(…)
Consta mais que, em certa noite, as pálpebras se lhe cerraram de fadiga, e o bom Darumá deixou-se adormecer, para só acordar pela manhã. Então, pedindo a alguém uma tesoura ou instrumento parecido, cortou a si próprio as pálpebras indignas e arremessou-as ao solo, num gesto de despeito … As pálpebras, por milagre, enraizaram, dando nascença a um gracioso arbusto nunca visto, que medrou mui de pronto e cujas folhas, tratadas de infusão pela água quente, foram um remédio precioso contra o sono e contra o cansaço das vigílias. Estava conhecido o chá; tem pois na China a sua origem, e é coisa santa, como se acaba de provar. Crê quem quer; mas devo advertir que este livro foi escrito para crentes.
Da China, veio o chá para as terras de Nippon, mas não se sabe quando.
Velhas crónicas mencionam (no dizer dos entendidos neste caso melindroso) que, em 729 da era cristã, durante uma festa religiosa de espavento, o imperador Shomu oferecia chá a bonzos de alta jerarquia; mas fica-se ignorando se já antes seria conhecido … Parece que um bom abade budista, Dengyo Daishi, foi o primeiro que obteve a planta em solo japonês, em 805; o chá era então já uma beberagem favorita entre os bonzos chineses, que dela se serviam durante as vigílias prolongadas das suas práticas noturnas. Mais recentemente, ainda outro bonzo, Eisei, tendo ido à China, de lá voltou, trazendo as sementes preciosas, e no monte Sefuri, em Chikuzen, cuidou da sua sementeira. Pouco depois, ainda mais outro bonzo (sempre os bonzos!) de nome Mioyé, colhendo de Eisei os vários segredos de cultura, novas sementes adquiriu, e em Toga-no-o e em Uji, lugares vizinhos de Quioto, atentamente se entreteve em cultivar o chá; em Uji, de preferência, foram os resultados excelentes. Dois séculos depois, cerca de 1400, o shogun (generalíssimo) Ashikawa Yoshimitsu imprimiu vigoroso impulso às plantações de Uji, as quais tanto foram prosperando, mercê da riqueza do torrão, que de então até hoje o chá daquele sítio tem sido celebrado como o melhor de todo o Império; dele exclusivamente se serve o imperador.
O Japão é a terra das camélias …
(…)
Passando, em horas de ócio, junto dos campos de chá, dos quais sinto prazer em acercar-me, palestro com os aldeões e aprendo noções várias respeitantes à delicada planta. Não pode ser transplantada, nem se multiplica por estacas ou por enxerto, só por sementeira se propaga. Os países quentes, como os países frios, são-lhe nocivos; prospera nos climas temperados, nos sítios lavados de ar e de luz, vizinhos dos cursos de água, convindo um ligeiro declive ao solo de cultura. Os arbustos são dispostos em renques paralelos, de norte a sul, para que o sol lhes bata em cheio desde pela manhã até à noite; … No fim de quatro anos, já o arbusto se presta à primeira colheita; mas são as velhas plantas, de cem anos, de duzentos anos, as que melhor produzem.
(…)
Quem quiser tomar conhecimento com a planta de chá, nas melhores condições de prosperidade e em mais belas galas de aspecto pitoresco, tem de ir até Uji, distante quinze milhas de Quioto; escolhendo de preferência um dos primeiros dias de Maio, quando os rebentos novos começam vicejando, o que marca o início da faina da colheita. Faina e festa;
(…)
As moças de Uji estreiam kimonos novos para o caso, arregaçando as mangas com fitas escarlates; amarram em turbante em volta dos cabelos toalhas de cor azul-e-branca; e assim, esbeltas, graciosíssimas, em ranchos de dez, de doze companheiras, dirigirem-se ao trabalho. É então um encanto para os olhos ir a gente surpreende-las no afã do seu mister, dispersas pelas campinas fora, como borboletas; indo de um ramo a outro ramo, de um arbusto a outro arbusto, por vezes ocultando-se entre o verde mais denso da folhagem. Os dedos róseos, miudinhos, a escorrerem de orvalho e multiplicando-se em gestos delicados, vão colhendo os rebentos tenros do chá e atirando-os a grandes ceiras dispostas pelo chão;
(…)
No Japão, toda a gente toma chá - ricos e pobres, nobres e plebeus - bebe-se na ocasião das refeições e a toda a hora, a pequeninos goles. No lar, quando entra o visitante, oferece-se-lhe, após as reverências, uma almofada de regalo e uma chávena de chá.
(…)
Nos templos famosos, em Quioto, por exemplo, o bonzo oferece chá ao peregrino antes de lhe mostrar as relíquias e os museus.
(…)
Um restaurante, na pitoresca linguagem japonesa, diz-se uma Chaya - que quer dizer - casa de chá. De sorte que a chávena de chá, que acompanha os bons dias dados a quem chega, não constitui simplesmente uma norma rotineira, um hábito banal, tornou-se como um símbolo da doce hospitalidade japonesa, um rito de bonomia desta gente, exercido religiosamente entre amigos, entre estranhos também, porque ao estranho, que larga à porta as sandálias, vem ao nosso lar e nos saúda, deve-se já um sorriso e a sua parte de conforto.
Na casa, nua de móveis, porém mimosa de asseios requintados, figura sempre o braseiro sobre a esteira, e nas brasas vai fervilhando a chaleira de ferro cheia de água; o Bon (uma bandeja) está cerca, contendo o bule, as cinco chávenas (cinco porquê? talvez por serem cinco os dedos em cada mãozita japonesa), os cinco pires de madeira ou de metal, o cofre de estanho contendo o chá em folhas e ainda o pequenino recipiente em porcelana chamado yuzamashi, cuja ordinária serventia vai muito em breve conhecer-se. O sentido artístico japonês deprava-se naturalmente na indústria de hoje, em grande parte com destino à exportação para a Europa e para a América;
(…)
O Chá japonês tem a virtude de mitigar a sede. Assim se explica o hábito dos japoneses não beberem água; mesmo na força dos calores, em pleno Agosto, a chávena de chá, saboreada a goles, lhes dá pleno consolo. Aponta-se-lhe mais outros condões: excita ligeiramente o organismo, combate o cansaço das vigílias, predispõe ao bem-estar, infiltra no cérebro não sei que subtil embriaguez, lúcida todavia, que nos torna mais afectivos às sensações de agrado e mais aptos às elaborações do pensamento.
in: O Culto do Chá, de Wenceslau de Moraes, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2008
A água do rio continua a correr… O presente espaço é uma partilha de palavras e de imagens, desabafos e expressões com emoção e significado próprio…
03 maio 2020
10 abril 2020
Da Velhice | Cícero
Por conseguinte, se é hábito vosso admirar a minha sabedoria- que oxalá seja digna da nossa estima e do nosso cognome - nós, que seguimos a natureza, o melhor dos guias, e a ela obedecemos como a um deus, somos realmente sábios.
Os velhos que foram com efeito moderados, sem nunca terem sido difíceis ou desumanos, têm uma velhice que pode ser tolerada; por outro lado, a má índole e a desumanidade são dolorosas para qualquer idade.
(…)
O mesmo pode dizer-se da velhice: na verdade, nem pode a velhice ser agradável para o sábio no meio da maior indigência, nem para o ignorante, ainda que rodeado da maior riqueza. (…) Quando já se viveu o bastante, produzem frutos extraordinários, porque não só nunca nos abandonam, e muito menos no final da vida …
Górgias de Leontinos, chegou até aos cento e sete e nem uma só vez abandonou a leitura e o estudo, o qual, como lhe tivessem perguntado porque razão amava tanto a vida, respondeu: "nada vejo que me leve a acusar a velhice" - resposta brilhante, digna de um homem esclarecido. (…) Os insensatos, com efeito, atribuem à velhice os seus próprios defeitos e a sua própria culpa.
(…)
Como é evidente a temeridade é própria da idade que floresce, enquanto a prudência, da que envelhece. (…) Mas a memória enfraquece - assim creio, se não a exercitares ou se fores naturalmente lento de raciocínio.
Sófocles escreveu tragédias até uma idade muito avançada …
Assim como admiramos um jovem em que existe algo de velho, da mesma maneira o fazemos com um velho no qual persiste algo de jovem. Quem adoptar tal postura, poderá envelhecer de corpo, mas, nunca de espírito.
Estou profundamente grato à velhice por ter aumentado em mim o desejo de conversar afastando-me do apetite pela bebida e pela comida.
(…)
Os cabelos brancos não ganham prestígio de repente, nem tão pouco as rugas; mas, uma vida honesta e sabiamente gerida colhe sempre do prestígio os melhores frutos.
(…)
Como na vida, assim no Teatro podemos bem entender a cena entre os dois irmãos em Os Irmãos: a rudeza de um perante a doçura de outro! E de facto assim é: como acontece com o vinho, do mesmo modo nem toda a Natureza se azeda devido à velhice.
Na verdade, encontra-se nos velhos o pensamento, a sensatez e a sabedoria, sem os quais os estados não poderiam absolutamente existir.
(…)
Como já disse tanta vez, a memória e a abundância de bens adquiridos são os frutos da velhice. Tudo o que é, com efeito, conforme com a natureza deve ser tido como bom. Que existe de mais conforme à natureza se não for a morte dos velhos? Quando a mesma ceifa a vida dos jovens, a natureza opõe-se e tenta resistir. (…) Os frutos das árvores se ainda não amadureceram, têm de ser arrancados com força, mas se já estão maduros ou ressequidos pelo sol, caem naturalmente- assim é a vida arrancada aos jovens à força, e aos velhos, colhida naturalmente.
A velhice não é apenas doce, como ainda não causa sofrimento, além de ser também jovial. (…) É, porém, ao homem possível extinguir-se no momento oportuno: a natureza, como acontece todas as outras coisas, sabe quanto devemos viver.
in: Catão-O-Velho ou Da Velhice, de Marco Túlio Cícero, Biblioteca Editores Independentes, 2009
Os velhos que foram com efeito moderados, sem nunca terem sido difíceis ou desumanos, têm uma velhice que pode ser tolerada; por outro lado, a má índole e a desumanidade são dolorosas para qualquer idade.
(…)
O mesmo pode dizer-se da velhice: na verdade, nem pode a velhice ser agradável para o sábio no meio da maior indigência, nem para o ignorante, ainda que rodeado da maior riqueza. (…) Quando já se viveu o bastante, produzem frutos extraordinários, porque não só nunca nos abandonam, e muito menos no final da vida …
Górgias de Leontinos, chegou até aos cento e sete e nem uma só vez abandonou a leitura e o estudo, o qual, como lhe tivessem perguntado porque razão amava tanto a vida, respondeu: "nada vejo que me leve a acusar a velhice" - resposta brilhante, digna de um homem esclarecido. (…) Os insensatos, com efeito, atribuem à velhice os seus próprios defeitos e a sua própria culpa.
(…)
Como é evidente a temeridade é própria da idade que floresce, enquanto a prudência, da que envelhece. (…) Mas a memória enfraquece - assim creio, se não a exercitares ou se fores naturalmente lento de raciocínio.
Sófocles escreveu tragédias até uma idade muito avançada …
Assim como admiramos um jovem em que existe algo de velho, da mesma maneira o fazemos com um velho no qual persiste algo de jovem. Quem adoptar tal postura, poderá envelhecer de corpo, mas, nunca de espírito.
Estou profundamente grato à velhice por ter aumentado em mim o desejo de conversar afastando-me do apetite pela bebida e pela comida.
(…)
Os cabelos brancos não ganham prestígio de repente, nem tão pouco as rugas; mas, uma vida honesta e sabiamente gerida colhe sempre do prestígio os melhores frutos.
(…)
Como na vida, assim no Teatro podemos bem entender a cena entre os dois irmãos em Os Irmãos: a rudeza de um perante a doçura de outro! E de facto assim é: como acontece com o vinho, do mesmo modo nem toda a Natureza se azeda devido à velhice.
Na verdade, encontra-se nos velhos o pensamento, a sensatez e a sabedoria, sem os quais os estados não poderiam absolutamente existir.
(…)
Como já disse tanta vez, a memória e a abundância de bens adquiridos são os frutos da velhice. Tudo o que é, com efeito, conforme com a natureza deve ser tido como bom. Que existe de mais conforme à natureza se não for a morte dos velhos? Quando a mesma ceifa a vida dos jovens, a natureza opõe-se e tenta resistir. (…) Os frutos das árvores se ainda não amadureceram, têm de ser arrancados com força, mas se já estão maduros ou ressequidos pelo sol, caem naturalmente- assim é a vida arrancada aos jovens à força, e aos velhos, colhida naturalmente.
A velhice não é apenas doce, como ainda não causa sofrimento, além de ser também jovial. (…) É, porém, ao homem possível extinguir-se no momento oportuno: a natureza, como acontece todas as outras coisas, sabe quanto devemos viver.
in: Catão-O-Velho ou Da Velhice, de Marco Túlio Cícero, Biblioteca Editores Independentes, 2009
03 abril 2020
Da Vaidade | Montaigne
Desde quando escrevemos tanto senão desde que nos encontremos em apuros?
Desde quando os romanos o fizeram senão depois da sua ruína?
(…)
As prosperidades servem-se de disciplina e aprendizagem, como aos outros as adversidades e as vergastadas. (…) Os homens não se tornam pessoas de bem senão na adversidade. (…) Entre as condições humanas, esta é a mais comum: agradamo-nos mais com as coisas estrangeiras do que com as nossas e gostamos de agitação e de mudanças. (…) Aqueles que seguem o outro extremo, o de se asilar em si mesmos, o de estimar o que se consideram acima do resto.
(…)
Entreguei-me tardiamente ao governo da minha propriedade. Aqueles que a natureza fez nascer antes de mim libertaram-me dessa tarefa durante muito tempo.
Na pior das hipóteses corri sempre pela diminuição da despesa perante a pobreza. (…) A solução que tenho em minha casa é a de, para gastar sem conta e medida pelo meu lado, pelo outro poupar-se em tudo.
(…)
Não quero que o prazer do viajante corrompa o prazer do descanso; pelo contrário, entendo que se devem alimentar e ajudar um ao outro.
Escondo-me nas ocasiões em que me irrito e ignoro as coisas que estão mal. (…) De modo que, para fazer o menor mal possível, é necessário ajudar-se a si mesmo a esconder-se. Vãs picadas, vãs, mas picadas? (…)
A turba de pequenos males ofende mais que a violência de qualquer um, por maior que seja. À medida que estes espinhos domésticos se tornam incessantes e mais delgados, mordem-nos mais agudamente e sem aviso, com facilidade nos surpreendendo subitamente. (…) Não sou filósofo; os males oprimem-me conforme o seu peso; e pesam muito em função da forma e da matéria, e por vezes mais. Não possuo conhecimento que não seja o vulgar, ainda que tenha muita paciência.
(…)
É esta coisa terna e agradável que é a vida que perturba. "Ninguém resiste, se cedeu ao primeiro impulso" (Séneca, Carta 13).
A minha atitude é mera tolice, ou mais estúpida do que gloriosa. Preferia ser um bom escudeiro do que ser um bom pensador.
(…)
Contento-me em fruir o mundo, sem me apressar, em viver uma vida apenas justificável, e que simplesmente não me pese a mim nem a qualquer outro.
"Nunca fruímos plenamente dos frutos de génio, da virtude e de toda e qualquer superioridade senão quando os partilhamos com os nossos amigos mais próximos." (Cícero)
(…)
Mas como? Vivemos num mundo em que a lealdade dos próprios filhos é um enigma.
O que quer que seja, ou arte ou natureza, que nos imprime esta condição de viver em relação como outro, faz-nos muito mais mal do que bem. Defraudamos as nossas próprias valias, para exibir aparências à opinião corrente. De facto, qualquer que seja o nosso ser em nós, importa-nos muito o modo como ele se apresenta ao conhecimento público. Os próprios bens de espírito e a sabedoria parecem -nos inférteis se forem apenas desfrutados por nós e se não se apresentarem à vista e à aprovação dos estranhos.
A necessidade harmoniza os homens e une-os. Esta ligação fortuita transforma-se depois em lei.
(…)
Em todos os nossos êxitos, comparamo-nos a quem está acima de nós e olhamos para eles que são melhores. Comparamo-nos ao que está abaixo de nós.
(…)
Dia a dia a minha memória piora cruelmente. (…) Não me defendo nada das minhas fantasias.
(…)
O reconhecimento público proporcionou-me um pouco mais de audácia do que não estava à espera, mas o meu maior receio é de me embriagar …
Não te prendas a mim, leitor, por aqueles temas que se derramam aqui pela imaginação ou descuido de outrem; cada mão, cada autor, transmite os seus. Não me meto na ortografia (…) nem na pontuação; sou pouco conhecedor de uma de outra.
(…)
Se a ação não possuir algum esplendor de liberdade não tem qualquer graça nem virtude. (…) Para onde a necessidade me arrasta, gosto de libertar a vontade "porque, nas ações impostas, há maior reconhecimento para aquele que ordena que para aquele que executa" (…) sei de quem siga esta atitude até à injustiça.
(…)
Conheço-me bem.
Por tudo isto ganhei um ódio mortal a ficar presa quer do outro quer de mim mesmo.
Endurecemos relativamente a tudo o que nos acostumamos.
(…)
Sei que a amizade tem uns braços suficientemente compridos para se agarrar e juntar num canto ao outro do mundo. (…) Os estóicos afirmam, e bem, que existe uma grande aliança e relação entre os sábios, de tal modo que aquele que janta em França alimenta o seu companheiro no Egipto; e que estendendo apenas um dedo, ou o que quer que seja, todos os sábios sobre a Terra habitável, sentem a sua proteção. (…)
A decrepitude é uma categoria solitária. Sou sociável até ao excesso. Se, doravante, me parecer razoável que me afaste da vista do mundo a minha inconveniência e que deva retirar-me ficando a sós comigo mesmo, entrarei em inactividade e recolher-me-ei na minha carcaça, como as tartarugas. Aprendo a observar os homens sem me deter neles.
Escrevo o meu livro para poucas pessoas e há poucos anos.
Quero ficar alojado num lugar que me seja íntimo, sem ruídos, limpo, arejado e sem fumos. Procuro acarinhar a morte através destas situações frívolas…
(…)
Deixei alguma coisa para ver atrás de mim?
Volto atrás: este é sempre o meu caminho. Nunca traço nenhuma linha, nem recta, nem curva. Não encontro nada onde vou, foi o que me disseram. (Como acontece muitas vezes, as avaliações dos outros não estão de acordo com as minhas, por isso considero-as, na maioria, falsas) não lastimo o meu esforço: aprendi que o que dizem não me interessa. (…)
A diversidade de modos de uma nação para outra toca-me apenas pelo prazer da variedade. Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Sejam pratos de estanho, de madeira ou de argila, as refeições cozido ou assado, com manteiga ou azeite, quentes ou frias, para mim tudo é uno. (…) Tenho vergonha de ver os homens arrebentados … Bem que se diz que um homem de sociedade, é um homem heterogéneo. (…) Pelo contrário, viajo para o estrangeiro bastante farto dos nossos hábitos … procuro mais os gregos e os persas; aproximo-me deles, estimo-os; é a isso que me presto e me entrego. E o mais interessante, é que me parece que não descobri nenhuns modos que não sejam tão válidos como os nossos … nenhum prazer tem efeito sobre mim sem comunicação.
(…)
Quem não pretende ser tolo, precisa de ter uma dose de loucura, assegurar quer os preceitos dos nossos mestres, quer ainda mais os seus exemplos.
Quem não prefere não ser lido, a sê-lo de forma adormecida e fugidia?
(…)
Aristóteles gabava-se de qualquer lugar o comover: viciosa comoção.
Pelo contrário, empenho-me em fazer valer a própria vaidade e a estupidez se elas me dão prazer, e deixo-me ir atrás das minhas inclinações naturais sem as controlar de muito perto. (…) Das coisas que em qualquer lugar são grandes e extraordinárias, admiro mesmo as partes mais simples.
(…)
O que tenho de pouco neste mundo e nesta vida deve-se a mim mesmo.
Não possuo especificamente nenhum bem essencial e sólido que não deva à sua generosidade. Ela não é uma coisa só, tão vazia e necessitada como tu, que abraças o Universo.
in: Da Vaidade, de Michel de Montaigne, Ática, 2010
03 março 2020
Eu Dou Dinamite! | Sue Prideaux
Invulgarmente sensível à música … os antepassados de Nietzsche eram gente modesta da Saxônia, camponeses (…) a família de Nietzsche tinha de facto uma forte tendência para a instabilidade mental e neurológica.
«Desde a infância que procurei a solidão, e era nos momentos em que conseguia entregar-me a mim mesmo sem que me perturbassem que me sentia melhor. E isso acontecia geralmente no templo ao ar livre da natureza, que era a minha verdadeira alegria. (…) da minha seriedade (…) quando tinha doze anos invoquei para mim mesmo uma trindade maravilhosa … foi assim que comecei a filosofar.»
(…)
… as guerras religiosas dos anos 1500 e 1600. Quando a luta terminou e o catolicismo romano foi rejeitado, o príncipe-eleitor da Saxônia, que apoiara Martinho Lutero … foi uma das mais importantes escolas de latim fundada em 1528 … acrescentou o ensino do hebraico ao latim e ao grego. (…)
… o Bund alemão moldado com base na estrutura da Grécia antiga: um sistema de pequenos Estados que existiam separada e criativamente no seio da unidade artística e intelectual. (…) O conhecimento era evolutivo, com ele vinha a Bildung, a evolução do próprio estudioso, um processo de crescimento espiritual mediante a aquisição de conhecimento, que Von Humboldt descrevia como uma interação harmoniosa entre a personalidade e a natureza do próprio estudante. (…)
A sua paixão pela música, manteve-se … reuniam-se em volta do rapaz corpulento de óculos grossos e cabelo comprido puxado para trás, sentado desajeitadamente no banco do piano. (…) A teoria herética da evolução, de Darwin … e três pensadores que iriam inquietar o seu pensamento criativo durante anos: Emerson, o filósofo e poeta grego Empedocles, e o filósofo e poeta alemão Fried. Holderlin. (…)
«Se quiseres alcançar a paz de espírito e a felicidade, então tem fé, se quiseres ser um discípulo da verdade, então procura. (…) Toda a vida é um anseio por um estado impossível e por conseguinte toda a vida é um sofrimento.» (…)
Schopenhauer, por outro lado foi profundamente influenciado pelo estudo das filosofias budista e hindu com ênfase de renúncia no sofrimento, destino e fado, e no facto de os desejos, quando satisfeitos, só darem origem a novos desejos. (…) Para Schopenhauer, a música era única arte capaz de revelar a verdade acerca da natureza do próprio ser.
«O sublime não deverá ser procurado nas coisas da natureza, mas sim nas nossas próprias ideias.»
(…) Burckhardt e Wagner viriam a ser duas grandes influências no pensamento de Nietzsche nos anos seguintes.
… Tal como a procriação depende da dualidade dos sexos, também o desenvolvimento contínuo da arte e da cultura, ao longo das épocas depende da dualidade do apolíneo e do dionisíaco. Tal como os dois sexos, estão envolvidos numa luta constante apenas interrompida por períodos temporários de reconciliação. (…) As qualidades de Apolo podem ser resumidas … ao aparente … representação … O mundo de Apolo é constituído por indivíduos morais, racionais (…) As artes que pertencem a Dionísio são a música e a tragédia. Na Grécia antiga, como homem e animal. Representava um mundo encantado de experiências extraordinárias que transcendia as fronteiras existenciais. Deus do vinho … da loucura ritual e de êxtase, do teatro, da máscara, da imitação e da ilusão … transformados por ela. (…) A música e a tragédia são capazes de apagar o espírito individual e de despertar impulsos … enquanto o espírito é transportado … Embriaguez, música, canto e dança eram as actividades onde o principium individuationis se perdia. Estava aqui a resposta dionisíaca ao sofrimento da vida.
(…)
Nietzsche sabia que a sua Lhama era uma mulher inteligente. E tratava-a como tal. Nisso, era alguém fora do comum para a sua época. Durante toda a sua vida valorizou as mulheres inteligentes e estabeleceu amizades próximas e douradoras com elas. Só se apaixonou por mulheres inteligentes - a começar por Cosima - Não gostava de mulheres ignorantes e preconceituosas. (…)
O seu Seminário sobre Safo foi cancelado devido à falta de participantes. (…)
«O educador tem de ajudar o aluno a conhecer o seu próprio caráter.» (…)
Mas agora neste volume, a sua escrita foi beber tanto à elegância de Schopenhauer como à humanidade de Montaigne.
«Que a alma jovem contemple a sua vida passada com a pergunta: que amaste verdadeiramente até agora, que atraiu a tua alma para cima, que a dominou, e ao mesmo tempo a abençou?»
(…)
Mas para si escreveu de uma forma diferente, confessando que estremecia ao pensar que poderia ter morrido sem ver o mundo mediterrânico.
Paul Rée tinha menos cinco anos que Nietzsche e era filho de um comerciante judeu rico; não precisava de ganhar a vida e tornou-se uma espécie de estudante eterno, frequentando várias universidades, onde estudou direito, psicologia e fisiologia. Terminara o seu doutoramento em filosofia no ano anterior. (…) A mera ideia de culpa ou transgressão estava errada … o ensino altera o nosso comportamento, mas não o nosso carácter. A religião nasce do medo da natureza, a moral do medo dos seres humanos.
(…)
«A qualidade mais importante numa esposa (depois do dinheiro) era uma mulher com quem pudesse ter conversas inteligentes até à velhice. (…) O casamento embora realmente desejável, é a coisa mais improvável- sei-o muito claramente.»
Caminhando oito a dez horas por dia.
Ficar em silêncio.
Agora os ataques incluíam amiúde três dias de dor atroz e vómitos, acompanhados pela sensação de estar paralisado, náuseas … ataques súbitos de rara felicidade com uma intensidade …
«A loucura era a liberdade total … se a loucura não foi atribuída tem de ser assumida … A loucura para que possa finalmente acreditar apenas em mim!»
Durante vários dias se alimentava de frutos secos. Não tinha dinheiro para aquecer o quarto. Mas, mal surgia o sol (…)
Rée ficou imediatamente impressionado com a personalidade de Lou Salomé, uma rapariga de vinte e um anos, cosmopolita, elegante … considerava que dizer a verdade é uma 'mesquinhez imposta'.
Poderia ser a descrição da relação entre Lou e o seu venerado Professor mais velho e do efeito traumático (…) As pessoas que pensam profundamente sentem que são comediantes na sua relação com os outros, porque primeiro têm de simular uma superfície para serem entendidas.
… e frase de Píndaro, "Torna-te o que és, depois de o teres aprendido." (…) Cada doença era uma morte, um mergulho fundo no Hades. Cada recuperação um alegre renascer, uma regeneração. Este modo de vida refresca-o. (…) Lou não tinha qualquer dúvida que ele era a causa da sua doença.
A mãe de Lou alertou Nietzsche claramente em relação à sua filha. Lou era incontrolável e perigosa; era uma fantasia louca.
Mais tarde, escreveu a Lou: "Quando estava em Orta, concebi um plano para te conduzir, passo a passo, até à consequência final da minha filosofia - tu como a primeira pessoa que considerei preparada para tal". (…) Ambos descreveram quão similarmente pensavam e sentiam as coisas e como as palavras se precipitavam entre os dois. Tiravam as palavras, como se fossem alimento, da boca um do outro. A autoridade individual dissolvia-se enquanto terminavam os pensamentos e as frases um do outro. (…)
O seu único sofrimento, comentou a Ida, era a ideia de ser tão pouco conhecido e lido.
«Deus morreu! Deus continua morto. E nos matá-mo-lo. Como podemos consolar-nos, nós os assassinos.»
O Homem valorizava a grandeza humana por ser baseada numa perda do animalesco … sendo um animal superior … A partir de agora, as conclusões filosóficas basear-se-iam em observação e experiências empíricas. Também falaram do eterno retorno (…)
«Assim serei daqueles que tornam belas as coisas. Amor Fati (Amor do destino): que doravante seja esse o meu amor.»
… O homem a tornar-se ele mesmo, tinha de aderir ao destino … uma opinião fixa era uma opinião morta. (…) Ainda sofria daquilo a que chamava "doença da corrente", uma ligação emocional que te puxa para baixo no teu caminho para te tornares o ser que és.
«Pois, estou a ir realmente para a solidão total.»
Chegara a altura de se libertar da doença da corrente. (…) Passou sozinho o dia de natal.
«A não ser que consiga descobrir o artifício alquímico para transformar esta - imundície em ouro, estou perdido - a minha falta de confiança é agora imensa.» Confessou.
«Tenho aqui a mais esplêndida oportunidade de provar que, para mim, todas as experiências são úteis, todos os dias santos … e pelo Argonauta solitário que estivesse decido a naufragar … uma odisseia espiritual extática, poética, profética, através do mundo moral moderno … o antigo profeta persa Zaratustra desce a montanha depois da morte do conceito de Deus para …»
Vingança transformando "Foi assim", em "Assim o Desejei".
«Porque que te amo eternidade! (…) Sempre sentira que tinha uma missão …»
«Olha, estou farto da minha sabedoria, como uma abelha que recolheu demasiado mel; preciso de mãos estendidas… e eu tenho de ser perpetuamente a vítima de levar uma vida completamente escondida. Ir-me-ei abaixo, caso não aconteça algo …»
O querido Professor, meio cego.
«… Preveniu-a que era impossível estar isento de preconceitos.»
Zaratustra desenvolve os temas fundamentais da sua filosofia da maturidade: eterno retorno, autosuperação e tornarmo-nos o Ubermensch; através das violentas, mas misteriosas, visões que nos desafiam a pensarmos por nós próprios … e que aquilo que não o mata torna-o forte … um viajante que ruma a um destino que ainda não existe. Acolhe com prazer cada nova alvorada pela evolução do prazer que trará. (…) Empurra cada um de nós para a sua solução pessoal e independente.
«Quase todas as minhas relações humanas resultaram de ataques de uma sensação de isolamento … pura e simplesmente já não conseguia suportar mais a solidão … as minhas palavras tenham cores diferentes …»
«Escravizámo-nos a padres, a astrólogos e filósofos. A sua influência é grave e perigosa para a psicologia do homem. … O mais grave erro dos últimos 2000 anos foi a invenção do espírito puro, por Platão. … Os filósofos são os vendedores da banha da cobra da alma. … Todas as verdades são apenas interpretações pessoais. Não somos mais do que a nossa memória e os nossos estados mentais … A psicologia, e não o dogma, é a chave para dar sentido ao mundo. … Não devemos agarrar-nos a nada, nem sequer a um sentimento do nosso próprio desapego. Poucos são feitos para essa independência … O primeiro sacrifício humano à religião é o sacrifício da verdadeira natureza de cada um. (…) Como é que aceitámos de bom grado os valores judaico-cristão que nos transformaram em gado obediente? Porquê que adoptámos a moral do escravo? (…) Judeus e Cristãos terem sido escravos … invertendo os valores … riqueza e poder transformaram-se em sinónimos de mal. … O cristianismo era uma negação da vontade de viver e transformada em religião. O cristianismo odiava a vida e a natureza humana. (…) É uma neurose, uma necessidade de infligir dor a si mesmo e ao outro. (…) É o animal que se magoa contra as grades da sua jaula… A vontade de poder nunca está quieta, é dinâmica. Desde a infância que procuramos o poder (…) chamar, melhoramento à domesticação de um animal quase nos parece uma anedota!»
Com o seu espírito mais presente, também estava a fazer anotações sobre psicologia. Elaborou uma lista dos estados de transformação que configuram a nossa ânsia de vida. Era encabeçada pelo impulso sexual, a que se seguiam a embriaguez, as refeições e a primavera.
(…)
Na falta de um círculo de jantares de pessoas com afinidades … uma surpresa feliz surgiu sob a forma de uma carta da Dinamarca, do escritor Georges Brands … era importante crítico literário da Europa setentrional … costumava referir-se a ele como um anti-cristo …
Falou a Brandes no seu isolamento e citou as palavras de Ovídio que estavam gravadas no túmulo de Descartes Bene vixit qui bene latuit (Viveu bem quem bem se escondeu). (…) Sentia-se realmente como se viesse de um país onde não vivia mais ninguém.
Reitera os seus pensamentos relativos à desonestidade do cristianismo ao desvalorizar a vida da terra em comparação com a hipotética vida vindoura. Este favorecimento errado da eternidade de nuvem de algodão em detrimento do monte de lixo da realidade quotidiana alimentava o ressentiment, a mentalidade vingativa, invejosa e moralmente superior usada pelos sacerdotes para dominar populações completas que conseguiam reduzir à mentalidade de escravo.
Todo o mundo fictício da religião tinha as suas raízes no ódio à natureza e num profundo mal-estar em relação à realidade e, assim, todo o reinado da moral subsequente por todo o mundo cristão era invalidado, porque tudo se inseria neste conceito de causa e de efeito imaginários.
Lei contra o cristianismo … Guerra ao vício, até à morte: o vício é o cristianismo. (…) O local execrável onde o cristianismo chocou os seus ovos de basílico (Israel? Jerusalém?) deveria ser arrasado. Sendo o ponto mais depravado sobre a Terra, deveria ser o horror de toda a posteridade. Sobre ele deveriam ser criadas serpentes venenosas. (…) Aquele que prega a castidade é o verdadeiro pecador. (…)
A Piazza estava cheia de velhos cavalos cansados entre os varais das carroças e tipoias que esperavam passageiros: cavalos miseráveis cujas costelas se podiam contar a serem atormentadas para fazerem algo que se assemelhasse a trabalho pelos seus amos. Ao ver o cocheiro de uma tipoia a bater impiedosamente no seu cavalo, Nietzsche foi-se abaixo. Dominado pela paixão, a soluçar devido ao espectáculo, abraçou-se protectoramente ao pescoço do cavalo e desfaleceu. (…)
O Ubermensch como o resultado de um combate metafísico pessoal através da vontade de poder existente em todos e em tudo - embora o combate que retrata não seja necessariamente contra terceiros, mas contra as emoções mesquinhas dentro de cada um, como a inveja e o ressentimento.
(…)
O ano seguinte caracterizou-se por uma temível excitabilidade, rugidos e gritos, alternando com períodos de total prostração. Uma visita de Overbeck coincidiu com esta última. Encontrou Nietzsche na mesma posição física em que o encontrara em Turim, semi-enroscado num canto do sofá, o que lembrou a Overbeck um animal ferido mortalmente, encurralado e ansiando pela morte.
(…)
Nietzsche comunicara que queria descer à sepultura como um autêntico pagão. Quanto a música, queria apenas a sua versão do "Hino à Vida", de Lou. Nenhum ritual cristão. Acima de tudo, nenhum sacerdote. (…)
Elisabeth nunca compreendera o terramoto conceptual que se encontrava na base do pensamento do irmão.
(…)
Continua a ser um desafio perfeitamente moderno. Parte do encantado duradouro de Nietzsche talvez resida na sua relutância em nos dar uma resposta. Espera-se que encontremos o significado e a resposta, se é que existe, por nós próprios: é esta a verdadeira façanha do Ubermensch.
Pode rejeitar-se a ciência como fé; pode rejeitar-se a própria crença religiosa, mas conservar ainda valores morais. Primeiro, o homem tem de se tornar ele próprio. Em segundo lugar, amor fati; tem de aceitar o que a vida traz, evitando os becos sem saída do ódio a si mesmo e do Ressentiment. Então, finalmente, o homem pode subjugar-se a si mesmo para encontrar a verdadeira realização como o Ubermensch, o homem em paz consigo mesmo, que encontra a alegria na sua finalidade terrena, rejubilando com a pura magnificência da existência e conformado com a finitude da sua mortalidade.
(…)
Se visitar a Villa Silberblick hoje em dia, descobrirá que as árvores cresceram no jardim, escondendo a vista magnífica que deu nome à mansão. (…)
«Conheço o meu destino», escrevera. «Um dia associar-se-á ao meu nome a lembrança de algo temível- de uma crise como nenhuma outra anterior na Terra, da mais profunda colisão de consciência, de uma decisão proferida contra tudo aquilo em que, até então, se acreditara, fora exigido e santificado. Não sou um homem, sou dinamite.»
in: Eu Sou Dinamite!, de Sue Prideaux, Círculo de Leitores, 1ª Edição, Abril 2019
Ver Filme: Dias de Nietzsche em Turim, 1'24''
«Desde a infância que procurei a solidão, e era nos momentos em que conseguia entregar-me a mim mesmo sem que me perturbassem que me sentia melhor. E isso acontecia geralmente no templo ao ar livre da natureza, que era a minha verdadeira alegria. (…) da minha seriedade (…) quando tinha doze anos invoquei para mim mesmo uma trindade maravilhosa … foi assim que comecei a filosofar.»
(…)
… as guerras religiosas dos anos 1500 e 1600. Quando a luta terminou e o catolicismo romano foi rejeitado, o príncipe-eleitor da Saxônia, que apoiara Martinho Lutero … foi uma das mais importantes escolas de latim fundada em 1528 … acrescentou o ensino do hebraico ao latim e ao grego. (…)
… o Bund alemão moldado com base na estrutura da Grécia antiga: um sistema de pequenos Estados que existiam separada e criativamente no seio da unidade artística e intelectual. (…) O conhecimento era evolutivo, com ele vinha a Bildung, a evolução do próprio estudioso, um processo de crescimento espiritual mediante a aquisição de conhecimento, que Von Humboldt descrevia como uma interação harmoniosa entre a personalidade e a natureza do próprio estudante. (…)
A sua paixão pela música, manteve-se … reuniam-se em volta do rapaz corpulento de óculos grossos e cabelo comprido puxado para trás, sentado desajeitadamente no banco do piano. (…) A teoria herética da evolução, de Darwin … e três pensadores que iriam inquietar o seu pensamento criativo durante anos: Emerson, o filósofo e poeta grego Empedocles, e o filósofo e poeta alemão Fried. Holderlin. (…)
«Se quiseres alcançar a paz de espírito e a felicidade, então tem fé, se quiseres ser um discípulo da verdade, então procura. (…) Toda a vida é um anseio por um estado impossível e por conseguinte toda a vida é um sofrimento.» (…)
Schopenhauer, por outro lado foi profundamente influenciado pelo estudo das filosofias budista e hindu com ênfase de renúncia no sofrimento, destino e fado, e no facto de os desejos, quando satisfeitos, só darem origem a novos desejos. (…) Para Schopenhauer, a música era única arte capaz de revelar a verdade acerca da natureza do próprio ser.
«O sublime não deverá ser procurado nas coisas da natureza, mas sim nas nossas próprias ideias.»
(…) Burckhardt e Wagner viriam a ser duas grandes influências no pensamento de Nietzsche nos anos seguintes.
… Tal como a procriação depende da dualidade dos sexos, também o desenvolvimento contínuo da arte e da cultura, ao longo das épocas depende da dualidade do apolíneo e do dionisíaco. Tal como os dois sexos, estão envolvidos numa luta constante apenas interrompida por períodos temporários de reconciliação. (…) As qualidades de Apolo podem ser resumidas … ao aparente … representação … O mundo de Apolo é constituído por indivíduos morais, racionais (…) As artes que pertencem a Dionísio são a música e a tragédia. Na Grécia antiga, como homem e animal. Representava um mundo encantado de experiências extraordinárias que transcendia as fronteiras existenciais. Deus do vinho … da loucura ritual e de êxtase, do teatro, da máscara, da imitação e da ilusão … transformados por ela. (…) A música e a tragédia são capazes de apagar o espírito individual e de despertar impulsos … enquanto o espírito é transportado … Embriaguez, música, canto e dança eram as actividades onde o principium individuationis se perdia. Estava aqui a resposta dionisíaca ao sofrimento da vida.
(…)
Nietzsche sabia que a sua Lhama era uma mulher inteligente. E tratava-a como tal. Nisso, era alguém fora do comum para a sua época. Durante toda a sua vida valorizou as mulheres inteligentes e estabeleceu amizades próximas e douradoras com elas. Só se apaixonou por mulheres inteligentes - a começar por Cosima - Não gostava de mulheres ignorantes e preconceituosas. (…)
O seu Seminário sobre Safo foi cancelado devido à falta de participantes. (…)
«O educador tem de ajudar o aluno a conhecer o seu próprio caráter.» (…)
Mas agora neste volume, a sua escrita foi beber tanto à elegância de Schopenhauer como à humanidade de Montaigne.
«Que a alma jovem contemple a sua vida passada com a pergunta: que amaste verdadeiramente até agora, que atraiu a tua alma para cima, que a dominou, e ao mesmo tempo a abençou?»
(…)
Mas para si escreveu de uma forma diferente, confessando que estremecia ao pensar que poderia ter morrido sem ver o mundo mediterrânico.
Paul Rée tinha menos cinco anos que Nietzsche e era filho de um comerciante judeu rico; não precisava de ganhar a vida e tornou-se uma espécie de estudante eterno, frequentando várias universidades, onde estudou direito, psicologia e fisiologia. Terminara o seu doutoramento em filosofia no ano anterior. (…) A mera ideia de culpa ou transgressão estava errada … o ensino altera o nosso comportamento, mas não o nosso carácter. A religião nasce do medo da natureza, a moral do medo dos seres humanos.
(…)
«A qualidade mais importante numa esposa (depois do dinheiro) era uma mulher com quem pudesse ter conversas inteligentes até à velhice. (…) O casamento embora realmente desejável, é a coisa mais improvável- sei-o muito claramente.»
Caminhando oito a dez horas por dia.
Ficar em silêncio.
Agora os ataques incluíam amiúde três dias de dor atroz e vómitos, acompanhados pela sensação de estar paralisado, náuseas … ataques súbitos de rara felicidade com uma intensidade …
«A loucura era a liberdade total … se a loucura não foi atribuída tem de ser assumida … A loucura para que possa finalmente acreditar apenas em mim!»
Durante vários dias se alimentava de frutos secos. Não tinha dinheiro para aquecer o quarto. Mas, mal surgia o sol (…)
Rée ficou imediatamente impressionado com a personalidade de Lou Salomé, uma rapariga de vinte e um anos, cosmopolita, elegante … considerava que dizer a verdade é uma 'mesquinhez imposta'.
Poderia ser a descrição da relação entre Lou e o seu venerado Professor mais velho e do efeito traumático (…) As pessoas que pensam profundamente sentem que são comediantes na sua relação com os outros, porque primeiro têm de simular uma superfície para serem entendidas.
… e frase de Píndaro, "Torna-te o que és, depois de o teres aprendido." (…) Cada doença era uma morte, um mergulho fundo no Hades. Cada recuperação um alegre renascer, uma regeneração. Este modo de vida refresca-o. (…) Lou não tinha qualquer dúvida que ele era a causa da sua doença.
A mãe de Lou alertou Nietzsche claramente em relação à sua filha. Lou era incontrolável e perigosa; era uma fantasia louca.
Mais tarde, escreveu a Lou: "Quando estava em Orta, concebi um plano para te conduzir, passo a passo, até à consequência final da minha filosofia - tu como a primeira pessoa que considerei preparada para tal". (…) Ambos descreveram quão similarmente pensavam e sentiam as coisas e como as palavras se precipitavam entre os dois. Tiravam as palavras, como se fossem alimento, da boca um do outro. A autoridade individual dissolvia-se enquanto terminavam os pensamentos e as frases um do outro. (…)
O seu único sofrimento, comentou a Ida, era a ideia de ser tão pouco conhecido e lido.
«Deus morreu! Deus continua morto. E nos matá-mo-lo. Como podemos consolar-nos, nós os assassinos.»
O Homem valorizava a grandeza humana por ser baseada numa perda do animalesco … sendo um animal superior … A partir de agora, as conclusões filosóficas basear-se-iam em observação e experiências empíricas. Também falaram do eterno retorno (…)
«Assim serei daqueles que tornam belas as coisas. Amor Fati (Amor do destino): que doravante seja esse o meu amor.»
… O homem a tornar-se ele mesmo, tinha de aderir ao destino … uma opinião fixa era uma opinião morta. (…) Ainda sofria daquilo a que chamava "doença da corrente", uma ligação emocional que te puxa para baixo no teu caminho para te tornares o ser que és.
«Pois, estou a ir realmente para a solidão total.»
Chegara a altura de se libertar da doença da corrente. (…) Passou sozinho o dia de natal.
«A não ser que consiga descobrir o artifício alquímico para transformar esta - imundície em ouro, estou perdido - a minha falta de confiança é agora imensa.» Confessou.
«Tenho aqui a mais esplêndida oportunidade de provar que, para mim, todas as experiências são úteis, todos os dias santos … e pelo Argonauta solitário que estivesse decido a naufragar … uma odisseia espiritual extática, poética, profética, através do mundo moral moderno … o antigo profeta persa Zaratustra desce a montanha depois da morte do conceito de Deus para …»
Vingança transformando "Foi assim", em "Assim o Desejei".
«Porque que te amo eternidade! (…) Sempre sentira que tinha uma missão …»
«Olha, estou farto da minha sabedoria, como uma abelha que recolheu demasiado mel; preciso de mãos estendidas… e eu tenho de ser perpetuamente a vítima de levar uma vida completamente escondida. Ir-me-ei abaixo, caso não aconteça algo …»
O querido Professor, meio cego.
«… Preveniu-a que era impossível estar isento de preconceitos.»
Zaratustra desenvolve os temas fundamentais da sua filosofia da maturidade: eterno retorno, autosuperação e tornarmo-nos o Ubermensch; através das violentas, mas misteriosas, visões que nos desafiam a pensarmos por nós próprios … e que aquilo que não o mata torna-o forte … um viajante que ruma a um destino que ainda não existe. Acolhe com prazer cada nova alvorada pela evolução do prazer que trará. (…) Empurra cada um de nós para a sua solução pessoal e independente.
«Quase todas as minhas relações humanas resultaram de ataques de uma sensação de isolamento … pura e simplesmente já não conseguia suportar mais a solidão … as minhas palavras tenham cores diferentes …»
«Escravizámo-nos a padres, a astrólogos e filósofos. A sua influência é grave e perigosa para a psicologia do homem. … O mais grave erro dos últimos 2000 anos foi a invenção do espírito puro, por Platão. … Os filósofos são os vendedores da banha da cobra da alma. … Todas as verdades são apenas interpretações pessoais. Não somos mais do que a nossa memória e os nossos estados mentais … A psicologia, e não o dogma, é a chave para dar sentido ao mundo. … Não devemos agarrar-nos a nada, nem sequer a um sentimento do nosso próprio desapego. Poucos são feitos para essa independência … O primeiro sacrifício humano à religião é o sacrifício da verdadeira natureza de cada um. (…) Como é que aceitámos de bom grado os valores judaico-cristão que nos transformaram em gado obediente? Porquê que adoptámos a moral do escravo? (…) Judeus e Cristãos terem sido escravos … invertendo os valores … riqueza e poder transformaram-se em sinónimos de mal. … O cristianismo era uma negação da vontade de viver e transformada em religião. O cristianismo odiava a vida e a natureza humana. (…) É uma neurose, uma necessidade de infligir dor a si mesmo e ao outro. (…) É o animal que se magoa contra as grades da sua jaula… A vontade de poder nunca está quieta, é dinâmica. Desde a infância que procuramos o poder (…) chamar, melhoramento à domesticação de um animal quase nos parece uma anedota!»
Com o seu espírito mais presente, também estava a fazer anotações sobre psicologia. Elaborou uma lista dos estados de transformação que configuram a nossa ânsia de vida. Era encabeçada pelo impulso sexual, a que se seguiam a embriaguez, as refeições e a primavera.
(…)
Na falta de um círculo de jantares de pessoas com afinidades … uma surpresa feliz surgiu sob a forma de uma carta da Dinamarca, do escritor Georges Brands … era importante crítico literário da Europa setentrional … costumava referir-se a ele como um anti-cristo …
Falou a Brandes no seu isolamento e citou as palavras de Ovídio que estavam gravadas no túmulo de Descartes Bene vixit qui bene latuit (Viveu bem quem bem se escondeu). (…) Sentia-se realmente como se viesse de um país onde não vivia mais ninguém.
Reitera os seus pensamentos relativos à desonestidade do cristianismo ao desvalorizar a vida da terra em comparação com a hipotética vida vindoura. Este favorecimento errado da eternidade de nuvem de algodão em detrimento do monte de lixo da realidade quotidiana alimentava o ressentiment, a mentalidade vingativa, invejosa e moralmente superior usada pelos sacerdotes para dominar populações completas que conseguiam reduzir à mentalidade de escravo.
Todo o mundo fictício da religião tinha as suas raízes no ódio à natureza e num profundo mal-estar em relação à realidade e, assim, todo o reinado da moral subsequente por todo o mundo cristão era invalidado, porque tudo se inseria neste conceito de causa e de efeito imaginários.
Lei contra o cristianismo … Guerra ao vício, até à morte: o vício é o cristianismo. (…) O local execrável onde o cristianismo chocou os seus ovos de basílico (Israel? Jerusalém?) deveria ser arrasado. Sendo o ponto mais depravado sobre a Terra, deveria ser o horror de toda a posteridade. Sobre ele deveriam ser criadas serpentes venenosas. (…) Aquele que prega a castidade é o verdadeiro pecador. (…)
A Piazza estava cheia de velhos cavalos cansados entre os varais das carroças e tipoias que esperavam passageiros: cavalos miseráveis cujas costelas se podiam contar a serem atormentadas para fazerem algo que se assemelhasse a trabalho pelos seus amos. Ao ver o cocheiro de uma tipoia a bater impiedosamente no seu cavalo, Nietzsche foi-se abaixo. Dominado pela paixão, a soluçar devido ao espectáculo, abraçou-se protectoramente ao pescoço do cavalo e desfaleceu. (…)
O Ubermensch como o resultado de um combate metafísico pessoal através da vontade de poder existente em todos e em tudo - embora o combate que retrata não seja necessariamente contra terceiros, mas contra as emoções mesquinhas dentro de cada um, como a inveja e o ressentimento.
(…)
O ano seguinte caracterizou-se por uma temível excitabilidade, rugidos e gritos, alternando com períodos de total prostração. Uma visita de Overbeck coincidiu com esta última. Encontrou Nietzsche na mesma posição física em que o encontrara em Turim, semi-enroscado num canto do sofá, o que lembrou a Overbeck um animal ferido mortalmente, encurralado e ansiando pela morte.
(…)
Nietzsche comunicara que queria descer à sepultura como um autêntico pagão. Quanto a música, queria apenas a sua versão do "Hino à Vida", de Lou. Nenhum ritual cristão. Acima de tudo, nenhum sacerdote. (…)
Elisabeth nunca compreendera o terramoto conceptual que se encontrava na base do pensamento do irmão.
(…)
Continua a ser um desafio perfeitamente moderno. Parte do encantado duradouro de Nietzsche talvez resida na sua relutância em nos dar uma resposta. Espera-se que encontremos o significado e a resposta, se é que existe, por nós próprios: é esta a verdadeira façanha do Ubermensch.
Pode rejeitar-se a ciência como fé; pode rejeitar-se a própria crença religiosa, mas conservar ainda valores morais. Primeiro, o homem tem de se tornar ele próprio. Em segundo lugar, amor fati; tem de aceitar o que a vida traz, evitando os becos sem saída do ódio a si mesmo e do Ressentiment. Então, finalmente, o homem pode subjugar-se a si mesmo para encontrar a verdadeira realização como o Ubermensch, o homem em paz consigo mesmo, que encontra a alegria na sua finalidade terrena, rejubilando com a pura magnificência da existência e conformado com a finitude da sua mortalidade.
(…)
Se visitar a Villa Silberblick hoje em dia, descobrirá que as árvores cresceram no jardim, escondendo a vista magnífica que deu nome à mansão. (…)
«Conheço o meu destino», escrevera. «Um dia associar-se-á ao meu nome a lembrança de algo temível- de uma crise como nenhuma outra anterior na Terra, da mais profunda colisão de consciência, de uma decisão proferida contra tudo aquilo em que, até então, se acreditara, fora exigido e santificado. Não sou um homem, sou dinamite.»
in: Eu Sou Dinamite!, de Sue Prideaux, Círculo de Leitores, 1ª Edição, Abril 2019
Ver Filme: Dias de Nietzsche em Turim, 1'24''
10 janeiro 2020
Amor | Lou Andreas Salome
“(…) para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. […] O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamamento para longe.”
Excerto do livro “Os Sentidos da Paixão” – Ed.Cia das Letras, 1987
in: www.comunidadeculturaearte.com/lou-andreas-salome-o-filme-que-conta-a-historia-da-mulher-que-mexeu-com-os-coracoes-de-nietzsche-freud-e-rilke/
23 dezembro 2019
13 novembro 2019
Provocações | Camille Paglia
Este livro não é para todos.
Não é para aqueles que acreditam que encontraram, eles e os amigos, aliados, partidos políticos ou igrejas, a verdade absoluta acerca da humanidade, presente ou futura.
Não é para aqueles que acreditam que a linguagem tem de ser policiada ao serviço daquilo que consideram um bem social maior, e também não é para aqueles que concebem ao governo e seus representantes no campus universitário o direito de exigir e impor um pensamento «correcto».
Não é para aqueles que acreditam que a arte é a serva de agendas políticas ou de objectivos filantrópicos, ou que contém mensagens coercivas ocultas que devem ser expostas e destruídas.
Não é para aqueles que vêm as mulheres como vítimas e os homens como o inimigo, ou que pensam que as mulheres são incapazes de afirmar os seus direitos e dignidade humana em todos os lugares, incluindo o local de trabalho, sem a intervenção e a protecção de figuras de autoridade delegada pelo poder do Estado.
Não é para aqueles que veem o comportamento humano como algo resultante, no seu conjunto, de forças sociais opressivas que negam a influência da evolução e da biologia no desejo, nas fantasias e nos impulsos anárquicos, do amor ao crime.
Este livro é, em vez disso, para aqueles que colocam o pensamento livre e a liberdade de expressão acima de outros valores, incluindo considerações materiais acerca de questões de riqueza, estatuto ou bem estar físico.
É para aqueles que veem a Arte e a contemplação da Arte como um meio de expressão da intuição e da revelação, um trabalho em rede feito de sentidos, que deve ser realçado e celebrado e não memorizado por professores que, cinicamente, negam a possibilidade do sentido.
É para aqueles que veem as mulheres como iguais aos homens e que, nas suas justas e necessárias exigências de igualdade perante a lei, não apelam para uma proteção especial para as mulheres na sua condição de sexo mais fraco.
É para aqueles que veem a natureza como uma força vasta e sublime, que a humanidade é demasiado fraca para controlar para controlar ou modificar e que, fatalmente, nos modela enquanto indivíduos e enquanto espécie.
É para aqueles que veem a vida, num plano espiritual, como procura de sabedoria, um processo dinâmico de observação incessante, reflexão e autoeducação.
(…)
Para mim não há nada mais importante do que o poder das palavras para descrever, recriar, arrebatar e provocar.
(…)
O relógio da natureza faz tiquetaque por detrás da fachada da tecnologia. Por muito que queiramos tornar perfeita a brilhante rede, criada pela sociedade, feita de metal e microfibra, permanecemos reféns da teimosia dos nossos corpos, que continuam a pulsar de acordo com os ritmos primordiais.
Em tempos estávamos casados com o sol. No passado agrícola, o calendário era fixado pelas estações e os dias começavam e terminavam com a luz. Nos campos, o movimento era contínuo, permanente. O trabalho nunca acabava e era preciso conservar energia.
(…)
A cultura moderna vive obcecada com a velocidade desde a invenção da locomotiva a vapor, nos começos do século XIX. A nossa percepção do espaço contraiu-se progressivamente e desmoronou-se por causa da nossa capacidade de atravessar distâncias enormes quase magicamente e sem esforço. Muitas queixas de saúde, crónicas e relacionadas com o stress, agravam-se seguramente por este ritmo precipitado que perturbou a nossa percepção física do tempo.
(…)
Os poetas do amor, na tradição lasciva do carpe diem, sempre souberam que o tempo é transitório, como que inscrito no corpo humano, que só floresce para depois decair.
(…)
Somos mergulhados numa paisagem mental em que o impulso sexual representa energia pura e eterna juventude. Não há cansaço nem hesitação; a resistência serve apenas de jogo para inflamar o desejo. A subordinação nunca é degradação, tal como acontece tantas vezes no Marquês de Sade, cujas vítimas passivas se tornam não-pessoas, como carne passada por uma trituradora. Em Tom of Finland, pelo contrário, o parceiro que fica por baixo mantém a sua monumentalidade e carga explosiva. A rendição não é aniquilação, mas sim um jogo excitante.
(…)
Mas o preço emocional pode ser a solidão crónica, uma melancolia subliminar substituída pela ação, pela conquista ou pela mera exibição.
(…)
Neumann definiu aquilo que teorizou como os quatro estádios fundamentais do desenvolvimento psicológico da mulher. O primeiro é uma matriz indiferenciada ou unidade psíquica, em que o ego e o inconsciente ainda se encontra fusionados. Chamou-lhe estádio "matriarcal" e simbololizou-o através da serpente Ouroboros, um símbolo antigo de uma serpente que morde a própria cauda, devorando-se e dando em simultâneo origem a si mesma, uma Imagem tanto de solipsismo como de fertilidade. No segundo estádio, dá-se a invasão espiritual e a dominação por parte do arquétipo do Grande Pai (associado ao racionalismo e ao monoteísmo), percebido como destruidor ou violador. No terceiro estádio de desenvolvimento, Neumann incorpora o masculino num indivíduo normativo, um herói salvador que liberta a jovem mulher do pai controlador, submetendo-a, porém, ao jugo do casamento convencional, sob uma nova autoridade masculina. Os papéis sexuais encontram-se polarizados, sendo a masculinidade e a feminilidade mutuamente exclusivas. O quarto e último estádio descrito por Neumann tem implicações feministas: nele, a mulher em plena maturidade descobre o seu eu autêntico e a sua voz. Ao tomar de empréstimo o princípio masculino, os papéis sexuais tornam-se indistintos.
(…)
in: Provocações, de Camille Paglia, Editora Relógio D'Água, Lisboa, 2019
Não é para aqueles que acreditam que encontraram, eles e os amigos, aliados, partidos políticos ou igrejas, a verdade absoluta acerca da humanidade, presente ou futura.
Não é para aqueles que acreditam que a linguagem tem de ser policiada ao serviço daquilo que consideram um bem social maior, e também não é para aqueles que concebem ao governo e seus representantes no campus universitário o direito de exigir e impor um pensamento «correcto».
Não é para aqueles que acreditam que a arte é a serva de agendas políticas ou de objectivos filantrópicos, ou que contém mensagens coercivas ocultas que devem ser expostas e destruídas.
Não é para aqueles que vêm as mulheres como vítimas e os homens como o inimigo, ou que pensam que as mulheres são incapazes de afirmar os seus direitos e dignidade humana em todos os lugares, incluindo o local de trabalho, sem a intervenção e a protecção de figuras de autoridade delegada pelo poder do Estado.
Não é para aqueles que veem o comportamento humano como algo resultante, no seu conjunto, de forças sociais opressivas que negam a influência da evolução e da biologia no desejo, nas fantasias e nos impulsos anárquicos, do amor ao crime.
Este livro é, em vez disso, para aqueles que colocam o pensamento livre e a liberdade de expressão acima de outros valores, incluindo considerações materiais acerca de questões de riqueza, estatuto ou bem estar físico.
É para aqueles que veem a Arte e a contemplação da Arte como um meio de expressão da intuição e da revelação, um trabalho em rede feito de sentidos, que deve ser realçado e celebrado e não memorizado por professores que, cinicamente, negam a possibilidade do sentido.
É para aqueles que veem as mulheres como iguais aos homens e que, nas suas justas e necessárias exigências de igualdade perante a lei, não apelam para uma proteção especial para as mulheres na sua condição de sexo mais fraco.
É para aqueles que veem a natureza como uma força vasta e sublime, que a humanidade é demasiado fraca para controlar para controlar ou modificar e que, fatalmente, nos modela enquanto indivíduos e enquanto espécie.
É para aqueles que veem a vida, num plano espiritual, como procura de sabedoria, um processo dinâmico de observação incessante, reflexão e autoeducação.
(…)
Para mim não há nada mais importante do que o poder das palavras para descrever, recriar, arrebatar e provocar.
(…)
O relógio da natureza faz tiquetaque por detrás da fachada da tecnologia. Por muito que queiramos tornar perfeita a brilhante rede, criada pela sociedade, feita de metal e microfibra, permanecemos reféns da teimosia dos nossos corpos, que continuam a pulsar de acordo com os ritmos primordiais.
Em tempos estávamos casados com o sol. No passado agrícola, o calendário era fixado pelas estações e os dias começavam e terminavam com a luz. Nos campos, o movimento era contínuo, permanente. O trabalho nunca acabava e era preciso conservar energia.
(…)
A cultura moderna vive obcecada com a velocidade desde a invenção da locomotiva a vapor, nos começos do século XIX. A nossa percepção do espaço contraiu-se progressivamente e desmoronou-se por causa da nossa capacidade de atravessar distâncias enormes quase magicamente e sem esforço. Muitas queixas de saúde, crónicas e relacionadas com o stress, agravam-se seguramente por este ritmo precipitado que perturbou a nossa percepção física do tempo.
(…)
Os poetas do amor, na tradição lasciva do carpe diem, sempre souberam que o tempo é transitório, como que inscrito no corpo humano, que só floresce para depois decair.
(…)
Somos mergulhados numa paisagem mental em que o impulso sexual representa energia pura e eterna juventude. Não há cansaço nem hesitação; a resistência serve apenas de jogo para inflamar o desejo. A subordinação nunca é degradação, tal como acontece tantas vezes no Marquês de Sade, cujas vítimas passivas se tornam não-pessoas, como carne passada por uma trituradora. Em Tom of Finland, pelo contrário, o parceiro que fica por baixo mantém a sua monumentalidade e carga explosiva. A rendição não é aniquilação, mas sim um jogo excitante.
(…)
Mas o preço emocional pode ser a solidão crónica, uma melancolia subliminar substituída pela ação, pela conquista ou pela mera exibição.
(…)
Neumann definiu aquilo que teorizou como os quatro estádios fundamentais do desenvolvimento psicológico da mulher. O primeiro é uma matriz indiferenciada ou unidade psíquica, em que o ego e o inconsciente ainda se encontra fusionados. Chamou-lhe estádio "matriarcal" e simbololizou-o através da serpente Ouroboros, um símbolo antigo de uma serpente que morde a própria cauda, devorando-se e dando em simultâneo origem a si mesma, uma Imagem tanto de solipsismo como de fertilidade. No segundo estádio, dá-se a invasão espiritual e a dominação por parte do arquétipo do Grande Pai (associado ao racionalismo e ao monoteísmo), percebido como destruidor ou violador. No terceiro estádio de desenvolvimento, Neumann incorpora o masculino num indivíduo normativo, um herói salvador que liberta a jovem mulher do pai controlador, submetendo-a, porém, ao jugo do casamento convencional, sob uma nova autoridade masculina. Os papéis sexuais encontram-se polarizados, sendo a masculinidade e a feminilidade mutuamente exclusivas. O quarto e último estádio descrito por Neumann tem implicações feministas: nele, a mulher em plena maturidade descobre o seu eu autêntico e a sua voz. Ao tomar de empréstimo o princípio masculino, os papéis sexuais tornam-se indistintos.
(…)
in: Provocações, de Camille Paglia, Editora Relógio D'Água, Lisboa, 2019
10 outubro 2019
De Volta à Natureza
Estou de volta,
À Mãe Natureza.
Sou como Ela,
Uma Vadia.
Sou uma semente.
À deriva,
Pela Terra.
Sou semente de outras sementes,
Sou livre.
Mas, sem raízes na Terra,
Como as Árvores.
Sou frágil.
Mas, amparada pelo Vento,
E envolvida pelo Universo.
in: De Volta à Natureza, Poema de Ana Gaspar, Escrito à Beira Rio, 10 de Agosto 2019
10 agosto 2019
A Náusea | Jean - Paul Sartre
Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. A mais desagradável também. Mas, enfim, tenho de reconhecer que sou sujeito a estas transformações súbitas. Sucede que só muito raramente penso; assim uma infinidade de pequenas metamorfoses vai-se acumulando em mim sem eu dar por isso, e depois, um belo dia, produz-se uma verdadeira revolução. Foi o que deu à minha vida estes solavancos, este aspeto incoerente.
(…)
Se não me engano, todos os sinais que se vão acumulando são precursores duma nova transformação brutal na minha vida, então tenho medo. Não que a minha vida seja rica, importante ou preciosa. Mas tenho medo do que vai nascer, apoderar-se de mim - e arrastar-me… para onde? Vou ter outra vez de partir, deixar tudo a meio, as minhas pesquisas, o meu livro? Voltarei a acordar daqui a alguns meses, daqui a alguns anos, derreado, desiludido, no meio de novas ruínas? Queria ver claramente o que se passa em mim, antes que seja tarde de mais.
(…)
Eu então vivo sozinho, absolutamente sozinho. Nunca falo a ninguém; não me dão nada, não dou nada a ninguém.
(…)
Dantes - mesmo muito tempo depois de me ter deixado - Anny inspirava os meus pensamentos, como se eu quisesse ser-lhe útil. Agora já não penso em ninguém; nem sequer me ocupo a procurar palavras. Mais ou menos depressa, uma corrente flui dentro de mim, mas não retenho nada, deixo andar. A maior parte das vezes, como não se prendem a palavras, os meus pensamentos ficam em estado de nevoeiro. Desenham formas vagas e engraçadas, depois imergem: e esqueço-me logo deles. … Quando se vive sozinho, deixa de se saber o que seja narrar: a verosimilhança desaparece ao mesmo tempo que os amigos. E os acontecimentos também: deixamo-los afundarem-se veem-se surgir bruscamente pessoas que se põem a falar e se retiram, mergulhamos em histórias sem pés nem cabeça: que execrável testemunha se seria nestes casos!
(…)
Os objetos não deviam impressionar-nos o tato, visto que não vivem. Servimo-nos deles, pomo-los no seu lugar, vivemos no meio deles: são úteis, nada mais. E, a mim, os objetos tocam-me; é insuportável. Tenho medo de entrar em contacto com eles, como se fossem animais vivos.
Agora percebo; lembro-me melhor do que senti, no outro dia, à beira-mar, quando tinha a pedra na mão. Era uma espécie de enjoo adocicado. Que desagradável que era! E a sensação vinha da pedra, tenho a certeza, passava da pedra para as minhas mãos. Sim é isso, é exatamente isso: uma espécie de náusea nas mãos.
(…)
Estou emocionado; sinto o meu corpo como uma máquina de precisão em descanso. Eu, sim, tive verdadeiras aventuras.
(…)
Alguma coisa começa para acabar: a aventura não admite prolongamentos artificiais; só da sua morte lhe vem o sentido. Sem possibilidade de voltar atrás, sou arrastado para essa morte, que talvez seja também a minha. Cada instante só aparece para trazer os que se lhe seguem. Sinto-me ligado a cada um, do fundo do coração: sei que ele é único, insubstituível - e não faria, porém, um gesto para o impedir de voltar ao substituível - e não faria, porém, um gesto para o impedir de voltar ao nada.
(…)
Viver é isto. Mas quando se conta a nossa vida, tudo muda.
(…)
Como pude eu escrever ontem esta frase absurda e pomposa: "estava sozinho, mas caminhava"
(…)
Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos enterros, nos casamentos.
(…)
É preciso não ter medo.
(…)
Mandar não é um direito da elite, é o seu principal dever.
(…)
O Senhor é demasiado modesto. Para suportar a sua condição, a condição humana, precisa como toda a gente, de muita coragem.
(…)
Uma árvore raspa a Terra por debaixo dos meus pés com uma unha negra … a existência penetra em mim. Não posso dizer que me sinta aliviado, nem contente; pelo contrário estou esmagado. A náusea sou eu.
(…)
A última palavra perde-se na garganta.
(…)
Vou sobrevivendo a mim própria. Sei que nunca mais encontrarei coisa nenhuma nem ninguém que me inspire paixão. Sabes? Pôr-se uma pessoa a amar alguém não é tarefa fácil. É preciso ter energia, uma generosidade. É preciso cegueira… Há um momento, logo ao princípio, em que se tem de saltar por cima dum precipício: quem reflete não salta- E eu sei que nunca mais saltarei.
(…)
É isto, exatamente. Não há aventuras, não há momentos perfeitos.
(…)
Anny está sozinha como eu.
(…)
Mas isso só me interessava se Anny se tivesse entregado de todo o coração. Agora, nenhuma curiosidade me resta … Pequenos clarões de sol à superfície de um mar escuro e frio.
(…)
Tenho um medo pavoroso de voltar à minha solidão.
(…)
Só os safados é que julgam ganhar. Agora vou fazer como a Anny vou sobreviver. Comer, dormir - dormir, comer. Existir lentamente, suavemente, como aquelas árvores, como uma poça de água.
(…)
As cidades só dispõem de um único dia, que volta igualzinho todas as manhãs. Aos domingos é que enfeitam um pouco mais. Que imbecis! Repugna-me pensar que vou voltar a ver-lhes as caras fechadas e aquietadas. Pessoas que legislam, que escrevem romances populistas, que se casam, que cometem a extrema tolice de fazer filhos.
(…)
É da existência que tenho medo.
(…)
Estava a começar a sua aprendizagem de solidão.
(…)
Vou-me embora, sinto-me vago. Não me atrevo a tomar uma decisão. Se tivesse a certeza de ter talento… Mas, nunca - nunca, escrevi nada nesse género...
in: A Náusea, de Jean-Paul Sartre, Porto Editora, 2018
(…)
Se não me engano, todos os sinais que se vão acumulando são precursores duma nova transformação brutal na minha vida, então tenho medo. Não que a minha vida seja rica, importante ou preciosa. Mas tenho medo do que vai nascer, apoderar-se de mim - e arrastar-me… para onde? Vou ter outra vez de partir, deixar tudo a meio, as minhas pesquisas, o meu livro? Voltarei a acordar daqui a alguns meses, daqui a alguns anos, derreado, desiludido, no meio de novas ruínas? Queria ver claramente o que se passa em mim, antes que seja tarde de mais.
(…)
Eu então vivo sozinho, absolutamente sozinho. Nunca falo a ninguém; não me dão nada, não dou nada a ninguém.
(…)
Dantes - mesmo muito tempo depois de me ter deixado - Anny inspirava os meus pensamentos, como se eu quisesse ser-lhe útil. Agora já não penso em ninguém; nem sequer me ocupo a procurar palavras. Mais ou menos depressa, uma corrente flui dentro de mim, mas não retenho nada, deixo andar. A maior parte das vezes, como não se prendem a palavras, os meus pensamentos ficam em estado de nevoeiro. Desenham formas vagas e engraçadas, depois imergem: e esqueço-me logo deles. … Quando se vive sozinho, deixa de se saber o que seja narrar: a verosimilhança desaparece ao mesmo tempo que os amigos. E os acontecimentos também: deixamo-los afundarem-se veem-se surgir bruscamente pessoas que se põem a falar e se retiram, mergulhamos em histórias sem pés nem cabeça: que execrável testemunha se seria nestes casos!
(…)
Os objetos não deviam impressionar-nos o tato, visto que não vivem. Servimo-nos deles, pomo-los no seu lugar, vivemos no meio deles: são úteis, nada mais. E, a mim, os objetos tocam-me; é insuportável. Tenho medo de entrar em contacto com eles, como se fossem animais vivos.
Agora percebo; lembro-me melhor do que senti, no outro dia, à beira-mar, quando tinha a pedra na mão. Era uma espécie de enjoo adocicado. Que desagradável que era! E a sensação vinha da pedra, tenho a certeza, passava da pedra para as minhas mãos. Sim é isso, é exatamente isso: uma espécie de náusea nas mãos.
(…)
Estou emocionado; sinto o meu corpo como uma máquina de precisão em descanso. Eu, sim, tive verdadeiras aventuras.
(…)
Alguma coisa começa para acabar: a aventura não admite prolongamentos artificiais; só da sua morte lhe vem o sentido. Sem possibilidade de voltar atrás, sou arrastado para essa morte, que talvez seja também a minha. Cada instante só aparece para trazer os que se lhe seguem. Sinto-me ligado a cada um, do fundo do coração: sei que ele é único, insubstituível - e não faria, porém, um gesto para o impedir de voltar ao substituível - e não faria, porém, um gesto para o impedir de voltar ao nada.
(…)
Viver é isto. Mas quando se conta a nossa vida, tudo muda.
(…)
Como pude eu escrever ontem esta frase absurda e pomposa: "estava sozinho, mas caminhava"
(…)
Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos enterros, nos casamentos.
(…)
É preciso não ter medo.
(…)
Mandar não é um direito da elite, é o seu principal dever.
(…)
O Senhor é demasiado modesto. Para suportar a sua condição, a condição humana, precisa como toda a gente, de muita coragem.
(…)
Uma árvore raspa a Terra por debaixo dos meus pés com uma unha negra … a existência penetra em mim. Não posso dizer que me sinta aliviado, nem contente; pelo contrário estou esmagado. A náusea sou eu.
(…)
A última palavra perde-se na garganta.
(…)
Vou sobrevivendo a mim própria. Sei que nunca mais encontrarei coisa nenhuma nem ninguém que me inspire paixão. Sabes? Pôr-se uma pessoa a amar alguém não é tarefa fácil. É preciso ter energia, uma generosidade. É preciso cegueira… Há um momento, logo ao princípio, em que se tem de saltar por cima dum precipício: quem reflete não salta- E eu sei que nunca mais saltarei.
(…)
É isto, exatamente. Não há aventuras, não há momentos perfeitos.
(…)
Anny está sozinha como eu.
(…)
Mas isso só me interessava se Anny se tivesse entregado de todo o coração. Agora, nenhuma curiosidade me resta … Pequenos clarões de sol à superfície de um mar escuro e frio.
(…)
Tenho um medo pavoroso de voltar à minha solidão.
(…)
Só os safados é que julgam ganhar. Agora vou fazer como a Anny vou sobreviver. Comer, dormir - dormir, comer. Existir lentamente, suavemente, como aquelas árvores, como uma poça de água.
(…)
As cidades só dispõem de um único dia, que volta igualzinho todas as manhãs. Aos domingos é que enfeitam um pouco mais. Que imbecis! Repugna-me pensar que vou voltar a ver-lhes as caras fechadas e aquietadas. Pessoas que legislam, que escrevem romances populistas, que se casam, que cometem a extrema tolice de fazer filhos.
(…)
É da existência que tenho medo.
(…)
Estava a começar a sua aprendizagem de solidão.
(…)
Vou-me embora, sinto-me vago. Não me atrevo a tomar uma decisão. Se tivesse a certeza de ter talento… Mas, nunca - nunca, escrevi nada nesse género...
in: A Náusea, de Jean-Paul Sartre, Porto Editora, 2018
19 julho 2019
Quanto Mais Aprendo …
… muito particularmente Epicuro. Quanto mais aprendo sobre este extraordinário pensador ateniense, mais fortemente o reconheço como psicoterapeuta "proto-existencial"…
Muitas pessoas familiarizam-se com o seu nome através da palavra epicurista, que significa uma pessoa devotada aos prazeres, sobretudo aos gastronómicos. Mas, na realidade, Epicuro não era defensor de prazeres sensuais ou refinados, estando mais preocupado em alcançar a tranquilidade (ataraxia).
Epicuro exercia "filosofia médica" e insistia que da mesma maneira que um médico trata o corpo, o filósofo deve cuidar da alma. Na sua opinião, a filosofia tinha um único objectivo: aliviar a miséria humana. E quanto à raiz dessa tragédia? Epicuro acreditava que se devia ao nosso omnipresente medo da morte. A visão assustadora da inevitabilidade da morte, dizia, interfere com a satisfação que retiramos da vida, não deixando prazer algum intocado.
…
As ideias têm poder. O insight de muitos dos grandes pensadores e escritores, ao longo dos séculos, ajuda-nos a domar pensamentos destrutivos associados à morte e a descobrir caminhos importantes à medida que vamos atravessando a nossa existência. …
A ideia da morte inevitável, assustadora para qualquer um de nós, insistia Epicuro, interfere com a capacidade de gozar a vida e não deixa qualquer prazer incólume. Porque nenhuma actividade pode satisfazer a nossa ânsia de vida eterna, todas elas são intrinsecamente incapazes de nos satisfazerem completamente. Escreveu que muitas pessoas vão mesmo criando um ódio à vida até, ironicamente, ao ponto do suicídio; outras envolvem-se freneticamente em actividades sem objectivo, que não têm outro propósito a não ser evitar a dor inerente à condição humana.
Epicuro lidava com esta ânsia sem fim de preenchermos o nosso quotidiano com actividades novas, encorajando-nos a que, em lugar disso, optássemos por guardar e evocar as memórias profundas de experiências positivas. Sugere que, se formos capazes de aprender a recorrer a essa base de dados repetidamente, não teremos então qualquer necessidade de embarcarmos na busca incessante de situações hedonistas.
Diz a lenda que seguiu os seus próprios conselhos e, no leito de morte (de complicações subsequentes a cálculos renais), Epicuro conservou a equidade, apesar das dores terríveis, usando este mesmo exercício, ou seja, recordando as conversas agradáveis com o seu círculo de amigos e estudantes, que lhe haviam dado tanto prazer.
Faz parte do génio deste filósofo ter antecipado a visão contemporânea do inconsciente: enfatizava ele que, na maioria dos casos, as preocupações com a morte não são conscientes mas devem ser inferidas a partir de manifestações secundárias, por exemplo, uma religiosidade excessiva, a necessidade imparável de acumulação de riqueza, a procura cega de poder e privilégios, tudo coisas que oferecem uma versão falsificada de imortalidade.
Se somos mortais e a alma não sobrevive, insistia Epicuro, então nada temos a temer numa vida eterna. Não haverá consciência, nem tão-pouco remorsos pela vida perdida, nada a temer dos deuses.
…
Assumir que cada um de nós é finito e destinado a atravessar o desfiladeiro da infância até à maturidade, seguindo daí para o derradeiro declínio.
…
Uma das frases preferidas de Nietzsche é amor fati (ame o seu destino), ou, por outras palavras, crie um destino que seja capaz de amar.
…
O que somos. Somente o que somos é fundamental. Uma consciência em ordem, diz Schopenhauer, vale muito mais do que uma boa imagem. O nosso objectivo primeiro deveria ser a saúde e a riqueza intelectual, que nos conduz a um manancial sem fim de ideias criativas, a uma vida independente e moral. A equanimidade interior nasce do facto de sabermos que não são as coisas em si que nos perturbam, mas a interpretação que lhe damos.
…
in: De Olhos Fixos no Sol, Ultrapassar o Terror da Morte, de Irvin D. Yalom, Editor Luís Corte Real, Janeiro de 2016
Muitas pessoas familiarizam-se com o seu nome através da palavra epicurista, que significa uma pessoa devotada aos prazeres, sobretudo aos gastronómicos. Mas, na realidade, Epicuro não era defensor de prazeres sensuais ou refinados, estando mais preocupado em alcançar a tranquilidade (ataraxia).
Epicuro exercia "filosofia médica" e insistia que da mesma maneira que um médico trata o corpo, o filósofo deve cuidar da alma. Na sua opinião, a filosofia tinha um único objectivo: aliviar a miséria humana. E quanto à raiz dessa tragédia? Epicuro acreditava que se devia ao nosso omnipresente medo da morte. A visão assustadora da inevitabilidade da morte, dizia, interfere com a satisfação que retiramos da vida, não deixando prazer algum intocado.
…
As ideias têm poder. O insight de muitos dos grandes pensadores e escritores, ao longo dos séculos, ajuda-nos a domar pensamentos destrutivos associados à morte e a descobrir caminhos importantes à medida que vamos atravessando a nossa existência. …
A ideia da morte inevitável, assustadora para qualquer um de nós, insistia Epicuro, interfere com a capacidade de gozar a vida e não deixa qualquer prazer incólume. Porque nenhuma actividade pode satisfazer a nossa ânsia de vida eterna, todas elas são intrinsecamente incapazes de nos satisfazerem completamente. Escreveu que muitas pessoas vão mesmo criando um ódio à vida até, ironicamente, ao ponto do suicídio; outras envolvem-se freneticamente em actividades sem objectivo, que não têm outro propósito a não ser evitar a dor inerente à condição humana.
Epicuro lidava com esta ânsia sem fim de preenchermos o nosso quotidiano com actividades novas, encorajando-nos a que, em lugar disso, optássemos por guardar e evocar as memórias profundas de experiências positivas. Sugere que, se formos capazes de aprender a recorrer a essa base de dados repetidamente, não teremos então qualquer necessidade de embarcarmos na busca incessante de situações hedonistas.
Diz a lenda que seguiu os seus próprios conselhos e, no leito de morte (de complicações subsequentes a cálculos renais), Epicuro conservou a equidade, apesar das dores terríveis, usando este mesmo exercício, ou seja, recordando as conversas agradáveis com o seu círculo de amigos e estudantes, que lhe haviam dado tanto prazer.
Faz parte do génio deste filósofo ter antecipado a visão contemporânea do inconsciente: enfatizava ele que, na maioria dos casos, as preocupações com a morte não são conscientes mas devem ser inferidas a partir de manifestações secundárias, por exemplo, uma religiosidade excessiva, a necessidade imparável de acumulação de riqueza, a procura cega de poder e privilégios, tudo coisas que oferecem uma versão falsificada de imortalidade.
Se somos mortais e a alma não sobrevive, insistia Epicuro, então nada temos a temer numa vida eterna. Não haverá consciência, nem tão-pouco remorsos pela vida perdida, nada a temer dos deuses.
…
Assumir que cada um de nós é finito e destinado a atravessar o desfiladeiro da infância até à maturidade, seguindo daí para o derradeiro declínio.
…
Uma das frases preferidas de Nietzsche é amor fati (ame o seu destino), ou, por outras palavras, crie um destino que seja capaz de amar.
…
O que somos. Somente o que somos é fundamental. Uma consciência em ordem, diz Schopenhauer, vale muito mais do que uma boa imagem. O nosso objectivo primeiro deveria ser a saúde e a riqueza intelectual, que nos conduz a um manancial sem fim de ideias criativas, a uma vida independente e moral. A equanimidade interior nasce do facto de sabermos que não são as coisas em si que nos perturbam, mas a interpretação que lhe damos.
…
in: De Olhos Fixos no Sol, Ultrapassar o Terror da Morte, de Irvin D. Yalom, Editor Luís Corte Real, Janeiro de 2016
01 abril 2019
Poema | Ana Gaspar
Ando pela cidade
Como uma folha de árvore caída
Ando pela cidade como o vento
Que bate numa vidraça
Ando pela cidade
E oiço as conversas frias
E sinto o cheiro dos perfumes
Caros
Observando os fatos
Aprumados e encarrapitados
Ando pela cidade
Como quem anda despida
Ao vento e ao frio
Triste e vazia
Ando pela cidade
Como quem anda sozinho
Pelo mundo
À deriva como o vento.
in: Poema, de Ana Paula Gaspar, escrito ao descer a Avenida da Liberdade, no dia 21 de Março de 2019, em Lisboa
Como uma folha de árvore caída
Ando pela cidade como o vento
Que bate numa vidraça
Ando pela cidade
E oiço as conversas frias
E sinto o cheiro dos perfumes
Caros
Observando os fatos
Aprumados e encarrapitados
Ando pela cidade
Como quem anda despida
Ao vento e ao frio
Triste e vazia
Ando pela cidade
Como quem anda sozinho
Pelo mundo
À deriva como o vento.
in: Poema, de Ana Paula Gaspar, escrito ao descer a Avenida da Liberdade, no dia 21 de Março de 2019, em Lisboa
01 março 2019
Escritos sobre Arte | Paul Klee
Cada personalidade, que dispõe da sua própria forma de expressão, tem aqui o seu valor. Só os fracos, aqueles que em lugar de procurarem em si próprios, procuram naquilo que já existe, devem desistir. A modernidade é um alívio da individualidade, num novo domínio até as repetições se transformarem em novas formas do eu. Neste campo não se pode falar de fraqueza quando muitos se juntam num lugar, porque aí cada um é elevado a transformar-se num eu com marcas próprias.
(...)
Teríamos de dar aulas nos feriados, fora das instalações escolares. Ao ar livre, debaixo das árvores, perto dos animais, junto dos rios ou em rochedos no mar.
(...)
Na base está a necessidade de expressão.
Escrita e imagem, isto é, escrever e dar forma, constituem uma unidade na sua raiz.
(...)
Dimensão claro-escuro: na dimensão "em cima - em baixo" situa-se o conceito de iluminação, no extremo superior, a luz do Sol, no extremo inferior, o conceito de Noite.
A natureza dá-nos uma infinidade de sugestões cromáticas: o mundo das plantas, o reino animal, a minerologia, a composição a que se chama paisagem, tudo isto nos dá motivo para pensar e sermos gratos a cada instante.
(...)
A beleza, que talvez não deva ser separada da arte, não se refere ao objecto, mas sim à representação criadora. É assim, e não de outra forma, que a arte supera o feio, sem o evitar.
in: Escritos sobre Arte, de Paul Klee,Edições Cotovia, Lisboa, 2001
(...)
Teríamos de dar aulas nos feriados, fora das instalações escolares. Ao ar livre, debaixo das árvores, perto dos animais, junto dos rios ou em rochedos no mar.
(...)
Na base está a necessidade de expressão.
Escrita e imagem, isto é, escrever e dar forma, constituem uma unidade na sua raiz.
(...)
Dimensão claro-escuro: na dimensão "em cima - em baixo" situa-se o conceito de iluminação, no extremo superior, a luz do Sol, no extremo inferior, o conceito de Noite.
A natureza dá-nos uma infinidade de sugestões cromáticas: o mundo das plantas, o reino animal, a minerologia, a composição a que se chama paisagem, tudo isto nos dá motivo para pensar e sermos gratos a cada instante.
(...)
A beleza, que talvez não deva ser separada da arte, não se refere ao objecto, mas sim à representação criadora. É assim, e não de outra forma, que a arte supera o feio, sem o evitar.
in: Escritos sobre Arte, de Paul Klee,Edições Cotovia, Lisboa, 2001
21 fevereiro 2019
Corpo de Mulher | Sabedoria …
Ter filhos e lutar para equilibrar o meu trabalho e a minha família mudou coisas que mais nada conseguiria mudar. Em vez de aprender com os livros e professores, estava agora a aprender, por experiência própria, o que as feministas queriam dizer com "o que é pessoal é político". Aprendi que não existe maternidade a meio tempo. Depois de uma mulher ter um bebé, essa criança faz parte dela vinte e quatro horas por dia de uma forma que ninguém pode explicar antes de lhe acontecer. Não estava preparada para a dor que encheu o meu coração quando deixei o meu bebé para ir trabalhar todos os dias. (…)
A consciência cria o corpo. Os nossos corpos são constituídos por sistemas de energia dinâmicos
que são afectados pelas nossas dietas, relações, hereditariedade e cultura, e pela interacção de todos estes factores e actividades. (…)
Os seres humanos são formados por energia e por ela mantidos. Os nossos corpos são campos dinâmicos de energia em permanente mudança, e não estruturas físicas estáticas. São um holograma em que cada parte contém informação sobre o todo. (…)
Apesar de todo o corpo ser afectado pelos pensamentos e emoções, e das suas diversas partes comunicarem entre si, a linguagem do corpo de cada pessoa é única. (…)
Quando ficamos obcecadas, fechamos energia - chi, ki, prana, ou qi - num processo negativo que afasta as células. Os processos celulares vitais tornam-se, assim, vazios. Falta-nos energia em situações em que a nossa raiva ou medo estejam a controlar a nossa parte dos médicos não relaciona o início de uma doença com estas faltas de energia, é interessante ver que já existe alguma investigação clínica a apoiar esta constatação. (…) Quase nunca temos consciência destas fugas de energia. Mas se estas persistem sem serem tratadas, muitas vezes o resultado é o esgotamento físico. (…)
A maioria dos bloqueios nos nossos sistemas de energia são emocionais por natureza. É bom pensar no seu sistema de energia como um rio ou como água a correr. Enquanto esta corrente de energia for saudável e a pessoa se sentir bem consigo mesma, há muito menos risco de contrair uma doença. (…)
As filosofias tradicionais orientais descrevem a interacção profunda entre a energia da Terra e a do corpo humano, bem como a forte ligação entre a energia feminina e a própria força da gravidade natural da Terra. (…)
A força centrípeta de atracção é apenas uma forma de caracterizar a energia feminina. Também temos sete centros específicos de energia nos nossos corpos, chamados chakras. (…)
A vergonha pode ser o resultado da programação social que diz que a mulher é inferior, e pode ser consequência de relações familiares, tais como uma relação pouco saudável com os filhos ou vergonha do estatuto social do seu companheiro. A vergonha relativa à violação, seja física, emocional ou psicológica, afecta a zona da vagina.
A investigação comprova estas disfunções da energia. (…)
Compreender a anatomia da energia é a chave para um verdadeiro tratamento, em vez de um mero disfarce dos nossos sintomas, porque oferece uma visão global e compreensiva de como cada uma de nós colabora na criação de saúde ou doença. (…)
O nosso corpo trata-se melhor quando estamos a viver no presente. (…)
in: Corpo de Mulher, Sabedoria de Mulher, de Christiane Northrup, Editora Sinais de Fogo, Lisboa, 2003
A consciência cria o corpo. Os nossos corpos são constituídos por sistemas de energia dinâmicos
que são afectados pelas nossas dietas, relações, hereditariedade e cultura, e pela interacção de todos estes factores e actividades. (…)
Os seres humanos são formados por energia e por ela mantidos. Os nossos corpos são campos dinâmicos de energia em permanente mudança, e não estruturas físicas estáticas. São um holograma em que cada parte contém informação sobre o todo. (…)
Apesar de todo o corpo ser afectado pelos pensamentos e emoções, e das suas diversas partes comunicarem entre si, a linguagem do corpo de cada pessoa é única. (…)
Quando ficamos obcecadas, fechamos energia - chi, ki, prana, ou qi - num processo negativo que afasta as células. Os processos celulares vitais tornam-se, assim, vazios. Falta-nos energia em situações em que a nossa raiva ou medo estejam a controlar a nossa parte dos médicos não relaciona o início de uma doença com estas faltas de energia, é interessante ver que já existe alguma investigação clínica a apoiar esta constatação. (…) Quase nunca temos consciência destas fugas de energia. Mas se estas persistem sem serem tratadas, muitas vezes o resultado é o esgotamento físico. (…)
A maioria dos bloqueios nos nossos sistemas de energia são emocionais por natureza. É bom pensar no seu sistema de energia como um rio ou como água a correr. Enquanto esta corrente de energia for saudável e a pessoa se sentir bem consigo mesma, há muito menos risco de contrair uma doença. (…)
As filosofias tradicionais orientais descrevem a interacção profunda entre a energia da Terra e a do corpo humano, bem como a forte ligação entre a energia feminina e a própria força da gravidade natural da Terra. (…)
A força centrípeta de atracção é apenas uma forma de caracterizar a energia feminina. Também temos sete centros específicos de energia nos nossos corpos, chamados chakras. (…)
A vergonha pode ser o resultado da programação social que diz que a mulher é inferior, e pode ser consequência de relações familiares, tais como uma relação pouco saudável com os filhos ou vergonha do estatuto social do seu companheiro. A vergonha relativa à violação, seja física, emocional ou psicológica, afecta a zona da vagina.
A investigação comprova estas disfunções da energia. (…)
Compreender a anatomia da energia é a chave para um verdadeiro tratamento, em vez de um mero disfarce dos nossos sintomas, porque oferece uma visão global e compreensiva de como cada uma de nós colabora na criação de saúde ou doença. (…)
O nosso corpo trata-se melhor quando estamos a viver no presente. (…)
in: Corpo de Mulher, Sabedoria de Mulher, de Christiane Northrup, Editora Sinais de Fogo, Lisboa, 2003
13 janeiro 2019
Roger Scruton | Como Ser …
Defendi que a "liberdade é um cavalo muito bom, para cavalgar, mas para cavalgar até algum sítio."
(…)
Decidi abandonar o mundo académico e socorrer-me dos meus próprios recursos para ganhar a vida.
(…)
A confissão e o perdão são os costumes que tornaram a nossa civilização possível.
(…)
… a nossa herança judaico-cristã é viver no mundo da lua. É não ter em conta a cultura que, no decurso dos séculos, se concentrou na prática do arrependimento.
(…)
O medo do escuro, a repugnância pelo incesto, o impulso para nos agarrarmos à mãe - são adaptações mais profundas do que a razão. Outras - a culpa, a vergonha, o amor pela beleza, o sentido de justiça - nascem da própria razão e reflectem a rede de relações interpessoais e de discernimento através das quais nos situamos como sujeitos livres numa comunidade de outros como nós. Em ambos os níveis - o instinto e o pessoal - a capacidade de sacrifício nasce, num caso como um cego afecto, no outro como um sentido de responsabilidade para com os outros e para com um modo de vida moral.
(…)
A sociedade, acreditava Burke, depende de relações de afecto e lealdade, e estas só podem ser construídas a partir da base, pela interacção cara a cara. (…) Quando a sociedade está organizada a partir de cima, seja pelo governo centralizado de uma ditadura revolucionária, seja pelos decretos impessoais de uma burocracia imperscrutável, a responsabilização desaparece rapidamente da ordem política, e também da sociedade. Um governo centralizado gera indivíduos irresponsáveis, e o confisco da sociedade civil pelo Estado conduz a uma recusa generalizada dos cidadãos em agirem por sua conta.
(…)
O conservadorismo é a filosofia do vínculo afectivo. Estamos ligados a coisas que amamos, e desejamos protegê-las da decadência. Mas sabemos que não podem durar para sempre.
in: Como Ser Um Conservador, de Roger Scruton, Guerra & Paz, Lisboa, 2018
(…)
Decidi abandonar o mundo académico e socorrer-me dos meus próprios recursos para ganhar a vida.
(…)
A confissão e o perdão são os costumes que tornaram a nossa civilização possível.
(…)
… a nossa herança judaico-cristã é viver no mundo da lua. É não ter em conta a cultura que, no decurso dos séculos, se concentrou na prática do arrependimento.
(…)
O medo do escuro, a repugnância pelo incesto, o impulso para nos agarrarmos à mãe - são adaptações mais profundas do que a razão. Outras - a culpa, a vergonha, o amor pela beleza, o sentido de justiça - nascem da própria razão e reflectem a rede de relações interpessoais e de discernimento através das quais nos situamos como sujeitos livres numa comunidade de outros como nós. Em ambos os níveis - o instinto e o pessoal - a capacidade de sacrifício nasce, num caso como um cego afecto, no outro como um sentido de responsabilidade para com os outros e para com um modo de vida moral.
(…)
A sociedade, acreditava Burke, depende de relações de afecto e lealdade, e estas só podem ser construídas a partir da base, pela interacção cara a cara. (…) Quando a sociedade está organizada a partir de cima, seja pelo governo centralizado de uma ditadura revolucionária, seja pelos decretos impessoais de uma burocracia imperscrutável, a responsabilização desaparece rapidamente da ordem política, e também da sociedade. Um governo centralizado gera indivíduos irresponsáveis, e o confisco da sociedade civil pelo Estado conduz a uma recusa generalizada dos cidadãos em agirem por sua conta.
(…)
O conservadorismo é a filosofia do vínculo afectivo. Estamos ligados a coisas que amamos, e desejamos protegê-las da decadência. Mas sabemos que não podem durar para sempre.
in: Como Ser Um Conservador, de Roger Scruton, Guerra & Paz, Lisboa, 2018
18 dezembro 2018
Jordan Peterson | Regras para a Vida
(…)
O que interessava não era saber como era o mundo, ao contrário dos cientistas, mas sim a forma como os seres humanos se deveriam comportar.
(…)
Estudei história, mitologia, neurociências, psicanálise, psicologia infantil, poesia, e grandes partes da Biblia. Li, e talvez tenha percebido alguma coisa, o Paraíso Perdido, de Milton, o Fausto de Goethe, e o Inferno de Dante.
(…)
Sem valores, não há sentido. Porém, entre sistemas de valores existe a possibilidade de conflito. Por isso, ficamos eternamente presos entre a espada mais reluzente e a mais dura das paredes.
(…)
As emoções positivas que experimentamos tem a ver com os nossos objectivos. Só somos tecnicamente felizes, se sentirmos que estamos a progredir, e esta simples ideia implica valor.
(…)
Cada um de nós tem de assumir toda a responsabilidade que conseguir pela sua vida pessoal e também pela sociedade e pelo mundo. Cada um de nós deve dizer a verdade, consertar o que precisa de conserto e desmantelar e recriar o que é velho e ultrapassado. (…) Simplesmente faço o melhor que posso.
(…)
Que a alma do individuo deseja eternamente o heroísmo do Ser genuíno, e que estar disposto a assumir essa responsabilidade é o mesmo que viver uma vida com sentido.
(…)
A parte do nosso cérebro que verifica a nossa posição na hierarquia da dominância é, dessa forma, excepcionalmente antiga e fundamental. É a matriz do sistema de controle, modulando as nossas percepções, valores, emoções, pensamentos e acções. Afecta poderosamente cada aspecto do nosso ser, de forma consciente e inconsciente. E é por isso que quando derrotados reagimos como as lagostas que perderam uma luta. A nossa postura murcha. Baixamos os olhos para o chão. Sentimo-nos ameaçados, magoados, ansiosos e fracos. Se as não melhorarem, ficamos deprimidos. Sob essas condições não podemos lutar como a vida exige, tornamo-nos alvos fáceis dos acossadores de carapaça dura.
(…)
Consideremos a serotonina, o químico, que regula a postura e a fuga da lagosta. As lagostas no fundo da hierarquia produzem menos serotonina. (…) Nos lugares cimeiros da hierarquia produzem níveis elevados de serotonina.
(…)
Existe uma calculadora fundamental e impossível de descrever que monitoriza a nossa posição exacta na sociedade. (…) O fundo da hierarquia da dominância é um lugar terrível e perigoso.
(…)
Quando o remédio causa a doença, estabelece-se um ciclo de retorno positivo.
(…)
Evoluímos ao longo de milhares de anos em circunstâncias sociais intensas. Isso significa que os elementos mais relevantes do nosso ambiente de origem eram personalidades, em vez de coisas, objectos ou situações.
(…)
As mulheres fazem com que os homens tenham uma desconfortável consciência de si mesmos desde o início dos Tempos. Primariamente, fazem isso quando os rejeitam - mas também o fazem quando os humilham, quando os homens não assumem a responsabilidade dos seus actos. Faz sentido, porque as mulheres carregam o fardo primário da reprodução. É difícil ver as coisas de outra maneira. Mas a capacidade das mulheres para humilharem os homens e fazer com que tenham uma consciência desconfortável de si mesmos, ainda é uma força primordial da Natureza.
(…)
Como é que eu sei que o seu sofrimento não é uma maneira de fazer com que sacrifique os meus recursos em seu favor, de forma a que possa, pelo menos momentaneamente, adiar o inevitável.
(…)
A gratidão é muito útil. Também é uma boa protecção contra os perigos da vitimização e ressentimento.
(…)
Que a nossa força seja a lei da justiça, pois o fraco é reconhecidamente inútil.
(…)
A narrativa biblica do Paraíso e da Queda é uma dessas histórias fabricadas pela imaginação colectiva, e que se contruiu ao longo de séculos.
(…)
Deus sentado lá no alto, a seguir todos os nossos movimentos e a escrever, para referência futura, um grande livro. Aqui está uma ideia simbólica e produtiva: o futuro é um pai crítico.
(…)
"Nenhuma árvore pode crescer até ao céu." Acrescenta o sempre assustador C.G.Jung, "A menos que as raízes cheguem ao inferno."
(…)
O cristianismo tornou explícito uma alegação surpreendente: mesmo a pessoa mais humilde tem direitos, direitos genuínos.
(…)
É isso que acontece com os problemas resolvidos. Depois de implementada a solução, até mesmo o facto de que tais problemas terem existido acaba por desaparecer.
(…)
Nietzsche acreditava que Paulo, e mais tarde os protestantes que se seguiram a Lutero, tinham removido a responsabilidade moral dos seguidores de Cristo. Tinham anulado a imitação de Cristo!
(…)
Para Nietzsche e Dostoievsky, a liberdade - até mesmo a capacidade para agir - exige restrições. (…) Precisamos de descobrir essa Natureza e de lutar com ela, antes que possamos fazer as pazes connosco.
(…)
Se não puder manifestar com o seu comportamento aquilo que o ambiente exige, simplesmente morrerá.
(…)
in: 12 Regras para a Vida, um Antídoto para o Caos, de Jordan Peterson, Lua de Papel, Lisboa, 2018.
O que interessava não era saber como era o mundo, ao contrário dos cientistas, mas sim a forma como os seres humanos se deveriam comportar.
(…)
Estudei história, mitologia, neurociências, psicanálise, psicologia infantil, poesia, e grandes partes da Biblia. Li, e talvez tenha percebido alguma coisa, o Paraíso Perdido, de Milton, o Fausto de Goethe, e o Inferno de Dante.
(…)
Sem valores, não há sentido. Porém, entre sistemas de valores existe a possibilidade de conflito. Por isso, ficamos eternamente presos entre a espada mais reluzente e a mais dura das paredes.
(…)
As emoções positivas que experimentamos tem a ver com os nossos objectivos. Só somos tecnicamente felizes, se sentirmos que estamos a progredir, e esta simples ideia implica valor.
(…)
Cada um de nós tem de assumir toda a responsabilidade que conseguir pela sua vida pessoal e também pela sociedade e pelo mundo. Cada um de nós deve dizer a verdade, consertar o que precisa de conserto e desmantelar e recriar o que é velho e ultrapassado. (…) Simplesmente faço o melhor que posso.
(…)
Que a alma do individuo deseja eternamente o heroísmo do Ser genuíno, e que estar disposto a assumir essa responsabilidade é o mesmo que viver uma vida com sentido.
(…)
A parte do nosso cérebro que verifica a nossa posição na hierarquia da dominância é, dessa forma, excepcionalmente antiga e fundamental. É a matriz do sistema de controle, modulando as nossas percepções, valores, emoções, pensamentos e acções. Afecta poderosamente cada aspecto do nosso ser, de forma consciente e inconsciente. E é por isso que quando derrotados reagimos como as lagostas que perderam uma luta. A nossa postura murcha. Baixamos os olhos para o chão. Sentimo-nos ameaçados, magoados, ansiosos e fracos. Se as não melhorarem, ficamos deprimidos. Sob essas condições não podemos lutar como a vida exige, tornamo-nos alvos fáceis dos acossadores de carapaça dura.
(…)
Consideremos a serotonina, o químico, que regula a postura e a fuga da lagosta. As lagostas no fundo da hierarquia produzem menos serotonina. (…) Nos lugares cimeiros da hierarquia produzem níveis elevados de serotonina.
(…)
Existe uma calculadora fundamental e impossível de descrever que monitoriza a nossa posição exacta na sociedade. (…) O fundo da hierarquia da dominância é um lugar terrível e perigoso.
(…)
Quando o remédio causa a doença, estabelece-se um ciclo de retorno positivo.
(…)
Evoluímos ao longo de milhares de anos em circunstâncias sociais intensas. Isso significa que os elementos mais relevantes do nosso ambiente de origem eram personalidades, em vez de coisas, objectos ou situações.
(…)
As mulheres fazem com que os homens tenham uma desconfortável consciência de si mesmos desde o início dos Tempos. Primariamente, fazem isso quando os rejeitam - mas também o fazem quando os humilham, quando os homens não assumem a responsabilidade dos seus actos. Faz sentido, porque as mulheres carregam o fardo primário da reprodução. É difícil ver as coisas de outra maneira. Mas a capacidade das mulheres para humilharem os homens e fazer com que tenham uma consciência desconfortável de si mesmos, ainda é uma força primordial da Natureza.
(…)
Como é que eu sei que o seu sofrimento não é uma maneira de fazer com que sacrifique os meus recursos em seu favor, de forma a que possa, pelo menos momentaneamente, adiar o inevitável.
(…)
A gratidão é muito útil. Também é uma boa protecção contra os perigos da vitimização e ressentimento.
(…)
Que a nossa força seja a lei da justiça, pois o fraco é reconhecidamente inútil.
(…)
A narrativa biblica do Paraíso e da Queda é uma dessas histórias fabricadas pela imaginação colectiva, e que se contruiu ao longo de séculos.
(…)
Deus sentado lá no alto, a seguir todos os nossos movimentos e a escrever, para referência futura, um grande livro. Aqui está uma ideia simbólica e produtiva: o futuro é um pai crítico.
(…)
"Nenhuma árvore pode crescer até ao céu." Acrescenta o sempre assustador C.G.Jung, "A menos que as raízes cheguem ao inferno."
(…)
O cristianismo tornou explícito uma alegação surpreendente: mesmo a pessoa mais humilde tem direitos, direitos genuínos.
(…)
É isso que acontece com os problemas resolvidos. Depois de implementada a solução, até mesmo o facto de que tais problemas terem existido acaba por desaparecer.
(…)
Nietzsche acreditava que Paulo, e mais tarde os protestantes que se seguiram a Lutero, tinham removido a responsabilidade moral dos seguidores de Cristo. Tinham anulado a imitação de Cristo!
(…)
Para Nietzsche e Dostoievsky, a liberdade - até mesmo a capacidade para agir - exige restrições. (…) Precisamos de descobrir essa Natureza e de lutar com ela, antes que possamos fazer as pazes connosco.
(…)
Se não puder manifestar com o seu comportamento aquilo que o ambiente exige, simplesmente morrerá.
(…)
in: 12 Regras para a Vida, um Antídoto para o Caos, de Jordan Peterson, Lua de Papel, Lisboa, 2018.
22 novembro 2018
El Angel DADÁ | Fernando González
Dadaísmo - Um movimento artístico da Primeira Metade do Século XX na Europa.
Contudo, houve uma mulher especial Emmy Ball-Hennings, foi escritora e poetisa, foi musa inspiradora de escritores e artistas do mundo boémio e vanguardista alemão, sobretudo na cidade de Berlim e Munique. Tempos conturbados, em especial no campo das artes, da literatura, e política.
Em 1916, cria juntamente com Hugo Ball o Movimento Dadaísta e o Cabaré Voltaire em Zurique, no qual actuou enquanto cantora e dançarina, encantando audiências com a sua forte presença.
Esta obra publicada, cuja vida serviu o mote da narrativa, a partir desta figura feminina, tão intempestiva enquanto criativa e de um radical modo de vivência num período de transformações culturais e de contexto histórico europeu.
in: El Angel Dadá, Venturas e Desventuras de Emmy Ball-Hennings, creadora del Cabaret Voltaire, de Fernando González Vina & José Lázaro, El Paseo, 2018.
Contudo, houve uma mulher especial Emmy Ball-Hennings, foi escritora e poetisa, foi musa inspiradora de escritores e artistas do mundo boémio e vanguardista alemão, sobretudo na cidade de Berlim e Munique. Tempos conturbados, em especial no campo das artes, da literatura, e política.
Em 1916, cria juntamente com Hugo Ball o Movimento Dadaísta e o Cabaré Voltaire em Zurique, no qual actuou enquanto cantora e dançarina, encantando audiências com a sua forte presença.
Esta obra publicada, cuja vida serviu o mote da narrativa, a partir desta figura feminina, tão intempestiva enquanto criativa e de um radical modo de vivência num período de transformações culturais e de contexto histórico europeu.
in: El Angel Dadá, Venturas e Desventuras de Emmy Ball-Hennings, creadora del Cabaret Voltaire, de Fernando González Vina & José Lázaro, El Paseo, 2018.
15 outubro 2018
Tonio Kroger | Thomas Mann
Aquele que ama mais fica sempre em situação de inferioridade e tem de sofrer.
(…)
Mas assim que um terceiro entrava em cena, envergonhava-se e sacrificava-o. E ele ficava outra vez sozinho.
(…)
Pois sabia que o amor dá riqueza e vida às pessoas, e que era assim que ansiava por se sentir em vez de moldar em serenidade, algo de completo.
(…)
Mais de uma vez ficava parado com o rosto quente em lugares solitários, aonde a música, o cheiro das flores e o tilintar dos copos só chegaram esbatidos…
(…)
Toni Kroger manteve-se algum tempo diante do altar arrefecido, cheio de espanto e desilusão, por ter descoberto que a fidelidade era impossível no mundo. Depois encolheu os ombros e seguiu o seu caminho.
(…)
Mas, à medida que a sua saúde se debilitava, fortalecia-se a sua veia artística, tornava-se mais selectivo, ponderado, apreciador, fino, irritável perante a banalidade extremamente sensível a questões de cadência e bom gosto.
(…)
Aquele que vive não trabalha e que é necessário estar morto para se ser de facto um criador.
(…)
O talento para o estilo, a forma e a expressão pressupõe precisamente esta fria e selectiva atitude para com o humano, sim, até certo ponto empobrecimento e abandono do humano. Pois o sentimento saudável e forte, e isto é que é certo, não tem gosto nenhum. Um artista está acabado se se torna humano e começa a sentir.
(…)
O sentimento de separação e o facto de não pertencer a parte alguma.
(…)
Com alguma ousadia poderíamos até concluir que é necessário habitar uma qualquer espécie de prisão para nos tornarmos poetas.
(…)
Tudo compreender significaria tudo perdoar? Não sei. Há algum nojo no conhecimento, Lisaveta. O estado em que basta a um indivíduo avistar uma coisa, para se sentir mortalmente enojado.
(…)
O reino da arte aumenta e o da saúde e da inocência diminui na Terra.
(…)
Um amigo humano! Quer acreditar que me faria orgulhoso e feliz, possuir um amigo entre os homens?
Apanho-me secretamente a espiar o auditório de cá para lá, com a pergunta no coração, quem é que veio ali por mim, com quem pode a minha arte facultar-me uma união ideal…
in: Tonio Kroger, de Thomas Mann, D. Quixote, 2016
(…)
Mas assim que um terceiro entrava em cena, envergonhava-se e sacrificava-o. E ele ficava outra vez sozinho.
(…)
Pois sabia que o amor dá riqueza e vida às pessoas, e que era assim que ansiava por se sentir em vez de moldar em serenidade, algo de completo.
(…)
Mais de uma vez ficava parado com o rosto quente em lugares solitários, aonde a música, o cheiro das flores e o tilintar dos copos só chegaram esbatidos…
(…)
Toni Kroger manteve-se algum tempo diante do altar arrefecido, cheio de espanto e desilusão, por ter descoberto que a fidelidade era impossível no mundo. Depois encolheu os ombros e seguiu o seu caminho.
(…)
Mas, à medida que a sua saúde se debilitava, fortalecia-se a sua veia artística, tornava-se mais selectivo, ponderado, apreciador, fino, irritável perante a banalidade extremamente sensível a questões de cadência e bom gosto.
(…)
Aquele que vive não trabalha e que é necessário estar morto para se ser de facto um criador.
(…)
O talento para o estilo, a forma e a expressão pressupõe precisamente esta fria e selectiva atitude para com o humano, sim, até certo ponto empobrecimento e abandono do humano. Pois o sentimento saudável e forte, e isto é que é certo, não tem gosto nenhum. Um artista está acabado se se torna humano e começa a sentir.
(…)
O sentimento de separação e o facto de não pertencer a parte alguma.
(…)
Com alguma ousadia poderíamos até concluir que é necessário habitar uma qualquer espécie de prisão para nos tornarmos poetas.
(…)
Tudo compreender significaria tudo perdoar? Não sei. Há algum nojo no conhecimento, Lisaveta. O estado em que basta a um indivíduo avistar uma coisa, para se sentir mortalmente enojado.
(…)
O reino da arte aumenta e o da saúde e da inocência diminui na Terra.
(…)
Um amigo humano! Quer acreditar que me faria orgulhoso e feliz, possuir um amigo entre os homens?
Apanho-me secretamente a espiar o auditório de cá para lá, com a pergunta no coração, quem é que veio ali por mim, com quem pode a minha arte facultar-me uma união ideal…
in: Tonio Kroger, de Thomas Mann, D. Quixote, 2016
21 setembro 2018
Memórias de Adriano | Marguerite Yourcenar
A renúncia ao cavalo é um sacrifício ainda mais custoso: uma fera não passa de um adversário, mas um cavalo era um amigo.
(…)
Não desprezo os homens. (…) Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. (…) O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que eles não têm e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.
A natureza é opressora, dominadora, intensamente manipuladora.
(…)
Mas uma técnica: queria encontrar a charneira em que a nossa vontade se articula ao destino, onde a disciplina secunda a natureza em vez de a refrear.
(…)
Tinha ido passar alguns meses à Grécia. A política, pelo menos na aparência, não influi em nada nessa viagem. Foi uma excursão de prazer e de estudo: trouxe de lá algumas taças gravadas e livros que dividi com Plotina.
(…)
Ia fazer quarenta anos. Se sucumbice nessa altura não restaria de mim mais que um nome numa série de grandes funcionários e uma inscrição grega em honra do arconte de Atenas. (…) Compreendi que poucos homens se realizam antes de morrer: considerei com mais piedade os seus trabalhos interrompidos.
(…)
Antes que passassem dez dias fui acordado em plena noite pela chegada de um mensageiro: reconheci imediatamente um homem de confiança de Plotina. Trazia-me duas missivas. Uma, oficial, comunicava-me que Trajano, incapaz de suportar o movimento do mar, tinha … uma segunda carta, esta secreta, anunciava-me a sua morte, que Plotina me prometia ocultar durante o máximo tempo possível, dando-me assim a vantagem de ser a primeira pessoa prevenida. Parti imediatamente para Selinunte.
(…)
À noite enormes mosquitos zumbiam em volta das luzes. Tentei demonstrar aos Gregos que não eram sempre eles os mais sábios e aos Judeus que não eram de modo algum os mais puros.
A Paz era o meu fim. (…) É tudo tão complicado nas questões humanas.
(…)
Sou como os nossos escultores: o humano satisfaz-me; nele encontro tudo, até o eterno.
Os meus escultores desorientam-se um pouco com as minhas ideias; os piores caíam aqui e ali na languidez ou na ênfase; todavia, todos participavam mais ou menos no sonho.
(…)
Toda a miséria, toda a brutalidade deviam ser interditas como insultos ao belo corpo da humanidade.
(…)
Em vez de voltar para Roma, decidi consagrar alguns anos às províncias gregas e orientais do império: Atenas tornava-se cada vez mais a minha pátria, o meu centro. Empenhava-me em agradar aos Gregos e também em helenizar-me o mais possível …
(…)
Num mundo onde tudo não é mais que turbilhão de forças, danças de átomos, onde tudo está ao mesmo tempo em cima e em baixo, na periferia e no centro, concebia mal a existência de um globo imóvel, de um ponto fixo que não fosse simultaneamente móvel. Outras vezes, os cálculos da precessão dos equinócios, estabelecidos outrora por Hiparco de Alexandria.
(…)
Deitado de costas, com os olhos bem abertos, abandonando por algumas horas todos os cuidados humanos, entreguei-me, do anoitecer à madrugada, àquele mundo de chama e de cristal. Foi a mais bela das minhas viagens. O grande astro da constelação da Lira, estrela polar dos homens que hão de viver dezenas de milhares de anos depois de nós termos deixado de existir, resplandecia por cima da minha cabeça. (…)
in: Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, Livros RTP, Lisboa, 2017
(…)
Não desprezo os homens. (…) Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. (…) O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que eles não têm e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.
A natureza é opressora, dominadora, intensamente manipuladora.
(…)
Mas uma técnica: queria encontrar a charneira em que a nossa vontade se articula ao destino, onde a disciplina secunda a natureza em vez de a refrear.
(…)
Tinha ido passar alguns meses à Grécia. A política, pelo menos na aparência, não influi em nada nessa viagem. Foi uma excursão de prazer e de estudo: trouxe de lá algumas taças gravadas e livros que dividi com Plotina.
(…)
Ia fazer quarenta anos. Se sucumbice nessa altura não restaria de mim mais que um nome numa série de grandes funcionários e uma inscrição grega em honra do arconte de Atenas. (…) Compreendi que poucos homens se realizam antes de morrer: considerei com mais piedade os seus trabalhos interrompidos.
(…)
Antes que passassem dez dias fui acordado em plena noite pela chegada de um mensageiro: reconheci imediatamente um homem de confiança de Plotina. Trazia-me duas missivas. Uma, oficial, comunicava-me que Trajano, incapaz de suportar o movimento do mar, tinha … uma segunda carta, esta secreta, anunciava-me a sua morte, que Plotina me prometia ocultar durante o máximo tempo possível, dando-me assim a vantagem de ser a primeira pessoa prevenida. Parti imediatamente para Selinunte.
(…)
À noite enormes mosquitos zumbiam em volta das luzes. Tentei demonstrar aos Gregos que não eram sempre eles os mais sábios e aos Judeus que não eram de modo algum os mais puros.
A Paz era o meu fim. (…) É tudo tão complicado nas questões humanas.
(…)
Sou como os nossos escultores: o humano satisfaz-me; nele encontro tudo, até o eterno.
Os meus escultores desorientam-se um pouco com as minhas ideias; os piores caíam aqui e ali na languidez ou na ênfase; todavia, todos participavam mais ou menos no sonho.
(…)
Toda a miséria, toda a brutalidade deviam ser interditas como insultos ao belo corpo da humanidade.
(…)
Em vez de voltar para Roma, decidi consagrar alguns anos às províncias gregas e orientais do império: Atenas tornava-se cada vez mais a minha pátria, o meu centro. Empenhava-me em agradar aos Gregos e também em helenizar-me o mais possível …
(…)
Num mundo onde tudo não é mais que turbilhão de forças, danças de átomos, onde tudo está ao mesmo tempo em cima e em baixo, na periferia e no centro, concebia mal a existência de um globo imóvel, de um ponto fixo que não fosse simultaneamente móvel. Outras vezes, os cálculos da precessão dos equinócios, estabelecidos outrora por Hiparco de Alexandria.
(…)
Deitado de costas, com os olhos bem abertos, abandonando por algumas horas todos os cuidados humanos, entreguei-me, do anoitecer à madrugada, àquele mundo de chama e de cristal. Foi a mais bela das minhas viagens. O grande astro da constelação da Lira, estrela polar dos homens que hão de viver dezenas de milhares de anos depois de nós termos deixado de existir, resplandecia por cima da minha cabeça. (…)
in: Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, Livros RTP, Lisboa, 2017
11 julho 2018
Velho Sol | Paulo Brighenti
Num poema de Emily Dickinson intitulado I died for Beauty - but was scarce dois mortos encontram-se lado a lado e perguntam-se porque falharam. Um responde: "Eu morri pela beleza" e o outro "eu morri pela verdade". Deram as mãos e esperaram que o musgo lhes tapasse a boca. Este poema serve de inspiração à nova série de trabalhos de Paulo Brighenti apresentada na exposição 'Velho Sol'.
Falam da condição de ser artista, de criar. De viver entre a necessidade de beleza e de verdade. Uma preocupação que vem de um pintor mas que facilmente pode ser transportada para o universo do teatro. Vive-se num limiar entre mundos, numa encenação constante, e é exatamente nessa fronteira que o pulsar criativo emerge (ou morre). Como um Velho Sol que nunca se cansa de subir ao palco, de iluminar, de se iluminar para se escurecer de seguida, e assim até ao fim do tempo.
É também da luz que trata a obra de Paulo Brighenti. De trazer à luz o que estava escondido. Uma procura incessante por algo que está para além da superfície de uma tela, de uma folha de papel, ou de uma placa de gesso através de um explorar dos limites não só do material, mas do próprio médium que trabalha.
in: Velho Sol, de Paulo Brighenti, Casa da Cerca, Almada, Julho de 2018
03 junho 2018
Sigmund Freud | A minha Vida deu um Livro
(…)
Identificar com homens que tiveram duas mães: Édipo, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo e Moisés (…)
Freud viu os seus talentos serem promovidos, como costumam fazer os pais ambiciosos … enquanto favorito declarado usufruindo de todos os privilégios …
Freud foi mais investigador que estudante, um médico incrédulo e empírico, que após uma breve passagem pela filosofia se desviou … e dedicou-se primeiro à área da zoologia.
Com 26 anos Freud era pobre e estava apaixonado - uma situação insustentável … não houve outra alternativa de que senão uma actividade prática clínica - e especialização em neuropatologia …
(…)
O poder da sexualidade …
Quando formulou o conceito da sublimação dos instintos, ele pode recorrer a esta experiência de vida real. Por fim, o motivo de não procurar tanto o prazer próprio, mas antes "evitar a falta de prazer" é um autêntico leitmotiv de toda a obra freudiana.
(…)
Por muito paradoxal que possa parecer, a "loucura" genial de Flieb, os seus caprichos científicos e as suas especulações infundadas (em que Freud se perdeu, constituíram o solo fértil para a criatividade freudiana e para a sua capacidade de diluir a barreira da censura entre as camadas mais próximas do instinto e das emoções da pré-consciência e da consciência, e permitir assim as introspecções e conhecimentos que estão habitualmente sujeitos à repressão, e permanecem inconscientes. flieb foi não somente o catalisador do processo criativo de Freud, mas também do que este designou como "autoanálise", considerada até aos dias de hoje como a hora do nascimento da psicanálise.
(…)
Em 1900 morreu Nietzsche, cuja filosofia de um surgimento planetário do niilismo e de uma reavaliação de todos os valores já se tinham tornado um evento europeu.
(…)
Apesar disto, Freud queria e tinha de prosseguir o seu voo de falcão.
(…)
Obteu em 1885 o doutoramento …
O conceito de sublimação dos instintos … analisou em si próprio os efeitos antidepressivos da cocaína (…)
O filósofo Michel Foucault …
A universidade permaneceu um amor infeliz na sua vida.
(…)
A histeria não era muito levada a sério …
Despertar a memória do processo que estava na origem, estimulando a emoção …
(…)
A teoria do porco-espinho de Schopenhauer …
Prémio Goethe …
Escreveu a Einstein …
Em 1908, o primeiro congresso Internacional de Psicanálise.
(…)
O narcisismo de uma pessoa exerce uma grande atracção sobre os outros que têm consciência de toda a dimensão do seu próprio narcisismo e que cortejam em busca do amor objetal.
(…)
Desvanecia-se a sua pequena esperança de lhe vir a ser atribuído o prémio Nobel da Psicologia
ou da Medicina.
Freud nutrio ainda esta esperança durante mais de dez anos …
Escassos anos mais tarde reconheceria o inevitável: "Fui definitivamente preterido pelo Nobel". E seria mesmo.
(…)
Entre os feitos que não se podem menosprezar na vida de Freud está o facto de a Editora International Psychoanalytischer Verlag, fundada em 1919, se ter revelado um empreendimento bastante bem sucedido permitindo a Freud tomar nas próprias mãos o destino da publicação dos seus escritos. Com o tempo Freud provaria ser um editor apaixonado e competente …
Freud admitiu ser "um rato de biblioteca" e os livros terem sido "a primeira paixão da minha vida" …
É de notar a honestidade e a dimensão humana com que Freud admite uma fraqueza humana em si.
(…)
in: Sigmund Freud, de Hans-Martin Lohmann, Barcelona, Expresso, 2011
Identificar com homens que tiveram duas mães: Édipo, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo e Moisés (…)
Freud viu os seus talentos serem promovidos, como costumam fazer os pais ambiciosos … enquanto favorito declarado usufruindo de todos os privilégios …
Freud foi mais investigador que estudante, um médico incrédulo e empírico, que após uma breve passagem pela filosofia se desviou … e dedicou-se primeiro à área da zoologia.
Com 26 anos Freud era pobre e estava apaixonado - uma situação insustentável … não houve outra alternativa de que senão uma actividade prática clínica - e especialização em neuropatologia …
(…)
O poder da sexualidade …
Quando formulou o conceito da sublimação dos instintos, ele pode recorrer a esta experiência de vida real. Por fim, o motivo de não procurar tanto o prazer próprio, mas antes "evitar a falta de prazer" é um autêntico leitmotiv de toda a obra freudiana.
(…)
Por muito paradoxal que possa parecer, a "loucura" genial de Flieb, os seus caprichos científicos e as suas especulações infundadas (em que Freud se perdeu, constituíram o solo fértil para a criatividade freudiana e para a sua capacidade de diluir a barreira da censura entre as camadas mais próximas do instinto e das emoções da pré-consciência e da consciência, e permitir assim as introspecções e conhecimentos que estão habitualmente sujeitos à repressão, e permanecem inconscientes. flieb foi não somente o catalisador do processo criativo de Freud, mas também do que este designou como "autoanálise", considerada até aos dias de hoje como a hora do nascimento da psicanálise.
(…)
Em 1900 morreu Nietzsche, cuja filosofia de um surgimento planetário do niilismo e de uma reavaliação de todos os valores já se tinham tornado um evento europeu.
(…)
Apesar disto, Freud queria e tinha de prosseguir o seu voo de falcão.
(…)
Obteu em 1885 o doutoramento …
O conceito de sublimação dos instintos … analisou em si próprio os efeitos antidepressivos da cocaína (…)
O filósofo Michel Foucault …
A universidade permaneceu um amor infeliz na sua vida.
(…)
A histeria não era muito levada a sério …
Despertar a memória do processo que estava na origem, estimulando a emoção …
(…)
A teoria do porco-espinho de Schopenhauer …
Prémio Goethe …
Escreveu a Einstein …
Em 1908, o primeiro congresso Internacional de Psicanálise.
(…)
O narcisismo de uma pessoa exerce uma grande atracção sobre os outros que têm consciência de toda a dimensão do seu próprio narcisismo e que cortejam em busca do amor objetal.
(…)
Desvanecia-se a sua pequena esperança de lhe vir a ser atribuído o prémio Nobel da Psicologia
ou da Medicina.
Freud nutrio ainda esta esperança durante mais de dez anos …
Escassos anos mais tarde reconheceria o inevitável: "Fui definitivamente preterido pelo Nobel". E seria mesmo.
(…)
Entre os feitos que não se podem menosprezar na vida de Freud está o facto de a Editora International Psychoanalytischer Verlag, fundada em 1919, se ter revelado um empreendimento bastante bem sucedido permitindo a Freud tomar nas próprias mãos o destino da publicação dos seus escritos. Com o tempo Freud provaria ser um editor apaixonado e competente …
Freud admitiu ser "um rato de biblioteca" e os livros terem sido "a primeira paixão da minha vida" …
É de notar a honestidade e a dimensão humana com que Freud admite uma fraqueza humana em si.
(…)
in: Sigmund Freud, de Hans-Martin Lohmann, Barcelona, Expresso, 2011
13 maio 2018
Desdobráveis | Em Exposição …
Um desdobrável é um objecto de comunicação, e tem como objectivo despertar o receptor para a multidimensionalidade através de um estímulo visual.
Um objecto de comunicação visa proporcionar a um indivíduo um prolongamento da memória através da visualização do layout e dos seus conteúdos informativos.
Deste modo apresentam-se alguns dos projectos desenvolvidos no âmbito dos conteúdos do primeiro ano do curso de Design de Comunicação.
A partir de um núcleo de informação específica, encontram-se um formato, uma escala, uma forma, uma dobra que permita a multidimensionalidade, uma harmonia cromática, a legibilidade, a grelha de orientação visual, a tipografia, a paleta de cores, um grafismo e toda a estrutura para uma composição visual planeada e orientada para um receptor da mensagem.
in: Projectos do 1º Ano do curso de Design de Comunicação, com Orientação de Ana Gaspar, ESTG/IPP, Portalegre, 11 de Abril a 11 de Maio 2018
17 abril 2018
As 4 Estações
A passagem do Tempo é uma das maravilhas da Natureza, apenas temos uma noção temporal através desta passagem lenta e harmoniosa. Conseguimos observar as diferenças em tons, transformadas em matéria.
No Outono tudo morre, cai. Castanho, Vermelho e a Terra a receber toneladas de matéria orgânica em queda livre.
No Inverno tudo adormecido, envolvência. Preto, Branco e a Terra a acolher a matéria orgânica em putrefação.
Na primavera tudo acorda, desperta. Verde, Amarelo e a Terra a lançar para fora o resultado da sua transformação escondida aos nossos olhos humanos.
No Verão tudo cresce, amadurece. Laranja, Vermelho e a Terra a aquecer toda a matéria e dar-lhe o resultado nos frutos saborosos e coloridos.
E…
O ciclo repete-se interminavelmente …
Desde criança que assisto a estas mudanças, desde as que observo na Natureza, como aquelas que sinto no meu corpo e na minha sensibilidade feminina.
Hoje, ao fim de várias leituras de autores, cuja importância maior foi o seu contributo para o meu amadurecimento, enquanto Mulher, revejo-me no resultado deste conjunto de "4 Estações".
A obra é constituída por 4 desenhos do Sol, uma homenagem a este ponto de luz no céu, cuja importância é significativa na Vida na Terra à milhões de anos de Luz.
Tratam-se de 4 manchas de cor que resultaram de uma linha contínua a partir de um centro óptico, um desenho a pastel de óleo.
O Preto é o Inverno, o Vermelho é o Outono, o Laranja é o Verão, e o Amarelo é a Primavera.
in: 4 Estações, de Ana Paula Gaspar, Exposição na ESTG, Portalegre, 21 Fevereiro a 11 Abril de 2018
03 abril 2018
A Vida Humana | Miséria
Biblioterapia: Curar-se, lendo todas as obras de Filosofia.
(…)
Êxtase no acto da cópula, É isso! É essa a verdadeira essência e cerne de tudo, a meta e a finalidade de toda a existência.
(…)
A Vida é uma coisa miserável. Decidi passar a vida a pensar nisso.
(…)
Schopenhauer considerava que era essa a condição humana universal: desejar, saciar-se, entediar-se e desejar outra vez.
(…)
Schopenhauer apreciava as técnicas de meditação orientais e o destaque que estas dão à libertação da mente, de ver através da ilusão e aliviar o sofrimento aprendendo a arte do desapego. Aliás foi ele quem trouxe o pensamento oriental para a filosofia do Ocidente.
(…)
… Quantos mais amigos se tem, mais pesada fica a vida e mais sofre a pessoa quando os perde. Schopenhauer e o budismo dizem que não devemos apegar-nos a nada e …
(…)
É interessante que, além da vida real, o homem tem sempre uma segunda vida abstracta em que, com calma deliberação, o que antes o deixava nervoso e irritado parece frio, sem graça e distante: ele é mero espectador e observador.
(…)
As grandes dores fazem com que as menores mal se sintam e, na falta das grandes, até o menor desgosto nos atormenta.
(…)
A Flor respondeu: - Tolo! Imaginas que abro as minhas pétalas para que as vejam? Eu desabrocho para mim própria porque isso me agrada, e não para agradar aos outros. A minha alegria consiste no meu ser e no meu desabrochar.
(…)
A filosofia é uma estrada isolada numa grande montanha (…) e quanto mais subimos, mais isolados ficamos. Quem a percorre não a deve temer, mas deixar tudo para trás e abrir caminho, confiante, na neve do Inverno. (…) Em breve vê o mundo lá em baixo, as suas praias e pântanos desaparecerem de vista, os seus pontos desiguais aplanam-se, os seus sons estridentes já não lhe chegam aos ouvidos. E a sua redondeza surge ao caminhante, que recebe sempre o ar fresco e puro da montanha e desfruta do sol quando tudo, lá em baixo, está mergulhado na escuridão da noite.
(…)
Num frio dia de Inverno, alguns porco-espinhos juntaram-se para se aquecerem com o calor dos seus corpos, para não enregelarem. Mas depressa viram que se estavam a picar e afastaram-se. Quando de novo ficaram com frio e se juntaram, repetiu-se a necessidade de se manterem separados até descobrirem a distância adequada a que se podiam tolerar. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas os seus múltiplos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem.
(…)
Schopenhauer lamenta qualquer hora desperdiçada no convívio ou em conversa com os outros. Diz: 'É melhor não dizer nada do que ter um diálogo estéril e parvo em conversas com bípedes.' Lamenta também ter procurado a vida inteira 'um verdadeiro ser humano mas encontrado apenas miseráveis canalhas, de inteligência limitada, mau coração e espírito mesquinho'. Numa nota autobiográfica, afirma: ' Quase todos os contratos com os homens são uma contaminação, uma violação. Chegámos a um mundo habitado por uma classe de criaturas lastimáveis à qual não pertencemos. Devemos estimar e honrar os poucos que são melhores, nascemos para instruir os restantes, não para nos associarmos a eles.'
(…)
A primeira regra para não ser um brinquedo nas mãos de qualquer velhaco, nem ridicularizado por qualquer imbecil, é manter-se reservado e distante.
(…)
Quando tinha trinta anos, estava cansado e aborrecido por ter de considerar iguais a mim pessoas que nada tinham que ver comigo.
(…)
Poucas coisas deixam as pessoas tão satisfeitas como ouvir algum problema ou constatar alguma fraqueza em ti.
(…)
A vida pode ser comparada a um bordado que no começo da vida vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos.
(…)
Os escritos e ideias deixados em livro por homens como eu são o meu maior prazer na vida. Sem livros, teria desesperado há muito tempo.
(…)
Quando nasce um homem como eu, só pode desejar uma coisa: que consiga ser sempre ele mesmo e viver para os seus dons intelectuais.
(…)
Ao chegar ao fim da vida, nenhum homem sincero e na posse das suas faculdades vai desejar voltar a viver. Preferirá morrer para sempre.
(…)
Consigo suportar a ideia de que, poucas horas depois de morrer, os vermes comerão o meu corpo, mas estremeço ao imaginar professores a criticar a minha filosofia.
(…)
in: A Cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom, Saída de Emergência, 2016
(…)
Êxtase no acto da cópula, É isso! É essa a verdadeira essência e cerne de tudo, a meta e a finalidade de toda a existência.
(…)
A Vida é uma coisa miserável. Decidi passar a vida a pensar nisso.
(…)
Schopenhauer considerava que era essa a condição humana universal: desejar, saciar-se, entediar-se e desejar outra vez.
(…)
Schopenhauer apreciava as técnicas de meditação orientais e o destaque que estas dão à libertação da mente, de ver através da ilusão e aliviar o sofrimento aprendendo a arte do desapego. Aliás foi ele quem trouxe o pensamento oriental para a filosofia do Ocidente.
(…)
… Quantos mais amigos se tem, mais pesada fica a vida e mais sofre a pessoa quando os perde. Schopenhauer e o budismo dizem que não devemos apegar-nos a nada e …
(…)
É interessante que, além da vida real, o homem tem sempre uma segunda vida abstracta em que, com calma deliberação, o que antes o deixava nervoso e irritado parece frio, sem graça e distante: ele é mero espectador e observador.
(…)
As grandes dores fazem com que as menores mal se sintam e, na falta das grandes, até o menor desgosto nos atormenta.
(…)
A Flor respondeu: - Tolo! Imaginas que abro as minhas pétalas para que as vejam? Eu desabrocho para mim própria porque isso me agrada, e não para agradar aos outros. A minha alegria consiste no meu ser e no meu desabrochar.
(…)
A filosofia é uma estrada isolada numa grande montanha (…) e quanto mais subimos, mais isolados ficamos. Quem a percorre não a deve temer, mas deixar tudo para trás e abrir caminho, confiante, na neve do Inverno. (…) Em breve vê o mundo lá em baixo, as suas praias e pântanos desaparecerem de vista, os seus pontos desiguais aplanam-se, os seus sons estridentes já não lhe chegam aos ouvidos. E a sua redondeza surge ao caminhante, que recebe sempre o ar fresco e puro da montanha e desfruta do sol quando tudo, lá em baixo, está mergulhado na escuridão da noite.
(…)
Num frio dia de Inverno, alguns porco-espinhos juntaram-se para se aquecerem com o calor dos seus corpos, para não enregelarem. Mas depressa viram que se estavam a picar e afastaram-se. Quando de novo ficaram com frio e se juntaram, repetiu-se a necessidade de se manterem separados até descobrirem a distância adequada a que se podiam tolerar. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas os seus múltiplos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem.
(…)
Schopenhauer lamenta qualquer hora desperdiçada no convívio ou em conversa com os outros. Diz: 'É melhor não dizer nada do que ter um diálogo estéril e parvo em conversas com bípedes.' Lamenta também ter procurado a vida inteira 'um verdadeiro ser humano mas encontrado apenas miseráveis canalhas, de inteligência limitada, mau coração e espírito mesquinho'. Numa nota autobiográfica, afirma: ' Quase todos os contratos com os homens são uma contaminação, uma violação. Chegámos a um mundo habitado por uma classe de criaturas lastimáveis à qual não pertencemos. Devemos estimar e honrar os poucos que são melhores, nascemos para instruir os restantes, não para nos associarmos a eles.'
(…)
A primeira regra para não ser um brinquedo nas mãos de qualquer velhaco, nem ridicularizado por qualquer imbecil, é manter-se reservado e distante.
(…)
Quando tinha trinta anos, estava cansado e aborrecido por ter de considerar iguais a mim pessoas que nada tinham que ver comigo.
(…)
Poucas coisas deixam as pessoas tão satisfeitas como ouvir algum problema ou constatar alguma fraqueza em ti.
(…)
A vida pode ser comparada a um bordado que no começo da vida vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos.
(…)
Os escritos e ideias deixados em livro por homens como eu são o meu maior prazer na vida. Sem livros, teria desesperado há muito tempo.
(…)
Quando nasce um homem como eu, só pode desejar uma coisa: que consiga ser sempre ele mesmo e viver para os seus dons intelectuais.
(…)
Ao chegar ao fim da vida, nenhum homem sincero e na posse das suas faculdades vai desejar voltar a viver. Preferirá morrer para sempre.
(…)
Consigo suportar a ideia de que, poucas horas depois de morrer, os vermes comerão o meu corpo, mas estremeço ao imaginar professores a criticar a minha filosofia.
(…)
in: A Cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom, Saída de Emergência, 2016
09 março 2018
Albert Einstein | A Pessoa …
É um jovem inteligente, Einstein, muito inteligente. Mas, tem um grande defeito - não admite que lhe digam nada!
(…)
Ninguém é profeta na sua Terra.
(…)
Vivo a minha paixão com muita alegria e êxito. (…) Sou muito próximo dos meus alunos e espero conseguir estimular alguns.
(…)
Fui efectivamente alvo de alguns sentimentos de ódio. Mas, nunca me atingiram, pois vinham de um outro mundo, com o qual em nada me identifico.
(…)
Ele nunca foi um homem de seguir normas. O seu isolamento fazia-se notar em tudo.
(…)
O seu forte não era lidar com pessoas.
(…)
Einstein considerava a curiosidade a fonte da criação. Esta surgiria em todas as crianças saudáveis e expressar-se-ia como um 'interesse afectuoso por um objecto ou uma necessidade de verdade e compreensão. Seria a característica psicológica mais forte, sem a qual Einstein não teria conseguido criar a sua obra. Esta curiosidade seria induzida pelo espanto, pela admiração, pelo minari que já Platão descrevia apaixonadamente. O espanto estaria no 'berço de toda a ciência e arte'. (…) Quando se esgota a curiosidade, uma pessoa, está, por assim dizer 'morta'.
(…)
Qualquer forma de pressão, qualquer tipo de violência impede o desenvolvimento do Eu, impede a curiosidade, o pensamento autónomo, a autoconfiança, a franqueza, todo o 'estilo de vida saudável'. A liberdade seria o terreno fértil onde tudo o que fosse criativo pudesse germinar.
(…)
in: Albert Einstein, de Johannes Wickert, Barcelona, 2011
10 janeiro 2018
Um Olhar, Um Sentir
Já não sei em que sou especialista…
Arte
Pensamento
Filosofia
Natureza
…
Os seres humanos já não me atraem
Apenas as árvores
Algumas peças artísticas
O Sol
A Lua
…
O único encanto é olhar um céu estrelado à noite
O voo dos pássaros
E a música
…
Sou apenas uma forma incerta a passar por um corpo efémero…
14 dezembro 2017
O Movimento em Círculos | Exposição
O Sol e a Lua, interligados pelo ritmo de um movimento contínuo…
Ambos tão presentes e tão influentes no meu corpo feminino…
A diversidade de possibilidades de luz entre cada um deles, um nasce, um dorme, e um constante renovar de lugares, uma repetida e constante paleta de cores, um modo de olhar o universo, entre ambos a passagem do tempo, um tempo repetido infinitamente no espaço…
Enquanto, eu, aqui contemplando e escrevendo através das palavras, uma procura de mim, e uma interligação com estes ritmos diários, semanais, anuais até um dia me transformar também eu, em átomos redondos e em contínuo movimento…
in: O Movimento em Círculos, Exposição de Ana Gaspar, Centro de Interpretativo da Identidade Local, em Esperança, C. M. de Arronches, Dezembro de 2017
08 dezembro 2017
A Vida é uma Viagem | Exposição
A caligrafia na dança e na arte da escrita emocional.
A paixão dos ritmos, no ciclo da vida, o tempo que se repete infinitamente…
As viagens continuam e as palavras fluem como rios…
O Sol, a Lua, o Tempo na criação, e o universo na matéria.
O espaço vazio e o espaço preenchido, no cruzar dos dois encontra-se o equilíbrio.
A vida é uma Viagem com um tempo infinito, definido entre uma forma passada e uma nova transformação, uma viagem plena de ritmos, movimentos e sequências criadas pela viagem em si…
in: A Vida é uma Viagem, Biblioteca Municipal de Ferreira do Zezêre, Novembro de 2017.
22 setembro 2017
Da Natureza das Coisas | Lucrécio
Tal como na Natureza também Lucrécio é simultaneamente sombrio e luminoso.
…
Uma obra mais vasta de Epicuro, que se perdeu, os Trinta e Sete Livros … "Sobre a Natureza", título comum à obra de Empédocles, cuja formação poética é imitada por Lucrécio, e que está na origem do título da obra.
…
Na Villa dos Papiros, em Herculano, foram recuperados
…
E eis que até tu procuras afastar-te de nós uma vez ou outra, vencido pelas palavras assustadoras dos adivinhos! É na realidade, quantas fantasias eles são capazes de inventar, que podem mesmo alterar os critérios de comportamento e perturbar com o medo todas as alegrias da tua existência!
…
Sobretudo quando é necessário tratar de muitos assuntos com palavras novas, por causa da pobreza da língua e da novidade dos assuntos. Mas a tua virtude e o prazer que espero da tua suave amizade persuade-me a suportar qualquer canseira e leva-me a passar acordado noites tranquilas, procurando com que palavras e com que versos poderei finalmente espargir diante da tua mente uma luz clara, com a qual possas perscrutar coisas profundamente escondidas.
…
Portanto, nenhuma coisa regressa ao nada, mas todos regressam por desagregação aos átomos da matéria.
…
Portanto, não perece completamente tudo aquilo que parece morrer, porque a Natureza forma de novo uma coisa a partir de outra, e não permite que nada seja gerado senão com a ajuda da morte de outra coisa.
…
E impedirá que aquele que anda errante duvide e investigue constantemente sobre o universo e desconfie do que nós dizemos.
…
Do mesmo modo, o tempo em si não existe, mas a sua percepção resulta das próprias coisas, aquilo que passou no tempo, depois que coisa está agora presente e ainda o que depois se seguirá.
…
in: Da Natureza das Coisas, de Lucrécio, Edição Relógio D'Água, Lisboa, 2015
21 julho 2017
Metafísica do Amor | Arthur Schopenhauer
… no amor, apaixonado, é importante, em dado casal, que o grau de masculinidade do homem corresponda ao grau de feminilidade da mulher. Ninguém é cem por cento homem, nem cem por cento mulher. Do encontro feliz destas duas proporções, acende-se e flameja a chama amorosa. Mas, diz Schopenhauer, o inteiro ajuste desse mecanismo é inconsciente, "é algo sentido instintivamente".
in: Metafísica do Amor, Metafísica da Morte, de Arthur Schopenhauer, Martins Fontes, São Paulo, 2000
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