A renúncia ao cavalo é um sacrifício ainda mais custoso: uma fera não passa de um adversário, mas um cavalo era um amigo.
(…)
Não desprezo os homens. (…) Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. (…) O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que eles não têm e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.
A natureza é opressora, dominadora, intensamente manipuladora.
(…)
Mas uma técnica: queria encontrar a charneira em que a nossa vontade se articula ao destino, onde a disciplina secunda a natureza em vez de a refrear.
(…)
Tinha ido passar alguns meses à Grécia. A política, pelo menos na aparência, não influi em nada nessa viagem. Foi uma excursão de prazer e de estudo: trouxe de lá algumas taças gravadas e livros que dividi com Plotina.
(…)
Ia fazer quarenta anos. Se sucumbice nessa altura não restaria de mim mais que um nome numa série de grandes funcionários e uma inscrição grega em honra do arconte de Atenas. (…) Compreendi que poucos homens se realizam antes de morrer: considerei com mais piedade os seus trabalhos interrompidos.
(…)
Antes que passassem dez dias fui acordado em plena noite pela chegada de um mensageiro: reconheci imediatamente um homem de confiança de Plotina. Trazia-me duas missivas. Uma, oficial, comunicava-me que Trajano, incapaz de suportar o movimento do mar, tinha … uma segunda carta, esta secreta, anunciava-me a sua morte, que Plotina me prometia ocultar durante o máximo tempo possível, dando-me assim a vantagem de ser a primeira pessoa prevenida. Parti imediatamente para Selinunte.
(…)
À noite enormes mosquitos zumbiam em volta das luzes. Tentei demonstrar aos Gregos que não eram sempre eles os mais sábios e aos Judeus que não eram de modo algum os mais puros.
A Paz era o meu fim. (…) É tudo tão complicado nas questões humanas.
(…)
Sou como os nossos escultores: o humano satisfaz-me; nele encontro tudo, até o eterno.
Os meus escultores desorientam-se um pouco com as minhas ideias; os piores caíam aqui e ali na languidez ou na ênfase; todavia, todos participavam mais ou menos no sonho.
(…)
Toda a miséria, toda a brutalidade deviam ser interditas como insultos ao belo corpo da humanidade.
(…)
Em vez de voltar para Roma, decidi consagrar alguns anos às províncias gregas e orientais do império: Atenas tornava-se cada vez mais a minha pátria, o meu centro. Empenhava-me em agradar aos Gregos e também em helenizar-me o mais possível …
(…)
Num mundo onde tudo não é mais que turbilhão de forças, danças de átomos, onde tudo está ao mesmo tempo em cima e em baixo, na periferia e no centro, concebia mal a existência de um globo imóvel, de um ponto fixo que não fosse simultaneamente móvel. Outras vezes, os cálculos da precessão dos equinócios, estabelecidos outrora por Hiparco de Alexandria.
(…)
Deitado de costas, com os olhos bem abertos, abandonando por algumas horas todos os cuidados humanos, entreguei-me, do anoitecer à madrugada, àquele mundo de chama e de cristal. Foi a mais bela das minhas viagens. O grande astro da constelação da Lira, estrela polar dos homens que hão de viver dezenas de milhares de anos depois de nós termos deixado de existir, resplandecia por cima da minha cabeça. (…)
in: Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, Livros RTP, Lisboa, 2017
A água do rio continua a correr… O presente espaço é uma partilha de palavras e de imagens, desabafos e expressões com emoção e significado próprio…
21 setembro 2018
11 julho 2018
Velho Sol | Paulo Brighenti
Num poema de Emily Dickinson intitulado I died for Beauty - but was scarce dois mortos encontram-se lado a lado e perguntam-se porque falharam. Um responde: "Eu morri pela beleza" e o outro "eu morri pela verdade". Deram as mãos e esperaram que o musgo lhes tapasse a boca. Este poema serve de inspiração à nova série de trabalhos de Paulo Brighenti apresentada na exposição 'Velho Sol'.
Falam da condição de ser artista, de criar. De viver entre a necessidade de beleza e de verdade. Uma preocupação que vem de um pintor mas que facilmente pode ser transportada para o universo do teatro. Vive-se num limiar entre mundos, numa encenação constante, e é exatamente nessa fronteira que o pulsar criativo emerge (ou morre). Como um Velho Sol que nunca se cansa de subir ao palco, de iluminar, de se iluminar para se escurecer de seguida, e assim até ao fim do tempo.
É também da luz que trata a obra de Paulo Brighenti. De trazer à luz o que estava escondido. Uma procura incessante por algo que está para além da superfície de uma tela, de uma folha de papel, ou de uma placa de gesso através de um explorar dos limites não só do material, mas do próprio médium que trabalha.
in: Velho Sol, de Paulo Brighenti, Casa da Cerca, Almada, Julho de 2018
03 junho 2018
Sigmund Freud | A minha Vida deu um Livro
(…)
Identificar com homens que tiveram duas mães: Édipo, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo e Moisés (…)
Freud viu os seus talentos serem promovidos, como costumam fazer os pais ambiciosos … enquanto favorito declarado usufruindo de todos os privilégios …
Freud foi mais investigador que estudante, um médico incrédulo e empírico, que após uma breve passagem pela filosofia se desviou … e dedicou-se primeiro à área da zoologia.
Com 26 anos Freud era pobre e estava apaixonado - uma situação insustentável … não houve outra alternativa de que senão uma actividade prática clínica - e especialização em neuropatologia …
(…)
O poder da sexualidade …
Quando formulou o conceito da sublimação dos instintos, ele pode recorrer a esta experiência de vida real. Por fim, o motivo de não procurar tanto o prazer próprio, mas antes "evitar a falta de prazer" é um autêntico leitmotiv de toda a obra freudiana.
(…)
Por muito paradoxal que possa parecer, a "loucura" genial de Flieb, os seus caprichos científicos e as suas especulações infundadas (em que Freud se perdeu, constituíram o solo fértil para a criatividade freudiana e para a sua capacidade de diluir a barreira da censura entre as camadas mais próximas do instinto e das emoções da pré-consciência e da consciência, e permitir assim as introspecções e conhecimentos que estão habitualmente sujeitos à repressão, e permanecem inconscientes. flieb foi não somente o catalisador do processo criativo de Freud, mas também do que este designou como "autoanálise", considerada até aos dias de hoje como a hora do nascimento da psicanálise.
(…)
Em 1900 morreu Nietzsche, cuja filosofia de um surgimento planetário do niilismo e de uma reavaliação de todos os valores já se tinham tornado um evento europeu.
(…)
Apesar disto, Freud queria e tinha de prosseguir o seu voo de falcão.
(…)
Obteu em 1885 o doutoramento …
O conceito de sublimação dos instintos … analisou em si próprio os efeitos antidepressivos da cocaína (…)
O filósofo Michel Foucault …
A universidade permaneceu um amor infeliz na sua vida.
(…)
A histeria não era muito levada a sério …
Despertar a memória do processo que estava na origem, estimulando a emoção …
(…)
A teoria do porco-espinho de Schopenhauer …
Prémio Goethe …
Escreveu a Einstein …
Em 1908, o primeiro congresso Internacional de Psicanálise.
(…)
O narcisismo de uma pessoa exerce uma grande atracção sobre os outros que têm consciência de toda a dimensão do seu próprio narcisismo e que cortejam em busca do amor objetal.
(…)
Desvanecia-se a sua pequena esperança de lhe vir a ser atribuído o prémio Nobel da Psicologia
ou da Medicina.
Freud nutrio ainda esta esperança durante mais de dez anos …
Escassos anos mais tarde reconheceria o inevitável: "Fui definitivamente preterido pelo Nobel". E seria mesmo.
(…)
Entre os feitos que não se podem menosprezar na vida de Freud está o facto de a Editora International Psychoanalytischer Verlag, fundada em 1919, se ter revelado um empreendimento bastante bem sucedido permitindo a Freud tomar nas próprias mãos o destino da publicação dos seus escritos. Com o tempo Freud provaria ser um editor apaixonado e competente …
Freud admitiu ser "um rato de biblioteca" e os livros terem sido "a primeira paixão da minha vida" …
É de notar a honestidade e a dimensão humana com que Freud admite uma fraqueza humana em si.
(…)
in: Sigmund Freud, de Hans-Martin Lohmann, Barcelona, Expresso, 2011
Identificar com homens que tiveram duas mães: Édipo, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo e Moisés (…)
Freud viu os seus talentos serem promovidos, como costumam fazer os pais ambiciosos … enquanto favorito declarado usufruindo de todos os privilégios …
Freud foi mais investigador que estudante, um médico incrédulo e empírico, que após uma breve passagem pela filosofia se desviou … e dedicou-se primeiro à área da zoologia.
Com 26 anos Freud era pobre e estava apaixonado - uma situação insustentável … não houve outra alternativa de que senão uma actividade prática clínica - e especialização em neuropatologia …
(…)
O poder da sexualidade …
Quando formulou o conceito da sublimação dos instintos, ele pode recorrer a esta experiência de vida real. Por fim, o motivo de não procurar tanto o prazer próprio, mas antes "evitar a falta de prazer" é um autêntico leitmotiv de toda a obra freudiana.
(…)
Por muito paradoxal que possa parecer, a "loucura" genial de Flieb, os seus caprichos científicos e as suas especulações infundadas (em que Freud se perdeu, constituíram o solo fértil para a criatividade freudiana e para a sua capacidade de diluir a barreira da censura entre as camadas mais próximas do instinto e das emoções da pré-consciência e da consciência, e permitir assim as introspecções e conhecimentos que estão habitualmente sujeitos à repressão, e permanecem inconscientes. flieb foi não somente o catalisador do processo criativo de Freud, mas também do que este designou como "autoanálise", considerada até aos dias de hoje como a hora do nascimento da psicanálise.
(…)
Em 1900 morreu Nietzsche, cuja filosofia de um surgimento planetário do niilismo e de uma reavaliação de todos os valores já se tinham tornado um evento europeu.
(…)
Apesar disto, Freud queria e tinha de prosseguir o seu voo de falcão.
(…)
Obteu em 1885 o doutoramento …
O conceito de sublimação dos instintos … analisou em si próprio os efeitos antidepressivos da cocaína (…)
O filósofo Michel Foucault …
A universidade permaneceu um amor infeliz na sua vida.
(…)
A histeria não era muito levada a sério …
Despertar a memória do processo que estava na origem, estimulando a emoção …
(…)
A teoria do porco-espinho de Schopenhauer …
Prémio Goethe …
Escreveu a Einstein …
Em 1908, o primeiro congresso Internacional de Psicanálise.
(…)
O narcisismo de uma pessoa exerce uma grande atracção sobre os outros que têm consciência de toda a dimensão do seu próprio narcisismo e que cortejam em busca do amor objetal.
(…)
Desvanecia-se a sua pequena esperança de lhe vir a ser atribuído o prémio Nobel da Psicologia
ou da Medicina.
Freud nutrio ainda esta esperança durante mais de dez anos …
Escassos anos mais tarde reconheceria o inevitável: "Fui definitivamente preterido pelo Nobel". E seria mesmo.
(…)
Entre os feitos que não se podem menosprezar na vida de Freud está o facto de a Editora International Psychoanalytischer Verlag, fundada em 1919, se ter revelado um empreendimento bastante bem sucedido permitindo a Freud tomar nas próprias mãos o destino da publicação dos seus escritos. Com o tempo Freud provaria ser um editor apaixonado e competente …
Freud admitiu ser "um rato de biblioteca" e os livros terem sido "a primeira paixão da minha vida" …
É de notar a honestidade e a dimensão humana com que Freud admite uma fraqueza humana em si.
(…)
in: Sigmund Freud, de Hans-Martin Lohmann, Barcelona, Expresso, 2011
13 maio 2018
Desdobráveis | Em Exposição …
Um desdobrável é um objecto de comunicação, e tem como objectivo despertar o receptor para a multidimensionalidade através de um estímulo visual.
Um objecto de comunicação visa proporcionar a um indivíduo um prolongamento da memória através da visualização do layout e dos seus conteúdos informativos.
Deste modo apresentam-se alguns dos projectos desenvolvidos no âmbito dos conteúdos do primeiro ano do curso de Design de Comunicação.
A partir de um núcleo de informação específica, encontram-se um formato, uma escala, uma forma, uma dobra que permita a multidimensionalidade, uma harmonia cromática, a legibilidade, a grelha de orientação visual, a tipografia, a paleta de cores, um grafismo e toda a estrutura para uma composição visual planeada e orientada para um receptor da mensagem.
in: Projectos do 1º Ano do curso de Design de Comunicação, com Orientação de Ana Gaspar, ESTG/IPP, Portalegre, 11 de Abril a 11 de Maio 2018
17 abril 2018
As 4 Estações
A passagem do Tempo é uma das maravilhas da Natureza, apenas temos uma noção temporal através desta passagem lenta e harmoniosa. Conseguimos observar as diferenças em tons, transformadas em matéria.
No Outono tudo morre, cai. Castanho, Vermelho e a Terra a receber toneladas de matéria orgânica em queda livre.
No Inverno tudo adormecido, envolvência. Preto, Branco e a Terra a acolher a matéria orgânica em putrefação.
Na primavera tudo acorda, desperta. Verde, Amarelo e a Terra a lançar para fora o resultado da sua transformação escondida aos nossos olhos humanos.
No Verão tudo cresce, amadurece. Laranja, Vermelho e a Terra a aquecer toda a matéria e dar-lhe o resultado nos frutos saborosos e coloridos.
E…
O ciclo repete-se interminavelmente …
Desde criança que assisto a estas mudanças, desde as que observo na Natureza, como aquelas que sinto no meu corpo e na minha sensibilidade feminina.
Hoje, ao fim de várias leituras de autores, cuja importância maior foi o seu contributo para o meu amadurecimento, enquanto Mulher, revejo-me no resultado deste conjunto de "4 Estações".
A obra é constituída por 4 desenhos do Sol, uma homenagem a este ponto de luz no céu, cuja importância é significativa na Vida na Terra à milhões de anos de Luz.
Tratam-se de 4 manchas de cor que resultaram de uma linha contínua a partir de um centro óptico, um desenho a pastel de óleo.
O Preto é o Inverno, o Vermelho é o Outono, o Laranja é o Verão, e o Amarelo é a Primavera.
in: 4 Estações, de Ana Paula Gaspar, Exposição na ESTG, Portalegre, 21 Fevereiro a 11 Abril de 2018
03 abril 2018
A Vida Humana | Miséria
Biblioterapia: Curar-se, lendo todas as obras de Filosofia.
(…)
Êxtase no acto da cópula, É isso! É essa a verdadeira essência e cerne de tudo, a meta e a finalidade de toda a existência.
(…)
A Vida é uma coisa miserável. Decidi passar a vida a pensar nisso.
(…)
Schopenhauer considerava que era essa a condição humana universal: desejar, saciar-se, entediar-se e desejar outra vez.
(…)
Schopenhauer apreciava as técnicas de meditação orientais e o destaque que estas dão à libertação da mente, de ver através da ilusão e aliviar o sofrimento aprendendo a arte do desapego. Aliás foi ele quem trouxe o pensamento oriental para a filosofia do Ocidente.
(…)
… Quantos mais amigos se tem, mais pesada fica a vida e mais sofre a pessoa quando os perde. Schopenhauer e o budismo dizem que não devemos apegar-nos a nada e …
(…)
É interessante que, além da vida real, o homem tem sempre uma segunda vida abstracta em que, com calma deliberação, o que antes o deixava nervoso e irritado parece frio, sem graça e distante: ele é mero espectador e observador.
(…)
As grandes dores fazem com que as menores mal se sintam e, na falta das grandes, até o menor desgosto nos atormenta.
(…)
A Flor respondeu: - Tolo! Imaginas que abro as minhas pétalas para que as vejam? Eu desabrocho para mim própria porque isso me agrada, e não para agradar aos outros. A minha alegria consiste no meu ser e no meu desabrochar.
(…)
A filosofia é uma estrada isolada numa grande montanha (…) e quanto mais subimos, mais isolados ficamos. Quem a percorre não a deve temer, mas deixar tudo para trás e abrir caminho, confiante, na neve do Inverno. (…) Em breve vê o mundo lá em baixo, as suas praias e pântanos desaparecerem de vista, os seus pontos desiguais aplanam-se, os seus sons estridentes já não lhe chegam aos ouvidos. E a sua redondeza surge ao caminhante, que recebe sempre o ar fresco e puro da montanha e desfruta do sol quando tudo, lá em baixo, está mergulhado na escuridão da noite.
(…)
Num frio dia de Inverno, alguns porco-espinhos juntaram-se para se aquecerem com o calor dos seus corpos, para não enregelarem. Mas depressa viram que se estavam a picar e afastaram-se. Quando de novo ficaram com frio e se juntaram, repetiu-se a necessidade de se manterem separados até descobrirem a distância adequada a que se podiam tolerar. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas os seus múltiplos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem.
(…)
Schopenhauer lamenta qualquer hora desperdiçada no convívio ou em conversa com os outros. Diz: 'É melhor não dizer nada do que ter um diálogo estéril e parvo em conversas com bípedes.' Lamenta também ter procurado a vida inteira 'um verdadeiro ser humano mas encontrado apenas miseráveis canalhas, de inteligência limitada, mau coração e espírito mesquinho'. Numa nota autobiográfica, afirma: ' Quase todos os contratos com os homens são uma contaminação, uma violação. Chegámos a um mundo habitado por uma classe de criaturas lastimáveis à qual não pertencemos. Devemos estimar e honrar os poucos que são melhores, nascemos para instruir os restantes, não para nos associarmos a eles.'
(…)
A primeira regra para não ser um brinquedo nas mãos de qualquer velhaco, nem ridicularizado por qualquer imbecil, é manter-se reservado e distante.
(…)
Quando tinha trinta anos, estava cansado e aborrecido por ter de considerar iguais a mim pessoas que nada tinham que ver comigo.
(…)
Poucas coisas deixam as pessoas tão satisfeitas como ouvir algum problema ou constatar alguma fraqueza em ti.
(…)
A vida pode ser comparada a um bordado que no começo da vida vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos.
(…)
Os escritos e ideias deixados em livro por homens como eu são o meu maior prazer na vida. Sem livros, teria desesperado há muito tempo.
(…)
Quando nasce um homem como eu, só pode desejar uma coisa: que consiga ser sempre ele mesmo e viver para os seus dons intelectuais.
(…)
Ao chegar ao fim da vida, nenhum homem sincero e na posse das suas faculdades vai desejar voltar a viver. Preferirá morrer para sempre.
(…)
Consigo suportar a ideia de que, poucas horas depois de morrer, os vermes comerão o meu corpo, mas estremeço ao imaginar professores a criticar a minha filosofia.
(…)
in: A Cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom, Saída de Emergência, 2016
(…)
Êxtase no acto da cópula, É isso! É essa a verdadeira essência e cerne de tudo, a meta e a finalidade de toda a existência.
(…)
A Vida é uma coisa miserável. Decidi passar a vida a pensar nisso.
(…)
Schopenhauer considerava que era essa a condição humana universal: desejar, saciar-se, entediar-se e desejar outra vez.
(…)
Schopenhauer apreciava as técnicas de meditação orientais e o destaque que estas dão à libertação da mente, de ver através da ilusão e aliviar o sofrimento aprendendo a arte do desapego. Aliás foi ele quem trouxe o pensamento oriental para a filosofia do Ocidente.
(…)
… Quantos mais amigos se tem, mais pesada fica a vida e mais sofre a pessoa quando os perde. Schopenhauer e o budismo dizem que não devemos apegar-nos a nada e …
(…)
É interessante que, além da vida real, o homem tem sempre uma segunda vida abstracta em que, com calma deliberação, o que antes o deixava nervoso e irritado parece frio, sem graça e distante: ele é mero espectador e observador.
(…)
As grandes dores fazem com que as menores mal se sintam e, na falta das grandes, até o menor desgosto nos atormenta.
(…)
A Flor respondeu: - Tolo! Imaginas que abro as minhas pétalas para que as vejam? Eu desabrocho para mim própria porque isso me agrada, e não para agradar aos outros. A minha alegria consiste no meu ser e no meu desabrochar.
(…)
A filosofia é uma estrada isolada numa grande montanha (…) e quanto mais subimos, mais isolados ficamos. Quem a percorre não a deve temer, mas deixar tudo para trás e abrir caminho, confiante, na neve do Inverno. (…) Em breve vê o mundo lá em baixo, as suas praias e pântanos desaparecerem de vista, os seus pontos desiguais aplanam-se, os seus sons estridentes já não lhe chegam aos ouvidos. E a sua redondeza surge ao caminhante, que recebe sempre o ar fresco e puro da montanha e desfruta do sol quando tudo, lá em baixo, está mergulhado na escuridão da noite.
(…)
Num frio dia de Inverno, alguns porco-espinhos juntaram-se para se aquecerem com o calor dos seus corpos, para não enregelarem. Mas depressa viram que se estavam a picar e afastaram-se. Quando de novo ficaram com frio e se juntaram, repetiu-se a necessidade de se manterem separados até descobrirem a distância adequada a que se podiam tolerar. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas os seus múltiplos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem.
(…)
Schopenhauer lamenta qualquer hora desperdiçada no convívio ou em conversa com os outros. Diz: 'É melhor não dizer nada do que ter um diálogo estéril e parvo em conversas com bípedes.' Lamenta também ter procurado a vida inteira 'um verdadeiro ser humano mas encontrado apenas miseráveis canalhas, de inteligência limitada, mau coração e espírito mesquinho'. Numa nota autobiográfica, afirma: ' Quase todos os contratos com os homens são uma contaminação, uma violação. Chegámos a um mundo habitado por uma classe de criaturas lastimáveis à qual não pertencemos. Devemos estimar e honrar os poucos que são melhores, nascemos para instruir os restantes, não para nos associarmos a eles.'
(…)
A primeira regra para não ser um brinquedo nas mãos de qualquer velhaco, nem ridicularizado por qualquer imbecil, é manter-se reservado e distante.
(…)
Quando tinha trinta anos, estava cansado e aborrecido por ter de considerar iguais a mim pessoas que nada tinham que ver comigo.
(…)
Poucas coisas deixam as pessoas tão satisfeitas como ouvir algum problema ou constatar alguma fraqueza em ti.
(…)
A vida pode ser comparada a um bordado que no começo da vida vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos.
(…)
Os escritos e ideias deixados em livro por homens como eu são o meu maior prazer na vida. Sem livros, teria desesperado há muito tempo.
(…)
Quando nasce um homem como eu, só pode desejar uma coisa: que consiga ser sempre ele mesmo e viver para os seus dons intelectuais.
(…)
Ao chegar ao fim da vida, nenhum homem sincero e na posse das suas faculdades vai desejar voltar a viver. Preferirá morrer para sempre.
(…)
Consigo suportar a ideia de que, poucas horas depois de morrer, os vermes comerão o meu corpo, mas estremeço ao imaginar professores a criticar a minha filosofia.
(…)
in: A Cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom, Saída de Emergência, 2016
09 março 2018
Albert Einstein | A Pessoa …
É um jovem inteligente, Einstein, muito inteligente. Mas, tem um grande defeito - não admite que lhe digam nada!
(…)
Ninguém é profeta na sua Terra.
(…)
Vivo a minha paixão com muita alegria e êxito. (…) Sou muito próximo dos meus alunos e espero conseguir estimular alguns.
(…)
Fui efectivamente alvo de alguns sentimentos de ódio. Mas, nunca me atingiram, pois vinham de um outro mundo, com o qual em nada me identifico.
(…)
Ele nunca foi um homem de seguir normas. O seu isolamento fazia-se notar em tudo.
(…)
O seu forte não era lidar com pessoas.
(…)
Einstein considerava a curiosidade a fonte da criação. Esta surgiria em todas as crianças saudáveis e expressar-se-ia como um 'interesse afectuoso por um objecto ou uma necessidade de verdade e compreensão. Seria a característica psicológica mais forte, sem a qual Einstein não teria conseguido criar a sua obra. Esta curiosidade seria induzida pelo espanto, pela admiração, pelo minari que já Platão descrevia apaixonadamente. O espanto estaria no 'berço de toda a ciência e arte'. (…) Quando se esgota a curiosidade, uma pessoa, está, por assim dizer 'morta'.
(…)
Qualquer forma de pressão, qualquer tipo de violência impede o desenvolvimento do Eu, impede a curiosidade, o pensamento autónomo, a autoconfiança, a franqueza, todo o 'estilo de vida saudável'. A liberdade seria o terreno fértil onde tudo o que fosse criativo pudesse germinar.
(…)
in: Albert Einstein, de Johannes Wickert, Barcelona, 2011
10 janeiro 2018
Um Olhar, Um Sentir
Já não sei em que sou especialista…
Arte
Pensamento
Filosofia
Natureza
…
Os seres humanos já não me atraem
Apenas as árvores
Algumas peças artísticas
O Sol
A Lua
…
O único encanto é olhar um céu estrelado à noite
O voo dos pássaros
E a música
…
Sou apenas uma forma incerta a passar por um corpo efémero…
14 dezembro 2017
O Movimento em Círculos | Exposição
O Sol e a Lua, interligados pelo ritmo de um movimento contínuo…
Ambos tão presentes e tão influentes no meu corpo feminino…
A diversidade de possibilidades de luz entre cada um deles, um nasce, um dorme, e um constante renovar de lugares, uma repetida e constante paleta de cores, um modo de olhar o universo, entre ambos a passagem do tempo, um tempo repetido infinitamente no espaço…
Enquanto, eu, aqui contemplando e escrevendo através das palavras, uma procura de mim, e uma interligação com estes ritmos diários, semanais, anuais até um dia me transformar também eu, em átomos redondos e em contínuo movimento…
in: O Movimento em Círculos, Exposição de Ana Gaspar, Centro de Interpretativo da Identidade Local, em Esperança, C. M. de Arronches, Dezembro de 2017
08 dezembro 2017
A Vida é uma Viagem | Exposição
A caligrafia na dança e na arte da escrita emocional.
A paixão dos ritmos, no ciclo da vida, o tempo que se repete infinitamente…
As viagens continuam e as palavras fluem como rios…
O Sol, a Lua, o Tempo na criação, e o universo na matéria.
O espaço vazio e o espaço preenchido, no cruzar dos dois encontra-se o equilíbrio.
A vida é uma Viagem com um tempo infinito, definido entre uma forma passada e uma nova transformação, uma viagem plena de ritmos, movimentos e sequências criadas pela viagem em si…
in: A Vida é uma Viagem, Biblioteca Municipal de Ferreira do Zezêre, Novembro de 2017.
22 setembro 2017
Da Natureza das Coisas | Lucrécio
Tal como na Natureza também Lucrécio é simultaneamente sombrio e luminoso.
…
Uma obra mais vasta de Epicuro, que se perdeu, os Trinta e Sete Livros … "Sobre a Natureza", título comum à obra de Empédocles, cuja formação poética é imitada por Lucrécio, e que está na origem do título da obra.
…
Na Villa dos Papiros, em Herculano, foram recuperados
…
E eis que até tu procuras afastar-te de nós uma vez ou outra, vencido pelas palavras assustadoras dos adivinhos! É na realidade, quantas fantasias eles são capazes de inventar, que podem mesmo alterar os critérios de comportamento e perturbar com o medo todas as alegrias da tua existência!
…
Sobretudo quando é necessário tratar de muitos assuntos com palavras novas, por causa da pobreza da língua e da novidade dos assuntos. Mas a tua virtude e o prazer que espero da tua suave amizade persuade-me a suportar qualquer canseira e leva-me a passar acordado noites tranquilas, procurando com que palavras e com que versos poderei finalmente espargir diante da tua mente uma luz clara, com a qual possas perscrutar coisas profundamente escondidas.
…
Portanto, nenhuma coisa regressa ao nada, mas todos regressam por desagregação aos átomos da matéria.
…
Portanto, não perece completamente tudo aquilo que parece morrer, porque a Natureza forma de novo uma coisa a partir de outra, e não permite que nada seja gerado senão com a ajuda da morte de outra coisa.
…
E impedirá que aquele que anda errante duvide e investigue constantemente sobre o universo e desconfie do que nós dizemos.
…
Do mesmo modo, o tempo em si não existe, mas a sua percepção resulta das próprias coisas, aquilo que passou no tempo, depois que coisa está agora presente e ainda o que depois se seguirá.
…
in: Da Natureza das Coisas, de Lucrécio, Edição Relógio D'Água, Lisboa, 2015
21 julho 2017
Metafísica do Amor | Arthur Schopenhauer
… no amor, apaixonado, é importante, em dado casal, que o grau de masculinidade do homem corresponda ao grau de feminilidade da mulher. Ninguém é cem por cento homem, nem cem por cento mulher. Do encontro feliz destas duas proporções, acende-se e flameja a chama amorosa. Mas, diz Schopenhauer, o inteiro ajuste desse mecanismo é inconsciente, "é algo sentido instintivamente".
in: Metafísica do Amor, Metafísica da Morte, de Arthur Schopenhauer, Martins Fontes, São Paulo, 2000
04 junho 2017
O Tempo … | Exposição
As palavras que dão voz à Poesia.
A caligrafia na dança e na arte da escrita emocional.
A paixão dos ritmos, no ciclo da vida, o tempo que se repete infinitamente…
As viagens continuam e as palavras fluem como rios …
O Sol, a Lua, o Tempo na criação, o universo da matéria.
O espaço vazio e espaço preenchido, no cruzar dos dois encontra-se o equilíbrio.
in: O Tempo …, Exposição de Ana Paula Gaspar, Galeria da Biblioteca Municipal de Palmela, 3 de Junho a 12 de Agosto, 2017.
24 abril 2017
Procura-se um Coração … | Exposição
… A Vida é um Turbilhão de Emoções …
… As Árvores morrem de pé …
… Procura-se um Coração …
Esta exposição revela-se num conjunto de 10 obras de arte.
Entre elas interliga-se um registo de poesia visual e um conjunto de colagens em papel japonês.
A relação entre o interior e o exterior, uma troca constante entre emoções que não se vêm e aquelas que se vêm, as lágrimas, um sorriso…
A vida vai correndo como um rio…
Um dia serei areia no deserto…
Um dia serei odor a terra molhada…
Entre uma escrita de diário e uma intíma demonstração de texturas, cores e laços entre recortes e colagens, numa sintonia de ritmos e de expressões próprias de um contexto e de um momento único.
in: Procura-se um Coração …, de Ana Gaspar, no Museu Municipal de Portalegre, 23 de Março a 29 de Abril de 2017.
19 fevereiro 2017
A Tua Voz é Música … | Artigo
Actualmente a maioria
da informação está no mundo digital, o professor no entanto é real, e devido ao
facto de estar presente e perante uma “plateia” faz toda a diferença no
processo de comunicação e na transferência de informação aos respectivos
receptores, ou seja, os alunos.
A voz é extremamente importante para desencadear o processo de audição, tal como num processo de ouvir música.
A voz do professor na passagem de informação, numa aula é antes de tudo emocional, essa carga de emoções “cantadas” que visam vivenciar uma experiência emocional daquele momento e que implicam a activação da memória.
A voz é extremamente importante para desencadear o processo de audição, tal como num processo de ouvir música.
A voz do professor na passagem de informação, numa aula é antes de tudo emocional, essa carga de emoções “cantadas” que visam vivenciar uma experiência emocional daquele momento e que implicam a activação da memória.
A voz de cada pessoa possui um ritmo, um
timbre, uma frequência específica, desde aguda a grave.Tal como no contexto da música e nos
seus constituintes de padrão, a voz tem uma sequência que transmite um
sentimento agradável ou desagradável.
Na construção inteligível de uma mensagem são referenciais a estrutura do ouvido. Criando-se uma relação entre emissor e receptor, resultando a partir destes uma interpretação da mensagem.
Na construção inteligível de uma mensagem são referenciais a estrutura do ouvido. Criando-se uma relação entre emissor e receptor, resultando a partir destes uma interpretação da mensagem.
Através da comunicação oral são
estabelecidos laços de carácter auditivo, tais como as saudades de um conjunto
de sons. Estes laços estabelecidos proporcionam o sentimento de entrega, ou
seja, a chegada e a partida, o processo, o ensino, a aprendizagem do docente, a
partilha com o aluno. Ocorre deste modo, um ciclo de movimentações e de ritmos,
tal como na música, a voz tem uma importância maior numa sala de aula, como
propagador de uma mensagem.
O timbre, o ritmo, a respiração, a melodia, estão todos envolvidos e transmitem uma emoção, com paixão ou sem paixão, fazendo toda a diferença no processo de ensino e no modo de relacionamento.
Fazendo a partir deste âmbito, uma viagem no tempo e de modo a entender a sua origem, será talvez importante estabelecer uma associação com a questão do som e da voz… O som algo que se fez sentir no choque de partículas à milhões de anos…
A voz é um elemento estrutural no processo de aprendizagem. Fomos criando mecanismos de resposta cujo contributo nos permitiu desenvolver todo um sistema cognitivo, sensitivo e estético, o que nos possibilitou uma evolução em relação às outras espécies, e o prazer que sentimos está relacionado com a aquisição de conhecimento.
in: A Tua Voz é Música para os Meus Ouvidos, de Ana Gaspar, 5º EIMAD, Castelo Branco, 3 de Fevereiro de 2017
O timbre, o ritmo, a respiração, a melodia, estão todos envolvidos e transmitem uma emoção, com paixão ou sem paixão, fazendo toda a diferença no processo de ensino e no modo de relacionamento.
Fazendo a partir deste âmbito, uma viagem no tempo e de modo a entender a sua origem, será talvez importante estabelecer uma associação com a questão do som e da voz… O som algo que se fez sentir no choque de partículas à milhões de anos…
A voz é um elemento estrutural no processo de aprendizagem. Fomos criando mecanismos de resposta cujo contributo nos permitiu desenvolver todo um sistema cognitivo, sensitivo e estético, o que nos possibilitou uma evolução em relação às outras espécies, e o prazer que sentimos está relacionado com a aquisição de conhecimento.
in: A Tua Voz é Música para os Meus Ouvidos, de Ana Gaspar, 5º EIMAD, Castelo Branco, 3 de Fevereiro de 2017
12 janeiro 2017
Poema | Ana Gaspar
Poema:
… um dia vou morrer … e a tudo quanto existe me hei-de unir …
… serei erva no meu jardim, serei água no rio … serei chuva sobre a terra …
… serei odor a terra molhada … um dia serei poeira no deserto …
… afinal sou a força da natureza sob a forma de mulher …
in: Um Dia vou Morrer, de Ana Gaspar (poema em português com tradução para francês por um amigo), Quinta do Anjo, 15 de Maio de 2015.
19 dezembro 2016
Roma, 23 de Dezembro de 1903 | Rainer Maria Rilke
Meu caro Senhor Kappus,
não há-de ficar sem uma saudação da minha parte, agora que estamos à beira do Natal, e numa altura em que o Senhor, em plena festividade, suporta a sua solidão mais dificilmente que o costume. Mas ao notar que ela é grande, regozije-se com isso; pois o que seria (pergunte-se a si mesmo) uma solidão que não tivesse grandeza; só há uma solidão, e essa é grande e não é difícil de suportar, e quase todos a experimentam horas em que muito gostariam de a trocar por uma qualquer convivência, por mais banal e desprezível que seja, pela aparência de uma limitada harmonia com o primeiro que apareça, com o mais indigno… Mas talvez sejam precisamente essas as horas em que a solidão cresce; porque o seu crescer é doloroso como o crescer dos adolescentes e triste como o começo das primaveras. Mas não permita que isso o desoriente. Aquilo que faz falta é apenas isto: solidão, grande solidão interior. Entrar dentro de si mesmo e não estar com ninguém durante horas, - é isso que é preciso ser capaz de alcançar. Ficar solitário, como se ficava solitário em criança, enquanto os adultos andavam para cá e para lá, enredados em coisas que pareciam importantes e grandes, porque as pessoas grandes pareciam tão ocupadas e porque nada se compreendia dos seus afazeres.
E quando um dia se percebe que as suas ocupações são miseráveis, que as suas profissões são algo de entorpecido e que já não estão ligadas à vida, então por que motivo não havemos de continuar a olhá-las, à maneira das crianças, como coisa estranha, a partir da profundidade do nosso próprio mundo, a partir da distância da nossa solidão que é, ela mesma, trabalho e dignidade e profissão? Por que motivo querer trocar o sábio não entender de uma criança pelas atitudes defensivas e pelo desprezo, já que não-entender é um estar só, ao passo que a defensiva e o desprezo são participação naquilo de que uma pessoa quer separar-se à custa desses meios.
Pense, caro Senhor, no mundo que transporta em si, e chame a esse pensamento o que quiser; seja recordação da infância de cada um ou anseio pelo próprio futuro, - esteja somente atento ao que se ergue dentro de si e coloque-o acima de tudo aquilo de que se apercebe à sua volta. O seu acontecer mais interior merece todo o seu amor, é nele que tem de trabalhar, seja de que modo for, e não perder demasiado tempo e demasiada coragem a clarificar a sua atitude para com as pessoas. Afinal, quem é que lhe diz que tem uma atitude? (…)
in: Cartas a um jovem Poeta, de Rainer Marie Rilke, Antígona, 2016, p. 61 a 65.
não há-de ficar sem uma saudação da minha parte, agora que estamos à beira do Natal, e numa altura em que o Senhor, em plena festividade, suporta a sua solidão mais dificilmente que o costume. Mas ao notar que ela é grande, regozije-se com isso; pois o que seria (pergunte-se a si mesmo) uma solidão que não tivesse grandeza; só há uma solidão, e essa é grande e não é difícil de suportar, e quase todos a experimentam horas em que muito gostariam de a trocar por uma qualquer convivência, por mais banal e desprezível que seja, pela aparência de uma limitada harmonia com o primeiro que apareça, com o mais indigno… Mas talvez sejam precisamente essas as horas em que a solidão cresce; porque o seu crescer é doloroso como o crescer dos adolescentes e triste como o começo das primaveras. Mas não permita que isso o desoriente. Aquilo que faz falta é apenas isto: solidão, grande solidão interior. Entrar dentro de si mesmo e não estar com ninguém durante horas, - é isso que é preciso ser capaz de alcançar. Ficar solitário, como se ficava solitário em criança, enquanto os adultos andavam para cá e para lá, enredados em coisas que pareciam importantes e grandes, porque as pessoas grandes pareciam tão ocupadas e porque nada se compreendia dos seus afazeres.
E quando um dia se percebe que as suas ocupações são miseráveis, que as suas profissões são algo de entorpecido e que já não estão ligadas à vida, então por que motivo não havemos de continuar a olhá-las, à maneira das crianças, como coisa estranha, a partir da profundidade do nosso próprio mundo, a partir da distância da nossa solidão que é, ela mesma, trabalho e dignidade e profissão? Por que motivo querer trocar o sábio não entender de uma criança pelas atitudes defensivas e pelo desprezo, já que não-entender é um estar só, ao passo que a defensiva e o desprezo são participação naquilo de que uma pessoa quer separar-se à custa desses meios.
Pense, caro Senhor, no mundo que transporta em si, e chame a esse pensamento o que quiser; seja recordação da infância de cada um ou anseio pelo próprio futuro, - esteja somente atento ao que se ergue dentro de si e coloque-o acima de tudo aquilo de que se apercebe à sua volta. O seu acontecer mais interior merece todo o seu amor, é nele que tem de trabalhar, seja de que modo for, e não perder demasiado tempo e demasiada coragem a clarificar a sua atitude para com as pessoas. Afinal, quem é que lhe diz que tem uma atitude? (…)
in: Cartas a um jovem Poeta, de Rainer Marie Rilke, Antígona, 2016, p. 61 a 65.
19 novembro 2016
Flores Murchas | Sebastião da Gama
… um cheiro doce
Que vai pra longe; longe de viagem,
Deixando as flores murchas pelo chão
Servindo apenas p'ra um herbolário
Pra estudo ou somente colecção.
in: Flores Murchas, de Sebastião da Gama, in: Diário, Obras Completas de Sebastião da Gama, p. 230.
18 outubro 2016
A Potência de Existir | Michel Onfray
A escultura de si.
Conservemos a antiga metáfora da escultura: Plotino utiliza-a nas Eneidas e incita cada um de nós a ser o escultor da sua própria estátua. Porque, a priori, o ser está vazio e oco. A posteriori, ele é o que foi feito e o que dele se faz. Trata-se de uma formulação moderna: a existência precede a essência. Cada um segue sendo, neste sentido, parcialmente responsável pelo seu ser e pelo seu futuro. Sucede o mesmo com o bloco de mármore bruto e sem identidade, enquanto o escopro do escultor não se decidir a conceder-lhe uma forma. Esta última não está oculta, em potência, na matéria, mas é produzida com o desenvolvimento de um trabalho. A obra constrói-se dia após dia, hora após hora, segundo após segundo. Cada instante contribui para o futuro.
Que se deve procurar produzir? Um Eu, um Si mesmo, uma Subjectividade radical. Uma identidade sem duplo. Uma realidade individual. Uma pessoa recta. Um estilo notável. Uma força única. Uma potência magnífica. Um cometa que traça um caminho inédito. Uma energia que inaugura um percurso luminoso no caos do cosmos. Uma bela individualidade, um temperamento, um carácter. Sem querer a obra-prima, sem visar a perfeição - o génio, o herói ou o santo - é necessário tender para a epifania de uma soberania inédita.
A tradição filosófica declara não gostar do Eu; ela apregoa, em todas as circunstâncias, o seu ódio ao Si. Muitos filósofos contemporâneos defendem, sem pestanejar, esta posição teórica, disseminando-se depois em obras e artigos com vista a oferecer os detalhes da infância própria, fornecer a biografia e dar testemunhos sobre a sua formação intelectual e primeira juventude. (…)
Esta esquizofrenia dá lugar a uma contradição: se eles estão certos ao condenarem o eu, então que se calem; se falam na primeira pessoa, então que façam concordar o seu pensamento com os seus desabafos. Sou a favor de uma necessária revisão teórica e de uma continuação da auto-análise existencial que, a meu ver, permite uma melhor compreensão da origem de um pensamento, daquilo que ele é e da direcção na qual ele se encaminha.
in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Editora Campo da Comunicação, p. 97 e 98.
Conservemos a antiga metáfora da escultura: Plotino utiliza-a nas Eneidas e incita cada um de nós a ser o escultor da sua própria estátua. Porque, a priori, o ser está vazio e oco. A posteriori, ele é o que foi feito e o que dele se faz. Trata-se de uma formulação moderna: a existência precede a essência. Cada um segue sendo, neste sentido, parcialmente responsável pelo seu ser e pelo seu futuro. Sucede o mesmo com o bloco de mármore bruto e sem identidade, enquanto o escopro do escultor não se decidir a conceder-lhe uma forma. Esta última não está oculta, em potência, na matéria, mas é produzida com o desenvolvimento de um trabalho. A obra constrói-se dia após dia, hora após hora, segundo após segundo. Cada instante contribui para o futuro.
Que se deve procurar produzir? Um Eu, um Si mesmo, uma Subjectividade radical. Uma identidade sem duplo. Uma realidade individual. Uma pessoa recta. Um estilo notável. Uma força única. Uma potência magnífica. Um cometa que traça um caminho inédito. Uma energia que inaugura um percurso luminoso no caos do cosmos. Uma bela individualidade, um temperamento, um carácter. Sem querer a obra-prima, sem visar a perfeição - o génio, o herói ou o santo - é necessário tender para a epifania de uma soberania inédita.
A tradição filosófica declara não gostar do Eu; ela apregoa, em todas as circunstâncias, o seu ódio ao Si. Muitos filósofos contemporâneos defendem, sem pestanejar, esta posição teórica, disseminando-se depois em obras e artigos com vista a oferecer os detalhes da infância própria, fornecer a biografia e dar testemunhos sobre a sua formação intelectual e primeira juventude. (…)
Esta esquizofrenia dá lugar a uma contradição: se eles estão certos ao condenarem o eu, então que se calem; se falam na primeira pessoa, então que façam concordar o seu pensamento com os seus desabafos. Sou a favor de uma necessária revisão teórica e de uma continuação da auto-análise existencial que, a meu ver, permite uma melhor compreensão da origem de um pensamento, daquilo que ele é e da direcção na qual ele se encaminha.
in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Editora Campo da Comunicação, p. 97 e 98.
14 setembro 2016
Arts in Action | Portalegre 2016
Em Portalegre, uma cidade no Alto Alentejo de Portugal, recebeu em pleno verão de 2016, cerca de 70 jovens provenientes da Alemanha, Bélgica, Itália, Portugal e Suécia. Um projecto internacional desenvolvido e orientado por Altino Barradas, oriundo desta cidade e apaixonado pelos encontros multiculturais e diversificados um pouco por todo o mundo.
Um encontro designado por Arts in Action, que sob a forma de Residência Artística, iria permitir uma troca de experiências e de acções criativas em volta da cultura gastronómica, artística, citadina, de linguagens, de expressões corporais, intelectuais, de reconhecimento do território variado em ofertas, cuja dinâmica implica um crescimento afectivo e de partilha vasta.
Para este encontro foi definida a temática da Tapeçaria de Portalegre, trata-se de um dos patrimónios mais relevantes desta cidade, e neste projecto foram incluídos ambos os locais da cidade onde se podem encontrar as tapeçarias: a Manufactura de Portalegre e o Museu das Tapeçarias de Portalegre.
Após o convite de Fátima Reis para criar e orientar um Ensemble de
Artes para esta iniciativa, e deste modo integrar ainda uma equipa de mais cinco ensambles: ginástica, canto, dança, percussão e vídeo; foi desde logo planeada uma estratégia de modo a dar resposta ao período de tempo necessário ao desenvolvimento das actividades criativas.
O projecto tinha desde o seu início como objectivo principal uma mostra pública na cidade de Portalegre. Ou seja, os resultados do trabalho diário de todos os ensambles seriam apresentados no dia 3 de Agosto de 2016, pelas 22h, na Praça da República, na cidade de Portalegre.
O tema decidido
para o resultado final foi a Tapeçaria de Portalegre e o sub-tema: a manufactura da tapeçaria, ou seja, o seu processo de
construção no tear. Deste modo, o tear, as tecedeiras, a lã, o desenho, o esquema
das cores, a obra de arte e a aprovação final pelo artista. Todos estes pontos seriam representados e expressos em cenário público com actores e actrizes activos neste processo artístico; o que implicava que todos os participantes neste projecto iriam aparecer no resultado final. Este resultado implicava ainda uma ligação criativa e uma interacção entre todos os ensambles.
O Ensemble de Artes Plásticas abordou o tema: O Nosso Corpo é um Mecanismo, e como Sub- Tema: Os Nossos Cinco Sentidos. A partir de diversos mecanismos no processo de criação, a inspiração na natureza é determinante e assim o seu envolvimento neste projecto também o foi. Desde materiais naturais recolhidos no local à sua interligação e criação no espaço envolvente de peças artísticas cuja ligação à criatividade se estabeleceu com o corpo, a relação entre os corpos e a relação com a paisagem circundante. Incluiu-se ainda uma instalação de um "tear" ao ar livre e um percurso abrangente entre os elementos do grupo e a daí os respectivos resultados artísticos com a orientação criativa e plástica de autora do Ensemble: Ana Gaspar.
A seguinte transcrição mostra um dos momentos em que foi lido e representado este excerto, permitindo um encadeamento com todo o processo artístico da manufactura de uma tapeçaria: "(…) Nas férias as tecedeiras levavam os filhos para a manufactura e depois do lanche, as crianças dormiam no chão da manufactura. Era um espaço intimidante, mas belo, onde as crianças se calavam sem ninguém as mandar calar, como se soubessem que ali o som não fosse necessário, como se o que os filhos viam lhes bastasse ao espírito. (…)" in: Olho + Espírito Sónia Amor, Páteo, Portalegre, 2016
Fotografias: alguns resultados do Ensemble de Artes, 22 Julho a 5 Agosto, 2016
18 julho 2016
Calígula | Albert Camus
Helicon
E que querias tu?
Calígula
A Lua
Helicon
Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso.
Calígula
… Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível.
… Tenho, portanto, necessidade da Lua ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo.
… Os homens morrem e não são felizes.
… Porque lhes falta um professor que conheça aquilo que ensina.
Cipião
… que fazer sofrer é a única maneira de agente se enganar.
Calígula
… devem obrigatoriamente deserdar os filhos e testemunhar imediatamente a favor do Estado.
… Governar é roubar, toda a gente o sabe.
… por mim, roubarei francamente.
Acreditava, como toda a gente, que estar desesperado era uma doença da alma. Estava enganado, o corpo é que sofre.
… Como é duro, como é amargo a gente tornar-se um Homem!
… para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas, se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente, e com que decresça o sofrimento, se não posso impedir os seres de morrerem?
… Quero misturar o Céu com a Terra, confundir a beleza com a feldade, fazer explodir o riso, do sofrimento.
… quando a Lua for minha…
Cesónia
Nunca poderás negar o amor.
Calígula
O amor, Cesónia! Aprendi que não é nada.
Cherea
O que é insuportável é ver dissipar-se o sentido desta vida, ver desaparecer a nossa razão de existir.
Calígula
Qual é o castigo para os escravos preguiçosos?
O Chicote, suponho.
Cesónia
… as tuas mãos cheias de flores e de crimes.
… as tuas alegrias sem futuro…
… sacia-nos para sempre no teu coração negro e sujo.
Calígula
… Provei a esses deuses ilusórios que um homem, se tiver vontade, pode exercer sem aprendizagem o ridículo ofício deles.
… Compreendi simplesmente que só há uma maneira de nos igualarmos aos deuses e é tornarmo-nos tão cruéis como eles.
… se exerço este poder é por compensação.
Cipião
Por compensação? A quê?
Calígula
À estupidez e ao ódio dos deuses.
… Não Cipião, isto não é arte dramática! O erro de todos esses homens é não acreditarem o suficientemente no teatro. Se não fosse isso, saberiam que a qualquer homem é permitido representar as tragédias celestes e tornar-se deus. Basta endurecer o coração.
… Um homem honrado é um animal tão raro neste mundo, que a minha vista não o pode suportar durante muito tempo. Preciso de ficar só para saborear este grande momento.
Cherea
Tens alguma coisa de particular a dizer-me?
Calígula
Não. Cherea.
… Tenho necessidade de falar com alguém que seja inteligente.
… Cherea, acreditas que dois homens cuja alma e cuja altivez sejam iguais possam, ao menos uma vez na vida, abrir o coração e falar, como se estivessem nus, um diante do outro, despojados dos preconceitos, dos interesses particulares e das mentiras em que vivem?
Cherea
Penso que é possível, Caius. Mas julgo-te incapaz de o fazer.
Calígula
Tens razão. Só queria saber se pensavas como eu. Cubramo-nos então de máscaras. Utilizemos as nossas mentiras. Falemos como quem se bate, sempre em guarda. Porque é que não gostas de mim. Cherea?
Cherea
Porque em ti não há nada de que se possa gostar. Porque estas coisas não se controlam. E também, porque te compreendo o bastante para não te amar, e porque se não pode gostar, noutrem, daquilo que recalcamos em nós.
Calígula
Porquê odiares-me?
Cherea
Nisso, enganas-te Caius. Não te odeio. Apenas te julgo prejudicial e cruel, egoísta e vaidoso. Mas não te posso odiar, porque sei que és infeliz. E não te posso desprezar, porque sei que não és cobarde.
Calígula
Tu és inteligente, e a inteligência, ou se paga ou se nega. Eu pago. Mas tu, porque não queres negá-la, nem pagá-la?
Cherea
Porque tenho desejo de viver e de ser feliz. Creio que não se pode ter, indo até ao fim do absurdo, nem uma coisa nem outra. Sou como toda a gente. Para me sentir livre. Acontece que, às vezes, desejo a morte daqueles que amo, e convido mulheres que as leis da família ou da amizade me impediam de convidar. Para ser lógico, teria mesmo de matar ou de possuir. Mas penso que estas ideias vagas não têm importância. Se toda a gente se metesse a realizá-las, não poderíamos viver nem ser felizes. E insisto, é isso o que me importa.
Calígula
É preciso, então, que acredites em alguma ideia superior.
Cherea
Acredito que há acções belas e outras que o não são.
(…)
Velho Patrício
Não te importas de deixar de fazer filosofia? Horroriza-me.
Cherea
Reconheçamos, ao menos, que este homem exerce uma inegável influência. Obriga a pensar. Obriga toda a gente a pensar. A insegurança, eis o que o faz pensar. E é por isso que tantos ódios o perseguem.
Calígula
Então é porque há duas espécies de felicidade, e eu escolhi a dos assassinos. Porque sou feliz. Houve um tempo em que pensei atingir o limite da dor: pode-se ir mais longe ainda! (…)
… Mas o seu verdadeiro sofrimento não é tão fútil: é perceber que nem sequer o desgosto dura! Até a dor não faz sentido. (…)
… Sei que nada dura! Oh! Saber isto! Fomos só dois ou três, na história, que tivemos a verdadeira experiência disto, que pudemos atingir esta felicidade demente. (…)
… Vivo, mato, exerço o poder delirante do destruidor, ao pé do qual o do criador parece uma macaquice.
… enfim, a solidão eterna do desejo.
in: Calígula seguido de o Equívoco, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, Lisboa, 2002
E que querias tu?
Calígula
A Lua
Helicon
Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso.
Calígula
… Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível.
… Tenho, portanto, necessidade da Lua ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo.
… Os homens morrem e não são felizes.
… Porque lhes falta um professor que conheça aquilo que ensina.
Cipião
… que fazer sofrer é a única maneira de agente se enganar.
Calígula
… devem obrigatoriamente deserdar os filhos e testemunhar imediatamente a favor do Estado.
… Governar é roubar, toda a gente o sabe.
… por mim, roubarei francamente.
Acreditava, como toda a gente, que estar desesperado era uma doença da alma. Estava enganado, o corpo é que sofre.
… Como é duro, como é amargo a gente tornar-se um Homem!
… para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas, se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente, e com que decresça o sofrimento, se não posso impedir os seres de morrerem?
… Quero misturar o Céu com a Terra, confundir a beleza com a feldade, fazer explodir o riso, do sofrimento.
… quando a Lua for minha…
Cesónia
Nunca poderás negar o amor.
Calígula
O amor, Cesónia! Aprendi que não é nada.
Cherea
O que é insuportável é ver dissipar-se o sentido desta vida, ver desaparecer a nossa razão de existir.
Calígula
Qual é o castigo para os escravos preguiçosos?
O Chicote, suponho.
Cesónia
… as tuas mãos cheias de flores e de crimes.
… as tuas alegrias sem futuro…
… sacia-nos para sempre no teu coração negro e sujo.
Calígula
… Provei a esses deuses ilusórios que um homem, se tiver vontade, pode exercer sem aprendizagem o ridículo ofício deles.
… Compreendi simplesmente que só há uma maneira de nos igualarmos aos deuses e é tornarmo-nos tão cruéis como eles.
… se exerço este poder é por compensação.
Cipião
Por compensação? A quê?
Calígula
À estupidez e ao ódio dos deuses.
… Não Cipião, isto não é arte dramática! O erro de todos esses homens é não acreditarem o suficientemente no teatro. Se não fosse isso, saberiam que a qualquer homem é permitido representar as tragédias celestes e tornar-se deus. Basta endurecer o coração.
… Um homem honrado é um animal tão raro neste mundo, que a minha vista não o pode suportar durante muito tempo. Preciso de ficar só para saborear este grande momento.
Cherea
Tens alguma coisa de particular a dizer-me?
Calígula
Não. Cherea.
… Tenho necessidade de falar com alguém que seja inteligente.
… Cherea, acreditas que dois homens cuja alma e cuja altivez sejam iguais possam, ao menos uma vez na vida, abrir o coração e falar, como se estivessem nus, um diante do outro, despojados dos preconceitos, dos interesses particulares e das mentiras em que vivem?
Cherea
Penso que é possível, Caius. Mas julgo-te incapaz de o fazer.
Calígula
Tens razão. Só queria saber se pensavas como eu. Cubramo-nos então de máscaras. Utilizemos as nossas mentiras. Falemos como quem se bate, sempre em guarda. Porque é que não gostas de mim. Cherea?
Cherea
Porque em ti não há nada de que se possa gostar. Porque estas coisas não se controlam. E também, porque te compreendo o bastante para não te amar, e porque se não pode gostar, noutrem, daquilo que recalcamos em nós.
Calígula
Porquê odiares-me?
Cherea
Nisso, enganas-te Caius. Não te odeio. Apenas te julgo prejudicial e cruel, egoísta e vaidoso. Mas não te posso odiar, porque sei que és infeliz. E não te posso desprezar, porque sei que não és cobarde.
Calígula
Tu és inteligente, e a inteligência, ou se paga ou se nega. Eu pago. Mas tu, porque não queres negá-la, nem pagá-la?
Cherea
Porque tenho desejo de viver e de ser feliz. Creio que não se pode ter, indo até ao fim do absurdo, nem uma coisa nem outra. Sou como toda a gente. Para me sentir livre. Acontece que, às vezes, desejo a morte daqueles que amo, e convido mulheres que as leis da família ou da amizade me impediam de convidar. Para ser lógico, teria mesmo de matar ou de possuir. Mas penso que estas ideias vagas não têm importância. Se toda a gente se metesse a realizá-las, não poderíamos viver nem ser felizes. E insisto, é isso o que me importa.
Calígula
É preciso, então, que acredites em alguma ideia superior.
Cherea
Acredito que há acções belas e outras que o não são.
(…)
Velho Patrício
Não te importas de deixar de fazer filosofia? Horroriza-me.
Cherea
Reconheçamos, ao menos, que este homem exerce uma inegável influência. Obriga a pensar. Obriga toda a gente a pensar. A insegurança, eis o que o faz pensar. E é por isso que tantos ódios o perseguem.
Calígula
Então é porque há duas espécies de felicidade, e eu escolhi a dos assassinos. Porque sou feliz. Houve um tempo em que pensei atingir o limite da dor: pode-se ir mais longe ainda! (…)
… Mas o seu verdadeiro sofrimento não é tão fútil: é perceber que nem sequer o desgosto dura! Até a dor não faz sentido. (…)
… Sei que nada dura! Oh! Saber isto! Fomos só dois ou três, na história, que tivemos a verdadeira experiência disto, que pudemos atingir esta felicidade demente. (…)
… Vivo, mato, exerço o poder delirante do destruidor, ao pé do qual o do criador parece uma macaquice.
… enfim, a solidão eterna do desejo.
in: Calígula seguido de o Equívoco, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, Lisboa, 2002
04 junho 2016
Albert Camus | O Estrangeiro
…
Mas, pensando bem, nada tinha a dizer. Devo reconhecer, aliás, que o interesse que se tem em ouvir as pessoas não dura muito tempo.
(…)
Não me arrependia muito do que tinha feito. (…) Gostaria de lhe poder explicar cordialmente, quase com afeição, que nunca me arrependia verdadeiramente de nada.
(…)
Punha-me a escutar o coração. Não era capaz de imaginar que este barulho compassado, que me acompanhava há tanto tempo, podia um dia cessar. Nunca tive verdadeira imaginação.
…
in: O Estrangeiro, de Albert Camus, Livros do Brasil, 2016, p. 71, 72 e 81.
03 maio 2016
Tipografia | Eric Gill
…
Por outro lado, os que usam métodos humanos poderão atingir a perfeição mecânica, porque as escravaturas e as uniformizações do industrialismo são incompatíveis com a natureza dos homens.
A Tipografia Humana será, com frequência, comparativamente imperfeita & mesmo deselegante; mas, enquanto que uma certa deselegância não tem grande importância nas obras humanas, a deselegância não tem desculpa possível nas coisas produzidas pela máquina.
Assim, enquanto que na sociedade industrialista é, tecnicamente, fácil imprimir qualquer espécie de coisa, numa sociedade humana apenas é fácil imprimir uma espécie de coisa, mas há amplo espaço para a variedade e a experimentação no trabalho em si.
Quanto mais elaborado e fantasiado for o artigo industrial, mais repugnante se torna - a elaboração e a fantasia são indesculpáveis nestas coisas. Mas há todas as justificações para a elaboração e a fantasia nas obras dos seres humanos, desde que eles trabalhem e vivam de acordo com a razão; é educativo notar que, nos primórdios da impressão, quando a exuberância humana tinha amplo espaço, a impressão se caracteriza pela simplicidade e pela decência; mas que agora, quando tal exuberância já não existe no trabalhador (excepto quando está no trabalho), a impressão caracteriza-se por toda a espécie de exibicionismo grosseiro e por uma complexa indecência.
Mas, ai da humanidade, pois existe uma coisa chamada compromisso …
in: Ensaio sobre a Tipografia, de Eric Gill, Almedina, Coimbra, p. 97 e 98.
Por outro lado, os que usam métodos humanos poderão atingir a perfeição mecânica, porque as escravaturas e as uniformizações do industrialismo são incompatíveis com a natureza dos homens.
A Tipografia Humana será, com frequência, comparativamente imperfeita & mesmo deselegante; mas, enquanto que uma certa deselegância não tem grande importância nas obras humanas, a deselegância não tem desculpa possível nas coisas produzidas pela máquina.
Assim, enquanto que na sociedade industrialista é, tecnicamente, fácil imprimir qualquer espécie de coisa, numa sociedade humana apenas é fácil imprimir uma espécie de coisa, mas há amplo espaço para a variedade e a experimentação no trabalho em si.
Quanto mais elaborado e fantasiado for o artigo industrial, mais repugnante se torna - a elaboração e a fantasia são indesculpáveis nestas coisas. Mas há todas as justificações para a elaboração e a fantasia nas obras dos seres humanos, desde que eles trabalhem e vivam de acordo com a razão; é educativo notar que, nos primórdios da impressão, quando a exuberância humana tinha amplo espaço, a impressão se caracteriza pela simplicidade e pela decência; mas que agora, quando tal exuberância já não existe no trabalhador (excepto quando está no trabalho), a impressão caracteriza-se por toda a espécie de exibicionismo grosseiro e por uma complexa indecência.
Mas, ai da humanidade, pois existe uma coisa chamada compromisso …
in: Ensaio sobre a Tipografia, de Eric Gill, Almedina, Coimbra, p. 97 e 98.
12 abril 2016
O Espelho de Vénus | Pintura
Vénus | Antiga deusa romana da vegetação e dos jardins, foi identificada com a Afrodite grega. Deste modo, na sua qualidade de mãe do herói Eneias, o fundador mítico do povo romano, foi considerada a antepassada da gens iulia (que se dizia descendente de Eneias) e a protectora da cidade de Roma.
in: O Espelho de Vénus, de Edward Burne-Jones (1833 - 1898), (Óleo sobre tela), 1895
in: Vénus, Dicionário Cultural da Mitologia Greco-Romana, Pub. Dom Quixote, p. 245.
07 abril 2016
Dignidade Perdida | Nietzsche
6 - Dignidade Perdida - A reflexão perdeu toda a sua dignidade da forma; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflecte; e já não se poderia continuar a tolerar um homem sábio da velha escola.
Pensamos demasiado depressa, e pelo caminho, em plena marcha, no meio de negócios de toda a espécie, mesmo quando se trate do que há de mais sério; temos necessidade de pouca preparação, e até de pouca tranquilidade: é como se tivéssemos na cabeça uma máquina que girasse incessantemente e que progredisse o seu trabalho, mesmo nas piores condições.
Antigamente, quando alguém se queria pôr a pensar - era uma coisa provavelmente excepcional! - era coisa que se notava de imediato; notava-se que queria tornar-se mais sábio e que se preparava para uma ideia: seu rosto ganhava uma expressão como em oração e detinha-se na sua marcha; ficava até mesmo imóvel durante horas na rua, apoiado em uma perna ou nas duas, quando a ideia lhe 'surgia'. Perdia, então, a 'dignidade da coisa'.
in: A Ciência Gaia, de Friedrich Nietzsche, p. 41.
29 março 2016
O Solitário | Nietzsche
Odeio seguir alguém, como também conduzir.
Obedecer? Não! E governar, nunca!
Quem não se mete medo não consegue metê-lo a
ninguém,
Somente aquele que o inspira é capaz de comandar.
Já detesto comandar a mim mesmo!
Gosto, como os animais, das florestas e dos mares,
De me perder durante um tempo,
Permanecer a sonhar num recanto encantador,
E forçar-me a regressar de longe ao meu lar,
Atrair-me a mim próprio… de volta a mim.
in: Poema 33. O Solitário, de Friedrich Nietzsche, in: A Gaia Ciência, Martin Claret, 2013, p. 27.
17 março 2016
3 + 18 = 21 | Exposição
É com muito orgulho que apresento a minha Exposição na ESTG de Portalegre!
A criação de uma obra de arte a partir de uma linha de pensamento.
Uma linha que desenha paisagens, caminhos, viagens, sonhos…
Três (3) anos de viagens enquanto estudante, mais (+) dezoito (18) anos de viagens enquanto docente de ensino superior, igual (=) a vinte e um (21) anos de viagens, de estudos, leccionação, aprendizagem, partilha de conhecimento, aquisição de sabedoria.
in: 3 + 18 = 21, de Ana Paula Gaspar, ESTG de Portalegre, 14.Março - 14.Abril . 2016
04 março 2016
Musas Inspiradoras | Calíope
A minha musa seria Calíope, figura grega mítica e musa da poesia, ciência e eloquência, muitas vezes retratada com um papiro. Achei que seria interessante juntar esses dois elementos - o da figura da musa e o do papel como material onde o acto criativo se regista.
in: Calíope, de Daniela Krtsch
O que significa ter inspiração? De onde vem? Como a manter?
A inspiração tem sofrido várias nuances temporais, com uma constante: uma certa forma de linha directa com o divino. Para a história que nos importa contar e partindo da matriz grega, as musas de belas vozes parecem ter surgido no cenário em torno de Hesíodo. Era ele um jovem pastor quando algumas dessas figuras (em número incerto mas em inspiração certa, dirigida à música, dança e poesia) o instaram à criação. (…)
Para os mais distraídos, o mesmo é repetir a célebre máxima reclamada por diversos autores, de que 90% da inspiração é transpiração. Ou seja, que a inspiração não é, por regra fruto do acaso e de fortuitas epifanias, mas de trabalho contínuo, tempo, da capacidade de relacionar o conhecimento (outro nome para a memória) e da determinação em procurar caminhos inexplorados.
in: Musas Inspiradoras, de Emília Ferreira, Casa da Cerca, Almada, Fevereiro de 2016
26 fevereiro 2016
A minha infância …
Lembro-me do cheiro da terra molhada
Quando chovia…
As primeiras chuvas de outono
O fim do verão…
Lembro-me da quinta…
Lembro-me de semear o feijão, um grão de cada vez, com um palmo de intervalo entre cada um…
Lembro-me de ajudar o meu pai e a minha mãe,
Ao fim de semana dedicavam-se a semear a terra,
Eram feijões, batatas, milho, hortaliças…
A terra era preparada, anteriormente era lavrada, e os regos eram feitos com enxada e eram todos certinhos e alinhados horizontalmente e verticalmente, como uma grelha…
Lembro-me de ter energia,
Lembro-me das oliveiras… de as trepar!
Recordo os momentos em que ajudava a preparar o almoço…
Descascar as batatas, cortar os grelos de nabiça, cozer o bacalhau e temperar tudo com azeite, das nossas oliveiras…
No verão…
Lembro as borboletas a voar de flor em flor,
As flores, tantas e tão variadas…
As suas cores, os cheiros, o céu azul…
O rio, a água transparente, um mergulho livre…
As lagartixas, as rãs e a fonte, uma nascente com água gelada e doce…
As caminhadas pela mata…
Andar de bicicleta, sozinha pela floresta de pinheiros…
Parar, respirar fundo e continuar!
Que saudades de ser feliz!
Que liberdade…
A simplicidade de estar…
Desfrutar simplesmente da natureza!
E no outono, nasciam os cogumelos…
E o prato delicioso da minha avó:
Cebola, azeite, cogumelos, batata e um ovo por cima!
Que cheirinho…
A maravilha da nossa terra…
O milagre da transformação através das estações do ano…
O tempo, a passagem do tempo…
Esse tempo que já não volta!
in: Diário, de Ana Paula de J. L. Gaspar, 7 de junho de 2014.
Quando chovia…
As primeiras chuvas de outono
O fim do verão…
Lembro-me da quinta…
Lembro-me de semear o feijão, um grão de cada vez, com um palmo de intervalo entre cada um…
Lembro-me de ajudar o meu pai e a minha mãe,
Ao fim de semana dedicavam-se a semear a terra,
Eram feijões, batatas, milho, hortaliças…
A terra era preparada, anteriormente era lavrada, e os regos eram feitos com enxada e eram todos certinhos e alinhados horizontalmente e verticalmente, como uma grelha…
Lembro-me de ter energia,
Lembro-me das oliveiras… de as trepar!
Recordo os momentos em que ajudava a preparar o almoço…
Descascar as batatas, cortar os grelos de nabiça, cozer o bacalhau e temperar tudo com azeite, das nossas oliveiras…
No verão…
Lembro as borboletas a voar de flor em flor,
As flores, tantas e tão variadas…
As suas cores, os cheiros, o céu azul…
O rio, a água transparente, um mergulho livre…
As lagartixas, as rãs e a fonte, uma nascente com água gelada e doce…
As caminhadas pela mata…
Andar de bicicleta, sozinha pela floresta de pinheiros…
Parar, respirar fundo e continuar!
Que saudades de ser feliz!
Que liberdade…
A simplicidade de estar…
Desfrutar simplesmente da natureza!
E no outono, nasciam os cogumelos…
E o prato delicioso da minha avó:
Cebola, azeite, cogumelos, batata e um ovo por cima!
Que cheirinho…
A maravilha da nossa terra…
O milagre da transformação através das estações do ano…
O tempo, a passagem do tempo…
Esse tempo que já não volta!
in: Diário, de Ana Paula de J. L. Gaspar, 7 de junho de 2014.
03 fevereiro 2016
Ovídeo | Arte de Amar
Livro III
Às Mulheres
Armas, eu as forneci aos Dánaos contra as Amazonas; armas me restam, ainda,
para te fornecer a ti, ó Pentesileia, e à tua gente.
Parti para a batalha em igualdade de condições; que vença quem a mãe Dione
favorecer, e o menino que voa sobre o mundo inteiro.
Não seria justo que enfrentásseis, despidas de armas, inimigos armados;
se assim fosse, também para vós a vitória seria uma vergonha, ó varões.
Uma Arte de Amar para as Mulheres
(…)
A mulher não desvia as chamas e as implacáveis flechas;
esses dardos, vejo eu que mais raramente são danosos aos homens.
Muitas vezes traem os homens; não tantas vezes as mulheres delicadas;
e, se procurares, poucos são os crimes de engano que nelas se encontram.
(…)
Qual foi a vossa perdição, eu vos direi: não soubeste amar;
faltou-vos arte; é a arte que faz perdurar o amor.
(…)
e disse-me, então: "que fizeram as pobres mulheres?
São um povo sem armas entregues a homens armados;
a eles, dois livros os tornaram peritos na arte;
também este grupo os teus preceitos têm de ensiná-lo.
Aproveitar a Juventude
Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo na ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
(…)
Tempo há-de vir em que tu, que agora enjeitas os amantes,
hás-de dormir, enregelada e velha, na solidão da noite,
e não há-de a tua janela ser quebrada por briga nocturna,
nem vais encontrar, pela manhã, rosas espalhadas à tua porta.
Bem depressa, pobre de mim!, o corpo amolece de rugas,
e desaparece, no rosto que era luzidio, a cor,
e os cabelos brancos que juras que tinhas já em rapariga,
de súbito se espalham por toda a cabeça.
(…)
Cuidar da Beleza
(…)
A beleza é um dom dos deuses; da sua beleza, quão poucas se podem orgulhar!
Grande parte de vós não possui um tal dom.
(…)
A Poesia
Conhece a musa de Calímaco, conhece a do Poeta de Cós,
conhece, ainda, a do ancião de Teos, afeiçoado ao vinho;
conhece, também, Safo (pois que é que existe mais lascivo do que ela?)
e aquele que põe um pai a ridículo, vítima dos ardis do manhoso geta.
(…)
Homens a Evitar
Mas evitai os homens preocupados com a elegância e a beleza
e que têm o cabelo bem penteado;
o que vos dizem a vós, disseram-no já a mil mulheres;
vai deambulando e não se fixa em sítio algum e seu amor.
(…)
Há os que avançam a coberto de uma espécie enganosa de amor
e, por tais caminhos, são ganhos indecentes que buscam.
(…)
Talvez o mais elegante de entre todos eles
seja um ladrão e esteja a arder por amor do que trazes vestido.
"Devolve o que é meu!", gritam, muitas vezes, depois de roubadas, as mulheres,
(…)
Aprendei com as desgraças das outras a temer as vossas;
não se abra a vossa porta a um homem falso.
Amores Furtivos
(…)
Atenta nas palavras que lês; das próprias palavras terás de depreender
se está a fingir ou se as súplicas vêm do fundo do coração e da ansiedade;
depois de fazeres esperar um pouco, responde. A espera estimula sempre
os amantes, se for por tempo razoável.
Mas nem te entregues facilmente ao jovem que te namora
nem negues, de coração endurecido, o que ele te pede.
Faz com que alimente, à uma, temor e esperança; e, sempre que responderes,
mais firme se lhe torne a esperança e menos intenso o medo.
Palavras elegantes, mas usuais no convívio social, ó mulheres,
é o que deveis escrever! O ar vulgar da conversa dá gosto.
Ah, quantas vezes se inflamou diante de uma mensagem um amante inseguro!
Quantas vezes foi danosa uma língua bárbara a uma grande beleza!
(…)
Que se diga sempre ser mulher o amante a quem se escreve;
seja uma "ela", em vossas mensagens, o que devia ser um "ele".
Cultivar a Doçura
(…)
Olha quem te olha; a quem te sorri com doçura, sorri;
Faz-te um aceno? Responde, também tu, que percebeste o sinal.
Amar os Poetas
Quem nos impede de colher de temas elevados exemplos para coisas
banais e de não ter receio da palavra "chefe"?
Um bom chefe confia a um cem soldados, para com o bastão de vide os comandar,
a outro cavaleiros, a um terceiro entrega-lhe a guarda dos estandartes;
também vós, observai para que função cada um de nós é mais conforme
e ponde cada um no posto adequado:
o rico debe dar presentes; aquele que for versado em leis dê o seu apoio;
o que tem o dom da palavra que defenda, muitas vezes, a causa da sua cliente;
nós, que fazemos versos, devemos limitar-nos a enviar versos;
somos nós, mais que todos os outros, o tal coro capaz para o amor;
nós fazemos ouvir longe o pregão da beleza que nos encanta;
é famosa Némesis, Cíntia é famosa;
a estrela da tarde e os confins do Oriente conhecem Lícoris,
e muitos perguntam quem é a minha Corina;
acresce que não existe perfídia entre os divinos poetas,
e que a nossa arte nos molda, também, à sua feição;
e não nos move a ambição nem o amor da riqueza,
desprezamos o foro e cultivamos o leito e as sombras;
mas facilmente nos apegamos e deixamos-nos consumir num fogo abrasador
e sabemos amar com lealdade inquebrável.
(…)
existe um deus em nós e mantemos diálogo com o céu;
é das planuras do céu que nos vem a inspiração.
A Cada idade seu Encanto
(…)
O velho soldado ama sem dor e com sabedoria
e suporta muitas coisas que o recruta não consegue padecer;
e não rebenta com as portas nem lhes deita fogo com chamas terríveis,
nem se atira com as unhas ao rosto delicado da sua dama,
nem rasgará a sua túnica ou a túnica da amada,
nem fará de um cabelo arrancado causa de pranto.
Tais atitudes ficam bem a rapazinhos, no calor da idade e do amor;
aquele suportará cruéis feridas, de coração robustecido;
é em fogo lento, caramba!, que há-de arder, como feno húmido,
como a madeira acabada de cortar nos bosques da montanha.
(…)
Rivais: Não dar Ouvidos a Boatos
Aonde me leva a minha loucura? Porque avanço, de peito aberto,
contra o inimigo e me denuncio com os sinais que eu mesma forneço?
Não revela o pássaro ao caçador como pode ser caçado,
nem ensina o veado os cães assanhados a persegui-lo.
A vantagem ficará desvendada; eu, aquilo que comecei, fielmente o hei-de consumar
e às mulheres de Lemnos hei-de dar armas para me matarem.
Fazei (é fácil consegui-lo) que nós acreditemos no vosso amor;
para quem está apaixonado, a crença vem ao encontro do desejo.
(…)
in: Arte de Amar, de Ovídeo, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
Às Mulheres
Armas, eu as forneci aos Dánaos contra as Amazonas; armas me restam, ainda,
para te fornecer a ti, ó Pentesileia, e à tua gente.
Parti para a batalha em igualdade de condições; que vença quem a mãe Dione
favorecer, e o menino que voa sobre o mundo inteiro.
Não seria justo que enfrentásseis, despidas de armas, inimigos armados;
se assim fosse, também para vós a vitória seria uma vergonha, ó varões.
Uma Arte de Amar para as Mulheres
(…)
A mulher não desvia as chamas e as implacáveis flechas;
esses dardos, vejo eu que mais raramente são danosos aos homens.
Muitas vezes traem os homens; não tantas vezes as mulheres delicadas;
e, se procurares, poucos são os crimes de engano que nelas se encontram.
(…)
Qual foi a vossa perdição, eu vos direi: não soubeste amar;
faltou-vos arte; é a arte que faz perdurar o amor.
(…)
e disse-me, então: "que fizeram as pobres mulheres?
São um povo sem armas entregues a homens armados;
a eles, dois livros os tornaram peritos na arte;
também este grupo os teus preceitos têm de ensiná-lo.
Aproveitar a Juventude
Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo na ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
(…)
Tempo há-de vir em que tu, que agora enjeitas os amantes,
hás-de dormir, enregelada e velha, na solidão da noite,
e não há-de a tua janela ser quebrada por briga nocturna,
nem vais encontrar, pela manhã, rosas espalhadas à tua porta.
Bem depressa, pobre de mim!, o corpo amolece de rugas,
e desaparece, no rosto que era luzidio, a cor,
e os cabelos brancos que juras que tinhas já em rapariga,
de súbito se espalham por toda a cabeça.
(…)
Cuidar da Beleza
(…)
A beleza é um dom dos deuses; da sua beleza, quão poucas se podem orgulhar!
Grande parte de vós não possui um tal dom.
(…)
A Poesia
Conhece a musa de Calímaco, conhece a do Poeta de Cós,
conhece, ainda, a do ancião de Teos, afeiçoado ao vinho;
conhece, também, Safo (pois que é que existe mais lascivo do que ela?)
e aquele que põe um pai a ridículo, vítima dos ardis do manhoso geta.
(…)
Homens a Evitar
Mas evitai os homens preocupados com a elegância e a beleza
e que têm o cabelo bem penteado;
o que vos dizem a vós, disseram-no já a mil mulheres;
vai deambulando e não se fixa em sítio algum e seu amor.
(…)
Há os que avançam a coberto de uma espécie enganosa de amor
e, por tais caminhos, são ganhos indecentes que buscam.
(…)
Talvez o mais elegante de entre todos eles
seja um ladrão e esteja a arder por amor do que trazes vestido.
"Devolve o que é meu!", gritam, muitas vezes, depois de roubadas, as mulheres,
(…)
Aprendei com as desgraças das outras a temer as vossas;
não se abra a vossa porta a um homem falso.
Amores Furtivos
(…)
Atenta nas palavras que lês; das próprias palavras terás de depreender
se está a fingir ou se as súplicas vêm do fundo do coração e da ansiedade;
depois de fazeres esperar um pouco, responde. A espera estimula sempre
os amantes, se for por tempo razoável.
Mas nem te entregues facilmente ao jovem que te namora
nem negues, de coração endurecido, o que ele te pede.
Faz com que alimente, à uma, temor e esperança; e, sempre que responderes,
mais firme se lhe torne a esperança e menos intenso o medo.
Palavras elegantes, mas usuais no convívio social, ó mulheres,
é o que deveis escrever! O ar vulgar da conversa dá gosto.
Ah, quantas vezes se inflamou diante de uma mensagem um amante inseguro!
Quantas vezes foi danosa uma língua bárbara a uma grande beleza!
(…)
Que se diga sempre ser mulher o amante a quem se escreve;
seja uma "ela", em vossas mensagens, o que devia ser um "ele".
Cultivar a Doçura
(…)
Olha quem te olha; a quem te sorri com doçura, sorri;
Faz-te um aceno? Responde, também tu, que percebeste o sinal.
Amar os Poetas
Quem nos impede de colher de temas elevados exemplos para coisas
banais e de não ter receio da palavra "chefe"?
Um bom chefe confia a um cem soldados, para com o bastão de vide os comandar,
a outro cavaleiros, a um terceiro entrega-lhe a guarda dos estandartes;
também vós, observai para que função cada um de nós é mais conforme
e ponde cada um no posto adequado:
o rico debe dar presentes; aquele que for versado em leis dê o seu apoio;
o que tem o dom da palavra que defenda, muitas vezes, a causa da sua cliente;
nós, que fazemos versos, devemos limitar-nos a enviar versos;
somos nós, mais que todos os outros, o tal coro capaz para o amor;
nós fazemos ouvir longe o pregão da beleza que nos encanta;
é famosa Némesis, Cíntia é famosa;
a estrela da tarde e os confins do Oriente conhecem Lícoris,
e muitos perguntam quem é a minha Corina;
acresce que não existe perfídia entre os divinos poetas,
e que a nossa arte nos molda, também, à sua feição;
e não nos move a ambição nem o amor da riqueza,
desprezamos o foro e cultivamos o leito e as sombras;
mas facilmente nos apegamos e deixamos-nos consumir num fogo abrasador
e sabemos amar com lealdade inquebrável.
(…)
existe um deus em nós e mantemos diálogo com o céu;
é das planuras do céu que nos vem a inspiração.
A Cada idade seu Encanto
(…)
O velho soldado ama sem dor e com sabedoria
e suporta muitas coisas que o recruta não consegue padecer;
e não rebenta com as portas nem lhes deita fogo com chamas terríveis,
nem se atira com as unhas ao rosto delicado da sua dama,
nem rasgará a sua túnica ou a túnica da amada,
nem fará de um cabelo arrancado causa de pranto.
Tais atitudes ficam bem a rapazinhos, no calor da idade e do amor;
aquele suportará cruéis feridas, de coração robustecido;
é em fogo lento, caramba!, que há-de arder, como feno húmido,
como a madeira acabada de cortar nos bosques da montanha.
(…)
Rivais: Não dar Ouvidos a Boatos
Aonde me leva a minha loucura? Porque avanço, de peito aberto,
contra o inimigo e me denuncio com os sinais que eu mesma forneço?
Não revela o pássaro ao caçador como pode ser caçado,
nem ensina o veado os cães assanhados a persegui-lo.
A vantagem ficará desvendada; eu, aquilo que comecei, fielmente o hei-de consumar
e às mulheres de Lemnos hei-de dar armas para me matarem.
Fazei (é fácil consegui-lo) que nós acreditemos no vosso amor;
para quem está apaixonado, a crença vem ao encontro do desejo.
(…)
in: Arte de Amar, de Ovídeo, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
02 fevereiro 2016
Ovídio | Arte de Amar
Livro II
Introdução.
Conservar o Amor
(…)
Não baste que a mulher venha até junto de ti, graças ao meu canto;
foi a minha arte que a cativou, é a minha arte que tem de preservá-la;
conservar o que se alcançou não é virtude menor do que bus.cá-lo;
aqui interfere o acaso, ali é a obra de arte.
Agora, mais que nunca, ó menino, ó Citereia, favorecei a minha empresa,
agora, ó Érato, já que tens nome de Amor.
Grandioso é o que me apresto a cantar: por que artes consegue segurar-se
o Amor, um menino tão vagabundo na vastidão do universo.
ligeiro é ele e possui um par de asas, com que voa;
bem difícil é pôr-lhes travão.
(…)
Amabilidade e Elegância
Guarda-te de tudo quanto é vedado! Para seres amado, sê amável,
coisa que te não darão apenas o rosto ou a beleza.
Ainda que sejas Nireu, a quem o velho Homero amava,
ou o delicado Hilas, arrebatado pelo crime das Náiades,
para conservares a tua amada e não teres a surpresa de ser por ela abandonado,
junta os bens do espírito às qualidades do corpo.
A beleza é um bem frágil; à medida que vão avançando os anos,
vai diminuindo e, por força da idade, vai murchando;
não ficam todo o tempo em flor as violetas nem os lírios de pétalas abertas,
e a roseira, depois de cair a flor, enrijece de espinhos, que é o que lhe resta.
Também a ti, ó jovem esbelto, te hão-de chegar os cabelos brancos,
e logo virão as rugas a sulcar-te o corpo.
Suaviza já o teu espírito, por forma a perdurar, e ajunta isso à tua beleza;
só ele logra permanecer até às preces derradeiras;
e não tenhas em menos conta educar o carácter por meio das boas artes
e aprender as duas línguas;
não era belo, mas era eloquente Ulisses,
e, no entanto, atormentou de amores deusas do mar.
(…)
Doçura e Bondade
A rectidão e a bondade, eis o que, em especial, cativa os corações;
a aspereza suscita o ódio e guerras cruéis.
(…)
É de doces palavras que tem de sustentar-se a brandura do amor.
(…)
Que a amante, pelo contrário, ouça sempre as palavras que deseja.
Não foi por mando de uma lei que viestes parar ao mesmo leito;
quem cumpre a sua função em vós é a lei do amor.
Doces meiguices e palavras aprazíveis ao ouvido
é o que tens de trazer-lhe, para ela ficar feliz com a tua vinda.
Não é aos ricos que venho ensinar a amar;
não tem qualquer precisão da minha arte aquele que é mãos largas;
já tem consigo o seu talento aquele que diz, sempre que lhe apetece: "aceita";
a esse cedo; agrada mais ele que os meus ensinamentos.
Eu sou o poeta dos pobres, pois foi pobre que amei;
já que não podia ofertar presentes, oferecia palavras;
que o pobre âme com recato, que receie ser maldizente o pobre
e suporte muitas coisas que não seriam capazes de tolerar os ricos.
Persistência
Se não for meiga quanto baste nem corresponder ao teu amor,
porfia e persiste. Acabará por tornar-se carinhosa.
Dobra-se, quando vergado com jeito, o ramo da árvore;
vais parti-lo, se puseres à prova a tua força;
com jeito, a nado se passam as águas; mas não serás capaz de vencer
o rio, se nadares contra a corrente que com as águas se arrasta;
o jeito doma os tigres e os leões da Numídia;
no campo, o boi acaba por subjugar-se, pouco a pouco, ao peso do arado.
(…)
Ceder e Servir
Cede quando ela teima; se cederes, sairás vencedor;
trata, apenas, de agir, como ela determinar.
Se ela contestar, contesta; o que aprovar, aprova-o;
o que afirmar, afirma-o; o que negar, deves negá-lo;
se rir, ri-te; se chorar, lembra-te tu de chorar;
seja ela a ditar as leis às tuas feições.
Robustez e Vigor
O amor é uma espécie de serviço militar. Batei em retirada, gente indolente!
Tais estandartes não são para ser confiados a homens medrosos.
A noite e o Inverno e jornadas sem fim e dores terríveis
e toda a sorte de padecimentos, eis o que nos espera nos campos de doçura;
muitas vezes terás de suportar a chuva que cai das nuvens do céu
e muitas vezes vais dormir, enregelado, sobre a terra nua.
(…)
Prendas
(…)
ah, malditos sejam aqueles que com presentes enganam!
Gerir a Ausência e a Saudade
Mas o vento a que soltaste as velas ao deixares a praia,
dele não deves servir-te, agora, depois de te tornares senhor do alto mar.
Enquanto dá passos incertos o novo amor, deve buscar no uso as suas forças;
se bem o souberes alimentar, com o tempo ficará firme.
O touro que te mete medo, costumavas tu, quando era vitelo, fazer-lhe festas;
a árvore à sombra da qual agora repousas, foi, antes, um arbusto;
nasce bem delgado, mas ganha forças, à medida que avança,
o rio e, por onde passa, uma imensidão de correntes vai recebendo.
Faz com que se acostume a ti; nada tem mais força que a habituação;
até a alcançares, não fujas a nenhum dissabor;
que te veja a todo o tempo, que a todo o tempo te escute,
que a noite e o dia lhe mostrem o teu rosto.
(…)
Amar com sabedoria
Aquele a quem a natureza concedeu beleza, seja graças a ela que dê nas vistas;
aquele que possui uma pele formosa durma muitas vezes de ombros à mostra;
o que tem uma conversa agradável evite os silêncios taciturnos;
o que canta com elegância, que cante; o que bebe com elegância, que beba.
(…)
Todo o que amar com sabedoria triunfará e quanto reclamar de minha arte, vai consegui-lo.
in: Arte de Amar, de Ovídio, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
Introdução.
Conservar o Amor
(…)
Não baste que a mulher venha até junto de ti, graças ao meu canto;
foi a minha arte que a cativou, é a minha arte que tem de preservá-la;
conservar o que se alcançou não é virtude menor do que bus.cá-lo;
aqui interfere o acaso, ali é a obra de arte.
Agora, mais que nunca, ó menino, ó Citereia, favorecei a minha empresa,
agora, ó Érato, já que tens nome de Amor.
Grandioso é o que me apresto a cantar: por que artes consegue segurar-se
o Amor, um menino tão vagabundo na vastidão do universo.
ligeiro é ele e possui um par de asas, com que voa;
bem difícil é pôr-lhes travão.
(…)
Amabilidade e Elegância
Guarda-te de tudo quanto é vedado! Para seres amado, sê amável,
coisa que te não darão apenas o rosto ou a beleza.
Ainda que sejas Nireu, a quem o velho Homero amava,
ou o delicado Hilas, arrebatado pelo crime das Náiades,
para conservares a tua amada e não teres a surpresa de ser por ela abandonado,
junta os bens do espírito às qualidades do corpo.
A beleza é um bem frágil; à medida que vão avançando os anos,
vai diminuindo e, por força da idade, vai murchando;
não ficam todo o tempo em flor as violetas nem os lírios de pétalas abertas,
e a roseira, depois de cair a flor, enrijece de espinhos, que é o que lhe resta.
Também a ti, ó jovem esbelto, te hão-de chegar os cabelos brancos,
e logo virão as rugas a sulcar-te o corpo.
Suaviza já o teu espírito, por forma a perdurar, e ajunta isso à tua beleza;
só ele logra permanecer até às preces derradeiras;
e não tenhas em menos conta educar o carácter por meio das boas artes
e aprender as duas línguas;
não era belo, mas era eloquente Ulisses,
e, no entanto, atormentou de amores deusas do mar.
(…)
Doçura e Bondade
A rectidão e a bondade, eis o que, em especial, cativa os corações;
a aspereza suscita o ódio e guerras cruéis.
(…)
É de doces palavras que tem de sustentar-se a brandura do amor.
(…)
Que a amante, pelo contrário, ouça sempre as palavras que deseja.
Não foi por mando de uma lei que viestes parar ao mesmo leito;
quem cumpre a sua função em vós é a lei do amor.
Doces meiguices e palavras aprazíveis ao ouvido
é o que tens de trazer-lhe, para ela ficar feliz com a tua vinda.
Não é aos ricos que venho ensinar a amar;
não tem qualquer precisão da minha arte aquele que é mãos largas;
já tem consigo o seu talento aquele que diz, sempre que lhe apetece: "aceita";
a esse cedo; agrada mais ele que os meus ensinamentos.
Eu sou o poeta dos pobres, pois foi pobre que amei;
já que não podia ofertar presentes, oferecia palavras;
que o pobre âme com recato, que receie ser maldizente o pobre
e suporte muitas coisas que não seriam capazes de tolerar os ricos.
Persistência
Se não for meiga quanto baste nem corresponder ao teu amor,
porfia e persiste. Acabará por tornar-se carinhosa.
Dobra-se, quando vergado com jeito, o ramo da árvore;
vais parti-lo, se puseres à prova a tua força;
com jeito, a nado se passam as águas; mas não serás capaz de vencer
o rio, se nadares contra a corrente que com as águas se arrasta;
o jeito doma os tigres e os leões da Numídia;
no campo, o boi acaba por subjugar-se, pouco a pouco, ao peso do arado.
(…)
Ceder e Servir
Cede quando ela teima; se cederes, sairás vencedor;
trata, apenas, de agir, como ela determinar.
Se ela contestar, contesta; o que aprovar, aprova-o;
o que afirmar, afirma-o; o que negar, deves negá-lo;
se rir, ri-te; se chorar, lembra-te tu de chorar;
seja ela a ditar as leis às tuas feições.
Robustez e Vigor
O amor é uma espécie de serviço militar. Batei em retirada, gente indolente!
Tais estandartes não são para ser confiados a homens medrosos.
A noite e o Inverno e jornadas sem fim e dores terríveis
e toda a sorte de padecimentos, eis o que nos espera nos campos de doçura;
muitas vezes terás de suportar a chuva que cai das nuvens do céu
e muitas vezes vais dormir, enregelado, sobre a terra nua.
(…)
Prendas
(…)
ah, malditos sejam aqueles que com presentes enganam!
Gerir a Ausência e a Saudade
Mas o vento a que soltaste as velas ao deixares a praia,
dele não deves servir-te, agora, depois de te tornares senhor do alto mar.
Enquanto dá passos incertos o novo amor, deve buscar no uso as suas forças;
se bem o souberes alimentar, com o tempo ficará firme.
O touro que te mete medo, costumavas tu, quando era vitelo, fazer-lhe festas;
a árvore à sombra da qual agora repousas, foi, antes, um arbusto;
nasce bem delgado, mas ganha forças, à medida que avança,
o rio e, por onde passa, uma imensidão de correntes vai recebendo.
Faz com que se acostume a ti; nada tem mais força que a habituação;
até a alcançares, não fujas a nenhum dissabor;
que te veja a todo o tempo, que a todo o tempo te escute,
que a noite e o dia lhe mostrem o teu rosto.
(…)
Amar com sabedoria
Aquele a quem a natureza concedeu beleza, seja graças a ela que dê nas vistas;
aquele que possui uma pele formosa durma muitas vezes de ombros à mostra;
o que tem uma conversa agradável evite os silêncios taciturnos;
o que canta com elegância, que cante; o que bebe com elegância, que beba.
(…)
Todo o que amar com sabedoria triunfará e quanto reclamar de minha arte, vai consegui-lo.
in: Arte de Amar, de Ovídio, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
22 janeiro 2016
Ovídio | Arte de Amar
Livro I
O mestre do Amor
Se alguém das nossas gentes não conhece a arte de amar,
leia este canto; e, depois de o ter lido, entregue-se, com sabedoria, ao amor.
É a arte e as velas e os remos que fazem mover as naus,
é a arte que faz mover, ligeira, a quadriga. É a arte que deve reger o Amor.
(…)
Plano
Antes de mais, o que quiseres amar, trata de procurá-lo,
tu que acabas de entrar, feito soldado, em novo exército;
logo depois, hás-de empenhar-te em fazer ceder aquela que te agradou;
em terceiro lugar, farás por que dure tempo o amor.
(…)
A Procura
Enquanto te for consentido e puderes, solto de amarras, caminhar por toda a parte,
escolhe aquela a quem hás-de dizer: "só tu me agradas!"
(…)
O Banquete
Facilitam, também, a aproximação os banquetes, à mesa;
há qualquer coisa além do vinho, que aí deves buscar.
(…)
A mulher e o Desejo
Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas podem ser conquistadas; e vais conquistá-las; basta que estendas as redes.
Mais depressa, na Primavera, se hão-de calar os pardais, e, no Verão, as cigarras,
e o cão de Ménalo voltará costas à lebre
do que resistirá a mulher ao jovem que com doçura a quer namorar.
Até mesmo aquela que podes supor que não quer… quer.
Tal como Vénus furtiva é grata ao homem, assim o é também à mulher;
o homem disfarça mal; ela é com mais recato que alimenta o desejo.
Se a nós, homens, nos der mais jeito não sermos os primeiros a pedir,
logo a mulher, vencida, há-de assumir o papel de quem pede.
Na mansidão do prado, é a fêmea que solta mugidos ao touro,
é a fêmea sempre que relincha ao cavalo de rijos cascos.
(…)
A Paixão Feminina
Todos estes actos foram movidos por paixão de mulheres;
é mais intensa que a nossa e possui fúria bem maior.
(…)
A Arte da Palavra
Aprende as boas artes, esse é o meu conselho, ó juventude de Roma,
e não apenas para defender réus temerosos;
tal como o povo e o juiz severo e os eleitos do senado,
assim também a mulher, vencida, há-de render as mãos à tua eloquência. (…)
Se te ler e não quiser responder, não a forces;
procura, apenas, que leia as tuas palavras delicadas até ao fim;
Se quiser ler, há-de querer responder ao que leu;
a resposta chega com seu ritmo e seu passo;
talvez te chegue, primeiro, uma carta triste,
a pedir-te que não mais a procures;
se pede, é porque receia que não aconteça; se não pede, deseja que insistas.
Prossegue! Bem cedo verás realizado o teu desejo.
in: Arte de Amar, de Ovídio, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
O mestre do Amor
Se alguém das nossas gentes não conhece a arte de amar,
leia este canto; e, depois de o ter lido, entregue-se, com sabedoria, ao amor.
É a arte e as velas e os remos que fazem mover as naus,
é a arte que faz mover, ligeira, a quadriga. É a arte que deve reger o Amor.
(…)
Plano
Antes de mais, o que quiseres amar, trata de procurá-lo,
tu que acabas de entrar, feito soldado, em novo exército;
logo depois, hás-de empenhar-te em fazer ceder aquela que te agradou;
em terceiro lugar, farás por que dure tempo o amor.
(…)
A Procura
Enquanto te for consentido e puderes, solto de amarras, caminhar por toda a parte,
escolhe aquela a quem hás-de dizer: "só tu me agradas!"
(…)
O Banquete
Facilitam, também, a aproximação os banquetes, à mesa;
há qualquer coisa além do vinho, que aí deves buscar.
(…)
A mulher e o Desejo
Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas podem ser conquistadas; e vais conquistá-las; basta que estendas as redes.
Mais depressa, na Primavera, se hão-de calar os pardais, e, no Verão, as cigarras,
e o cão de Ménalo voltará costas à lebre
do que resistirá a mulher ao jovem que com doçura a quer namorar.
Até mesmo aquela que podes supor que não quer… quer.
Tal como Vénus furtiva é grata ao homem, assim o é também à mulher;
o homem disfarça mal; ela é com mais recato que alimenta o desejo.
Se a nós, homens, nos der mais jeito não sermos os primeiros a pedir,
logo a mulher, vencida, há-de assumir o papel de quem pede.
Na mansidão do prado, é a fêmea que solta mugidos ao touro,
é a fêmea sempre que relincha ao cavalo de rijos cascos.
(…)
A Paixão Feminina
Todos estes actos foram movidos por paixão de mulheres;
é mais intensa que a nossa e possui fúria bem maior.
(…)
A Arte da Palavra
Aprende as boas artes, esse é o meu conselho, ó juventude de Roma,
e não apenas para defender réus temerosos;
tal como o povo e o juiz severo e os eleitos do senado,
assim também a mulher, vencida, há-de render as mãos à tua eloquência. (…)
Se te ler e não quiser responder, não a forces;
procura, apenas, que leia as tuas palavras delicadas até ao fim;
Se quiser ler, há-de querer responder ao que leu;
a resposta chega com seu ritmo e seu passo;
talvez te chegue, primeiro, uma carta triste,
a pedir-te que não mais a procures;
se pede, é porque receia que não aconteça; se não pede, deseja que insistas.
Prossegue! Bem cedo verás realizado o teu desejo.
in: Arte de Amar, de Ovídio, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
20 dezembro 2015
Ao Sol e à Lua | Colares
CAPÍTULO 9º
DOS CIPOS DO SOL E LUA
Outra memória de basas * digna de lembrar e de imitar dos fiéis, faziam os antigos e infiéis, como eu vi, quando me o Infante Dom Luis, vosso tio que Deus tem, levou a mostrar a Serra de Sintra, mandando-me para isso chamar a Lisboa, quando vim de Itália. E vimos em a foz do rio de Colares, prezada em outro tempo dos Romanos, sobre um pequeno outeiro junto do mar Oceano, um círculo ao redor cheio de cipos e memórias dos imperadores de Roma que vieram àquele lugar; e cada um punha um cipo com seu letreiro ao Sol Eterno e à Lua, a quem aquele promontório foi dos gentios dedicado.
O que nós, espiritualmente mudado, podemos converter em cipos ou embasamento dos pés das Cruzes que digo, em louvor e memória do verdadeiro Sol de justiça, (…).
11. OS CIPOS AO SOL E À LUA EM COLARES
Nota ao capítulo 9º
"Dos Cipos ao Sol e à Lua dá notícia Rezende em 1593. (…) O qual podia ter obtido a informação de Hollanda. (…)"
Na obra Cintra Pinturesca, ou Memória descriptiva da Villa e Cintra, Colares e seus arredores, da autoria do Visconde de Juromenha, publicada em Lisboa no ano de 1838, no parágrafo intitulado De algumas antiguidades romanas encontradas em Cintra, Colares e seus termos, vem o seguinte: "Nas abas da serra junto ao Oceano tinham eles (romanos) um sumptuoso templo consagrado ao Sol e à Lua, do qual existiam ruínas ainda em tempo de André de Resende, que as viu, e da sua dedicação se achou a inscrição do teor seguinte:
SOLI ET LVNAE
COECIVS ACCEDIVS PERENIS
LEG. AVG. PRO. PROVINCIA
LVSITANIAE
Quer dizer: "Cécio Accédio Pereno, Lugar - Tenente de Augusto na Província da Lusitânia, dedicou ao Sol e à Lua".
Na mesma obra se faz referência ao "grande número de inscrições romanas encontradas nos termos destas duas Vilas (Sintra e Colares)", donde conclui que "não deixa a mais pequena dúvida a julgar que estes conquistadores (romanos) tivessem feito o assento neste solo de mais de uma povoação considerável". E menciona uma lápide votiva na Ermida da Senhora de Milides junto a Colares também dedicada "ao Sol eterno e à Lua pela eternidade do Império e saúde do imperador César Septímio Severo…" além de numerosas lápides sepulcrais. (…)
in: Da Fábrica Que Falece à Cidade de Lisboa, de Francisco de Holanda, Livros Horizonte, 1984, p. 31, 90 e 91.
Após investigação histórica e arqueológica no sítio indicado pelos documentos assinalados, foram encontrados (2007) os elementos que demonstram a existência de um Santuário Romano consagrado ao Sol, à Lua e ao Oceano, ao centro das duas praias actuais em Colares: Praia das Maças e Praia Pequena. Local considerado o promontório mais ocidental do Império de Romano, e assinalado no mapa do século II d.c. do imperador Claudio Ptolomeu.
Após escavações arqueológicas (ainda em acção) foram encontrados um número considerável de vestígios que confirmaram a sua existência e ainda para além do monumento romano dedicado ao Sol e à Lua, encontrou-se ainda um Ribad (ritual muçulmano), bem como inscrições em pedra de origem grega tal como:
AO SOL, À LUA, AS DADIVAS GRAVADAS AS MUSAS
in: «SOLI INVICTO - Ao Sol Invencível», Conferência Comemorativa do Solstício de Inverno, por José Cardim Ribeiro, Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (Sintra), 19 de Dezembro de 2015.
Após investigação histórica e arqueológica no sítio indicado pelos documentos assinalados, foram encontrados (2007) os elementos que demonstram a existência de um Santuário Romano consagrado ao Sol, à Lua e ao Oceano, ao centro das duas praias actuais em Colares: Praia das Maças e Praia Pequena. Local considerado o promontório mais ocidental do Império de Romano, e assinalado no mapa do século II d.c. do imperador Claudio Ptolomeu.
Após escavações arqueológicas (ainda em acção) foram encontrados um número considerável de vestígios que confirmaram a sua existência e ainda para além do monumento romano dedicado ao Sol e à Lua, encontrou-se ainda um Ribad (ritual muçulmano), bem como inscrições em pedra de origem grega tal como:
AO SOL, À LUA, AS DADIVAS GRAVADAS AS MUSAS
in: «SOLI INVICTO - Ao Sol Invencível», Conferência Comemorativa do Solstício de Inverno, por José Cardim Ribeiro, Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (Sintra), 19 de Dezembro de 2015.
29 outubro 2015
Odisseia | Homero
Musa, fala-me do herói dos mil estratagemas, que tanto errou depois de a sua astúcia ter feito saquear a acrópole sagrada de Tróade, que visitou as cidades e conheceu os costumes de tantos homens! Quão grandes tormentos o seu coração padeceu por sobre o mar, quando ele lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros! Mas não conseguiu salvá-los apesar do seu desejo: o desvario deles perdeu-os, insensatos que devoraram os bois de Hélios Hiperíon. E este não os deixou ver o dia do regresso. Conta-nos a nós também estas aventuras, deusa nascida de Zeus, começando por onde te aprouver.
Nesse tempo todos os que haviam escapado ao brusco trespasse estavam já nos seus lares, salvos da batalha e do mar. Só Ulisses almejava ainda pelo regresso e pela esposa. Uma ninfa, Calipso, uma deusa augusta, retinha-o nas suas grutas profundas, ansiando por tê-lo como marido.
in: Odisseia, de Homero, Europa-América, 1990, p. 13.
29 setembro 2015
O Terceiro Chimpanzé | Jared Diamond
As pistas que nos levam a perceber quando, porquê e de que maneira deixámos de ser apenas outra espécie de grande mamífero surgiram de três tipos de dados científicos.
(…)
Uma questão fundamental tem que ver simplesmente com a dimensão das diferenças genéticas entre nós e os chimpanzés.
(…)
in: O Terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond, Círculo de Leitores, 2014
(…)
Uma questão fundamental tem que ver simplesmente com a dimensão das diferenças genéticas entre nós e os chimpanzés.
(…)
in: O Terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond, Círculo de Leitores, 2014
05 agosto 2015
Gaivota | Richard Bach
Fernão passava os dias sozinho, a experimentar, fazendo centenas de voos rasos.
(…)
Cuidadoso como era, esforçando-se até ao limite, perdia o controle a alta velocidade.
(…)
Caiu outra vez no mesmo erro terrível, e, a cento e trinta quilómetros horários, foi como se tivesse sido atingido por dinamite.
(…)
As suas asas eram barras de chumbo despedaçado, mas o peso do fracasso era-lhe mais doloroso. Desejou, debilmente, que o peso fosse suficiente para o arrastar docemente até ao fundo, e acabar de uma vez.
(…)
O lugar de uma gaivota à noite é a costa, e a partir desse momento prometeu a si mesmo ser uma gaivota normal. Assim, todos ficariam felizes.
(…)
No entanto, não sentia remorsos de por não ter cumprido as promessas que fizera a si próprio.
in: Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, Publicações Europa-América, Lisboa, 2001
(…)
Cuidadoso como era, esforçando-se até ao limite, perdia o controle a alta velocidade.
(…)
Caiu outra vez no mesmo erro terrível, e, a cento e trinta quilómetros horários, foi como se tivesse sido atingido por dinamite.
(…)
As suas asas eram barras de chumbo despedaçado, mas o peso do fracasso era-lhe mais doloroso. Desejou, debilmente, que o peso fosse suficiente para o arrastar docemente até ao fundo, e acabar de uma vez.
(…)
O lugar de uma gaivota à noite é a costa, e a partir desse momento prometeu a si mesmo ser uma gaivota normal. Assim, todos ficariam felizes.
(…)
No entanto, não sentia remorsos de por não ter cumprido as promessas que fizera a si próprio.
in: Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, Publicações Europa-América, Lisboa, 2001
14 julho 2015
Humanidade
O esperma não é uma pessoa, o óvulo também não o é, nem o embrião. A humanidade surge num homem, não com a sua forma (humana), mas com a sua relação (humana) com o mundo. O simples facto de estar no mundo não é suficiente; a barata também está no mundo. É necessária uma conexão, uma relação interactiva, um vínculo com a realidade tangível.
in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Campo da Comunicação, p. 186.
23 abril 2015
Criar imagens
"Não há arte sem um olhar que a veja como arte."
A arte em geral existe em virtude de um regime de identificação - de disjunção - que dá visibilidade e significação a práticas de arranjo de palavras, de arranjo expositivo das cores, de modelagem, dos volumes ou de evolução dos corpos, que decidem, por exemplo, o que é uma pintura, o que se faz ao pintar e o que se vê num mural ou numa tela pintados."
in: O Destino das Imagens, de Jacques Rancière, Orfeu Negro, Lisboa, 2011, p. 99 e 101.
Obras: Poemas e Desenhos, de Ana Paula Gaspar
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