CORO - Eros, invencível no combate, que te enfureces, como uma manada de reses; que passas a noite no rosto macio de uma donzela e frequentas, quando não estás no mar, as rústicas cabanas: ninguém te pode fugir, nem os próprios deuses imortais, e muito menos os homens, enquanto vivos; mas o teu domínio pode levar à loucura. Tu, que transformas os justos em injustos; tu, que, entre os homens do mesmo sangue, promoves a discórdia, como agora, destruindo o encanto que brilha nos olhos da noiva já destinada ao leito conjugal; tu, associado às leis sagradas que regem o mundo, vais fazendo, sem luta, o jogo da divina Afrodite. (…)
MENSAGEIRO - E nós, cumprindo o que o nosso desalento chefe nos ordenava, olhámos para o interior da caverna e vimo-la, a ela, pendurada pelo pescoço, estrangulada por um laço feito com o seu fino véu; enquanto ele, a seu lado, abraçando-a pela cintura, chorava, não só a perda da noiva, agora morta, mas também o crime do pai e o desgraçado amor. Quando Creonte o vê, são dilacerantes as suas queixas. Vai junto do filho e chama-o, com dolorosos lamentos: «Que fizeste, infeliz? Que pretendes agora? Que desgraça te privou da razão? Sai daí, meu filho! Rogo-te, suplico-te.» Hémon olha-o, então, de cima a baixo, cospe-lhe no rosto; e, sem nada responder, tira da bainha a espada de dois gumes. O pai, de um salto, evita o golpe. Falhando, o desgraçado volta-se, iroso, contra si próprio: inclina-se sobre a espada, fazendo que ela se enterre no corpo, até meio. Consciente ainda, mas já sem força nos braços, enlaça a jovem e, sobre a branca face dela, lança uma golfada de sangue. Ali ficaram, cadáver ao lado de cadáver, celebrando, finalmente, a boda - mas no Hades. Isto é uma lição para os mortais; para que vejam até que ponto o pior mal dos homens é a irreflexão. (…)
in: Antígona, Ájax . Rei Édipo, de Sófocles, Editorial Verbo, Lisboa, s.d.