Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

16 fevereiro 2015

Monólito | Pedro Vaz


 

A exposição Monólito, de Pedro Vaz, apresenta-nos um desafio que parte de três elementos: uma pedra, um mapa e um filme. Marco inicial, desenho de projecto, a pedra e o mapa funcionam como indícios que o filme revela, incitando-nos à própria descoberta.
Acompanhando um curso de água, como a linha de uma escrita pré-determinada da paisagem, este vídeo - parte obra documental, parte ficção - permite-nos testemunhar o itinerário de uma personagem (um alter ego a que o autor se refere como "ele") na sua deambulação metafórica.
Narrativa evocadora da viagem essencial, "Monólito" é o resultado de um encantamento (ou uma invocação) pela pedra, pelo uno, pelo caminho como processo artístico (de que o mapa é também símbolo), da libertação para a elevação, conduzindo à criação, cujo corolário iremos descobrir no jardim Botânico O Chão das Artes, escondido entre as árvores da Mata.

in: Monólito, Excerto do texto de Emília Ferreira, Casa da Cerca, Almada, 14 de Fevereiro de 2015

14 fevereiro 2015

Dafnis e Cloé | Longus

… A época do ano também os excitava. Era já o fim da Primavera e o princípio do Verão: a vegetação inteira resplandecia de vigor, com as árvores cobertas de fruta e os campos de trigo ceifado. Encantador era o ruído das cigarras, suave o odor dos frutos, agradável o balir das ovelhas. Dir-se-ia que por seu turno os ribeiros cantavam correndo devagar, que os ventos tocavam flauta nos pinheiros, que as maçãs se deixavam cair por terra sob o efeito do amor, que o sol, guloso de beleza, despia toda a gente. Dafnis, que toda aquela atmosfera excitava, entrava nos ribeiros, umas vezes para neles se banhar, outras para pescar os peixes irrequietos. Muitas vezes bebia neles também, pensado apagar a febre que sentia em si. Quanto a Cloé, depois de ter mungido as suas ovelhas e a maior parte das cabras, passava muito tempo a coalhar o leite, porque as moscas a incomodavam imenso e a picavam quando ela as enxotava. Depois do que, lavava a cara, engrinaldava-se com raminhos de pinheiro, punha à volta da cintura a pele de gazela e, enchia de vinho e de leite preparando uma bebida que partilhava com Dafnis.
Mas quando chegava o meio dia, eles tornavam-se prisioneiros dos próprios olhares. Ela, ao olhar para Dafnis despido, sentia-se arrebatada por aquela beleza perfeita e sentia-se aniquilada diante daquele rapaz no qual ela não conseguia encontrar nada a criticar. Ele, ao vê-la com a pele de gazela e a grinalda de pinheiro, a estender-lhe a escudela, julgava estar a olhar para uma das Ninfas da gruta. Ele pegava nos raminhos de pinheiro que ela tinha na cabeça e fazia para si uma grinalda, depois de a ter levada aos lábios. Por seu lado, enquanto ele tomava banho todo nu, ela agarrava na roupa dele para se vestir com ela, depois de a ter igualmente levado aos lábios. Às vezes, atiravam maçãs um ao outro, e arranjavam as cabeleiras penteando-se um ao outro. Ela, comparava a cabeleira de Dafnis, a sebes de murta porque era escura. Ele, comparava o rosto de Cloé a uma maçã porque ele era branco e rosado. Ensinava-lhe também a tocar flauta e, quando ela começava a soprar, ele tirava-lhe a flauta e fazia correr os lábios sobre as canas: parecia corrigir os erros, na realidade, através daquela flauta, eram de facto beijos que ele dava a Cloé. …

in: Dafnis e Cloé, de Longus, (Canto Nono), Editorial Teorema, 1996  

01 fevereiro 2015

Numa Alma …


Numa alma não cultivada os desejos são todos materiais: sexo, alimento, poder, prazer físico. O desejo da alma é a posse: posse do amado, da fama, da fortuna, do poder.

Numa alma harmoniosa esses objectivos são substituídos pelo desejo da posse das ideias puras: o bom (justo/injusto). O verdadeiro e o belo. Quer-se possuí-los mas para isso tem que se fazer um longo caminho de aperfeiçoamento espiritual que nos permita anular os desejos que nos afastam do mundo das ideias e cultivar os pensamentos abstractos.

in: Os Primórdios da Psicologia na Grécia, de Rodrigo de Sá-Saraiva, 2014, p. 9.

22 janeiro 2015

Rainer Maria Rilke | Cartas a Um Jovem Poeta

Paris, 17 de Fevereiro de 1903


Estimado Senhor,

A sua carta chegou-me há poucos dias. Quero agradecer-lhe a sua grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer para além de agradecer. Não posso pronunciar-me sobre a qualidade dos seus versos, pois sou avesso a qualquer intenção crítica. Nada está mais longe de tocar numa obra de arte do que palavras críticas: delas resultam apenas mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas não são tão apreensíveis nem tão dizíveis como nos fazem crer; quase todos os eventos são inefáveis, desenrolam-se num espaço onde as palavras nunca entram, e os mais inefáveis entre eles são as obras de arte, existências misteriosas cuja vida, ao lado da nossa que se perde, perdura.
Tendo começado com este aviso, devo ainda dizer-lhe que os seus versos não têm um estilo próprio, embora traiam indícios silenciosos e velados de uma voz pessoal. Os mais evidentes encontram-se no seu último poema, «A minha alma». Há nele qualquer coisa que quer chegar à palavra e à forma. E no seu bonito poema «A Leopardi» talvez cresça já uma qualquer afinidade com esse grande solitário. Contudo, os seus poemas não têm ainda vida própria, não são autónomos, nem mesmo o seu último poema ou aquele que dedicou a Leopardi. A sua gentil carta, que acompanhava os poemas, veio esclarecer algumas das falhas que pressenti ao ler os seus versos sem que nesse momento conseguisse nomeá-las.
Pergunta-me se os seus versos são bons. Pergunta-me a mim. Já antes perguntou a outros. Envia-os a revistas. Compara-os com outros poemas, apoquenta-se quando algumas redacções rejeitam os seus esforços. Pois bem, e já que me permite aconselhá-lo, peço-lhe que desista de tudo isso. Está a olhar para fora de si, e é sobretudo isso que não deve fazer agora. Ninguém o pode aconselhar, ninguém o pode ajudar, ninguém. Há uma única via. Entre dentro de si. Investigue a razão que o leva a escrever, veja se ela lançou raízes no lugar mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade; a sua vida, mesmo nas horas mais indiferentes e pequenas, terá de ser um sinal e um testemunho deste ímpeto. Aproxime-se então da Natureza. Tente então dizer, como o primeiro homem, o que vê e o que vive e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite por ora as formas mais comuns e correntes: são elas as mais difíceis, pois só uma grande força, já amadurecida, conseguirá criar uma coisa própria por entre a abundância de boas e por vezes brilhantes prestações. Evite por isso os motivos gerais e prefira aqueles que o seu quotidiano lhe oferece; descreva as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a fé numa qualquer beleza - descreva tudo isso com sinceridade íntima, tranquila, modesta, e para lhes dar expressão sirva-se das coisas que o rodeiam, das imagens dos seus sonhos e dos objectos das suas recordações. Se o seu dia-a-dia lhe parecer pobre, não o acuse de pobreza; acuse-se a si próprio, reconheça que não é ainda poeta o bastante para conseguir invocar as suas riquezas; pois para um criador não há pobreza e nenhum lugar é indiferente e pobre. E mesmo que estivesse numa prisão, cujas paredes separassem os ruídos do mundo dos seus sentidos, teria ainda e sempre a sua infância, essa riqueza preciosa e imperial, a câmara do tesouro da lembrança. Dirija a ela a sua atenção. Tente levantar as sensações submersas desse passado longínquo; a sua personalidade fortalecer-se-á, a sua solidão estender-se-á até se tornar uma casa à luz do cair da tarde ou do amanhecer, por onde o ruído dos outros passa à distância. E se, depois deste movimento de introspecção, depois deste mergulho no seu próprio mundo, se depois nascerem versos, já não lhe ocorrerá perguntar a alguém se eles são bons. Também não tentará despertar o interesse das revistas por estes trabalhos, pois vê-los-á como propriedade sua, natural e preciosa, como uma parte e uma voz da sua vida. A boa obra de arte nasce da necessidade. É esta origem, e nada mais, que determina o juízo do seu valor. Por esta razão, caro Senhor, não posso dar-lhe outro conselho para além deste: entre dentro de si e sonde as profundezas donde brota a sua vida; é nesta fonte que se encontrará a resposta à pergunta: tenho de criar? Admita a resposta, qualquer que ela seja, sem a interpretar. Talvez venha a descobrir que nasceu para ser artista. Nesse caso, aceite o seu destino, carregue o seu peso e grandeza, sem perguntar por proveitos que possam vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo, tem de encontrar tudo dentro de si e na Natureza a que se uniu.
Talvez aconteça que, depois desta descida dentro de si e da sua solidão, tenha que renunciar a ser poeta; (como disse, basta sentir que se consegue viver sem escrever para não dever sequer tentá-lo). Mas mesmo então este exame de consciência que o insto a fazer não terá sido em vão. A sua vida encontrará em todo o caso os seus próprios caminhos, e que eles sejam bons, ricos e longos é o que eu lhe desejo mais do que consigo dizer.
O que devo acrescentar ainda? Parece-me que tudo foi sublinhado com a importância devida. Queria apenas aconselhá-lo, por fim, a velar em silêncio e com seriedade pelo seu crescimento; não há perturbação mais violenta do que olhar para fora e esperar respostas exteriores a perguntas a que talvez só a sua sensibilidade mais íntima, nas horas de maior silêncio, poderá responder.
Foi com grande alegria que encontrei na sua carta o nome do Professor Horacek; tenho uma grande admiração por este amável erudito e uma gratidão acalentada ao longo dos anos. Peço-lhe que lhe transmita os meus sentimentos; é muita bondade dele lembrar-se ainda de mim, e sei dar-lhe o justo valor.
Devolvo-lhe os versos que amigavelmente me enviou. E agradeço-lhe uma vez a sua grande e amável confiança, de que tentei ser mais digno, através da sinceridade e boa-fé desta minha resposta, do que como estranho realmente sou.
Com grande estima e dedicação,

Rainer Maria Rilke

in: Cartas a um jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke (Tradução de Isabel Castro Silva), Edições Quasi, (1875-1926)

14 dezembro 2014

A Vida | Nietzsche

Frederico-Guilherme Nietzsche nasceu em 1844, no presbitério de Roecken, numa região da Turíngia anexada à Prússia. Nietzsche foi educado em Naumburg, num meio feminino, com a sua irmã mais nova, Elisabeth. Ele era a criança prodígio; guardam as suas dissertações, os seus ensaios de composição musical. Faz os estudos em Pforta, depois em Bona e em Leipzig. Escolhe a filosofia contra a teologia. Mas já a filosofia o assombra, com a imagem de Schopenhauer, pensador solitário, podendo proceder do sofrimento, do mal-estar ou da angústia - apesar de o filósofo, o tipo de filósofo segundo Nietzsche, ter um excesso de sofrimento. Mas tão-pouco concebe a doença como um acontecimento que afecte de fora um corpo-objecto, um cérebro-objecto. Na doença, ele vê de preferência um ponto de vista sobre a saúde; e na saúde um ponto de vista sobre a doença. (…) A doença como avaliação da saúde, os momentos de saúde como avaliação da doença: tal é a "inversão", o "deslocamento das perspectivas", em que Nietzsche vê o essencial do seu método e da sua vocação para uma transmutação de valores. (…)
Em Nietzsche tudo é máscara. A sua saúde é uma primeira máscara para o seu génio; os seus sofrimentos, uma segunda máscara para o seu génio e para a sua saúde, ao mesmo tempo. Nietzsche não acredita na unidade de um Eu e não o experimenta: relações subtis de poder e de avaliação entre diferentes "eu" que se escondem, mas que exprimem também forças de outra natureza, forças da vida, forças do pensamento - tal é a concepção de Nietzsche, a sua maneira de viver. Wagner, Schopenhauer e até Paul Rée foram vividos por Nietzsche como as suas próprias máscaras. Depois de 1890, acontece que alguns amigos (Overbeck, Gast) pensam que a demência, para ele, é uma última máscara. Ele escrevera: "E, por vezes, a própria loucura é uma máscara que esconde um saber fatal e demasiado seguro." (…)
Em Nietzsche, sucedem-se, cada vez mais densas, as alternâncias de euforia e de depressão. Ora tudo lhe parece excelente: o alfaiate, o que come, o acolhimento das pessoas, a fascinação que julga exercer nas lojas. Ora o desespero o domina: a ausência de leitores, uma impressão de morte, de traição. (…)
Ao mesmo tempo, Nietzsche constrói de si mesmo uma imagem mundial cósmica provocadora "um dia a lembrança de qualquer coisa de formidável estará ligada ao meu nome", "só a partir de mim é que há a grande política na Terra"; mas também se concentra no momento, preocupa-se com um sucesso imediato. (…)
Diagnostica-se uma "paralisia progressiva". (…) Ora calmo ora em crise, parecendo ter esquecido toda sua obra, fazendo música ainda. A evolução da doença prosseguiu lentamente até à apatia e à agonia. Morre em Weimar em !900.

in: Nietzsche, de Gilles Deleuze, Edições 70, Biblioteca Básica de Filosofia, Lisboa, 2001

25 novembro 2014

Luz | Jorge Calado


A energia solar é o resultado da fusão atómica: átomos de hidrogénio que se combinam para formar hélio - afinal, o mecanismo da bomba de hidrogénio. (…)
O papel da ciência é fazer perguntas, boas perguntas. (…)
A química é a resposta a uma curiosidade fundamental: de que são feitas as coisas?
O hidrogénio reage com o oxigénio do ar para formar água, libertando energia que se reconhece pela explosão. A chama é sinal de uma química muito activa. As substâncias combinam-se ou decompõem-se para formar outras substâncias. (…)
O nome da ciência deriva de chemeia ou chemia, termo alexandrino que designava a arte egípcia. Plutarco achava que a palavra chem traduzia a cor escura do solo egípcio - daí a contaminação do significado da química com as artes negras da magia.
O papel dos alquimistas foi assumido, em pleno século XX, pelos físicos nucleares!
São os problemas que fazem nascer as ciências. (…)
Os quatro elementos de Empédocles - terra, água, ar e fogo - valiam pelas suas qualidades. Não é por acaso que os três primeiros correspondem aos três estados fundamentais da matéria - sólido, líquido e gasoso - e o quarto representa a indispensável energia que permite fundir sólidos e vaporizar líquidos (para além de tudo o resto). Nada acontece sem energia; ou melhor, se não houver variação de energia em nenhuma parte do sistema, este pode considerar-se morto.
As velhas crenças levam tempo a morrer. Pensando melhor, não morrem de todo; continuam presentes numa espéci de estado comatoso, à espera de recuperação (ou re-incarnação). (…)

Andrew Marvell notou enfaticamente que
Nenhuma criatura gosta de espaço vazio;
Os seus corpos crescem à medida do lugar.

Ainda mais horrível que o vazio era a noção de penetrabilidade da matéria. A matéria é impenetrável, isto é, dois corpos diferentes não podem ocupar o mesmo espaço. (…)
Dois electrões não podem partilhar o mesmo estado. Se têm a mesma energia e um roda num sentido (spin), o outro tem de rodar no sentido oposto. (…) A metáfora é apropriada, pois o poder não se partilha. Um ditador, tal como um electrão, exclui outro.

De onde vem a electricidade atmosférica? A origem é química. As moléculas são feitas de átomos, e estes, de electrões (carregados negativamente), protões (carregados positivamente) e neutrões (partículas neutras). (…) Os ventos põem grandes massas de ar em andamento; movimento causa atrito; atrito produz electrização.

in: Haja Luz!, de Jorge Calado, Edição Instituto Superior Técnico, Lisboa, 2011

14 novembro 2014

Sintonia | Saber Ouvir

Sintonia é a atenção que vai mais além da empatia momentânea, uma presença plena e continuada que facilita a relação. Oferecemos a alguém a nossa atenção total e escutamos plenamente. Procuramos compreender a outra pessoa em vez de expressarmos a nossa opinião.
Esta capacidade de escutar plenamente parece ser uma aptidão natural. No entanto, como acontece com todas as dimensões da inteligência social, é possível aperfeiçoá-la. E todos nós podemos promover esse aperfeiçoamento prestando intencionalmente mais atenção. A maneira de falar de uma pessoa dá boas indicações sobre a sua capacidade de ouvir profundamente. Durante momentos de genuína conexão, aquilo que dizemos será responsivo ao que o outro sente, diz e faz. Quando a conexão é má, pelo contrário, as conversas tornam-se balas verbais: a mensagem que transmitimos não se altera de modo a adequar-se ao estado de espírito da outra pessoa, limita-se a reflectir o nosso. Ouvir faz toda a diferença. Falar com uma pessoa em vez de escutar o que ela diz reduz a conversa a um monólogo.
(…)
Descobriu-se que saber ouvir é o que distingue os melhore gestores, professores e líderes. (…)
A atenção total, tão ameaçada nesta época de multitarefas, perde acuidade sempre que dividimos o nosso foco. A auto-absorção e as preocupações reduzem o nosso enfoque, deixando-nos menos capazes de reparar nos sentimentos e necessidades dos outros, quanto mais responder-lhes com empatia. A nossa capacidade de sintonia ressente-se, sufocando a relação.
A plena presença não exige, todavia, assim tanto de nós. «Uma conversa de cinco minutos pode ser um momento humano totalmente significativo», nota um artigo publicado na Harvard Business Revue. «Para que resulte, tem de pôr de lado seja o que for que estiver a fazer, pousar o memorando que está a ler, largar o computador, sair do seu devaneio e concentrar-se na pessoa que tem à sua frente.»
Ouvir plenamente maximiza a sincronia fisiológica, de modo que as emoções se alinham. (…) Prestar intencionalmente mais atenção a alguém pode ser a melhor maneira de encorajar o nascimento de uma relação. Escutar atentamente, com uma atenção indivisa orienta os nossos circuitos neurais para a conectividade, pondo-os no mesmo comprimento de onda. Isto maximiza a probabilidade de os ingredientes essesnciais da outra pessoa para a relação - sincronia e pensamentos positivos - despertam e desabrocham.

in: Inteligência Social, de Daniel Goleman, pp. 135 a 138.

28 outubro 2014

Plátano de Hipócrates | Jardim do Príncipe Real


À semelhança de Platão e de outros filósofos da Grécia clássica, Hipócrates, considerado o pai da medicina, instruía os seus discípulos ao ar livre. Platão preferia um bosque sagrado chamado Akademia, que derivou no significado moderno da palavra academia.
Hipócrates meditava e leccionava à sombra de um plátano na ilha de Cós, que ficou para a história como Plátano de Hipócrates ou Árvore da Saúde. Um propágulo desta famosa àrvore foi oferecida a Portugal pelo rei Paulo da Grécia e plantado no Jardim França Borges (Príncipe Real) a 9 de janeiro de 195. Ainda hoje lá permanece, majestoso, na esquina sudoeste do Jardim.

in: Árvores de Lisboa, Monumentos Vivos, de Tomás Collares Pereira, 2014

25 setembro 2014

O Jardim | Poema


O jardim é o meu refúgio
As árvores protegem
As flores sorriem
Os pássaros cantam
As plantas salpicam a terra

Tudo enquanto descanso
As folhas que se soltaram esvoaçam por ali
Tudo tranquilo
O ritmo da vida na Terra é sereno

Só nós corremos contra o vento
Corremos contra nós mesmos
Corremos para uma morte anunciada

O jardim esse adapta-se
Congratula-se pelas estações do ano
Veste-se e despe-se naturalmente
Deixa-se estar
Vive simplesmente.

17 setembro 2014

Simples Diários Complexos | Edgar Morin

Opor questões científicas com humanistas, para Morin, é perder dos dois lados. Vivemos em um mundo onde nunca se disseminou tanto conhecimento e, por isso, articular as diferentes áreas nunca foi tão necessário, segundo o filósofo. Justamente pelo facto de o mundo ter ficado mais complexo, Morin busca novas estruturas mentais de compreensão desse novo universo, formas alternativas de integração.
(…)
Quando se escreve um livro vira uma testemunha.
(…)
Há muitas razões: para os críticos, os escritores, os filósofos, os sociólogos, eu sou uma espécie de camaleão, não sou um escritor, não sou um filósofo, um sociólogo, não tenho forma, não tenho etiqueta, logo não inspiro interesse. Então, uma maneira de fazer as minhas ideias serem conhecidas é fazê-las passar também pelas entrevistas. Me sinto um pouco obrigado a dar entrevistas.
(…)
Bom, para começar a curiosidade é própria das crianças, mas se os professores não têm paixão, se estão entediados, acabam arrefecendo a curiosidade delas. Creio que há dois problemas: uma coisa que diria Platão é que para ensinar é necessário amor, paixão. Essas condições não estão num manual, porém são fundamentais; o segundo problema é que precisamos relacionar as disciplinas múltiplas. Se você fizer a seguinte pergunta: "o que é ser humano?" Essa é uma pergunta sobre os diversos saberes que temos em relação ao ser humano. Eu vejo que as ciências humanas estão dispersas, a Psicologia, a Sociologia. Também temos os conhecimentos que nos dá a Literatura, porque ela nos ensina sobre o ser humano. Podemos pensar também na Biologia… Se você ensina o que é o ser humano aos seus alunos, você os cativa. Eu acho que uma ciência muito interessante é a História.
(…)
Bom, a complexidade foi formulada pela primeira vez entre matemáticos, engenheiros e cibernéticos. … Eu creio que nós estamos numa época em que a complexidade se impõe sobre a compartimentação. É um novo caminho para o mundo, para o ensino. Isso já acontece em alguns países da América Latina, o Brasil, por exemplo. Sobretudo é necessária uma mudança de estrutura mental.
(…)
É muito difícil definir a inteligência porque não é um quociente individual. A inteligência é um conjunto de qualidades muito diferentes porque necessita de capacidades de síntese, de análise e, no mínimo, de capacidade reflexiva e autocrítica. A inteligência necessita também de sensibilidade, porque a razão fria é muito limitada, mas uma paixão sem razão é muito limitada também. É necessária a mistura de razão e paixão. Então penso que a inteligência não tem uma definição simples. Há uma complexidade de elementos que permitem a inteligência. Há outra coisa que ultrapassa a inteligência, que é a capacidade de criar. A criatividade é algo em que é preciso capacidade intelectual, mental, cerebral. A possibilidade de fazer uma combinação nova, de fazer descobertas novas também exige inteligência. … Então, a inteligência é a capacidade de admiração, de se inquietar, a curiosidade… muitas coisas se somam à inteligência, é um coktail, e quando bem feito é como uma boa caipirinha.

in: Simples Diários Complexos, Edgar Morin por Sérgio Mélega, Revista Filosofia, Nº 78, 2013, pp. 5 a 13.

10 setembro 2014

No Teu Deserto | Miguel Sousa Tavares

… tu foste tomar banho em primeiro lugar. E porque a porta da casa de banho não encostava bem - e não sei se reparaste nisso - de onde eu estava, estirado na cama, a repousar das oito horas ao volante mais o resto, vi-te a despir, a ficares toda nua e a entrares na banheira de água quente e nem por um momento me ocorreu deixar de o fazer. Estava cansado de mais para desviar o olhar.
(…)
Dormias profundamente, com a cara virada para mim e a tua mão direita pousada sobre o meu ombro. Como se fôssemos íntimos.
(…)
- Claudia, desculpa se te tratei mal: estava muito cansado. Mas, por favor, vem para a tenda!
O meu querido companheiro do deserto!
(…)
- Vira-te de costas, que me vou despir.
Mas, depois, veio e deitou-se abraçada a mim. Ou assim me pareceu.
(…)
Sim, é verdade: eu encostei-me a ti e abracei-te, nessa primeira noite na nossa tenda, no camping de Ghardaia, quando nos deitámos as duas horas que faltavam antes de partirmos para o deserto.
Encostei-me a ti e abracei-te sem sequer pensar no que estava a fazer: apeteceu-me, senti que não havia nenhuma razão para não o fazer. O teu cansaço comoveu-me e a tua delicadeza, ao deixares tanto espaço livre para mim ao lado do teu saco-cama, foi irresistível.
(…)
- Claudia, não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.
(…)
- Mas tu não poupas as palavras: tu escreves. Todas as noites gastas uma hora a escrever um diário nesse teu caderno…
(…)
Não me acordes agora, não me fales alto antes de me falares ao ouvido, não me tragas de volta do deserto.
(…)
- Sabes apetecia-me estar lá, no deserto. Não consegui ainda habituar-me a isto.
- Tens de te habituar. A vida é assim mesmo, nada dura para sempre. Só os rios e as montanhas, como diziam os índios da América.
(…)
Sem que eu tivesse de pensar em nada quando acordava, sem ter de planear os dias, de encher os dias, de enganar o vazio de tudo. Era isso, meu querido, mais do que tudo, que me dava essa incrível sensação de conforto, de segurança. Eras tu: tu estavas ali, tu tinhas tudo planeado e pensado e, por mais insuportável que às vezes me parecesse essa tua obsessiva organização e teimosia, por mais que tantas vezes te contrariasse só para te ver irritado ou para simular uma revolta que de todo não sentia nem queria que sentisses, esses foram os dias inesquecíveis em que soube que alguém cuidava de mim, que alguém me tinha pegado na mão e me conduzia por onde não havia nada - nem estradas, nem casas … nem árvores … - e a minha única tarefa era deixar-me conduzir por ti, entre a lucidez e o sonho.
(…)
Já sei, já sei que nada dura para sempre - só as montanhas e os rios, meu sábio.

in: No Teu Deserto, de Miguel Sousa Tavares, Oficina do Livro, Lisboa, 2009, p. 54, 62, 73, 89, 91, 97, 100, 105, 107, 108, 111.

05 setembro 2014

Quando as Paixões Ultrapassam a Razão | Daniel Goleman

(…) Mal-grado estas restrições sociais, as paixões estão permanentemente a sobrepor-se à razão. Esta constante da natureza humana decorre da arquitectura básica da vida mental. Em termos de concepção biológica do circuito neuronal de emoções básico, aquilo com que nascemos é o resultado melhor para as últimas 50 000 gerações humanas. As forças lentas e deliberadas da evolução que moldaram as nossas emoções fizeram o seu trabalho ao longo de um milhão de anos; os últimos 10 000 - apesar de terem assistido à rápida ascenção da civilização humana e à explosão da população de cinco milhões para cinco biliões - quase não deixaram marca nas nossas matrizes biológicas para a vida emocional.
Para o melhor ou para o pior, a nossa avaliação de cada encontro pessoal e as nossas respostas a estes encontros não são determinadas apenas pelo nossos juízos racionais ou a nossa história pessoal, mas também pelo nosso passado ancestral. (…) Em resumo, muito frequentemente confrontamos dilemas pós-modernos com um repertório emocional feito à medida das exigências do Pleistoceno.

in: Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, p. 27.

11 agosto 2014

Três Níveis de Subtileza


Três níveis distintos de informação e compreensão (...) Neste sentido, um famoso rabi do século XVII, Menasseh ben Israel, dizia que o Pentateuco, tem, como o homem, três níveis de subtileza:

. O Corpo Físico - o nível mais básico e imediatista, lido e entendido histórica e literalmente, (com proveito!), pelos "homens ignorantes".
. A Alma Racional - o nível intermédio, objecto do estudo dos "homens eruditos".
. O Espírito Imortal - o nível superior, sobre o qual os "homens sábios" meditam.

  in: Letras Sagradas e Textos Inspirados, Revista Biosofia, Nº 41, 2012, p. 14.

31 julho 2014

O Guardador de Rebanho | Alberto Caeiro

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol,
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-do-sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

(…)

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

in: O Guardador de Rebanhos, (Textos seleccionados), de Alberto Caeiro, Edição Alma Azul, Coimbra, Poema I, p. 3 e 4.

22 junho 2014

William Morris | Casa da Cerca





Padrões de William Morris (1834 - 1896), um dos fundadores do movimento de Artes e Ofícios. Artista inglês, escritor e poeta.

in: Casa da Cerca, Almada, Portugal, Junho de 2014.

09 junho 2014

O Donjuanismo

Se amar fosse bastante, as coisas seriam simples de mais.
Quanto mais amamos mais o absurdo se consolida. Não é por falta de amor que Don Juan vai de mulher em mulher. É ridículo representá-lo como um iluminado, em busca do amor total. Mas é porque ele as ama com idêntico entusiasmo e sempre com inteireza, que lhe é necessário repetir esse dom e esse aprofundamento. Daí todas esperarem ofertar-lhe aquilo que nunca ninguém lhe deu. De todas as vezes se enganam profundamente e só conseguem fazer-lhe sentir a necessidade de tal repetição. «Finalmente - exclama uma delas - dei-te o amor.» E há quem se espante por Don Juan sorrir dessa ingenuidade. «Finalmente, não - diz ele - mas uma vez mais.» Porque seria necessário amar raramente para amar muito?
(…)
Não saber alegrar a alma já era vendê-la. Don Juan domina, pelo contrário, a saciedade. Se deixa uma mulher, não é em absoluto porque já não a deseja. Uma mulher bela é sempre desejável. É, sim, porque deseja outra, e, de facto, não se trata da mesma coisa.
Esta vida satisfá-lo, nada pior que perdê-la. Esse louco é um grande sábio. Mas os homens que vivem de esperança dão-se mal neste universo, onde a bondade cede o seu lugar à generosidade, a ternura ao silêncio viril, a convulsão à coragem solitária. E todos dizem: «Era um fraco, um idealista ou um santo.» Assim se minimiza a grandeza que insulta.
(…)
O inferno para ele é coisa que o provoca. Só tem uma resposta para dar à cólera divina, e é a honra humana: «Tenho honra - disse ele ao Comendador - e, cumpro a minha promessa porque sou cavaleiro.» Mas seria igualmente erróneo querer fazer dele um moralista. Pois ele é, a esse respeito, «como toda a gente»: tem a moral da sua simpatia ou da sua antipatia.
(…)
Seduzir é o seu estado. (…) O que Don Juan põe em acto é uma ética da quantidade, ao contrário do santo, que tende para a qualidade. Não acreditar no sentido profundo das coisas é próprio do homem absurdo. Percorre esses rostos calorosos ou maravilhados, enceleira-os e queima-os. O tempo avança com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo. Don Juan não pensa em «coleccionar mulheres». Esgota-lhes o número e com elas esgota as suas possibilidades de vida. Coleccionar é ser capaz de viver do seu passado. Mas ele recusa a saudade, essa outra forma de esperança. Não sabe olhar os retratos.
Será por isso egoísta? À sua maneira, sem dúvida. Mas ainda nesse ponto, temos que nos entender. Há aqueles que são feitos para viver e os que são feitos para amar. Don Juan, pelo menos, di-lo-ia de boa vontade. Mas di-lo-ia metendo por um atalho, à sua maneira. Porque o amor de que aqui se fala é enfeitado com as ilusões do eterno. Todos os especialistas da paixão no-lo dizem, não há amor eterno, a não ser contrariado. Não existe paixão sem luta. Tal amor só encontra fim na derradeira contradição, que é a morte. É preciso ser Werther ou nada. Ainda aí, há várias maneiras de alguém se suicidar, uma das quais é o dom total e o esquecimento de si próprio.
(…)
Só chamamos amor àquilo que nos liga a certos seres, em referência a um modo de ver colectivo, de que são responsáveis os livros e as lendas. Mas do amor só conheço essa miniatura de desejo, de ternura e de inteligência que se liga a determinado ser. Esse composto não é o mesmo em relação a outra qualquer criatura. (…) O homem absurdo ainda multiplica aqui aquilo que não pode unificar. Assim, descobre nova maneira de ser, que pelo menos, liberta tanto quanto liberta os que dele se aproximam. Não há amor generoso, a não ser aquele que ao mesmo tempo se sabe passageiro e singular.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, pp. 76 a 80.

04 junho 2014

A Liberdade Absurda


Viver é fazer viver o absurdo.
Fazê-lo viver é, antes de mais, olhá-lo. Ao contrário de Eurídice, o absurdo só morre quando dele nos afastamos, sem voltar a cara para trás. Uma das únicas posições filosóficas coerentes é, assim, a revolta. Ela é um confronto perpétuo do homem e da sua própria obscuridade. É a exigência de uma impossível transparência. Equaciona o problema do mundo a cada segundo. Tal como o perigo fornece ao homem possibilidades insubstituíveis de tomada de consciência, assim a revolta metafísica dilata a consciência ao longo da experiência. É a presença constante do homem em si próprio. Não é aspiração, pois é sem esperança. Esta revolta não passa da certeza de um destino esmagador, mas sem a resignação que deveria acompanhá-la.

in: O Mito de Sísifo, de Albert Camus, p. 59 e 60.

26 maio 2014

O Estúdio | Alberto Giacometti

Zona secreta, solidão onde se refugiam os seres - e as coisas - é ela que dá beleza à rua: por exemplo, se for sentado num autocarro basta olhar pela janela. A rua cede o que o autocarro devassa. Sigo demasiado depressa para ter tempo de reter rostos ou gestos, a velocidade exige do meu olhar igual velocidade, e por isso nem um rosto, um corpo, ou atitude sequer, me esperam: tudo está ali a nu. Registo: um homem enorme, curvado, muito magro, peito escavado, óculos, o nariz comprido; uma dona-de-casa gorda caminha lentamente, pesada, triste; um velho sem graça, uma árvore solitária, ao lado outra árvore solitária, e outra… um empregado, outro, uma multidão de empregados, a cidade inteira cheia de empregados curvados, todos juntos num pormenor que os meus olhos registam: bocas crispadas, ombros caídos… uma a uma, talvez devido à velocidade dos meus olhos e do veículo, as suas atitudes ficam rabiscadas tão depressa, tão rápido surpreendidas em seu arabesco, que cada ente é-me revelado no que tem de novo e insubstituível - invariavelmente uma ferida - graças à solidão onde essa ferida os coloca e eles mal reconhecem, se bem que todo o seu ser aí aflua…

in: O Estúdio de Alberto Giacometti, de Jean Genet, p. 35.

21 maio 2014

João da Câmara Leme | Designer


Uma linha recta
Convicta e correcta
é um grito de linha
que chega ao infinito

é a única estrada
que não vai dar a nada!

Um segmento de recta
pode parar na esquina
subir uma parede
beijar uma menina

Por sobre os longos campos
e o vale em flor e o mar,
desenhada pelo vento
lá vai ela a passar…

Um segmento de recta
pode ter alegria

pode subir às árvores
e num raio de luz
descer até ao chão
anunciando o dia!

in: Exposição de design gráfico, do Designer João da Câmara Leme, Museu das Tapeçarias de Portalegre, Maio.2014
Ver: https://almanaquesilva.wordpress.com/category/joao-da-camara-leme/?blogsub=confirming#subscribe-blog

04 maio 2014

Ser | Solitário

Acompanhado da fragilidade pós-moderna em todos os âmbitos da sociedade, os relacionamentos são mais uma questão a trazer angústia para indivíduos esvaziados e que vão buscar em um parceiro um alento para satisfazer suas frustrações. Mas que não sabem mais como se relacionar.
Segundo Arthur Schopenhauer, a felicidade vem de uma forma de vida auto-suficiente, e ainda segundo André Comte Sponville que diz que mesmo o amor a dois deve ser solitário.
Então, será que estar sozinho não pode ser uma opção, uma escolha? Não existe um meio-termo entre um relacionamento ortodoxo e um estilo de vida hedonista conhecido como "vida de solteiro"?
Não estar acompanhado de um parceiro parece estranho aos olhos da sociedade. Isso pode se dever ao facto de inúmeros exemplos no nosso quotidiano, seja no cinema, em letras de música, no senso comum, ou nas obras de autoajuda, em que proliferam abordagens simplórias sobre o amor e que alimentam ainda mais as frustrações de relacionamentos por oferecer visões distorcidas e incentivar um posicionamento romântico e raso sobre o tema. (…) A solidão não é outra possibilidade? E outros tipos de comportamentos em diferentes momentos da vida? Calma, tempo para si, contemplação… relacionamentos distintos, com outros contornos, não seriam válidos? (…)
Tratando-se do amor, especificamente, ele defendia que, em função da vontade, ambicionamos preservar a espécie. O amor, nessa esteira, seria uma ilusão: "Nenhuma união é tão infeliz quanto esses casamentos por amor - e precisamente pelo facto de que o seu objectivo é a perpetuação da espécie, e não o prazer do indivíduo". "Só um filósofo pode ser feliz no casamento, e os filósofos não casam". O verdadeiro mote, por trás da vontade de reproduzir, seria, em suma, a preservação da espécie, e para isso, "cada qual procura um companheiro que vá neutralizar seus defeitos, para que esses não sejam transmitidos".  

Amor e Relacionamento Versus Felicidade, in: Filosofia, Ano VII, Nº 76, Novembro 2012, pp. 14 a 23.