Helicon
E que querias tu?
Calígula
A Lua
Helicon
Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso.
Calígula
… Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível.
… Tenho, portanto, necessidade da Lua ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo.
… Os homens morrem e não são felizes.
… Porque lhes falta um professor que conheça aquilo que ensina.
Cipião
… que fazer sofrer é a única maneira de agente se enganar.
Calígula
… devem obrigatoriamente deserdar os filhos e testemunhar imediatamente a favor do Estado.
… Governar é roubar, toda a gente o sabe.
… por mim, roubarei francamente.
Acreditava, como toda a gente, que estar desesperado era uma doença da alma. Estava enganado, o corpo é que sofre.
… Como é duro, como é amargo a gente tornar-se um Homem!
… para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas, se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente, e com que decresça o sofrimento, se não posso impedir os seres de morrerem?
… Quero misturar o Céu com a Terra, confundir a beleza com a feldade, fazer explodir o riso, do sofrimento.
… quando a Lua for minha…
Cesónia
Nunca poderás negar o amor.
Calígula
O amor, Cesónia! Aprendi que não é nada.
Cherea
O que é insuportável é ver dissipar-se o sentido desta vida, ver desaparecer a nossa razão de existir.
Calígula
Qual é o castigo para os escravos preguiçosos?
O Chicote, suponho.
Cesónia
… as tuas mãos cheias de flores e de crimes.
… as tuas alegrias sem futuro…
… sacia-nos para sempre no teu coração negro e sujo.
Calígula
… Provei a esses deuses ilusórios que um homem, se tiver vontade, pode exercer sem aprendizagem o ridículo ofício deles.
… Compreendi simplesmente que só há uma maneira de nos igualarmos aos deuses e é tornarmo-nos tão cruéis como eles.
… se exerço este poder é por compensação.
Cipião
Por compensação? A quê?
Calígula
À estupidez e ao ódio dos deuses.
… Não Cipião, isto não é arte dramática! O erro de todos esses homens é não acreditarem o suficientemente no teatro. Se não fosse isso, saberiam que a qualquer homem é permitido representar as tragédias celestes e tornar-se deus. Basta endurecer o coração.
… Um homem honrado é um animal tão raro neste mundo, que a minha vista não o pode suportar durante muito tempo. Preciso de ficar só para saborear este grande momento.
Cherea
Tens alguma coisa de particular a dizer-me?
Calígula
Não. Cherea.
… Tenho necessidade de falar com alguém que seja inteligente.
… Cherea, acreditas que dois homens cuja alma e cuja altivez sejam iguais possam, ao menos uma vez na vida, abrir o coração e falar, como se estivessem nus, um diante do outro, despojados dos preconceitos, dos interesses particulares e das mentiras em que vivem?
Cherea
Penso que é possível, Caius. Mas julgo-te incapaz de o fazer.
Calígula
Tens razão. Só queria saber se pensavas como eu. Cubramo-nos então de máscaras. Utilizemos as nossas mentiras. Falemos como quem se bate, sempre em guarda. Porque é que não gostas de mim. Cherea?
Cherea
Porque em ti não há nada de que se possa gostar. Porque estas coisas não se controlam. E também, porque te compreendo o bastante para não te amar, e porque se não pode gostar, noutrem, daquilo que recalcamos em nós.
Calígula
Porquê odiares-me?
Cherea
Nisso, enganas-te Caius. Não te odeio. Apenas te julgo prejudicial e cruel, egoísta e vaidoso. Mas não te posso odiar, porque sei que és infeliz. E não te posso desprezar, porque sei que não és cobarde.
Calígula
Tu és inteligente, e a inteligência, ou se paga ou se nega. Eu pago. Mas tu, porque não queres negá-la, nem pagá-la?
Cherea
Porque tenho desejo de viver e de ser feliz. Creio que não se pode ter, indo até ao fim do absurdo, nem uma coisa nem outra. Sou como toda a gente. Para me sentir livre. Acontece que, às vezes, desejo a morte daqueles que amo, e convido mulheres que as leis da família ou da amizade me impediam de convidar. Para ser lógico, teria mesmo de matar ou de possuir. Mas penso que estas ideias vagas não têm importância. Se toda a gente se metesse a realizá-las, não poderíamos viver nem ser felizes. E insisto, é isso o que me importa.
Calígula
É preciso, então, que acredites em alguma ideia superior.
Cherea
Acredito que há acções belas e outras que o não são.
(…)
Velho Patrício
Não te importas de deixar de fazer filosofia? Horroriza-me.
Cherea
Reconheçamos, ao menos, que este homem exerce uma inegável influência. Obriga a pensar. Obriga toda a gente a pensar. A insegurança, eis o que o faz pensar. E é por isso que tantos ódios o perseguem.
Calígula
Então é porque há duas espécies de felicidade, e eu escolhi a dos assassinos. Porque sou feliz. Houve um tempo em que pensei atingir o limite da dor: pode-se ir mais longe ainda! (…)
… Mas o seu verdadeiro sofrimento não é tão fútil: é perceber que nem sequer o desgosto dura! Até a dor não faz sentido. (…)
… Sei que nada dura! Oh! Saber isto! Fomos só dois ou três, na história, que tivemos a verdadeira experiência disto, que pudemos atingir esta felicidade demente. (…)
… Vivo, mato, exerço o poder delirante do destruidor, ao pé do qual o do criador parece uma macaquice.
… enfim, a solidão eterna do desejo.
in: Calígula seguido de o Equívoco, de Albert Camus, Editora Livros do Brasil, Lisboa, 2002
A água do rio continua a correr… O presente espaço é uma partilha de palavras e de imagens, desabafos e expressões com emoção e significado próprio…
18 julho 2016
04 junho 2016
Albert Camus | O Estrangeiro
…
Mas, pensando bem, nada tinha a dizer. Devo reconhecer, aliás, que o interesse que se tem em ouvir as pessoas não dura muito tempo.
(…)
Não me arrependia muito do que tinha feito. (…) Gostaria de lhe poder explicar cordialmente, quase com afeição, que nunca me arrependia verdadeiramente de nada.
(…)
Punha-me a escutar o coração. Não era capaz de imaginar que este barulho compassado, que me acompanhava há tanto tempo, podia um dia cessar. Nunca tive verdadeira imaginação.
…
in: O Estrangeiro, de Albert Camus, Livros do Brasil, 2016, p. 71, 72 e 81.
03 maio 2016
Tipografia | Eric Gill
…
Por outro lado, os que usam métodos humanos poderão atingir a perfeição mecânica, porque as escravaturas e as uniformizações do industrialismo são incompatíveis com a natureza dos homens.
A Tipografia Humana será, com frequência, comparativamente imperfeita & mesmo deselegante; mas, enquanto que uma certa deselegância não tem grande importância nas obras humanas, a deselegância não tem desculpa possível nas coisas produzidas pela máquina.
Assim, enquanto que na sociedade industrialista é, tecnicamente, fácil imprimir qualquer espécie de coisa, numa sociedade humana apenas é fácil imprimir uma espécie de coisa, mas há amplo espaço para a variedade e a experimentação no trabalho em si.
Quanto mais elaborado e fantasiado for o artigo industrial, mais repugnante se torna - a elaboração e a fantasia são indesculpáveis nestas coisas. Mas há todas as justificações para a elaboração e a fantasia nas obras dos seres humanos, desde que eles trabalhem e vivam de acordo com a razão; é educativo notar que, nos primórdios da impressão, quando a exuberância humana tinha amplo espaço, a impressão se caracteriza pela simplicidade e pela decência; mas que agora, quando tal exuberância já não existe no trabalhador (excepto quando está no trabalho), a impressão caracteriza-se por toda a espécie de exibicionismo grosseiro e por uma complexa indecência.
Mas, ai da humanidade, pois existe uma coisa chamada compromisso …
in: Ensaio sobre a Tipografia, de Eric Gill, Almedina, Coimbra, p. 97 e 98.
Por outro lado, os que usam métodos humanos poderão atingir a perfeição mecânica, porque as escravaturas e as uniformizações do industrialismo são incompatíveis com a natureza dos homens.
A Tipografia Humana será, com frequência, comparativamente imperfeita & mesmo deselegante; mas, enquanto que uma certa deselegância não tem grande importância nas obras humanas, a deselegância não tem desculpa possível nas coisas produzidas pela máquina.
Assim, enquanto que na sociedade industrialista é, tecnicamente, fácil imprimir qualquer espécie de coisa, numa sociedade humana apenas é fácil imprimir uma espécie de coisa, mas há amplo espaço para a variedade e a experimentação no trabalho em si.
Quanto mais elaborado e fantasiado for o artigo industrial, mais repugnante se torna - a elaboração e a fantasia são indesculpáveis nestas coisas. Mas há todas as justificações para a elaboração e a fantasia nas obras dos seres humanos, desde que eles trabalhem e vivam de acordo com a razão; é educativo notar que, nos primórdios da impressão, quando a exuberância humana tinha amplo espaço, a impressão se caracteriza pela simplicidade e pela decência; mas que agora, quando tal exuberância já não existe no trabalhador (excepto quando está no trabalho), a impressão caracteriza-se por toda a espécie de exibicionismo grosseiro e por uma complexa indecência.
Mas, ai da humanidade, pois existe uma coisa chamada compromisso …
in: Ensaio sobre a Tipografia, de Eric Gill, Almedina, Coimbra, p. 97 e 98.
12 abril 2016
O Espelho de Vénus | Pintura
Vénus | Antiga deusa romana da vegetação e dos jardins, foi identificada com a Afrodite grega. Deste modo, na sua qualidade de mãe do herói Eneias, o fundador mítico do povo romano, foi considerada a antepassada da gens iulia (que se dizia descendente de Eneias) e a protectora da cidade de Roma.
in: O Espelho de Vénus, de Edward Burne-Jones (1833 - 1898), (Óleo sobre tela), 1895
in: Vénus, Dicionário Cultural da Mitologia Greco-Romana, Pub. Dom Quixote, p. 245.
07 abril 2016
Dignidade Perdida | Nietzsche
6 - Dignidade Perdida - A reflexão perdeu toda a sua dignidade da forma; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflecte; e já não se poderia continuar a tolerar um homem sábio da velha escola.
Pensamos demasiado depressa, e pelo caminho, em plena marcha, no meio de negócios de toda a espécie, mesmo quando se trate do que há de mais sério; temos necessidade de pouca preparação, e até de pouca tranquilidade: é como se tivéssemos na cabeça uma máquina que girasse incessantemente e que progredisse o seu trabalho, mesmo nas piores condições.
Antigamente, quando alguém se queria pôr a pensar - era uma coisa provavelmente excepcional! - era coisa que se notava de imediato; notava-se que queria tornar-se mais sábio e que se preparava para uma ideia: seu rosto ganhava uma expressão como em oração e detinha-se na sua marcha; ficava até mesmo imóvel durante horas na rua, apoiado em uma perna ou nas duas, quando a ideia lhe 'surgia'. Perdia, então, a 'dignidade da coisa'.
in: A Ciência Gaia, de Friedrich Nietzsche, p. 41.
29 março 2016
O Solitário | Nietzsche
Odeio seguir alguém, como também conduzir.
Obedecer? Não! E governar, nunca!
Quem não se mete medo não consegue metê-lo a
ninguém,
Somente aquele que o inspira é capaz de comandar.
Já detesto comandar a mim mesmo!
Gosto, como os animais, das florestas e dos mares,
De me perder durante um tempo,
Permanecer a sonhar num recanto encantador,
E forçar-me a regressar de longe ao meu lar,
Atrair-me a mim próprio… de volta a mim.
in: Poema 33. O Solitário, de Friedrich Nietzsche, in: A Gaia Ciência, Martin Claret, 2013, p. 27.
17 março 2016
3 + 18 = 21 | Exposição
É com muito orgulho que apresento a minha Exposição na ESTG de Portalegre!
A criação de uma obra de arte a partir de uma linha de pensamento.
Uma linha que desenha paisagens, caminhos, viagens, sonhos…
Três (3) anos de viagens enquanto estudante, mais (+) dezoito (18) anos de viagens enquanto docente de ensino superior, igual (=) a vinte e um (21) anos de viagens, de estudos, leccionação, aprendizagem, partilha de conhecimento, aquisição de sabedoria.
in: 3 + 18 = 21, de Ana Paula Gaspar, ESTG de Portalegre, 14.Março - 14.Abril . 2016
04 março 2016
Musas Inspiradoras | Calíope
A minha musa seria Calíope, figura grega mítica e musa da poesia, ciência e eloquência, muitas vezes retratada com um papiro. Achei que seria interessante juntar esses dois elementos - o da figura da musa e o do papel como material onde o acto criativo se regista.
in: Calíope, de Daniela Krtsch
O que significa ter inspiração? De onde vem? Como a manter?
A inspiração tem sofrido várias nuances temporais, com uma constante: uma certa forma de linha directa com o divino. Para a história que nos importa contar e partindo da matriz grega, as musas de belas vozes parecem ter surgido no cenário em torno de Hesíodo. Era ele um jovem pastor quando algumas dessas figuras (em número incerto mas em inspiração certa, dirigida à música, dança e poesia) o instaram à criação. (…)
Para os mais distraídos, o mesmo é repetir a célebre máxima reclamada por diversos autores, de que 90% da inspiração é transpiração. Ou seja, que a inspiração não é, por regra fruto do acaso e de fortuitas epifanias, mas de trabalho contínuo, tempo, da capacidade de relacionar o conhecimento (outro nome para a memória) e da determinação em procurar caminhos inexplorados.
in: Musas Inspiradoras, de Emília Ferreira, Casa da Cerca, Almada, Fevereiro de 2016
26 fevereiro 2016
A minha infância …
Lembro-me do cheiro da terra molhada
Quando chovia…
As primeiras chuvas de outono
O fim do verão…
Lembro-me da quinta…
Lembro-me de semear o feijão, um grão de cada vez, com um palmo de intervalo entre cada um…
Lembro-me de ajudar o meu pai e a minha mãe,
Ao fim de semana dedicavam-se a semear a terra,
Eram feijões, batatas, milho, hortaliças…
A terra era preparada, anteriormente era lavrada, e os regos eram feitos com enxada e eram todos certinhos e alinhados horizontalmente e verticalmente, como uma grelha…
Lembro-me de ter energia,
Lembro-me das oliveiras… de as trepar!
Recordo os momentos em que ajudava a preparar o almoço…
Descascar as batatas, cortar os grelos de nabiça, cozer o bacalhau e temperar tudo com azeite, das nossas oliveiras…
No verão…
Lembro as borboletas a voar de flor em flor,
As flores, tantas e tão variadas…
As suas cores, os cheiros, o céu azul…
O rio, a água transparente, um mergulho livre…
As lagartixas, as rãs e a fonte, uma nascente com água gelada e doce…
As caminhadas pela mata…
Andar de bicicleta, sozinha pela floresta de pinheiros…
Parar, respirar fundo e continuar!
Que saudades de ser feliz!
Que liberdade…
A simplicidade de estar…
Desfrutar simplesmente da natureza!
E no outono, nasciam os cogumelos…
E o prato delicioso da minha avó:
Cebola, azeite, cogumelos, batata e um ovo por cima!
Que cheirinho…
A maravilha da nossa terra…
O milagre da transformação através das estações do ano…
O tempo, a passagem do tempo…
Esse tempo que já não volta!
in: Diário, de Ana Paula de J. L. Gaspar, 7 de junho de 2014.
Quando chovia…
As primeiras chuvas de outono
O fim do verão…
Lembro-me da quinta…
Lembro-me de semear o feijão, um grão de cada vez, com um palmo de intervalo entre cada um…
Lembro-me de ajudar o meu pai e a minha mãe,
Ao fim de semana dedicavam-se a semear a terra,
Eram feijões, batatas, milho, hortaliças…
A terra era preparada, anteriormente era lavrada, e os regos eram feitos com enxada e eram todos certinhos e alinhados horizontalmente e verticalmente, como uma grelha…
Lembro-me de ter energia,
Lembro-me das oliveiras… de as trepar!
Recordo os momentos em que ajudava a preparar o almoço…
Descascar as batatas, cortar os grelos de nabiça, cozer o bacalhau e temperar tudo com azeite, das nossas oliveiras…
No verão…
Lembro as borboletas a voar de flor em flor,
As flores, tantas e tão variadas…
As suas cores, os cheiros, o céu azul…
O rio, a água transparente, um mergulho livre…
As lagartixas, as rãs e a fonte, uma nascente com água gelada e doce…
As caminhadas pela mata…
Andar de bicicleta, sozinha pela floresta de pinheiros…
Parar, respirar fundo e continuar!
Que saudades de ser feliz!
Que liberdade…
A simplicidade de estar…
Desfrutar simplesmente da natureza!
E no outono, nasciam os cogumelos…
E o prato delicioso da minha avó:
Cebola, azeite, cogumelos, batata e um ovo por cima!
Que cheirinho…
A maravilha da nossa terra…
O milagre da transformação através das estações do ano…
O tempo, a passagem do tempo…
Esse tempo que já não volta!
in: Diário, de Ana Paula de J. L. Gaspar, 7 de junho de 2014.
03 fevereiro 2016
Ovídeo | Arte de Amar
Livro III
Às Mulheres
Armas, eu as forneci aos Dánaos contra as Amazonas; armas me restam, ainda,
para te fornecer a ti, ó Pentesileia, e à tua gente.
Parti para a batalha em igualdade de condições; que vença quem a mãe Dione
favorecer, e o menino que voa sobre o mundo inteiro.
Não seria justo que enfrentásseis, despidas de armas, inimigos armados;
se assim fosse, também para vós a vitória seria uma vergonha, ó varões.
Uma Arte de Amar para as Mulheres
(…)
A mulher não desvia as chamas e as implacáveis flechas;
esses dardos, vejo eu que mais raramente são danosos aos homens.
Muitas vezes traem os homens; não tantas vezes as mulheres delicadas;
e, se procurares, poucos são os crimes de engano que nelas se encontram.
(…)
Qual foi a vossa perdição, eu vos direi: não soubeste amar;
faltou-vos arte; é a arte que faz perdurar o amor.
(…)
e disse-me, então: "que fizeram as pobres mulheres?
São um povo sem armas entregues a homens armados;
a eles, dois livros os tornaram peritos na arte;
também este grupo os teus preceitos têm de ensiná-lo.
Aproveitar a Juventude
Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo na ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
(…)
Tempo há-de vir em que tu, que agora enjeitas os amantes,
hás-de dormir, enregelada e velha, na solidão da noite,
e não há-de a tua janela ser quebrada por briga nocturna,
nem vais encontrar, pela manhã, rosas espalhadas à tua porta.
Bem depressa, pobre de mim!, o corpo amolece de rugas,
e desaparece, no rosto que era luzidio, a cor,
e os cabelos brancos que juras que tinhas já em rapariga,
de súbito se espalham por toda a cabeça.
(…)
Cuidar da Beleza
(…)
A beleza é um dom dos deuses; da sua beleza, quão poucas se podem orgulhar!
Grande parte de vós não possui um tal dom.
(…)
A Poesia
Conhece a musa de Calímaco, conhece a do Poeta de Cós,
conhece, ainda, a do ancião de Teos, afeiçoado ao vinho;
conhece, também, Safo (pois que é que existe mais lascivo do que ela?)
e aquele que põe um pai a ridículo, vítima dos ardis do manhoso geta.
(…)
Homens a Evitar
Mas evitai os homens preocupados com a elegância e a beleza
e que têm o cabelo bem penteado;
o que vos dizem a vós, disseram-no já a mil mulheres;
vai deambulando e não se fixa em sítio algum e seu amor.
(…)
Há os que avançam a coberto de uma espécie enganosa de amor
e, por tais caminhos, são ganhos indecentes que buscam.
(…)
Talvez o mais elegante de entre todos eles
seja um ladrão e esteja a arder por amor do que trazes vestido.
"Devolve o que é meu!", gritam, muitas vezes, depois de roubadas, as mulheres,
(…)
Aprendei com as desgraças das outras a temer as vossas;
não se abra a vossa porta a um homem falso.
Amores Furtivos
(…)
Atenta nas palavras que lês; das próprias palavras terás de depreender
se está a fingir ou se as súplicas vêm do fundo do coração e da ansiedade;
depois de fazeres esperar um pouco, responde. A espera estimula sempre
os amantes, se for por tempo razoável.
Mas nem te entregues facilmente ao jovem que te namora
nem negues, de coração endurecido, o que ele te pede.
Faz com que alimente, à uma, temor e esperança; e, sempre que responderes,
mais firme se lhe torne a esperança e menos intenso o medo.
Palavras elegantes, mas usuais no convívio social, ó mulheres,
é o que deveis escrever! O ar vulgar da conversa dá gosto.
Ah, quantas vezes se inflamou diante de uma mensagem um amante inseguro!
Quantas vezes foi danosa uma língua bárbara a uma grande beleza!
(…)
Que se diga sempre ser mulher o amante a quem se escreve;
seja uma "ela", em vossas mensagens, o que devia ser um "ele".
Cultivar a Doçura
(…)
Olha quem te olha; a quem te sorri com doçura, sorri;
Faz-te um aceno? Responde, também tu, que percebeste o sinal.
Amar os Poetas
Quem nos impede de colher de temas elevados exemplos para coisas
banais e de não ter receio da palavra "chefe"?
Um bom chefe confia a um cem soldados, para com o bastão de vide os comandar,
a outro cavaleiros, a um terceiro entrega-lhe a guarda dos estandartes;
também vós, observai para que função cada um de nós é mais conforme
e ponde cada um no posto adequado:
o rico debe dar presentes; aquele que for versado em leis dê o seu apoio;
o que tem o dom da palavra que defenda, muitas vezes, a causa da sua cliente;
nós, que fazemos versos, devemos limitar-nos a enviar versos;
somos nós, mais que todos os outros, o tal coro capaz para o amor;
nós fazemos ouvir longe o pregão da beleza que nos encanta;
é famosa Némesis, Cíntia é famosa;
a estrela da tarde e os confins do Oriente conhecem Lícoris,
e muitos perguntam quem é a minha Corina;
acresce que não existe perfídia entre os divinos poetas,
e que a nossa arte nos molda, também, à sua feição;
e não nos move a ambição nem o amor da riqueza,
desprezamos o foro e cultivamos o leito e as sombras;
mas facilmente nos apegamos e deixamos-nos consumir num fogo abrasador
e sabemos amar com lealdade inquebrável.
(…)
existe um deus em nós e mantemos diálogo com o céu;
é das planuras do céu que nos vem a inspiração.
A Cada idade seu Encanto
(…)
O velho soldado ama sem dor e com sabedoria
e suporta muitas coisas que o recruta não consegue padecer;
e não rebenta com as portas nem lhes deita fogo com chamas terríveis,
nem se atira com as unhas ao rosto delicado da sua dama,
nem rasgará a sua túnica ou a túnica da amada,
nem fará de um cabelo arrancado causa de pranto.
Tais atitudes ficam bem a rapazinhos, no calor da idade e do amor;
aquele suportará cruéis feridas, de coração robustecido;
é em fogo lento, caramba!, que há-de arder, como feno húmido,
como a madeira acabada de cortar nos bosques da montanha.
(…)
Rivais: Não dar Ouvidos a Boatos
Aonde me leva a minha loucura? Porque avanço, de peito aberto,
contra o inimigo e me denuncio com os sinais que eu mesma forneço?
Não revela o pássaro ao caçador como pode ser caçado,
nem ensina o veado os cães assanhados a persegui-lo.
A vantagem ficará desvendada; eu, aquilo que comecei, fielmente o hei-de consumar
e às mulheres de Lemnos hei-de dar armas para me matarem.
Fazei (é fácil consegui-lo) que nós acreditemos no vosso amor;
para quem está apaixonado, a crença vem ao encontro do desejo.
(…)
in: Arte de Amar, de Ovídeo, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
Às Mulheres
Armas, eu as forneci aos Dánaos contra as Amazonas; armas me restam, ainda,
para te fornecer a ti, ó Pentesileia, e à tua gente.
Parti para a batalha em igualdade de condições; que vença quem a mãe Dione
favorecer, e o menino que voa sobre o mundo inteiro.
Não seria justo que enfrentásseis, despidas de armas, inimigos armados;
se assim fosse, também para vós a vitória seria uma vergonha, ó varões.
Uma Arte de Amar para as Mulheres
(…)
A mulher não desvia as chamas e as implacáveis flechas;
esses dardos, vejo eu que mais raramente são danosos aos homens.
Muitas vezes traem os homens; não tantas vezes as mulheres delicadas;
e, se procurares, poucos são os crimes de engano que nelas se encontram.
(…)
Qual foi a vossa perdição, eu vos direi: não soubeste amar;
faltou-vos arte; é a arte que faz perdurar o amor.
(…)
e disse-me, então: "que fizeram as pobres mulheres?
São um povo sem armas entregues a homens armados;
a eles, dois livros os tornaram peritos na arte;
também este grupo os teus preceitos têm de ensiná-lo.
Aproveitar a Juventude
Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo na ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
(…)
Tempo há-de vir em que tu, que agora enjeitas os amantes,
hás-de dormir, enregelada e velha, na solidão da noite,
e não há-de a tua janela ser quebrada por briga nocturna,
nem vais encontrar, pela manhã, rosas espalhadas à tua porta.
Bem depressa, pobre de mim!, o corpo amolece de rugas,
e desaparece, no rosto que era luzidio, a cor,
e os cabelos brancos que juras que tinhas já em rapariga,
de súbito se espalham por toda a cabeça.
(…)
Cuidar da Beleza
(…)
A beleza é um dom dos deuses; da sua beleza, quão poucas se podem orgulhar!
Grande parte de vós não possui um tal dom.
(…)
A Poesia
Conhece a musa de Calímaco, conhece a do Poeta de Cós,
conhece, ainda, a do ancião de Teos, afeiçoado ao vinho;
conhece, também, Safo (pois que é que existe mais lascivo do que ela?)
e aquele que põe um pai a ridículo, vítima dos ardis do manhoso geta.
(…)
Homens a Evitar
Mas evitai os homens preocupados com a elegância e a beleza
e que têm o cabelo bem penteado;
o que vos dizem a vós, disseram-no já a mil mulheres;
vai deambulando e não se fixa em sítio algum e seu amor.
(…)
Há os que avançam a coberto de uma espécie enganosa de amor
e, por tais caminhos, são ganhos indecentes que buscam.
(…)
Talvez o mais elegante de entre todos eles
seja um ladrão e esteja a arder por amor do que trazes vestido.
"Devolve o que é meu!", gritam, muitas vezes, depois de roubadas, as mulheres,
(…)
Aprendei com as desgraças das outras a temer as vossas;
não se abra a vossa porta a um homem falso.
Amores Furtivos
(…)
Atenta nas palavras que lês; das próprias palavras terás de depreender
se está a fingir ou se as súplicas vêm do fundo do coração e da ansiedade;
depois de fazeres esperar um pouco, responde. A espera estimula sempre
os amantes, se for por tempo razoável.
Mas nem te entregues facilmente ao jovem que te namora
nem negues, de coração endurecido, o que ele te pede.
Faz com que alimente, à uma, temor e esperança; e, sempre que responderes,
mais firme se lhe torne a esperança e menos intenso o medo.
Palavras elegantes, mas usuais no convívio social, ó mulheres,
é o que deveis escrever! O ar vulgar da conversa dá gosto.
Ah, quantas vezes se inflamou diante de uma mensagem um amante inseguro!
Quantas vezes foi danosa uma língua bárbara a uma grande beleza!
(…)
Que se diga sempre ser mulher o amante a quem se escreve;
seja uma "ela", em vossas mensagens, o que devia ser um "ele".
Cultivar a Doçura
(…)
Olha quem te olha; a quem te sorri com doçura, sorri;
Faz-te um aceno? Responde, também tu, que percebeste o sinal.
Amar os Poetas
Quem nos impede de colher de temas elevados exemplos para coisas
banais e de não ter receio da palavra "chefe"?
Um bom chefe confia a um cem soldados, para com o bastão de vide os comandar,
a outro cavaleiros, a um terceiro entrega-lhe a guarda dos estandartes;
também vós, observai para que função cada um de nós é mais conforme
e ponde cada um no posto adequado:
o rico debe dar presentes; aquele que for versado em leis dê o seu apoio;
o que tem o dom da palavra que defenda, muitas vezes, a causa da sua cliente;
nós, que fazemos versos, devemos limitar-nos a enviar versos;
somos nós, mais que todos os outros, o tal coro capaz para o amor;
nós fazemos ouvir longe o pregão da beleza que nos encanta;
é famosa Némesis, Cíntia é famosa;
a estrela da tarde e os confins do Oriente conhecem Lícoris,
e muitos perguntam quem é a minha Corina;
acresce que não existe perfídia entre os divinos poetas,
e que a nossa arte nos molda, também, à sua feição;
e não nos move a ambição nem o amor da riqueza,
desprezamos o foro e cultivamos o leito e as sombras;
mas facilmente nos apegamos e deixamos-nos consumir num fogo abrasador
e sabemos amar com lealdade inquebrável.
(…)
existe um deus em nós e mantemos diálogo com o céu;
é das planuras do céu que nos vem a inspiração.
A Cada idade seu Encanto
(…)
O velho soldado ama sem dor e com sabedoria
e suporta muitas coisas que o recruta não consegue padecer;
e não rebenta com as portas nem lhes deita fogo com chamas terríveis,
nem se atira com as unhas ao rosto delicado da sua dama,
nem rasgará a sua túnica ou a túnica da amada,
nem fará de um cabelo arrancado causa de pranto.
Tais atitudes ficam bem a rapazinhos, no calor da idade e do amor;
aquele suportará cruéis feridas, de coração robustecido;
é em fogo lento, caramba!, que há-de arder, como feno húmido,
como a madeira acabada de cortar nos bosques da montanha.
(…)
Rivais: Não dar Ouvidos a Boatos
Aonde me leva a minha loucura? Porque avanço, de peito aberto,
contra o inimigo e me denuncio com os sinais que eu mesma forneço?
Não revela o pássaro ao caçador como pode ser caçado,
nem ensina o veado os cães assanhados a persegui-lo.
A vantagem ficará desvendada; eu, aquilo que comecei, fielmente o hei-de consumar
e às mulheres de Lemnos hei-de dar armas para me matarem.
Fazei (é fácil consegui-lo) que nós acreditemos no vosso amor;
para quem está apaixonado, a crença vem ao encontro do desejo.
(…)
in: Arte de Amar, de Ovídeo, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
02 fevereiro 2016
Ovídio | Arte de Amar
Livro II
Introdução.
Conservar o Amor
(…)
Não baste que a mulher venha até junto de ti, graças ao meu canto;
foi a minha arte que a cativou, é a minha arte que tem de preservá-la;
conservar o que se alcançou não é virtude menor do que bus.cá-lo;
aqui interfere o acaso, ali é a obra de arte.
Agora, mais que nunca, ó menino, ó Citereia, favorecei a minha empresa,
agora, ó Érato, já que tens nome de Amor.
Grandioso é o que me apresto a cantar: por que artes consegue segurar-se
o Amor, um menino tão vagabundo na vastidão do universo.
ligeiro é ele e possui um par de asas, com que voa;
bem difícil é pôr-lhes travão.
(…)
Amabilidade e Elegância
Guarda-te de tudo quanto é vedado! Para seres amado, sê amável,
coisa que te não darão apenas o rosto ou a beleza.
Ainda que sejas Nireu, a quem o velho Homero amava,
ou o delicado Hilas, arrebatado pelo crime das Náiades,
para conservares a tua amada e não teres a surpresa de ser por ela abandonado,
junta os bens do espírito às qualidades do corpo.
A beleza é um bem frágil; à medida que vão avançando os anos,
vai diminuindo e, por força da idade, vai murchando;
não ficam todo o tempo em flor as violetas nem os lírios de pétalas abertas,
e a roseira, depois de cair a flor, enrijece de espinhos, que é o que lhe resta.
Também a ti, ó jovem esbelto, te hão-de chegar os cabelos brancos,
e logo virão as rugas a sulcar-te o corpo.
Suaviza já o teu espírito, por forma a perdurar, e ajunta isso à tua beleza;
só ele logra permanecer até às preces derradeiras;
e não tenhas em menos conta educar o carácter por meio das boas artes
e aprender as duas línguas;
não era belo, mas era eloquente Ulisses,
e, no entanto, atormentou de amores deusas do mar.
(…)
Doçura e Bondade
A rectidão e a bondade, eis o que, em especial, cativa os corações;
a aspereza suscita o ódio e guerras cruéis.
(…)
É de doces palavras que tem de sustentar-se a brandura do amor.
(…)
Que a amante, pelo contrário, ouça sempre as palavras que deseja.
Não foi por mando de uma lei que viestes parar ao mesmo leito;
quem cumpre a sua função em vós é a lei do amor.
Doces meiguices e palavras aprazíveis ao ouvido
é o que tens de trazer-lhe, para ela ficar feliz com a tua vinda.
Não é aos ricos que venho ensinar a amar;
não tem qualquer precisão da minha arte aquele que é mãos largas;
já tem consigo o seu talento aquele que diz, sempre que lhe apetece: "aceita";
a esse cedo; agrada mais ele que os meus ensinamentos.
Eu sou o poeta dos pobres, pois foi pobre que amei;
já que não podia ofertar presentes, oferecia palavras;
que o pobre âme com recato, que receie ser maldizente o pobre
e suporte muitas coisas que não seriam capazes de tolerar os ricos.
Persistência
Se não for meiga quanto baste nem corresponder ao teu amor,
porfia e persiste. Acabará por tornar-se carinhosa.
Dobra-se, quando vergado com jeito, o ramo da árvore;
vais parti-lo, se puseres à prova a tua força;
com jeito, a nado se passam as águas; mas não serás capaz de vencer
o rio, se nadares contra a corrente que com as águas se arrasta;
o jeito doma os tigres e os leões da Numídia;
no campo, o boi acaba por subjugar-se, pouco a pouco, ao peso do arado.
(…)
Ceder e Servir
Cede quando ela teima; se cederes, sairás vencedor;
trata, apenas, de agir, como ela determinar.
Se ela contestar, contesta; o que aprovar, aprova-o;
o que afirmar, afirma-o; o que negar, deves negá-lo;
se rir, ri-te; se chorar, lembra-te tu de chorar;
seja ela a ditar as leis às tuas feições.
Robustez e Vigor
O amor é uma espécie de serviço militar. Batei em retirada, gente indolente!
Tais estandartes não são para ser confiados a homens medrosos.
A noite e o Inverno e jornadas sem fim e dores terríveis
e toda a sorte de padecimentos, eis o que nos espera nos campos de doçura;
muitas vezes terás de suportar a chuva que cai das nuvens do céu
e muitas vezes vais dormir, enregelado, sobre a terra nua.
(…)
Prendas
(…)
ah, malditos sejam aqueles que com presentes enganam!
Gerir a Ausência e a Saudade
Mas o vento a que soltaste as velas ao deixares a praia,
dele não deves servir-te, agora, depois de te tornares senhor do alto mar.
Enquanto dá passos incertos o novo amor, deve buscar no uso as suas forças;
se bem o souberes alimentar, com o tempo ficará firme.
O touro que te mete medo, costumavas tu, quando era vitelo, fazer-lhe festas;
a árvore à sombra da qual agora repousas, foi, antes, um arbusto;
nasce bem delgado, mas ganha forças, à medida que avança,
o rio e, por onde passa, uma imensidão de correntes vai recebendo.
Faz com que se acostume a ti; nada tem mais força que a habituação;
até a alcançares, não fujas a nenhum dissabor;
que te veja a todo o tempo, que a todo o tempo te escute,
que a noite e o dia lhe mostrem o teu rosto.
(…)
Amar com sabedoria
Aquele a quem a natureza concedeu beleza, seja graças a ela que dê nas vistas;
aquele que possui uma pele formosa durma muitas vezes de ombros à mostra;
o que tem uma conversa agradável evite os silêncios taciturnos;
o que canta com elegância, que cante; o que bebe com elegância, que beba.
(…)
Todo o que amar com sabedoria triunfará e quanto reclamar de minha arte, vai consegui-lo.
in: Arte de Amar, de Ovídio, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
Introdução.
Conservar o Amor
(…)
Não baste que a mulher venha até junto de ti, graças ao meu canto;
foi a minha arte que a cativou, é a minha arte que tem de preservá-la;
conservar o que se alcançou não é virtude menor do que bus.cá-lo;
aqui interfere o acaso, ali é a obra de arte.
Agora, mais que nunca, ó menino, ó Citereia, favorecei a minha empresa,
agora, ó Érato, já que tens nome de Amor.
Grandioso é o que me apresto a cantar: por que artes consegue segurar-se
o Amor, um menino tão vagabundo na vastidão do universo.
ligeiro é ele e possui um par de asas, com que voa;
bem difícil é pôr-lhes travão.
(…)
Amabilidade e Elegância
Guarda-te de tudo quanto é vedado! Para seres amado, sê amável,
coisa que te não darão apenas o rosto ou a beleza.
Ainda que sejas Nireu, a quem o velho Homero amava,
ou o delicado Hilas, arrebatado pelo crime das Náiades,
para conservares a tua amada e não teres a surpresa de ser por ela abandonado,
junta os bens do espírito às qualidades do corpo.
A beleza é um bem frágil; à medida que vão avançando os anos,
vai diminuindo e, por força da idade, vai murchando;
não ficam todo o tempo em flor as violetas nem os lírios de pétalas abertas,
e a roseira, depois de cair a flor, enrijece de espinhos, que é o que lhe resta.
Também a ti, ó jovem esbelto, te hão-de chegar os cabelos brancos,
e logo virão as rugas a sulcar-te o corpo.
Suaviza já o teu espírito, por forma a perdurar, e ajunta isso à tua beleza;
só ele logra permanecer até às preces derradeiras;
e não tenhas em menos conta educar o carácter por meio das boas artes
e aprender as duas línguas;
não era belo, mas era eloquente Ulisses,
e, no entanto, atormentou de amores deusas do mar.
(…)
Doçura e Bondade
A rectidão e a bondade, eis o que, em especial, cativa os corações;
a aspereza suscita o ódio e guerras cruéis.
(…)
É de doces palavras que tem de sustentar-se a brandura do amor.
(…)
Que a amante, pelo contrário, ouça sempre as palavras que deseja.
Não foi por mando de uma lei que viestes parar ao mesmo leito;
quem cumpre a sua função em vós é a lei do amor.
Doces meiguices e palavras aprazíveis ao ouvido
é o que tens de trazer-lhe, para ela ficar feliz com a tua vinda.
Não é aos ricos que venho ensinar a amar;
não tem qualquer precisão da minha arte aquele que é mãos largas;
já tem consigo o seu talento aquele que diz, sempre que lhe apetece: "aceita";
a esse cedo; agrada mais ele que os meus ensinamentos.
Eu sou o poeta dos pobres, pois foi pobre que amei;
já que não podia ofertar presentes, oferecia palavras;
que o pobre âme com recato, que receie ser maldizente o pobre
e suporte muitas coisas que não seriam capazes de tolerar os ricos.
Persistência
Se não for meiga quanto baste nem corresponder ao teu amor,
porfia e persiste. Acabará por tornar-se carinhosa.
Dobra-se, quando vergado com jeito, o ramo da árvore;
vais parti-lo, se puseres à prova a tua força;
com jeito, a nado se passam as águas; mas não serás capaz de vencer
o rio, se nadares contra a corrente que com as águas se arrasta;
o jeito doma os tigres e os leões da Numídia;
no campo, o boi acaba por subjugar-se, pouco a pouco, ao peso do arado.
(…)
Ceder e Servir
Cede quando ela teima; se cederes, sairás vencedor;
trata, apenas, de agir, como ela determinar.
Se ela contestar, contesta; o que aprovar, aprova-o;
o que afirmar, afirma-o; o que negar, deves negá-lo;
se rir, ri-te; se chorar, lembra-te tu de chorar;
seja ela a ditar as leis às tuas feições.
Robustez e Vigor
O amor é uma espécie de serviço militar. Batei em retirada, gente indolente!
Tais estandartes não são para ser confiados a homens medrosos.
A noite e o Inverno e jornadas sem fim e dores terríveis
e toda a sorte de padecimentos, eis o que nos espera nos campos de doçura;
muitas vezes terás de suportar a chuva que cai das nuvens do céu
e muitas vezes vais dormir, enregelado, sobre a terra nua.
(…)
Prendas
(…)
ah, malditos sejam aqueles que com presentes enganam!
Gerir a Ausência e a Saudade
Mas o vento a que soltaste as velas ao deixares a praia,
dele não deves servir-te, agora, depois de te tornares senhor do alto mar.
Enquanto dá passos incertos o novo amor, deve buscar no uso as suas forças;
se bem o souberes alimentar, com o tempo ficará firme.
O touro que te mete medo, costumavas tu, quando era vitelo, fazer-lhe festas;
a árvore à sombra da qual agora repousas, foi, antes, um arbusto;
nasce bem delgado, mas ganha forças, à medida que avança,
o rio e, por onde passa, uma imensidão de correntes vai recebendo.
Faz com que se acostume a ti; nada tem mais força que a habituação;
até a alcançares, não fujas a nenhum dissabor;
que te veja a todo o tempo, que a todo o tempo te escute,
que a noite e o dia lhe mostrem o teu rosto.
(…)
Amar com sabedoria
Aquele a quem a natureza concedeu beleza, seja graças a ela que dê nas vistas;
aquele que possui uma pele formosa durma muitas vezes de ombros à mostra;
o que tem uma conversa agradável evite os silêncios taciturnos;
o que canta com elegância, que cante; o que bebe com elegância, que beba.
(…)
Todo o que amar com sabedoria triunfará e quanto reclamar de minha arte, vai consegui-lo.
in: Arte de Amar, de Ovídio, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
22 janeiro 2016
Ovídio | Arte de Amar
Livro I
O mestre do Amor
Se alguém das nossas gentes não conhece a arte de amar,
leia este canto; e, depois de o ter lido, entregue-se, com sabedoria, ao amor.
É a arte e as velas e os remos que fazem mover as naus,
é a arte que faz mover, ligeira, a quadriga. É a arte que deve reger o Amor.
(…)
Plano
Antes de mais, o que quiseres amar, trata de procurá-lo,
tu que acabas de entrar, feito soldado, em novo exército;
logo depois, hás-de empenhar-te em fazer ceder aquela que te agradou;
em terceiro lugar, farás por que dure tempo o amor.
(…)
A Procura
Enquanto te for consentido e puderes, solto de amarras, caminhar por toda a parte,
escolhe aquela a quem hás-de dizer: "só tu me agradas!"
(…)
O Banquete
Facilitam, também, a aproximação os banquetes, à mesa;
há qualquer coisa além do vinho, que aí deves buscar.
(…)
A mulher e o Desejo
Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas podem ser conquistadas; e vais conquistá-las; basta que estendas as redes.
Mais depressa, na Primavera, se hão-de calar os pardais, e, no Verão, as cigarras,
e o cão de Ménalo voltará costas à lebre
do que resistirá a mulher ao jovem que com doçura a quer namorar.
Até mesmo aquela que podes supor que não quer… quer.
Tal como Vénus furtiva é grata ao homem, assim o é também à mulher;
o homem disfarça mal; ela é com mais recato que alimenta o desejo.
Se a nós, homens, nos der mais jeito não sermos os primeiros a pedir,
logo a mulher, vencida, há-de assumir o papel de quem pede.
Na mansidão do prado, é a fêmea que solta mugidos ao touro,
é a fêmea sempre que relincha ao cavalo de rijos cascos.
(…)
A Paixão Feminina
Todos estes actos foram movidos por paixão de mulheres;
é mais intensa que a nossa e possui fúria bem maior.
(…)
A Arte da Palavra
Aprende as boas artes, esse é o meu conselho, ó juventude de Roma,
e não apenas para defender réus temerosos;
tal como o povo e o juiz severo e os eleitos do senado,
assim também a mulher, vencida, há-de render as mãos à tua eloquência. (…)
Se te ler e não quiser responder, não a forces;
procura, apenas, que leia as tuas palavras delicadas até ao fim;
Se quiser ler, há-de querer responder ao que leu;
a resposta chega com seu ritmo e seu passo;
talvez te chegue, primeiro, uma carta triste,
a pedir-te que não mais a procures;
se pede, é porque receia que não aconteça; se não pede, deseja que insistas.
Prossegue! Bem cedo verás realizado o teu desejo.
in: Arte de Amar, de Ovídio, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
O mestre do Amor
Se alguém das nossas gentes não conhece a arte de amar,
leia este canto; e, depois de o ter lido, entregue-se, com sabedoria, ao amor.
É a arte e as velas e os remos que fazem mover as naus,
é a arte que faz mover, ligeira, a quadriga. É a arte que deve reger o Amor.
(…)
Plano
Antes de mais, o que quiseres amar, trata de procurá-lo,
tu que acabas de entrar, feito soldado, em novo exército;
logo depois, hás-de empenhar-te em fazer ceder aquela que te agradou;
em terceiro lugar, farás por que dure tempo o amor.
(…)
A Procura
Enquanto te for consentido e puderes, solto de amarras, caminhar por toda a parte,
escolhe aquela a quem hás-de dizer: "só tu me agradas!"
(…)
O Banquete
Facilitam, também, a aproximação os banquetes, à mesa;
há qualquer coisa além do vinho, que aí deves buscar.
(…)
A mulher e o Desejo
Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas podem ser conquistadas; e vais conquistá-las; basta que estendas as redes.
Mais depressa, na Primavera, se hão-de calar os pardais, e, no Verão, as cigarras,
e o cão de Ménalo voltará costas à lebre
do que resistirá a mulher ao jovem que com doçura a quer namorar.
Até mesmo aquela que podes supor que não quer… quer.
Tal como Vénus furtiva é grata ao homem, assim o é também à mulher;
o homem disfarça mal; ela é com mais recato que alimenta o desejo.
Se a nós, homens, nos der mais jeito não sermos os primeiros a pedir,
logo a mulher, vencida, há-de assumir o papel de quem pede.
Na mansidão do prado, é a fêmea que solta mugidos ao touro,
é a fêmea sempre que relincha ao cavalo de rijos cascos.
(…)
A Paixão Feminina
Todos estes actos foram movidos por paixão de mulheres;
é mais intensa que a nossa e possui fúria bem maior.
(…)
A Arte da Palavra
Aprende as boas artes, esse é o meu conselho, ó juventude de Roma,
e não apenas para defender réus temerosos;
tal como o povo e o juiz severo e os eleitos do senado,
assim também a mulher, vencida, há-de render as mãos à tua eloquência. (…)
Se te ler e não quiser responder, não a forces;
procura, apenas, que leia as tuas palavras delicadas até ao fim;
Se quiser ler, há-de querer responder ao que leu;
a resposta chega com seu ritmo e seu passo;
talvez te chegue, primeiro, uma carta triste,
a pedir-te que não mais a procures;
se pede, é porque receia que não aconteça; se não pede, deseja que insistas.
Prossegue! Bem cedo verás realizado o teu desejo.
in: Arte de Amar, de Ovídio, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
20 dezembro 2015
Ao Sol e à Lua | Colares
CAPÍTULO 9º
DOS CIPOS DO SOL E LUA
Outra memória de basas * digna de lembrar e de imitar dos fiéis, faziam os antigos e infiéis, como eu vi, quando me o Infante Dom Luis, vosso tio que Deus tem, levou a mostrar a Serra de Sintra, mandando-me para isso chamar a Lisboa, quando vim de Itália. E vimos em a foz do rio de Colares, prezada em outro tempo dos Romanos, sobre um pequeno outeiro junto do mar Oceano, um círculo ao redor cheio de cipos e memórias dos imperadores de Roma que vieram àquele lugar; e cada um punha um cipo com seu letreiro ao Sol Eterno e à Lua, a quem aquele promontório foi dos gentios dedicado.
O que nós, espiritualmente mudado, podemos converter em cipos ou embasamento dos pés das Cruzes que digo, em louvor e memória do verdadeiro Sol de justiça, (…).
11. OS CIPOS AO SOL E À LUA EM COLARES
Nota ao capítulo 9º
"Dos Cipos ao Sol e à Lua dá notícia Rezende em 1593. (…) O qual podia ter obtido a informação de Hollanda. (…)"
Na obra Cintra Pinturesca, ou Memória descriptiva da Villa e Cintra, Colares e seus arredores, da autoria do Visconde de Juromenha, publicada em Lisboa no ano de 1838, no parágrafo intitulado De algumas antiguidades romanas encontradas em Cintra, Colares e seus termos, vem o seguinte: "Nas abas da serra junto ao Oceano tinham eles (romanos) um sumptuoso templo consagrado ao Sol e à Lua, do qual existiam ruínas ainda em tempo de André de Resende, que as viu, e da sua dedicação se achou a inscrição do teor seguinte:
SOLI ET LVNAE
COECIVS ACCEDIVS PERENIS
LEG. AVG. PRO. PROVINCIA
LVSITANIAE
Quer dizer: "Cécio Accédio Pereno, Lugar - Tenente de Augusto na Província da Lusitânia, dedicou ao Sol e à Lua".
Na mesma obra se faz referência ao "grande número de inscrições romanas encontradas nos termos destas duas Vilas (Sintra e Colares)", donde conclui que "não deixa a mais pequena dúvida a julgar que estes conquistadores (romanos) tivessem feito o assento neste solo de mais de uma povoação considerável". E menciona uma lápide votiva na Ermida da Senhora de Milides junto a Colares também dedicada "ao Sol eterno e à Lua pela eternidade do Império e saúde do imperador César Septímio Severo…" além de numerosas lápides sepulcrais. (…)
in: Da Fábrica Que Falece à Cidade de Lisboa, de Francisco de Holanda, Livros Horizonte, 1984, p. 31, 90 e 91.
Após investigação histórica e arqueológica no sítio indicado pelos documentos assinalados, foram encontrados (2007) os elementos que demonstram a existência de um Santuário Romano consagrado ao Sol, à Lua e ao Oceano, ao centro das duas praias actuais em Colares: Praia das Maças e Praia Pequena. Local considerado o promontório mais ocidental do Império de Romano, e assinalado no mapa do século II d.c. do imperador Claudio Ptolomeu.
Após escavações arqueológicas (ainda em acção) foram encontrados um número considerável de vestígios que confirmaram a sua existência e ainda para além do monumento romano dedicado ao Sol e à Lua, encontrou-se ainda um Ribad (ritual muçulmano), bem como inscrições em pedra de origem grega tal como:
AO SOL, À LUA, AS DADIVAS GRAVADAS AS MUSAS
in: «SOLI INVICTO - Ao Sol Invencível», Conferência Comemorativa do Solstício de Inverno, por José Cardim Ribeiro, Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (Sintra), 19 de Dezembro de 2015.
Após investigação histórica e arqueológica no sítio indicado pelos documentos assinalados, foram encontrados (2007) os elementos que demonstram a existência de um Santuário Romano consagrado ao Sol, à Lua e ao Oceano, ao centro das duas praias actuais em Colares: Praia das Maças e Praia Pequena. Local considerado o promontório mais ocidental do Império de Romano, e assinalado no mapa do século II d.c. do imperador Claudio Ptolomeu.
Após escavações arqueológicas (ainda em acção) foram encontrados um número considerável de vestígios que confirmaram a sua existência e ainda para além do monumento romano dedicado ao Sol e à Lua, encontrou-se ainda um Ribad (ritual muçulmano), bem como inscrições em pedra de origem grega tal como:
AO SOL, À LUA, AS DADIVAS GRAVADAS AS MUSAS
in: «SOLI INVICTO - Ao Sol Invencível», Conferência Comemorativa do Solstício de Inverno, por José Cardim Ribeiro, Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (Sintra), 19 de Dezembro de 2015.
29 outubro 2015
Odisseia | Homero
Musa, fala-me do herói dos mil estratagemas, que tanto errou depois de a sua astúcia ter feito saquear a acrópole sagrada de Tróade, que visitou as cidades e conheceu os costumes de tantos homens! Quão grandes tormentos o seu coração padeceu por sobre o mar, quando ele lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros! Mas não conseguiu salvá-los apesar do seu desejo: o desvario deles perdeu-os, insensatos que devoraram os bois de Hélios Hiperíon. E este não os deixou ver o dia do regresso. Conta-nos a nós também estas aventuras, deusa nascida de Zeus, começando por onde te aprouver.
Nesse tempo todos os que haviam escapado ao brusco trespasse estavam já nos seus lares, salvos da batalha e do mar. Só Ulisses almejava ainda pelo regresso e pela esposa. Uma ninfa, Calipso, uma deusa augusta, retinha-o nas suas grutas profundas, ansiando por tê-lo como marido.
in: Odisseia, de Homero, Europa-América, 1990, p. 13.
29 setembro 2015
O Terceiro Chimpanzé | Jared Diamond
As pistas que nos levam a perceber quando, porquê e de que maneira deixámos de ser apenas outra espécie de grande mamífero surgiram de três tipos de dados científicos.
(…)
Uma questão fundamental tem que ver simplesmente com a dimensão das diferenças genéticas entre nós e os chimpanzés.
(…)
in: O Terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond, Círculo de Leitores, 2014
(…)
Uma questão fundamental tem que ver simplesmente com a dimensão das diferenças genéticas entre nós e os chimpanzés.
(…)
in: O Terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond, Círculo de Leitores, 2014
05 agosto 2015
Gaivota | Richard Bach
Fernão passava os dias sozinho, a experimentar, fazendo centenas de voos rasos.
(…)
Cuidadoso como era, esforçando-se até ao limite, perdia o controle a alta velocidade.
(…)
Caiu outra vez no mesmo erro terrível, e, a cento e trinta quilómetros horários, foi como se tivesse sido atingido por dinamite.
(…)
As suas asas eram barras de chumbo despedaçado, mas o peso do fracasso era-lhe mais doloroso. Desejou, debilmente, que o peso fosse suficiente para o arrastar docemente até ao fundo, e acabar de uma vez.
(…)
O lugar de uma gaivota à noite é a costa, e a partir desse momento prometeu a si mesmo ser uma gaivota normal. Assim, todos ficariam felizes.
(…)
No entanto, não sentia remorsos de por não ter cumprido as promessas que fizera a si próprio.
in: Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, Publicações Europa-América, Lisboa, 2001
(…)
Cuidadoso como era, esforçando-se até ao limite, perdia o controle a alta velocidade.
(…)
Caiu outra vez no mesmo erro terrível, e, a cento e trinta quilómetros horários, foi como se tivesse sido atingido por dinamite.
(…)
As suas asas eram barras de chumbo despedaçado, mas o peso do fracasso era-lhe mais doloroso. Desejou, debilmente, que o peso fosse suficiente para o arrastar docemente até ao fundo, e acabar de uma vez.
(…)
O lugar de uma gaivota à noite é a costa, e a partir desse momento prometeu a si mesmo ser uma gaivota normal. Assim, todos ficariam felizes.
(…)
No entanto, não sentia remorsos de por não ter cumprido as promessas que fizera a si próprio.
in: Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, Publicações Europa-América, Lisboa, 2001
14 julho 2015
Humanidade
O esperma não é uma pessoa, o óvulo também não o é, nem o embrião. A humanidade surge num homem, não com a sua forma (humana), mas com a sua relação (humana) com o mundo. O simples facto de estar no mundo não é suficiente; a barata também está no mundo. É necessária uma conexão, uma relação interactiva, um vínculo com a realidade tangível.
in: A Potência de Existir, de Michel Onfray, Campo da Comunicação, p. 186.
23 abril 2015
Criar imagens
"Não há arte sem um olhar que a veja como arte."
A arte em geral existe em virtude de um regime de identificação - de disjunção - que dá visibilidade e significação a práticas de arranjo de palavras, de arranjo expositivo das cores, de modelagem, dos volumes ou de evolução dos corpos, que decidem, por exemplo, o que é uma pintura, o que se faz ao pintar e o que se vê num mural ou numa tela pintados."
in: O Destino das Imagens, de Jacques Rancière, Orfeu Negro, Lisboa, 2011, p. 99 e 101.
Obras: Poemas e Desenhos, de Ana Paula Gaspar
16 março 2015
3 + 17 = 1 [Uma Linha]
A linha e o desenho das estruturas do pensamento.
As ligações neuronais e o significado adquirido pelas palavras.
Os conceitos e a sua significação.
As palavras que aqui se encontram escritas, estão organizadas em conjuntos de cerca de três, e são unidas por uma linha. Esta desenvolve-se e interliga-se com as seguintes, criando deste modo uma única linha, que apesar de única é interrompida por um espaço, espaço dedicado ao pensamento e à passagem para outro ano (esta ligação remete para o que corresponde a um ano lectivo, do ponto de vista académico).
Entenda-se por viagens um percurso efectuado entre Lisboa e Portalegre e Portalegre e Lisboa durante dezassete anos consecutivos e três enquanto estudante e também eles seguidos.
O sentido e a sua significação advém de um sentimento profundo no que diz respeito à consciencialização de um percurso e das várias oportunidades em cada viagem e em cada momento que o próprio percurso proporciona, pois viaja com ele e o corpo e a mente.
É um desenho a partir de uma linha. É uma linha a partir de um desenho.
É um desenho de um pensamento que não se vê, mas que se sente.
É um desenho da linha que desenha a palavra e esta adquire um significado num contexto de simbiose entre o riscar e a continuidade desse traço, risco, linha, cuja transformação ocorre e ganha importância maior na leitura e nas várias leituras ao longo do seu caminhar, do percorrer, do recordar e sobretudo do tomar consciência.
A mostra de uma "única" linha é a tentativa de unir o que foi também um "único" percurso, constituído de variados percursos e de diversos pensamentos, sintetizados numa ideia: partilhar e consciencializar de uma linha que afinal vai sendo a linha da Vida.
Um percurso, uma linha, um desenho, um olhar, um pensamento, um passeio…
in: 3 + 17 = 1 [Uma Linha], Exposição de Ana Gaspar, Instituto Politécnico de Portalegre, 11 de Março. 2015
02 março 2015
Franz Kafka | O Abutre e Outras Histórias
Resoluções
Sair de um estado de espírito miserável, mesmo que o tenhamos de fazer por pura força de vontade, deveria ser fácil. Eu forço-me a sair da cadeira, a caminhar até à mesa, a exercitar a minha cabeça e pescoço, a fazer os meus olhos brilharem, a apertar os músculos à volta deles. Desafio os meus próprios sentimentos, dou entusiasticamente as boas-vindas a A supondo que ele me vem ver, tolero amavelmente B na minha sala, engulo tudo o que é dito em casa de C, qualquer que seja a dor e a preocupação que tal me possa custar, em longas goladas.
No entanto, o que eu consiga, um único deslize, e um deslize não pode ser evitado, interromperá o processo todo, seja ele fácil ou doloroso, e terei de me reduzir novamente ao meu próprio círculo.
Portanto, talvez o melhor recurso seja ir passivamente ao encontro de tudo, fazer de mim mesmo uma massa inerte e, se sentir que estou a deixar-me levar, para que não me deixe convencer a dar um único passo desnecessário, olhar os outros fixamente com os olhos de um animal, não sentir remorso; em suma, reduzir ao mínimo qualquer réstia de vida que ainda me sobre, ou seja, ampliar a paz final do cemitério e não permitir que, para além dela, algo mais sobreviva.
Um movimento característico numa tal condição é passar o dedo mínimo ao longo das sobrancelhas.
in: Resoluções, de Franz Kafka, in: O Abutre e Outras Histórias, Estrofes e Versos, 2009, p. 89 e 90.
Sair de um estado de espírito miserável, mesmo que o tenhamos de fazer por pura força de vontade, deveria ser fácil. Eu forço-me a sair da cadeira, a caminhar até à mesa, a exercitar a minha cabeça e pescoço, a fazer os meus olhos brilharem, a apertar os músculos à volta deles. Desafio os meus próprios sentimentos, dou entusiasticamente as boas-vindas a A supondo que ele me vem ver, tolero amavelmente B na minha sala, engulo tudo o que é dito em casa de C, qualquer que seja a dor e a preocupação que tal me possa custar, em longas goladas.
No entanto, o que eu consiga, um único deslize, e um deslize não pode ser evitado, interromperá o processo todo, seja ele fácil ou doloroso, e terei de me reduzir novamente ao meu próprio círculo.
Portanto, talvez o melhor recurso seja ir passivamente ao encontro de tudo, fazer de mim mesmo uma massa inerte e, se sentir que estou a deixar-me levar, para que não me deixe convencer a dar um único passo desnecessário, olhar os outros fixamente com os olhos de um animal, não sentir remorso; em suma, reduzir ao mínimo qualquer réstia de vida que ainda me sobre, ou seja, ampliar a paz final do cemitério e não permitir que, para além dela, algo mais sobreviva.
Um movimento característico numa tal condição é passar o dedo mínimo ao longo das sobrancelhas.
in: Resoluções, de Franz Kafka, in: O Abutre e Outras Histórias, Estrofes e Versos, 2009, p. 89 e 90.
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