As imagens mentais mais comuns são padrões de luz e cor que representam outros seres vivos e aquilo que eles fazem, bem como os objectos e as ações - ou parte de objetos e de ações - que compõem o mundo que nos rodeia. (…)
Temos de poder sentir de modo a que possamos ser conscientes. (…)
A consciência é responsável pela capacidade de experienciar uma mente individual que trabalha no interior de um organismo vivo; e pela capacidade de o indivíduo experienciar o sofrimento ou o prazer do estado atual do seu processo de vida. (…)
Nesse contexto, a definição mais lata que tenho para oferecer afirma que a consciência é um processo biológico que permite que os organismos equipados com um sistema nervoso descubram a sua existência e a existência de um universo que os rodeia. (…)
Estas reflexões podem surgir numa montagem fílmica sem palavras, numa narrativa verbal e teatral, ou numa mistura das duas, dependendo do que mais se adeque ao estado mental e às necessidades do momento. (…)
Ou seja, os sentimentos homeostáticos situam o processo mental em curso e explicam como fazem parte do interior de um organismo/corpo específico, um gesto essencial que identifica o processo de vida como sendo consciente. (…) Os sentimentos constituem um desenvolvimento biológico monumental. (…)
Ou seja, os sentimentos apresentam, continuamente, no vasto anfiteatro da mente uma avaliação da vida. As mensagens dos sentimentos não assumem uma forma verbal ou numérica. Surgem, isso sim, na forma de afectos e usam as escalas da qualidade e da intensidade para transmitir as suas avaliações. (…)
Um recente atlas de alta definição do tipo de células presentes no cérebro mostra-nos claramente que quando se compara a população de neurónios responsáveis pela cognição com a população de neurónios responsáveis pela regulação da vida, encontramos uma maior variedade de tipos de neurónios e uma maior complexidade organizacional do lado da regulação de vida/interoceção!
A ironia consiste no facto de a componente da linguagem ser, ela própria, parcialmente imagética. Assim é, porque as palavras que nos enriquecem os processos mentais têm uma base imagética que pode ser expressa na forma de padrões auditivos, visuais ou somatossensoriais. Quer façamos uso de imagens básicas ou de traduções linguísticas dessas imagens, a nossa mente depende de imagens para construir o pensamento. (…)
Pensemos nos sentimentos acompanhantes como sendo o coro que comenta as ações representadas nos temas principais. (…)
Logo, aquilo que sentimos dentro de nós e aquilo que percepcionamos a partir do que nos rodeia e do nosso pensamento são experienciados por uma entidade integrada e única. Essa entidade é a afortunada proprietária de um certo corpo vivo e do seu servo, em grande medida fiel embora cheio de opiniões: o sistema nervoso. (…)
Os sentimentos são irresistíveis. O segredo do seu poder reside na sua fisiologia particular. Os sentimentos não enviam mensagens em código Morse; eles agitam-nos a carne e perturbam-nos a mente até que satisfaçam pedidos ou acatemos conselhos. Ou seja, quer nos recomendem ou incitem, seduzam ou exijam, os sentimentos levam-nos a «responder», e «as respostas» têm que ver com a vida, especificamente, com a manutenção da vida, do modo mais eficaz possível. Seguir as recomendações dos sentimentos ou obedecer às suas ordens ajuda-nos a viver. (…)
A eficácia está na sua natureza porque, em vez de empregarem uma qualquer linguagem abstrusa para comunicarem os seus conhecimentos, os sentimentos exibem qualidades afetivas, expressas por alterações reais no corpo que revelam estados da vida. Os sentimentos não são cartões de visita delicados. Dependendo da situação específica, as sugestões ou pedidos dos sentimentos podem transformar-se em ordens, apresentadas de forma tão veemente que não podem ser desobedecidas e, muito menos, ignoradas. (…)
Os sentimentos homeostáticos são conscientes desde a sua origem, estando intimamente ligados à vida do organismo onde se manifestam, decididos a serem os salvadores do momento. Podem ser pregadores bem-intencionados ou demónios tentadores prestes a saborear o triunfo da sua sedução. (…)
O cérebro cria padrões imagéticos a partir de fontes físicas como a visão, a audição e o tato. Esses padrões imagéticos resultam do mapeamento físico de sinais sensoriais físicos, recebidos, processados e representados no equivalente a telas tecidas com neurónios igualmente físicos. (…) Como por exemplo, os fotões que animam as células retinais dão início a uma cadeia de acontecimentos bioquímicos que se prolonga por várias estações neurais das vias visuais do cérebro e desembocam em mapas neuronais, organizados topograficamente, nos córtices visuais da região occipital. (…)
Quem imaginaria que o afeto, em geral, e os sentimentos, em particular, fabricados por obra e graça da Inteligência Natural como meio de manter a vida em criaturas simples, se tornariam, na longa trajetória do tempo, os elementos definidores da existência humana, os provedores de alegrias e tristezas, de glórias e tragédias, de valores elevados e mesquinhos, nada mais, nada menos do que o profundo alicerce da humanidade que habitamos e observamos?
in: A Inteligência Natural, a Lógica da Consciência, de António Damásio, Edição: Temas & Debates, Lisboa, Nov. 2025