinerário de uma personagem (um alter ego a que o autor se refere como "ele") na sua deambulação metafórica.
Narrativa evocadora da viagem essencial, "Monólito" é o resultado de um encantamento (ou uma invocação) pela pedra, pelo uno, pelo caminho como processo artístico (de que o mapa é também símbolo), da libertação para a elevação, conduzindo à criação, cujo corolário iremos descobrir no jardim Botânico O Chão das Artes, escondido entre as árvores da Mata.

in: Monólito, Excerto do texto de Emília Ferreira, Casa da Cerca, Almada, 14 de Fevereiro de 2015

14 fevereiro 2015

Dafnis e Cloé | Longus

… A época do ano também os excitava. Era já o fim da Primavera e o princípio do Verão: a vegetação inteira resplandecia de vigor, com as árvores cobertas de fruta e os campos de trigo ceifado. Encantador era o ruído das cigarras, suave o odor dos frutos, agradável o balir das ovelhas. Dir-se-ia que por seu turno os ribeiros cantavam correndo devagar, que os ventos tocavam flauta nos pinheiros, que as maçãs se deixavam cair por terra sob o efeito do amor, que o sol, guloso de beleza, despia toda a gente. Dafnis, que toda aquela atmosfera excitava, entrava nos ribeiros, umas vezes para neles se banhar, outras para pescar os peixes irrequietos. Muitas vezes bebia neles também, pensado apagar a febre que sentia em si. Quanto a Cloé, depois de ter mungido as suas ovelhas e a maior parte das cabras, passava muito tempo a coalhar o leite, porque as moscas a incomodavam imenso e a picavam quando ela as enxotava. Depois do que, lavava a cara, engrinaldava-se com raminhos de pinheiro, punha à volta da cintura a pele de gazela e, enchia de vinho e de leite preparando uma bebida que partilhava com Dafnis.
Mas quando chegava o meio dia, eles tornavam-se prisioneiros dos próprios olhares. Ela, ao olhar para Dafnis despido, sentia-se arrebatada por aquela beleza perfeita e sentia-se aniquilada diante daquele rapaz no qual ela não conseguia encontrar nada a criticar. Ele, ao vê-la com a pele de gazela e a grinalda de pinheiro, a estender-lhe a escudela, julgava estar a olhar para uma das Ninfas da gruta. Ele pegava nos raminhos de pinheiro que ela tinha na cabeça e fazia para si uma grinalda, depois de a ter levada aos lábios. Por seu lado, enquanto ele tomava banho todo nu, ela agarrava na roupa dele para se vestir com ela, depois de a ter igualmente levado aos lábios. Às vezes, atiravam maçãs um ao outro, e arranjavam as cabeleiras penteando-se um ao outro. Ela, comparava a cabeleira de Dafnis, a sebes de murta porque era escura. Ele, comparava o rosto de Cloé a uma maçã porque ele era branco e rosado. Ensinava-lhe também a tocar flauta e, quando ela começava a soprar, ele tirava-lhe a flauta e fazia correr os lábios sobre as canas: parecia corrigir os erros, na realidade, através daquela flauta, eram de facto beijos que ele dava a Cloé. …

in: Dafnis e Cloé, de Longus, (Canto Nono), Editorial Teorema, 1996  

01 fevereiro 2015

Numa Alma …


Numa alma não cultivada os desejos são todos materiais: sexo, alimento, poder, prazer físico. O desejo da alma é a posse: posse do amado, da fama, da fortuna, do poder.

Numa alma harmoniosa esses objectivos são substituídos pelo desejo da posse das ideias puras: o bom (justo/injusto). O verdadeiro e o belo. Quer-se possuí-los mas para isso tem que se fazer um longo caminho de aperfeiçoamento espiritual que nos permita anular os desejos que nos afastam do mundo das ideias e cultivar os pensamentos abstractos.

in: Os Primórdios da Psicologia na Grécia, de Rodrigo de Sá-Saraiva, 2014, p. 9.

22 janeiro 2015

Rainer Maria Rilke | Cartas a Um Jovem Poeta

Paris, 17 de Fevereiro de 1903


Estimado Senhor,

A sua carta chegou-me há poucos dias. Quero agradecer-lhe a sua grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer para além de agradecer. Não posso pronunciar-me sobre a qualidade dos seus versos, pois sou avesso a qualquer intenção crítica. Nada está mais longe de tocar numa obra de arte do que palavras críticas: delas resultam apenas mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas não são tão apreensíveis nem tão dizíveis como nos fazem crer; quase todos os eventos são inefáveis, desenrolam-se num espaço onde as palavras nunca entram, e os mais inefáveis entre eles são as obras de arte, existências misteriosas cuja vida, ao lado da nossa que se perde, perdura.
Tendo começado com este aviso, devo ainda dizer-lhe que os seus versos não têm um estilo próprio, embora traiam indícios silenciosos e velados de uma voz pessoal. Os mais evidentes encontram-se no seu último poema, «A minha alma». Há nele qualquer coisa que quer chegar à palavra e à forma. E no seu bonito poema «A Leopardi» talvez cresça já uma qualquer afinidade com esse grande solitário. Contudo, os seus poemas não têm ainda vida própria, não são autónomos, nem mesmo o seu último poema ou aquele que dedicou a Leopardi. A sua gentil carta, que acompanhava os poemas, veio esclarecer algumas das falhas que pressenti ao ler os seus versos sem que nesse momento conseguisse nomeá-las.
Pergunta-me se os seus versos são bons. Pergunta-me a mim. Já antes perguntou a outros. Envia-os a revistas. Compara-os com outros poemas, apoquenta-se quando algumas redacções rejeitam os seus esforços. Pois bem, e já que me permite aconselhá-lo, peço-lhe que desista de tudo isso. Está a olhar para fora de si, e é sobretudo isso que não deve fazer agora. Ninguém o pode aconselhar, ninguém o pode ajudar, ninguém. Há uma única via. Entre dentro de si. Investigue a razão que o leva a escrever, veja se ela lançou raízes no lugar mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade; a sua vida, mesmo nas horas mais indiferentes e pequenas, terá de ser um sinal e um testemunho deste ímpeto. Aproxime-se então da Natureza. Tente então dizer, como o primeiro homem, o que vê e o que vive e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite por ora as formas mais comuns e correntes: são elas as mais difíceis, pois só uma grande força, já amadurecida, conseguirá criar uma coisa própria por entre a abundância de boas e por vezes brilhantes prestações. Evite por isso os motivos gerais e prefira aqueles que o seu quotidiano lhe oferece; descreva as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a fé numa qualquer beleza - descreva tudo isso com sinceridade íntima, tranquila, modesta, e para lhes dar expressão sirva-se das coisas que o rodeiam, das imagens dos seus sonhos e dos objectos das suas recordações. Se o seu dia-a-dia lhe parecer pobre, não o acuse de pobreza; acuse-se a si próprio, reconheça que não é ainda poeta o bastante para conseguir invocar as suas riquezas; pois para um criador não há pobreza e nenhum lugar é indiferente e pobre. E mesmo que estivesse numa prisão, cujas paredes separassem os ruídos do mundo dos seus sentidos, teria ainda e sempre a sua infância, essa riqueza preciosa e imperial, a câmara do tesouro da lembrança. Dirija a ela a sua atenção. Tente levantar as sensações submersas desse passado longínquo; a sua personalidade fortalecer-se-á, a sua solidão estender-se-á até se tornar uma casa à luz do cair da tarde ou do amanhecer, por onde o ruído dos outros passa à distância. E se, depois deste movimento de introspecção, depois deste mergulho no seu próprio mundo, se depois nascerem versos, já não lhe ocorrerá perguntar a alguém se eles são bons. Também não tentará despertar o interesse das revistas por estes trabalhos, pois vê-los-á como propriedade sua, natural e preciosa, como uma parte e uma voz da sua vida. A boa obra de arte nasce da necessidade. É esta origem, e nada mais, que determina o juízo do seu valor. Por esta razão, caro Senhor, não posso dar-lhe outro conselho para além deste: entre dentro de si e sonde as profundezas donde brota a sua vida; é nesta fonte que se encontrará a resposta à pergunta: tenho de criar? Admita a resposta, qualquer que ela seja, sem a interpretar. Talvez venha a descobrir que nasceu para ser artista. Nesse caso, aceite o seu destino, carregue o seu peso e grandeza, sem perguntar por proveitos que possam vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo, tem de encontrar tudo dentro de si e na Natureza a que se uniu.
Talvez aconteça que, depois desta descida dentro de si e da sua solidão, tenha que renunciar a ser poeta; (como disse, basta sentir que se consegue viver sem escrever para não dever sequer tentá-lo). Mas mesmo então este exame de consciência que o insto a fazer não terá sido em vão. A sua vida encontrará em todo o caso os seus próprios caminhos, e que eles sejam bons, ricos e longos é o que eu lhe desejo mais do que consigo dizer.
O que devo acrescentar ainda? Parece-me que tudo foi sublinhado com a importância devida. Queria apenas aconselhá-lo, por fim, a velar em silêncio e com seriedade pelo seu crescimento; não há perturbação mais violenta do que olhar para fora e esperar respostas exteriores a perguntas a que talvez só a sua sensibilidade mais íntima, nas horas de maior silêncio, poderá responder.
Foi com grande alegria que encontrei na sua carta o nome do Professor Horacek; tenho uma grande admiração por este amável erudito e uma gratidão acalentada ao longo dos anos. Peço-lhe que lhe transmita os meus sentimentos; é muita bondade dele lembrar-se ainda de mim, e sei dar-lhe o justo valor.
Devolvo-lhe os versos que amigavelmente me enviou. E agradeço-lhe uma vez a sua grande e amável confiança, de que tentei ser mais digno, através da sinceridade e boa-fé desta minha resposta, do que como estranho realmente sou.
Com grande estima e dedicação,

Rainer Maria Rilke

in: Cartas a um jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke (Tradução de Isabel Castro Silva), Edições Quasi, (1875-1926)

14 dezembro 2014

A Vida | Nietzsche

Frederico-Guilherme Nietzsche nasceu em 1844, no presbitério de Roecken, numa região da Turíngia anexada à Prússia. Nietzsche foi educado em Naumburg, num meio feminino, com a sua irmã mais nova, Elisabeth. Ele era a criança prodígio; guardam as suas dissertações, os seus ensaios de composição musical. Faz os estudos em Pforta, depois em Bona e em Leipzig. Escolhe a filosofia contra a teologia. Mas já a filosofia o assombra, com a imagem de Schopenhauer, pensador solitário, podendo proceder do sofrimento, do mal-estar ou da angústia - apesar de o filósofo, o tipo de filósofo segundo Nietzsche, ter um excesso de sofrimento. Mas tão-pouco concebe a doença como um acontecimento que afecte de fora um corpo-objecto, um cérebro-objecto. Na doença, ele vê de preferência um ponto de vista sobre a saúde; e na saúde um ponto de vista sobre a doença. (…) A doença como avaliação da saúde, os momentos de saúde como avaliação da doença: tal é a "inversão", o "deslocamento das perspectivas", em que Nietzsche vê o essencial do seu método e da sua vocação para uma transmutação de valores. (…)
Em Nietzsche tudo é máscara. A sua saúde é uma primeira máscara para o seu génio; os seus sofrimentos, uma segunda máscara para o seu génio e para a sua saúde, ao mesmo tempo. Nietzsche não acredita na unidade de um Eu e não o experimenta: relações subtis de poder e de avaliação entre diferentes "eu" que se escondem, mas que exprimem também forças de outra natureza, forças da vida, forças do pensamento - tal é a concepção de Nietzsche, a sua maneira de viver. Wagner, Schopenhauer e até Paul Rée foram vividos por Nietzsche como as suas próprias máscaras. Depois de 1890, acontece que alguns amigos (Overbeck, Gast) pensam que a demência, para ele, é uma última máscara. Ele escrevera: "E, por vezes, a própria loucura é uma máscara que esconde um saber fatal e demasiado seguro." (…)
Em Nietzsche, sucedem-se, cada vez mais densas, as alternâncias de euforia e de depressão. Ora tudo lhe parece excelente: o alfaiate, o que come, o acolhimento das pessoas, a fascinação que julga exercer nas lojas. Ora o desespero o domina: a ausência de leitores, uma impressão de morte, de traição. (…)
Ao mesmo tempo, Nietzsche constrói de si mesmo uma imagem mundial cósmica provocadora "um dia a lembrança de qualquer coisa de formidável estará ligada ao meu nome", "só a partir de mim é que há a grande política na Terra"; mas também se concentra no momento, preocupa-se com um sucesso imediato. (…)
Diagnostica-se uma "paralisia progressiva". (…) Ora calmo ora em crise, parecendo ter esquecido toda sua obra, fazendo música ainda. A evolução da doença prosseguiu lentamente até à apatia e à agonia. Morre em Weimar em !900.

in: Nietzsche, de Gilles Deleuze, Edições 70, Biblioteca Básica de Filosofia, Lisboa, 2001

25 novembro 2014

Luz | Jorge Calado


A energia solar é o resultado da fusão atómica: átomos de hidrogénio que se combinam para formar hélio - afinal, o mecanismo da bomba de hidrogénio. (…)
O papel da ciência é fazer perguntas, boas perguntas. (…)
A química é a resposta a uma curiosidade fundamental: de que são feitas as coisas?
O hidrogénio reage com o oxigénio do ar para formar água, libertando energia que se reconhece pela explosão. A chama é sinal de uma química muito activa. As substâncias combinam-se ou decompõem-se para formar outras substâncias. (…)
O nome da ciência deriva de chemeia ou chemia, termo alexandrino que designava a arte egípcia. Plutarco achava que a palavra chem traduzia a cor escura do solo egípcio - daí a contaminação do significado da química com as artes negras da magia.
O papel dos alquimistas foi assumido, em pleno século XX, pelos físicos nucleares!
São os problemas que fazem nascer as ciências. (…)
Os quatro elementos de Empédocles - terra, água, ar e fogo - valiam pelas suas qualidades. Não é por acaso que os três primeiros correspondem aos três estados fundamentais da matéria - sólido, líquido e gasoso - e o quarto representa a indispensável energia que permite fundir sólidos e vaporizar líquidos (para além de tudo o resto). Nada acontece sem energia; ou melhor, se não houver variação de energia em nenhuma parte do sistema, este pode considerar-se morto.
As velhas crenças levam tempo a morrer. Pensando melhor, não morrem de todo; continuam presentes numa espéci de estado comatoso, à espera de recuperação (ou re-incarnação). (…)

Andrew Marvell notou enfaticamente que
Nenhuma criatura gosta de espaço vazio;
Os seus corpos crescem à medida do lugar.

Ainda mais horrível que o vazio era a noção de penetrabilidade da matéria. A matéria é impenetrável, isto é, dois corpos diferentes não podem ocupar o mesmo espaço. (…)
Dois electrões não podem partilhar o mesmo estado. Se têm a mesma energia e um roda num sentido (spin), o outro tem de rodar no sentido oposto. (…) A metáfora é apropriada, pois o poder não se partilha. Um ditador, tal como um electrão, exclui outro.

De onde vem a electricidade atmosférica? A origem é química. As moléculas são feitas de átomos, e estes, de electrões (carregados negativamente), protões (carregados positivamente) e neutrões (partículas neutras). (…) Os ventos põem grandes massas de ar em andamento; movimento causa atrito; atrito produz electrização.

in: Haja Luz!, de Jorge Calado, Edição Instituto Superior Técnico, Lisboa, 2011

14 novembro 2014

Sintonia | Saber Ouvir

Sintonia é a atenção que vai mais além da empatia momentânea, uma presença plena e continuada que facilita a relação. Oferecemos a alguém a nossa atenção total e escutamos plenamente. Procuramos compreender a outra pessoa em vez de expressarmos a nossa opinião.
Esta capacidade de escutar plenamente parece ser uma aptidão natural. No entanto, como acontece com todas as dimensões da inteligência social, é possível aperfeiçoá-la. E todos nós podemos promover esse aperfeiçoamento prestando intencionalmente mais atenção. A maneira de falar de uma pessoa dá boas indicações sobre a sua capacidade de ouvir profundamente. Durante momentos de genuína conexão, aquilo que dizemos será responsivo ao que o outro sente, diz e faz. Quando a conexão é má, pelo contrário, as conversas tornam-se balas verbais: a mensagem que transmitimos não se altera de modo a adequar-se ao estado de espírito da outra pessoa, limita-se a reflectir o nosso. Ouvir faz toda a diferença. Falar com uma pessoa em vez de escutar o que ela diz reduz a conversa a um monólogo.
(…)
Descobriu-se que saber ouvir é o que distingue os melhore gestores, professores e líderes. (…)
A atenção total, tão ameaçada nesta época de multitarefas, perde acuidade sempre que dividimos o nosso foco. A auto-absorção e as preocupações reduzem o nosso enfoque, deixando-nos menos capazes de reparar nos sentimentos e necessidades dos outros, quanto mais responder-lhes com empatia. A nossa capacidade de sintonia ressente-se, sufocando a relação.
A plena presença não exige, todavia, assim tanto de nós. «Uma conversa de cinco minutos pode ser um momento humano totalmente significativo», nota um artigo publicado na Harvard Business Revue. «Para que resulte, tem de pôr de lado seja o que for que estiver a fazer, pousar o memorando que está a ler, largar o computador, sair do seu devaneio e concentrar-se na pessoa que tem à sua frente.»
Ouvir plenamente maximiza a sincronia fisiológica, de modo que as emoções se alinham. (…) Prestar intencionalmente mais atenção a alguém pode ser a melhor maneira de encorajar o nascimento de uma relação. Escutar atentamente, com uma atenção indivisa orienta os nossos circuitos neurais para a conectividade, pondo-os no mesmo comprimento de onda. Isto maximiza a probabilidade de os ingredientes essesnciais da outra pessoa para a relação - sincronia e pensamentos positivos - despertam e desabrocham.

in: Inteligência Social, de Daniel Goleman, pp. 135 a 138.

28 outubro 2014

Plátano de Hipócrates | Jardim do Príncipe Real


À semelhança de Platão e de outros filósofos da Grécia clássica, Hipócrates, considerado o pai da medicina, instruía os seus discípulos ao ar livre. Platão preferia um bosque sagrado chamado Akademia, que derivou no significado moderno da palavra academia.
Hipócrates meditava e leccionava à sombra de um plátano na ilha de Cós, que ficou para a história como Plátano de Hipócrates ou Árvore da Saúde. Um propágulo desta famosa àrvore foi oferecida a Portugal pelo rei Paulo da Grécia e plantado no Jardim França Borges (Príncipe Real) a 9 de janeiro de 195. Ainda hoje lá permanece, majestoso, na esquina sudoeste do Jardim.

in: Árvores de Lisboa, Monumentos Vivos, de Tomás Collares Pereira, 2014

25 setembro 2014

O Jardim | Poema


O jardim é o meu refúgio
As árvores protegem
As flores sorriem
Os pássaros cantam
As plantas salpicam a terra

Tudo enquanto descanso
As folhas que se soltaram esvoaçam por ali
Tudo tranquilo
O ritmo da vida na Terra é sereno

Só nós corremos contra o vento
Corremos contra nós mesmos
Corremos para uma morte anunciada

O jardim esse adapta-se
Congratula-se pelas estações do ano
Veste-se e despe-se naturalmente
Deixa-se estar
Vive simplesmente.

17 setembro 2014

Simples Diários Complexos | Edgar Morin

Opor questões científicas com humanistas, para Morin, é perder dos dois lados. Vivemos em um mundo onde nunca se disseminou tanto conhecimento e, por isso, articular as diferentes áreas nunca foi tão necessário, segundo o filósofo. Justamente pelo facto de o mundo ter ficado mais complexo, Morin busca novas estruturas mentais de compreensão desse novo universo, formas alternativas de integração.
(…)
Quando se escreve um livro vira uma testemunha.
(…)
Há muitas razões: para os críticos, os escritores, os filósofos, os sociólogos, eu sou uma espécie de camaleão, não sou um escritor, não sou um filósofo, um sociólogo, não tenho forma, não tenho etiqueta, logo não inspiro interesse. Então, uma maneira de fazer as minhas ideias serem conhecidas é fazê-las passar também pelas entrevistas. Me sinto um pouco obrigado a dar entrevistas.
(…)
Bom, para começar a curiosidade é própria das crianças, mas se os professores não têm paixão, se estão entediados, acabam arrefecendo a curiosidade delas. Creio que há dois problemas: uma coisa que diria Platão é que para ensinar é necessário amor, paixão. Essas condições não estão num manual, porém são fundamentais; o segundo problema é que precisamos relacionar as disciplinas múltiplas. Se você fizer a seguinte pergunta: "o que é ser humano?" Essa é uma pergunta sobre os diversos saberes que temos em relação ao ser humano. Eu vejo que as ciências humanas estão dispersas, a Psicologia, a Sociologia. Também temos os conhecimentos que nos dá a Literatura, porque ela nos ensina sobre o ser humano. Podemos pensar também na Biologia… Se você ensina o que é o ser humano aos seus alunos, você os cativa. Eu acho que uma ciência muito interessante é a História.
(…)
Bom, a complexidade foi formulada pela primeira vez entre matemáticos, engenheiros e cibernéticos. … Eu creio que nós estamos numa época em que a complexidade se impõe sobre a compartimentação. É um novo caminho para o mundo, para o ensino. Isso já acontece em alguns países da América Latina, o Brasil, por exemplo. Sobretudo é necessária uma mudança de estrutura mental.
(…)
É muito difícil definir a inteligência porque não é um quociente individual. A inteligência é um conjunto de qualidades muito diferentes porque necessita de capacidades de síntese, de análise e, no mínimo, de capacidade reflexiva e autocrítica. A inteligência necessita também de sensibilidade, porque a razão fria é muito limitada, mas uma paixão sem razão é muito limitada também. É necessária a mistura de razão e paixão. Então penso que a inteligência não tem uma definição simples. Há uma complexidade de elementos que permitem a inteligência. Há outra coisa que ultrapassa a inteligência, que é a capacidade de criar. A criatividade é algo em que é preciso capacidade intelectual, mental, cerebral. A possibilidade de fazer uma combinação nova, de fazer descobertas novas também exige inteligência. … Então, a inteligência é a capacidade de admiração, de se inquietar, a curiosidade… muitas coisas se somam à inteligência, é um coktail, e quando bem feito é como uma boa caipirinha.

in: Simples Diários Complexos, Edgar Morin por Sérgio Mélega, Revista Filosofia, Nº 78, 2013, pp. 5 a 13.

10 setembro 2014

No Teu Deserto | Miguel Sousa Tavares

… tu foste tomar banho em primeiro lugar. E porque a porta da casa de banho não encostava bem - e não sei se reparaste nisso - de onde eu estava, estirado na cama, a repousar das oito horas ao volante mais o resto, vi-te a despir, a ficares toda nua e a entrares na banheira de água quente e nem por um momento me ocorreu deixar de o fazer. Estava cansado de mais para desviar o olhar.
(…)
Dormias profundamente, com a cara virada para mim e a tua mão direita pousada sobre o meu ombro. Como se fôssemos íntimos.
(…)
- Claudia, desculpa se te tratei mal: estava muito cansado. Mas, por favor, vem para a tenda!
O meu querido companheiro do deserto!
(…)
- Vira-te de costas, que me vou despir.
Mas, depois, veio e deitou-se abraçada a mim. Ou assim me pareceu.
(…)
Sim, é verdade: eu encostei-me a ti e abracei-te, nessa primeira noite na nossa tenda, no camping de Ghardaia, quando nos deitámos as duas horas que faltavam antes de partirmos para o deserto.
Encostei-me a ti e abracei-te sem sequer pensar no que estava a fazer: apeteceu-me, senti que não havia nenhuma razão para não o fazer. O teu cansaço comoveu-me e a tua delicadeza, ao deixares tanto espaço livre para mim ao lado do teu saco-cama, foi irresistível.
(…)
- Claudia, não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.
(…)
- Mas tu não poupas as palavras: tu escreves. Todas as noites gastas uma hora a escrever um diário nesse teu caderno…
(…)
Não me acordes agora, não me fales alto antes de me falares ao ouvido, não me tragas de volta do deserto.
(…)
- Sabes apetecia-me estar lá, no deserto. Não consegui ainda habituar-me a isto.
- Tens de te habituar. A vida é assim mesmo, nada dura para sempre. Só os rios e as montanhas, como diziam os índios da América.
(…)
Sem que eu tivesse de pensar em nada quando acordava, sem ter de planear os dias, de encher os dias, de enganar o vazio de tudo. Era isso, meu querido, mais do que tudo, que me dava essa incrível sensação de conforto, de segurança. Eras tu: tu estavas ali, tu tinhas tudo planeado e pensado e, por mais insuportável que às vezes me parecesse essa tua obsessiva organização e teimosia, por mais que tantas vezes te contrariasse só para te ver irritado ou para simular uma revolta que de todo não sentia nem queria que sentisses, esses foram os dias inesquecíveis em que soube que alguém cuidava de mim, que alguém me tinha pegado na mão e me conduzia por onde não havia nada - nem estradas, nem casas … nem árvores … - e a minha única tarefa era deixar-me conduzir por ti, entre a lucidez e o sonho.
(…)
Já sei, já sei que nada dura para sempre - só as montanhas e os rios, meu sábio.

in: No Teu Deserto, de Miguel Sousa Tavares, Oficina do Livro, Lisboa, 2009, p. 54, 62, 73, 89, 91, 97, 100, 105, 107, 108, 111.

05 setembro 2014

Quando as Paixões Ultrapassam a Razão | Daniel Goleman

(…) Mal-grado estas restrições sociais, as paixões estão permanentemente a sobrepor-se à razão. Esta constante da natureza humana decorre da arquitectura básica da vida mental. Em termos de concepção biológica do circuito neuronal de emoções básico, aquilo com que nascemos é o resultado melhor para as últimas 50 000 gerações humanas. As forças lentas e deliberadas da evolução que moldaram as nossas emoções fizeram o seu trabalho ao longo de um milhão de anos; os últimos 10 000 - apesar de terem assistido à rápida ascenção da civilização humana e à explosão da população de cinco milhões para cinco biliões - quase não deixaram marca nas nossas matrizes biológicas para a vida emocional.
Para o melhor ou para o pior, a nossa avaliação de cada encontro pessoal e as nossas respostas a estes encontros não são determinadas apenas pelo nossos juízos racionais ou a nossa história pessoal, mas também pelo nosso passado ancestral. (…) Em resumo, muito frequentemente confrontamos dilemas pós-modernos com um repertório emocional feito à medida das exigências do Pleistoceno.

in: Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, p. 27.

11 agosto 2014

Três Níveis de Subtileza


Três níveis distintos de informação e compreensão (...) Neste sentido, um famoso rabi do século XVII, Menasseh ben Israel, dizia que o Pentateuco, tem, como o homem, três níveis de subtileza:

. O Corpo Físico - o nível mais básico e imediatista, lido e entendido histórica e literalmente, (com proveito!), pelos "homens ignorantes".
. A Alma Racional - o nível intermédio, objecto do estudo dos "homens eruditos".
. O Espírito Imortal - o nível superior, sobre o qual os "homens sábios" meditam.

  in: Letras Sagradas e Textos Inspirados, Revista Biosofia, Nº 41, 2012, p. 14.