Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

20 julho 2023

Aprisionados pelo Amor | Poema


Aprisionados pelo amor.

Decorados com obras de arte.

Com portas e janelas abertas.

Não tem grades.


Aprisionados pelo amor.

Com facas, e lanças afiadas.

Palavras soltas e presas pelo vento.

Uma prisão com a beleza a céu aberto.


Aprisionados todos aqueles que amam.

Encarcerados pelo tempo.

Pela viagem.

Pela história.

Aprisionados pelo amor.


in: Aprisionados pelo Amor, Poema de Ana Gaspar, Escrito 18 de julho 2023

28 junho 2023

O Budismo tem Razão | Robert Wright

Contudo, em última análise, a seleção natural preocupa-se apenas com um único aspecto (talvez eu deva empregar «preocupa-se», entre aspas, uma vez que a seleção natural é apenas um processo cego, não se tratando de um criador consciente). Esse único aspecto é transmitir os genes à geração seguinte. As características genéticas que no passado contribuíram para a proliferação genética prosperaram, enquanto as restantes se foram perdendo. (…)

Os nossos cérebros estão estruturados para, entre outros aspectos, nos iludir. (…)

O prazer é efémero, e, sim, isso deixa-nos repetidamente insatisfeitos. O motivo é o facto de o prazer ter sido programado pela seleção natural para se evaporar, de modo a que a insatisfação decorrente nos levasse a procurar mais prazer. Afinal, a seleção natural não "quer" que sejamos felizes; "quer" apenas que sejamos produtivos, no seu sentido limitado de produtividade. (…)

A rotina da consciência plena - observar o nosso mundo interior e exterior com um cuidado extremo - pode fazer mais do que atenuar sentimentos problemáticos e intensificar o seu sentido de beleza. (…)

Estudos consecutivos provaram que a maioria pensa que está acima da média em várias dimensões, desde a capacidade atlética até às competências sociais. 

O facto de nos apresentarmos como pessoas eficientes e íntegras implica acreditarmos no poder do nosso eu.

O sentimento em si é arrebatador e o módulo que evoca é claramente transformador. (…)

Criamos histórias sobre histórias sobre histórias, e o problema das histórias começa nas suas bases. (…)

Contudo, os seres humanos aparentemente têm uma forma mais complicada de identificar as coisas: não apenas pelo seu aspecto, mas também pelo modo como os fazem sentir. (…) O aspecto exterior das coisas poderá manter-se, mas parecerá que lhes falta algo interior. (…)

Rumi, um poeta sufi do século XIII, alegadamente escreveu: «A nossa missão não é procurar o amor, mas apenas procurar e encontrar todos os obstáculos em nós que erguemos contra ele.»


in: O Budismo tem Razão, de Robert Wright, Editora Farol, 2021 

21 junho 2023

Poema | Flores

 

Crescem flores no meu caminho

Tenho almofadas nos meus pés

Voo em plenitude,

Sobre as flores do meu caminho.


Crescem flores no meu caminho 

Brancas, Amarelas,

De todas as cores.


Crescem flores no meu caminho.


in: As flores no meu caminho, Poema de Ana Paula Gaspar, 20 de junho 2023.

21 maio 2023

Deus Cérebro | Série Documental Internacional

O tamanho do cérebro humano está ajustado ao tamanho do próprio corpo humano, mas é provável que o Homem de Neandertal tivesse um cérebro 10% maior do que o actual, o que implicaria uma gestação de 12 meses. (…)

Descendemos dos primatas que andavam nas árvores a comer bagas e a comer folhas e a certa altura a seca chegou a África. E, portanto, foi necessário descer das árvores e ir arranjar outras alimentações. Ainda eram claramente herbívoros mas depois não foi suficiente para a alimentação e então passaram a ser carnívoros e isso pode ter representado uma modificação radical no organismo. (…) Aqui entra a importância da tecnologia humana e o impacto que ela teve desde os primórdios na própria evolução da espécie e no cérebro em particular. Primeiro, com a construção de objetos de pedra afiados que permitiam cortar e esmagar os alimentos e depois com uma descoberta absolutamente decisiva: o fogo. (…)

Sem estas ferramentas, sem fogo, sem modificar a comida que comemos, não estaríamos aqui. Não teríamos energia suficiente para alimentar o cérebro que temos. (…)

A criatividade, por exemplo, implica um maior gasto de energia e mais fadiga cerebral. É por isso que o cérebro arranja forma de simplificar processos para evitar gastos supérfluos. Ao criar rotinas, ao fazer as coisas da mesma maneira, estamos a simplificar e a ajudar o cérebro a poupar energia. Sair da rotina obriga o cérebro a fazer novas associações, a lidar com o inesperado, o que exige um suplemento energético adicional. (…)

Separámo-nos dos primatas há 7 milhões de anos. Há 2 milhões o cérebro iniciou a sua trajetória de crescimento e estagnou há 200 mil anos. Mas foi apenas há 12 mil anos que inventámos a agricultura e há pouco mais de 5 mil a escrita. Desde então é surpreendente aquilo que a humanidade imaginou, criou, experimentou. (…)

Os nossos antepassados passaram a reunir-se em torno da fogueira, contando histórias épicas das caçadas, reforçando alianças ou ajustando contas, coscuvilhando, dançando e cantando. É o lançamento da primeira pedra da cooperação, que viria a afirmar-se como um pilar crucial para o desenvolvimento da mente humana e como parte da resposta à pergunta: Como chegámos até aqui? (…)

O amor é uma das forças mais poderosas, "uma tempestade perfeita". (…) Pode ser um amor real ou um amor imaginado. Mas tem que existir, porque isso reforça circuitos que nos permitem crescer bem. (…)

Quando se perde alguma coisa do lado emocional perde-se também do lado cognitivo. Este é um dos desafios da neurociência para os próximos anos, tentar descodificar a complexidade da relação entre o afecto e a inteligência cognitiva. (…)

O que as pessoas chamam "sexto sentido" é a intuição que, na verdade, é a capacidade do cérebro para premeditar, para adivinhar o que vai acontecer a seguir. Nós somos notáveis na capacidade de o fazer. (…)

"Sem a invenção da linguagem teríamos continuado a ser animais. Sem metáforas ainda seriámos selvagens." E, "quanto mais avançada é a civilização, mais elaboradas são as suas metáforas." (…)

Não somos os únicos que recorremos à música. Olhemos para o que se passa no reino animal. Vários tipos de animais criam melodias. É o caso dos grilos, das rãs, mas sobretudo dos pássaros. O que se verifica é que os pássaros com os sons mais elaborados são também os que têm maior número de namoradas. Ou seja, as melodias criadas pelas aves são um instrumento de sedução e uma chamada para o acasalamento. Quanto mais complexas as melodias, mais companheiros os pássaros conseguem conquistar. (…) Para o universo humano as semelhanças são as muitas. (…) A música exerce um enorme poder de sedução. 

Charles Darwin estava convencido de que a música precedeu a fala e surgiu exactamente com um objetivo sexual, para seduzir o parceiro e reproduzir, conquistando alguém biologicamente apto para assegurar a descendência. (…) 

Quer isto dizer que o adolescente tem um cérebro que é naturalmente ávido por recompensas, o que se pode tornar uma combinação explosiva. O cérebro adolescente é particularmente vulnerável e sensível a qualquer coisa que lhe dê prazer. (…) A parte que diz respeito à moral, à noção de risco e ao planeamento futuro só fica concluído entre os 20 e os 24 anos, quando o córtex pré-frontal termina a sua evolução. (…) 

Cada cérebro humano é o realizador de uma narrativa original, pegando no passado, fazendo projeções contínuas para o futuro. (…)

O cérebro é uma entidade em constante mutação. Continua a evoluir. (…)

O amor e a felicidade são o bem-estar supremo, aquilo pelo qual o trabalho conjunto do corpo e cérebro lutam, em prole de um desígnio maior: o prolongamento da vida, a homeostasia. (…)

Por muito que custe a aceitar a quem apregoa os pergaminhos do purismo da raça e da xenofobia, meus amigos, estamos todos cada vez mais parecidos e viemos todos de África. A diferença entre as raças localiza-se em um milímetro da epiderme, sim 1 milímetro de epiderme. (…) Não é mais do que uma reação à luz do sol. (…)

O equilíbrio no corpo humano resulta de uma obra de minúcia, de uma verdadeira perícia de relojoeiro ao longo de milhões de anos.


in: Deus Cérebro, de Anabela Almeida e António José de Almeida, Oficina do Livro, Lisboa, Fevereiro 2023

16 março 2023

A Lei do Espelho | Yoshinori Noguchi

Alegra-me que consiga encarar o problema de uma perspectiva mais optimista. Isso é conhecido como a lei da inevitabilidade: quando aprendemos uma coisa, vemos a seguinte com mais clareza. A verdade é que todos os problemas que temos na vida têm como objetivo revelar-nos algo mais importante. Isto é, nada ocorre por acaso, e as coisas acontecem porque é inevitável que assim seja, ou pelo menos assim é até que resolvamos algum problema que tenhamos pendente. Todos os problemas têm solução e, se os enfrentarmos com optimismo, acabam por nos trazer algum benefício que nos fará dizer: «Fico contente por isto ter acontecido. Graças àquele problema …» 

(…)

O senhor Yaguchi ensina a seguinte lei a Eiko, a protagonista da história: a realidade do que acontece na nossa vida não é mais do que um espelho que reflete o nosso interior. Esta frase expressa na perfeição o significado da «lei do espelho».

Como esta lei indica, a realidade da nossa vida replica fielmente o funcionamento de um espelho: reflete o que existe no nosso coração.

(…)

Assim, na vida, recebemos sentimentos que têm o mesmo comprimento de onda dos que enviamos. Nesse sentido, a vida é um espelho que reflete o nosso estado interior. 

(…)

«Para que desenvolvamos o nosso eu, é preciso estabelecer uma certa distância em relação à mãe. Quando esta distância não é suficientemente grande, somos dependentes ou estamos a ser dominados. (…) Não é possível quebrar os afetos ávidos e inseguros nos laços entre mães e filhos, ainda que tenha chegado o momento. Quando se trata de desfazer esse vínculo, ambos resistem a permiti-lo. 

O filho experimenta sentimentos de culpa e ansiedade ao ouvir o choro e as críticas da mãe; nasce em si a sensação de que não pode ir a sítio nenhum sem ela e, se a abandona, sente-se mau filho. A situação neste ponto ainda é reversível, caso decida afastar-se rapidamente das fraldas da mãe.

De certa maneira, o primeiro passo a dar, por mais doloroso que seja, para vir a ser um adulto independente é desembaraçar-se da situação da mãe. É uma fase dura, em que sentiremos o coração despedaçar-se. A experiência é muito mais difícil para quem se tenha sentido querido e mimado durante a infância do que para quem não sente que tenha recebido tanto afeto.»

(…)


in: A Lei do Espelho, de Yoshinori Noguchi, Editorial Presença, Lisboa, Fevereiro de 2023

28 fevereiro 2023

Vontade de Existir | Poema

 

Todos se ocupam do pensamento.

Mas, é no corpo que tudo acontece.

Esse sábio ancestral,

Munido de todas as ferramentas.

Necessárias à sua sobrevivência.

E, é tudo.

Cada micro sensor lê e escreve.

Nas linhas do desejo.

Uma vontade de existir.


in: Vontade de Existir, Poema escrito por Ana Paula Gaspar, no dia 25 de fevereiro 2023.

03 fevereiro 2023

Eternar a Natureza | Museu da Música

 


in: Eternar a Natureza, Exposição de Obras de Arte, de Ana Gaspar, no Museu de Música Mecânica, patente desde o dia 4 de Fevereiro a 5 de Março 2023

02 fevereiro 2023

À Árvore | Poema


Oh! Árvore que estás no meu caminho.

Há muitas árvores! 

Mas, tu és única.

Abres os teus braços para o céu.

Enraizaste-te bem na Terra,

Que acolheu a tua semente, e da qual brotaste,

Com toda a força e determinação!

Assim, carregas no teu ventre essa sabedoria.

Aprender a viver.

És presente no meu corpo.

Salvaste a minha alma das intempéries,

Tantas e tantas vezes.

Envolves-me com a tua imponência.

Mostras-me a tua coragem em te manteres aqui.

Amo-te.

És igual a mim.

Sou igual a ti.

E, somos únicas. 

Já te agrediram. Senti o teu golpe como sendo meu, 

Ou talvez, porque tenho também, golpes na minha alma.

Cruzaste-te no meu caminho.

Agradeço-te eternamente.


in: À Árvore - Amiga na caminhada da vida, Poema escrito no dia 2 de Fevereiro 2023 (Mas, muito antes sentido, e neste dia apresentado ao mundo)

01 fevereiro 2023

Sobre a Brevidade da Vida | Séneca

 Não é que tenhamos pouco tempo para viver, a verdade é que dele desperdiçamos muito. A vida é longa que baste, e foi-nos dada uma quantidade generosa para que possamos realizar todas as nossas conquistas, caso todo este tempo seja devidamente investido. (…)

Assim é: não nos é dada uma vida curta, nós fazemos-la curta. Não estamos mal abastecidos, lançamo-nos é ao desperdício. (…) Portanto, o nosso tempo de vida torna-se amplo quando cuidado de forma devida.

Os vícios rodeiam e atacam o ser humano por todos os lados não deixando que se erga e encare a verdade. (…) Mas tu nunca te dignaste a olhar-te no espelho e a estar atento ao que tu próprio realmente precisas. (…) És apenas incapaz de estar a sós contigo.  

Ele nunca será em parte prisioneiro de nada, se aproveitar a liberdade como dono de si mesmo, elevando-se acima de qualquer outro. (…)

Mas aprender a viver leva uma vida inteira, e, decerto para teu espanto, leva uma vida inteira para que aprendamos a morrer. (…) Os que te chamam para o pé deles, afastam-se de ti. (…)

Mas aquele que se devota a si mesmo, que organiza todos os dias como se fosse o ultimo, não anseia nem teme o dia seguinte. (…)

Ninguém trará de volta os anos, ninguém fará regressar aquilo que se foi. A vida seguirá o caminho que começou a percorrer, sem voltar atrás nem reverter o caminho. (…)

A vida passa, vertiginosamente rápida e imparável, por nós, estejamos de pé ou deitados. Os ocupados só se dão conta quando tudo acabar. (…)

Não interessa quanto tempo nos é dado se não existe nenhum lugar que o acomode, ele escapa pelas fendas e buracos da mente. (…) O presente é curtíssimo, muitos nem estão cientes de quanto, a ponto de o acharem inexistente. (…) Porque está sempre em movimento, a fluir (…)

De toda a gente, só aqueles que se dedicam à filosofia estão realmente descansados, só eles vivem de verdade. Não só pelo controle do tempo em que se inserem, como porque lhe juntam toda a eternidade. Todo o tempo que passou é acrescentado ao deles. (…)

A condição dos preocupados é miserável- e a miséria é seguir ordens como amar e odiar. (…)

Mesmo depois de ter consultado todas as obras escritas pelos mais famosos autores sobre o controlo e a moderação da mágoa, não encontrei exemplo algum de quem tenha sido capaz de consolar outro enquanto padecia da mesma tristeza. (…)

O infortúnio eterno tem uma benção, acaba por endurecer aqueles a quem aflige de forma constante. (…)

Todas as tuas mágoas foram um desperdício se ainda não aprendeste a ser miserável. (…) Fi-lo, corajosamente, por ter decidido conquistar a tua dor, não enganá-la. (…)

Era intenção da natureza que não houvesse necessidade de grandes apetrechamentos para que tivéssemos uma boa vida: cada indivíduo pode fazer-se feliz. Os bens materiais são da mais banal importância e de pouca influência: a prosperidade não eleva o sábio e as adversidades não o deprimem. Porque sempre se esforçou para confiar ao máximo e para obter todo o prazer de si mesmo. E depois? Pensas que me estou a chamar sábio? Claro que não. Se pudesse dizer tal coisa (…)

Não foi feito de materiais pesados da terra, mas desceu de um espírito celestial: mas as coisas celestiais estão semana em movimento por natureza. (…) O Sol desliza constantemente, deslocando-se de um lugar para outro, e embora gire com o universo, o movimento é oposto ao do próprio firmamento: percorre todos os signos do zodíaco sem nunca parar; o movimento é eterno à medida que viaja de um ponto para o outro. Todos os planetas estão sempre a rodopiar e a passar; como a lei inviolável da natureza decretou, são varridos de uma posição para outra; quando, no decorrer de períodos fixos, tiverem completado os percursos deles, voltarão a entrar nos caminhos por onde vieram. (…) Verás que tribos e nações inteiras mudaram de lugar. (…)

Onde quer que vamos temos de lidar com as mesmas leis da natureza. (…)

Não ter país não é miséria: ensinaste-te através dos teus estudos a saber que para um homem sábio todos os lugares são o seu país. (…)

Não há comida em todo o lado? A natureza espalhou-a por toda a parte; mas os humanos passam por ela como se fossem cegos, vasculham todos os países. (…) Quão pequeno é o vosso corpo. (…)

Como se pode acreditar, que a felicidade é medida pela riqueza e não pelo estado de alma. (…) Nada é suficiente para a ganância, pouco é suficiente para a natureza. (…)

Tal como nenhuma quantidade de líquido satisfará aquele cuja sede não se deve à falta de água, mas sim a uma febre interna: pois não é de sede que se trata, mas de uma doença. (…) É a alma que nos trás riqueza.

Assim a alma nunca poderá sofrer no exílio, sendo livre e semelhante aos deuses, igual a todo o universo e a todo o tempo. Pois o pensamento engloba todo o céu e viaja para todo o passado e futuro. (…)

É da nossa natureza admirar, mais do que qualquer outra coisa, aqueles que mostram coragem perante a adversidade. (…)

Daí ser melhor conquistar a dor do que enganá-la. (…) 

O uso prolongado de boas e más práticas leva a que as ames. (…)

É mais fácil para mim defender a minha alma do que os meus olhos. (…) Que ninguém me faça perder um dia. (…) Quem se atreve a dizer a verdade a si próprio? (…) Para expressar através de uma comparação junta, o mal de que queixo, não é a tempestade que me atormenta, mas o enjoo de navegar. (…)

De facto, existem inúmeras características da doença, mas só um efeito - o descontentamento próprio. Isto surge da instabilidade mental e de desejos amedrontados e não realizados. (…)

Pela hesitação de uma vida incapaz de ver o seu caminho em frente e pela letargia de uma alma estagnada. (…) Odeia contemplar e seu próprio isolamento. (…) A ociosidade improdutiva alimenta a malícia. (…) A mente é activa por natureza e inclinada para o movimento. É da natureza da doença não poder sofrer por muito tempo. (…) Diz Lucrécio: «Assim cada um foge sempre de si próprio.»  

Se te aplicares ao estudo, evitarás todo o tédio da vida, não desejarás a noite por estares farto do dia, não serás um fardo para ti próprio, nem inútil para os outros, cultivarás muitas amizades e as melhores pessoas reunir-se-ão em teu redor. (…)

Sê um amigo fiel e um companheiro afável. (…) e reivindicámos o mundo como nosso país. (…) o teu encorajamento, o teu exemplo, a tua coragem. (…) Mantém-te firme e ajuda, embora em silêncio. (…)

Terás que reinvindicar mais tempo para o descanso e para o trabalho literário. (…)

Devemos ser especialmente cuidadosos ao escolher aqueles com quem nos damos. (…) Contudo, nada há que possa dar mais alegria à alma do que uma amizade carinhosa e fiel. (…) Que alegria é confiar. (…)

Misturar os sãos com os doentes é como começar uma epidemia. (…)

Por muito fiel que seja, por muito dedicado que seja um amigo, um companheiro sempre perturbado, sempre a gemer é o maior inimigo da tranquilidade. (…)

Estás enganado se pensas que os mais ricos são mais fortes: a dor da ferida é a mesma. (…)

Comamos apenas para satisfazer a fome; bebamos apenas pela sede; não deixamos que os apetites carnais vão além dos desejos da natureza. (…) Procuremos usar e não exibir. (…) Olhar para a pobreza sem preconceitos. (…) Em tudo o excesso é um vício. (…) Toda a existência é escravidão. (…) Concentremo-nos no que está próximo de nós. (…)

A solidão e a união com a multidão: uma fará com que tenhamos saudades das pessoas, e a outra, de nós próprios, e cada uma delas será o remédio para a outra; a solidão curará a saudade que temos por uma multidão, e uma multidão curará o aborrecimento da solidão. (…)

A alma não pode dizer nada de grande e acima da gama comum se não for fortemente movida. (…)


in: Sobre a Brevidade da Vida, de Séneca, Talento, 2022

31 janeiro 2023

Sonho | Poema


Tenho saudades do Amor.

De ver a sua alma através dos seus olhos.

Do primeiro beijo fugaz ao canto da boca.


E, da camisa branca ao lado da minha, a sua é de melhor qualidade.

Da luz que emana e que ilumina a minha alma.

Dos cantos e recantos na terra, percorridos para um abraço.


Da vida que senti.

Da alegria de ser.

Da nudez do espírito.


Da transparência do Mar.

Do mergulho em mim.

E do elevar da alma.


in: Sonho, com o amor, Poema escrito no dia 23 de Janeiro 2023 

30 dezembro 2022

Galileu e a Busca da Verdade | Mario Livio

 Einstein acrescentou que a «descoberta e utilização por Galileu do raciocínio científico» foi uma das realizações mais importantes da história do pensamento humano.»

Galileu deve, sem dúvida, grande parte da sua reputação de erudito às suas espectaculares descobertas com o telescópio e à divulgação extremamente eficaz dos seus achados. Apontando este novo dispositivo aos céus, em lugar de observar caravelas ou vizinhos, conseguiu revelar maravilhas, como as montanhas na superfície lunar, a existência de quatro satélites em órbita em torno de Júpiter, a série de fases de Vénus em mutação, à semelhança da lua, e a composição da via láctea de um vasto número de estrelas. (…)

E, se ter tornado o eterno símbolo da imaginação e da coragem científica. 

Teve ainda a clarividência de afirmar veementemente que o caminho para a verdade científica se forja com a experimentação paciente, a qual conduz a leis matemáticas que tecem uma tapeçaria harmoniosa todos os factos observados. Neste sentido, pode ser definitivamente considerado um dos inventores do que hoje designamos como o método científico: uma sequência de etapas que, idealmente (se bem que raramente, na realidade), têm de ser seguidas para desenvolver nova teoria ou para adquirir conhecimentos mais avançados. (…)

Galileu nasceu em 1564, alguns dias antes da morte do grande artista Miguel Ângelo (e também no mesmo ano que deu ao mundo o dramaturgo William Shakespear). Morreu em 1642, quase um ano antes do nascimento de Newton. (…)

Sob muitos aspectos, Galileu foi o exemplo de um produto do Renascimento tardio. (…) «Ele elogiou o que de positivo fora escrito na filosofia e geometria, a fim de elucidar e despertar a mente para a sua própria ordem de raciocínio e, porventura, para um plano mais elevado, mas disse que a principal entrada para o riquíssimo tesouro da filosofia material se realizava através da observação e da experiência, as quais, interpretadas pelos sentidos, eram capazes de alcançar os intelectos mais nobres e inquisitivos.» (…)

O ano de 1543, em particular, assistiu à publicação, não de um mas de dois livros, que estariam prestes a transformar as perspectivas da humanidade a respeito do microcosmos e do macrocosmos. Nicolau de Copérnico publicou Das Revoluções das Esferas Celestes, que propunha retirar à Terra a sua posição central no sistema solar, e o anatomista flamengo Andreas Vesalius publicou Da Organização do Corpo Humano, em que apresentava um novo entendimento da anatomia humana. Ambos os livros contrariavam as convicções prevalecentes que dominavam o pensamento desde a Antiguidade. (…)

Galileu realizou inúmeras descobertas, mas em quatro domínios revolucionou completamente a área: a Astronomia e a Astrofísica, as leis do movimento e da mecânica: a extraordinária relação entre a Matemática e a realidade física e a ciência experimental. Em grande medida graças à sua incomparável intuição e, em parte, à sua formação em chiaroscuro, a arte de representar três dimensões em duas através da utilização inteligente da luz e da sombra, conseguiu transformar em conclusões intelectuais sobre o firmamento o que, de outro modo, teriam sido simples experiências visuais. (…)


in: Galileu e a busca da verdade, o homem que arriscou a carreira e a vida pela defesa da ciência, de Mario Livio, Edição Marcador, Lisboa, 2021

10 dezembro 2022

Discurso do Método | Descartes

 Mas, quando se gasta muito tempo a viajar, tornamo-nos estrangeiros no nosso próprio país, e quando se é muito curioso das coisas que praticavam nos séculos passados tornado-nos ignorantes das que se fazem na nossa época. (…)

Foi por isso que, logo que a idade me permitiu libertar-me da obediência aos meus preceptores, terminei definitivamente o estudo das letras e, tendo-me resolvido a não procurar outra ciência além da que se encontrava em mim mesmo, ou no grande livro do mundo, empreguei o resto da juventude a viajar. (…) E eu tinha um desejo enorme de distinguir o verdadeiro do falso, para ver claro nas minhas ações e caminhar nesta vida com segurança. (…)

Então, depois de ter passado alguns anos a estudar, deste modo, no livro do mundo, e a procurar adquirir alguma experiência, tomei um dia a resolução de estudar também em mim próprio e de empregar toda a energia do meu espírito na escolha dos caminhos que deveria seguir. O que deu resultados muito melhores, parece-me do que se nunca me tivesse afastado do meu país ou dos meus livros. (…)

Nessa ocasião, encontrava-me na Alemanha, onde me tinha chamado o ensejo das guerras que ainda não findaram e, quando regressava da coroação do Imperador para o exército, o início do inverno fez-me estabelecer morada num bairro onde, não encontrando qualquer conversação que me agradasse, e, não tendo, além disso, felizmente, nem preocupação nem paixões que me perturbassem, passava todo o dia fechado num quarto com aquecimento, onde tinha ocasião e ócio para me entreter com os meus pensamentos. (…)

Mas, em breve dei conta de que, embora desejasse pensar que tudo era falso, eu, que assim pensava, devia representar alguma coisa e, notando que esta verdade «Eu Penso, Logo Sou» - era tão firme e tão segura que todas as mais extravagantes suposições dos cépticos não seriam capazes de a abalar, admiti que podia tomá-la sem sombra de escrúpulo, como primeiro princípio da filosofia que procurava. (…)


in: Discurso do Método, de Descartes, Guimarães Editores, Lisboa, 1997

21 novembro 2022

A Química do Cérebro | Ginny Smith

Estes estudos e muitos outros que Loftus levou a cabo ao longo dos anos dizem-nos algo importante sobre a nossa memória. Está longe de ser infalível. Na verdade, é frágil e facilmente alterada. Algo tão simples como a forma como uma pergunta é feita pode modificar a nossa memória de um acontecimento, e esta mudança pode persistir, potencialmente para o resto das nossas vidas. (…)

Esta investigação pioneira provocou um surto de interesse pelo sistema de recompensa do cérebro, estando nós a começar a compreender como funciona e que regiões cerebrais envolve. Sabemos agora que a área em que Milner e Olds estavam interessados, a área septal, contém o núcleo accumbens, uma das mais importantes zonas de recompensa. Sabemos agora também existem outras regiões igualmente importantes, pelo que os cientistas falam de um «circuito de recompensa», em vez de uma área de recompensa. 

No que diz respeito às substâncias químicas do cérebro, a mais importante neste sistema é a dopamina. Os neurónios de Dopamina, com os seus corpos celulares numa região chamada área tegmental ventral, estendem-se até ao núcleo accumbens e ao córtex pré-frontal. Estas regiões trabalham em conjunto para nos levar a procurar uma recompensa. (…)

Talvez a serotonina, afinal de contas, seja realmente a «hormona da felicidade»! (…)

O hipocampo está envolvido no estabelecimento de ligações entre as emoções e as memórias e, neste sentido, se esta área encolher, poderá gerar problemas emocionais. (…)

Um estimulador do humor conhecido há muito tempo é o exercício físico (…) que pode ajudar a manter o cérebro saudável. Além disso, altera os níveis de uma variedade de outras substâncias químicas cerebrais, incluindo a serotonina e a dopamina, que podem contribuir para os seus efeitos estimuladores do humor. Outra técnica útil é a gratidão. Seja através da escrita de um diário, da amabilidade para com os outros, da meditação ou apenas da enumeração das coisas boas que temos a agradecer no final de um longo dia, há indícios crescentes de que centrar o foco nos aspectos positivos da nossa vida poderá ter benefícios tanto para a saúde como para o humor. (…)

Por todo o nosso corpo, existem relógios biológicos, ou ritmos circadianos, que controlam a afinação de processos como a libertação de enzimas digestivas a partir do fígado e o ciclo de produção das nossas mitocôndrias celulares. Mas todos eles são mantidos sincronizados por um relógio central no nosso cérebro, situado no núcleo supraquiasmático (NCQ), que faz parte do hipotálamo. (…)

E não é só o sono antes da aprendizagem que é importante; o sono tem outro papel a desempenhar depois de termos aprendido algo novo, ao ajudar a garantir que retemos essa informação. (…)

A interoceção é a capacidade de detectar estímulos e variações no interior do corpo, como o calor, a dor ou a fome. (…) Podem então confiar mais nestas pistas internas quando decidem quando e quanto comer, enquanto outras pessoas, com uma interoceção menos sensível, são mais guiadas por factores ambientais, como o quão saborosa é a comida ou a altura do dia em que se encontram. (…)

Com o seu habitual amor à categorização, decompuseram as maravilhas do amor romântico em três elementos: desejo sexual, atração e afecto. Cada um deles tem um padrão específico de actividade cerebral e de neuroquímica envolvida, embora existam bastantes sobreposições. (…)

Swami explicou-me que os psicólogos sociais costumam identificar três outros fatores importantes para a formação de uma relação - fatores tão simples que são muitas vezes negligenciados. O primeiro é a proximidade: tendemos a interessar-nos por pessoas que estão perto de nós. O segundo é a reciprocidade: gostamos de pessoas que gostam de nós. E o terceiro é a similaridade. (…) 

Seja como for que surja, em alguns casos, a atração conduz a uma relação e, após algum tempo, ao amor.

Os baixos níveis de dopamina, é preciso não esquecer, geram os sintomas da doença de Parkinson. (…)

É possível que, em alguns casos, os baixos níveis de serotonina estejam ligados à depressão, mas os altos níveis estão associados à ansiedade. Tudo indica que os nossos cérebros têm um «ponto ideal» no que diz respeito às substâncias químicas e desviarmo-nos dele, em qualquer uma das direções, tem o potencial de gerar problemas. (…)


in: A Química do Cérebro, de Ginny Smith, Bertrand Editora, Lisboa, 2022

05 novembro 2022

Eneida | Virgílio

 Virgílio era um epicurista; essa foi a doutrina a que parece ter aderido com maior convicção e acentuado empenho, em especial depois de ter frequentado em Nápoles a escola filosófica de Siro, seguidor de Epicuro. Ora, os epicuristas enjeitavam a participação na vida pública, menosprezavam a ambição e a glória, eram avessos a lutas de poder; preferiam a tais palcos o sossego, o recato, o alheamento, tudo quanto se traduzia no seu ideal de felicidade, que o conceito de ataraxia espelhava. 

Acontece que uma epopeia era justamente o oposto de tudo isso. Mais ainda, a epopeia de Roma, desenhada como a desenhou, ou seja, um canto tendente à glorificação de Augusto, através da sua identificação com o passado mítico, a apologia do regime que ele edificou, o Império, e bem assim de tudo quanto significava, das guerras travadas para o alcançar, das intrigas, as urdidas e as vencidas e as fracassadas, tudo isso podia representar uma renúncia a tais princípios do alheamento epicurista. Ou, pelo menos, deixava o poeta numa encruzilhada perigosa e à beira de um percurso semeado de contradições. (…)

E foi igualmente assim que o poeta desenhou um Eneias que, sem deixar de ser divino, que era, por filiação, nascido que fora de Vénus, a deusa do amor, era também humano, por ter sido gerado por Anquises, um mortal. Mais ainda, foi assim que desenhou nela com traços bem mais carregados o lado não divino, aquele que o fazia sentir como humano e que - supremo toque de mestria do poeta - se queria a si mesmo como humano. (…) 

Como será também essa a razão, decerto, por que o poeta lhe coloca no caminho Cartago e Dido e, com Dido, o amor. E que o faz ali permanecer, por vontade própria e sem contrariedade, mais propenso ao aconchego da rainha tíria do que a ter de fazer-se, de novo ao mar, enfrentar a viagem e rumar ao seu destino em Itália, ainda que soubesse, por revelação repetida, ser esse destino grandioso. (…)

Desertou, isso sim, do amor. Um amor condenado à partida, valha a verdade, uma vez que Dido, a rainha e amante, se apaixonara por um Eneias pertencente a um passado que ele próprio tinha de matar, antes de construir o futuro - o passado de Troia já morta, o passado da viagem. Esse Eneias, viandante troiano num percurso que não escolhera, tinha de morrer, para dar lugar a outro, o Romano, que virá a ser anunciado na passagem pelos Infernos. Aquele era, por isso mesmo, repita-se, um amor condenado. Além de que o amor, para os epicuristas, não era sinal de sabedoria e em circunstância alguma poderia ser opção de vida ou escolha avisada com vista à busca de felicidade. Rejeitá-lo, ainda que por imposição dos deuses, seria sempre - e foi - a melhor solução. (…)

Livro I

Mal perderam de vista a terra de Sicília, soltavam as velas rumo ao mar alto, 

cheios de alegria, e faziam esvoaçar com bronze das proas flocos de espuma salgada,

quando Juno, que guardava no fundo do coração uma ferida sem cura 

(…)

Ela mesma fez atear, a partir das nuvens, o fogo voraz de Júpiter

e disparou os navios e revoltou o mar à força dos ventos

e a ele, que, de coração trespassado, vomitava chamas, 

despedaçou-o num turbilhão e pregou-o na ponta de um penedo. 

(…)

Assim falou; e ao partir, uma luz fulgiu na nuca cor-de-rosa

e do alto da cabeça os cabelos de ambrósia exalaram 

um divino perfume; a veste descera até à base dos pés,

e pelo andar se revelou a deusa de verdade. Ele, quando reconheceu 

a mãe, com este brado veemente acompanhou o seu desaparecer:

«Porque tantas vezes iludes teu filho com enganosas imagens,

cruel que és também? Porque não há de poder unir-se a minha mão 

à tua mão e ouvir e responder palavras de verdade?»

Com tais palavras a interpela e os passos encaminha para as muralhas.

Mas Vénus envolveu numa espessa nuvem quem assim caminhava,

e a deusa espalhou à volta deles um largo manto de névoa, 

para que ninguém pudesse vê-los, para que ninguém pudesse tocá-los

ou retardá-los ou indagar deles as razões de ali virem.

Ela mesma partiu para Pafos e de novo voltou, feliz,

para seus paços, onde possui um templo, e em cem altares arde

incenso de Saba, e exalam o perfume de frescas grinaldas.

(…)


in: Eneida, de Virgílio, Tradução de Carlos Ascenso André, Quetzal Editora, Lisboa, Maio de 2022

12 agosto 2022

Portfólio | Ana Gaspar

 

https://issuu.com/ipportalegre.pt/docs/ana_portef_lio_2022


in: Portfólio, de Ana Gaspar, 2022

05 agosto 2022

Olhando a sua posição no Mundo | Fotografia

 


in: Olhando a sua posição no mundo, Texto de Ana Paula Gaspar, Julho 2022; Fotografia de Luís Cangueiro, em Moçambique, entre 1969 e 1971.


08 julho 2022

Com que Fios se Tece a Eternidade | Exposição

 


Obras de Arte: Com que fios se tece a eternidade, de Ana Paula Gaspar, (papel vegetal, papel textura, neoplastel de óleo, carvão e recortes de livros e palavras), em Exposição na Biblioteca Pública e Municipal de Setúbal, de 6 de julho a 5 de agosto 2022  

16 junho 2022

Filosofia Felina | John Gray

 Os gatos não precisam de filosofia. Obedientes à sua natureza, satisfazem-se com o que a natureza lhes dá. Nos humanos em contrapartida, parece ser-lhes natural a insatisfação com a sua natureza. Com resultados inevitavelmente trágicos e absurdos, o animal humano nunca deixa de aspirar a ser o que não é. Os gatos em nada se esforçam para isso. Boa parte da vida humana é uma luta pela felicidade. (…)

A filosofia nasce da ansiedade, e os gatos só a sentem se se sentirem ameaçados ou derem por si num lugar estranho. Para os humanos, o próprio mundo é um lugar estranho e ameaçador. (…)

A falta de pensamento abstrato nos gatos não é prova da sua inferioridade, mas traço da sua liberdade de pensamento. (…) Os gatos, que confiam no que podem tocar, cheirar e ver, não são governados por palavras. 

A filosofia é a demonstração da fragilidade do espírito humano. (…)

Os gatos nunca foram domesticados pelos humanos. (…) Foram os gatos a iniciar, à sua maneira, este processo de domesticação. O genoma do gato doméstico em pouco difere do do seu parente selvagem. As pernas são um pouco mais curtas, a pelagem tem maior variedade cromática. (…) A não ser que sejam mantidos em casa, o comportamento dos gatos domésticos não é muito diferente do dos gatos selvagens. Ainda que um gato possa considerar mais de uma casa como lar, a casa é a base onde come, dorme e dá à luz. O tamanho do cérebro dos gatos domésticos é mais pequeno que o dos selvagens, mas isso não os torna menos inteligentes ou adaptáveis. (…) Um motivo para a aceitação dos gatos pelos humanos foi a sua utilidade na redução das populações de roedores. Os gatos comem-nos, à milhares de anos já comiam ratos que se alimentavam das provisões de alimentos dos humanos. (…)

Uma razão mais basilar para os humanos terem aceitado os gatos em casa é os gatos terem ensinado os humanos a amá-los. É este o verdadeiro fundamento da domesticação felina. São tão cativantes, que muitas vezes não se consideram deste mundo. Os humanos precisam de algo além do mundo humano, senão dão em loucos. O animismo, a mais antiga e universal das religiões, cumpre esta necessidade ao reconhecer os animais não humanos como nossos pares espirituais, e mesmo superiores a nós. Os nossos antepassados, que veneravam estas criaturas, conseguiram interagir com uma vida além da sua.

Desde que domesticaram os humanos que os gatos não precisam de caçar alimento. Mas, não deixaram de ser caçadores por natureza e, quando os seres humanos não lhes dão sustento, rapidamente voltam a uma vida de caça. (…) Grandes ou pequenos, os gatos são hiper-carnívoros: em meio selvagem, só comem carne. (…) Caçar e matar o que comem é instintivo nos gatos; as crias, quando brincam, é às caçadas. Os gatos precisam de carne para viver. Só conseguem digerir os ácidos gordos, neles vitais, presentes na carne de outros animais. (…) A relação dos gatos uns com os outros decorre da sua natureza de caçadores solitários. (…) A ausência nos gatos de reconhecimento de líderes pode ser razão para não se submeterem aos humanos. Não obedecem nem veneram os humanos com quem muitos deles coabitam. Confiam em nós, mas são independentes. Se demonstram afeto, não é mero amor por interesse. Se não apreciam a nossa companhia, vão-se embora. Se ficam, é por quererem estar connosco. Também por isso tantos de nós gostam deles. (…)

No fundo, o ódio aos gatos pode ser uma expressão de inveja. Muitos humanos têm uma vida miserável oculta. Torturar outras criaturas alivia, porquanto inflige nelas sofrimento pior. Torturar gatos dá particular contentamento, pois eles têm-no de sobra. O ódio aos gatos é muitas vezes o ódio que os humanos miseráveis têm de si e que redirecionam para criaturas que sabem não ser infelizes. 

Os gatos vivem seguindo a sua natureza, os humanos vivem reprimindo a sua. Paradoxalmente, essa é a sua natureza. (…) 

Os gatos são menosprezados pela aparente indiferença por quem deles cuida. Damos-lhe comida e abrigo, mas não nos consideram donos ou amos deles, e não nos dão nada a não ser a sua companhia. Se os tratarmos com respeito, vão gostando de nós, mas não sentem a nossa falta quando nos vamos embora. Sem o nosso amparo, depressa se tornam outra vez selvagens. Mesmo sem mostrarem grande preocupação com o futuro, parecem destinados a sobreviver-nos. Os gatos, depois de se terem disseminado pelo planeta nas embarcações que os humanos usaram para ampliar o seu domínio, vão andar por cá muito depois de os humanos e todo o seu labor terem desaparecido sem deixar rasto.


in: Filosofia Felina, os Gatos e o Sentido da Vida, de John Gray, Editorial Presença, Lisboa, 2021

18 maio 2022

Landscapes | Museu José Régio



Obras de Arte: Landscapes/Paisagens, de Ana Paula Gaspar, (Ecoline sobre papel de aguarela), em Exposição no Museu José Régio, Portalegre, de 13 de maio a 13 de Agosto 2022