Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

03 setembro 2020

The Picture of Dorian Gray | Oscar Wilde

In the centre of the room, clamped to on an upright easel, stood the full-lenght portrait of a young man of extraordinary personal beauty, and in front of it, some little distance away, was sitting the artist himself, Basil Hallward, whose sudden disappearance some years ago caused, at the time, such public excitement, and gave rise to so many strange conjectures. 
(…)
'It is your best work, Basil, the best thing you have ever done', said Lord Henry, languidly. 
(…) 
'I don't think I shall send it anywhere,' he answered, tossing his head back in that odd way that used to make his friend laught at him at Oxford. 'No: I won´t send it anywhere. 
(…) 
'I know you will laugh at me,' he replied, but I really can´t exhibit it. I have put too much of myself into it.' 
(…) 
But beauty, real beauty ends where an intellectual expression begins. Intellect is in itself a mode of exaggeration, and destroys the harmony of any face. 
(…) 
Oh, I can't explain. When I like people immensely I never tell their names to anyone. It is like surrendering a part of them. I have grown to love secrecy. It seems to be one thing that can make modern life mysterious or marvellous to us. The commonest thing is delightfull if one only hides it. When I leave town now I never tell my people where I am going. If I did, I should lose all my pleasure. 
(…) 
I make a great difference between people. I choose my friends for their good looks, my acquaintances for their good characters, and my enemies for their good intellects. 
(…) 
An artist should create beautifull things, but should put nothing of his own life into them. 
(…) 
Because to influence a person is to give him one's own soul. 

 in: The Picture of Dorian Gray, by Oscar Wilde, Macmillan Collector's Library, London, 2017

03 agosto 2020

O Sol | Ponto de partida …



O Sol, ponto de partida, uma bola de fogo à arder! 
A terra, ponto azul, com os seus mares, oceanos e céu azul! 
A Lua, branca, tranquila, transparente por vezes! 
Três movimentos em contínuo e em sintonia harmoniosa. 
As cores quentes do Sol, desde o seu surgimento à sua sua partida.
A luz do dia e o surgimento do verde nas Árvores e nas Plantas.
O mar infinito de azuis, as ondas que vão e vêm … 
A distância, a proximidade, e o encadeamento destes movimentos constantes. 
As cores da Vida na Terra.

in: 16 Pinturas, de Ana Paula Gaspar, (Ecoline sobre papel Fabriano, 70 x 50 cm), Processo de pintar de Setembro de 2019 a Fevereiro de 2020. Com texto a 11 de julho de 2020.

13 julho 2020

Inteligência Emocional | Daniel Goleman

A última década, mau grado todas as más notícias, assistiu igualmente a um grande surto de estudos científicos relacionados com a emoção. Particularmente espectaculares são os vislumbres do cérebro a funcionar, tornando possíveis pelos novos métodos, como as recentes tecnologias de visualização do cérebro. Estes processos vieram tornar visível, pela primeira vez na história da humanidade, aquilo que sempre tinha sido uma fonte de profundo mistério: exactamente como esta intrincada massa de células funciona enquanto pensamos e sentimos, imaginamos e sonhamos. Esta vaga de dados neurobiológicos permite-nos compreender mais claramente que nunca como é que os centros de emoção do cérebro nos levam à raiva ou às lágrimas e como partes mais antigas desse cérebro, que tanto nos incitam à guerra como ao amor, podem ser canalizados para o melhor e para o pior. (…)
Para começar, o impulso é o meio através do qual a emoção se exprime; a semente de todo o impulso é um sentimento que quer traduzir-se em ação. Aqueles que estão à mercê do impulso - aos quais falta o autocontrole - sofrem de uma deficiência moral: a capacidade de controlar o impulso é a base da vontade e do carácter. Do mesmo modo, a raiz do altruísmo reside na empatia, na capacidade de ler as emoções dos outros; quem é incapaz de sentir as necessidades ou o desespero de outra pessoa, não pode amar. E se ha duas atitudes morais que os nossos tempos exigem, são precisamente estas, autodomínio e compaixão. (…)
A nossa herança genética dotou cada um de nós com um conjunto de estruturas emocionais que determinam o nosso carácter. Mas os circuitos do cérebro envolvidos são extraordinariamente maleáveis; o temperamento não é fatalidade. (…)
As nossas emoções, afirmam, guiam-nos quando temos de enfrentar situações e tarefas demasiado importantes para serem deixadas apenas a cargo do intelecto - perigo, grandes desgostos, persistir na prossecução de um objetivo mal-grado todas as frustrações, ligar-me-nos a um companheiro ou companheira, fundar uma família. (…) Para o melhor e para o pior, a inteligência pode não ter o mínimo valor quando as emoções falam. (…)
Tal como Freud descreve em O Mal-Estar da Civilização, a sociedade tem de impor do exterior regras destinadas a dominar as vagas de excesso emocional que surgem demasiado livremente no seu interior.
Mal-grado estas restrições sociais, as paixões estão permanentemente a sobrepor-se à razão. Esta constante da natureza humana decorre da arquitetura básica da vida mental. Em termos de concepção biológica do circuito neuronal de emoções básico, aquilo com que nascemos é o que resultou melhor para as últimas 50 000 gerações humanas, e não para as últimas 500, e certamente não para as últimas cinco. As forças lentas e deliberadas da evolução que moldaram as nossas emoções fizeram o seu trabalho ao longo de um milhão de anos; os últimos 10 000 - apesar de terem assistido à rápida ascensão da civilização humana e à explosão da população de cinco milhões para cinco biliões - quase não deixaram marca nas nossas matrizes biológicas para a vida emocional. (…)
A parte mais primitiva do cérebro, partilhada com todas as espécies que têm mais do que um sistema nervoso mínimo, é o tronco cerebral, que rodeia o topo da espinal medula. Este cérebro "de raiz" regula as funções básicas da vida, como respirar e o metabolismo dos outros órgãos do corpo, além de controlar as reações e movimentos estereotipados. (…) Este cérebro reinou como senhor absoluto durante a Era dos Répteis: imagine-se uma cobra a sibilar como sinal de uma ameaça de ataque. (…) Da raiz mais primitiva, o tronco cerebral, emergiram os centros emocionais. Milhões de anos mais tarde, a partir destas áreas emocionais, evoluiu o cérebro pensante, ou neocórtex, o grande bolbo de tecidos convolutos que constituem as camadas superiores. (…) Havia um cérebro emocional muito antes de aparecer o cérebro racional. 
A mais antiga raiz da nossa vida emocional reside no sentido do olfacto, ou mais precisamente, no lóbulo olfactivo, as células que captam e analisam os cheiros. (…) A partir do lóbulo olfactivo, começaram a evoluir os antigos centros da emoção … À medida que evoluía, o sistema límbico refinava duas ferramentas muito poderosas: a aprendizagem e a memória. (…)
Há cerca de 100 milhões de anos, o cérebro dos mamíferos deu um novo e grande salto em frente. Por cima das duas camadas gémeas do córtex - as regiões que planeiam, compreendem o que é sentido, coordenam os movimentos - foram acrescentadas várias novas camadas de células cerebrais, que vieram formar o neocórtex … O neocórtex do Homo sapiens, maior que o de qualquer outra espécie, trouxe consigo tudo o que é distintamente humano. O neocórtex é a sede do pensamento; contém os centros que integram e compreendem aquilo que os sentidos captam. Acrescenta a um sentimento aquilo que pensamos a respeito dele - e permite-nos ter sentimentos a respeito de ideias, arte, símbolos, imaginações. (…) À medida que subimos na escala filogenética, de réptil para macaco Rhesus para ser humano, aumenta a massa do neocórtex; este acréscimo determina um aumento em progressão geométrica das interligações dos circuitos cerebrais. Quanto maior é o número destas ligações, mais vasta a gama de respostas possíveis. O neocórtex é o responsável pelas subtilezas e complexidades da vida emocional, como a capacidade de ter sentimentos a respeito dos nossos sentimentos. (…)
As lágrimas, um sinal emocional único da espécie humana, são desencadeadas pela amígdala e por uma estrutura que lhe fica próxima, o gyrus cingulado; ser-se acariciado, abraçado ou de qualquer outra maneira confortado acalma estas áreas do cérebro, pondo fim ao choro. (…) A arte de nos acalmarmos a nós mesmos é uma habilidade fundamental da vida. (…) 
De todos os estados de espírito a que as pessoas procuram escapar, a raiva parece ser a mais intransigente; a ira é a mais sedutora das emoções negativas; (…) Ao contrário da tristeza, a raiva dá energia, é excitante. (…) Os benefícios intelectuais de uma boa gargalhada tornam-se sobretudo evidentes quando se trata de resolver um problema que exige uma solução criativa. (…) A realização criativa depende de uma imersão total e exclusiva. (…)
A empatia nasce da autoconsciência; quanto mais abertos formos às nossas próprias emoções, mais capazes seremos de ler os sentimentos dos outros.
Os custos emocionais, ao longo da vida, da falta de sincronização durante a infância podem ser muito pesados - e não apenas para a criança. (…) As emoções são contagiosas. (…) Em cada encontro que temos emitimos sinais emocionais, e esses sinais afectam quem está connosco. Quanto mais hábeis somos socialmente, melhor controlamos os sinais que emitimos …
Robert Ader, um psicólogo, descobriu que o sistema imunológico, a exemplo do cérebro, é capaz de aprender. (…) O sistema imunológico é, nas palavras do neurocientista Francisco Varela, da École Polytechnique de Paris, o cérebro do corpo, definindo-lhe o sentido de identidade própria - aquilo que lhe pertence e o que lhe é alheio. As células imunológicas viajam por todo o corpo através da circulação sanguínea, contactando com praticamente todas as outras células. Deixam em paz as que reconhecem, atacam as desconhecidas. Este ataque defende-nos contra os vírus, as bactérias e o cancro, ou, se as células imunológicas identificaram erradamente como "intrusas" outras células do próprio corpo, provoca uma doença auto-imunológica como uma alergia ou lúpus. (…) 
Acresce sons de silêncio à lista dos riscos emocionais para a saúde e inclua laços emocionais na lista dos factores protectivos. (…) O poder do isolamento como factor de risco de mortalidade - e o poder curativo das relações íntimas. (…)
A aprendizagem emocional começa nos primeiros momentos da vida e continua ao longo de toda a infância. (…)
A demonstração clássica do impacto da experiência no crescimento do cérebro foi feita por Thorsten Wiesel e David Hubel, ambos neurocientistas galardoados com o Prémio Nobel. Wiesel e Hubel demonstraram que no caso dos gatos e dos macacos há um período crítico, durante os primeiros meses de vida, para o desenvolvimento das sinapses que transportam sinais do olho até ao córtex visual, onde esses sinais são interpretados. (…) Nos seres humanos, o período crítico equivalente para a visão corresponde aos primeiros seis anos de vida. (…)
Os estudos com ratos 'ricos' e 'pobres' proporcionam-nos uma demonstração vívida do impacte da experiência no cérebro em desenvolvimento. Os ratos 'ricos' viviam em pequenos grupos em gaiolas bem fornecidas de 'divertimento para ratos', como escadas e rodas. Os ratos 'pobres' viviam em gaiolas iguais, mas vazias e desprovidas de qualquer espécie de diversão. Ao longo de um período de meses, o neocórtex dos ratos ricos desenvolveu uma rede muitíssimo mais complexa de circuitos sinápticos entre os neurónios; os circuitos neuronais dos ratos pobres eram, em comparação, muito mais esparsos. A diferença era tão grande que os ratos ricos tinham cérebros mais pesados e eram, talvez sem surpresa, mais hábeis do que os pobres a resolver problemas de labirintos. Experiências feitas com macacos resultaram nas mesmas diferenças entre 'ricos' e 'pobres' em experiência, e o mesmo efeito ocorre seguramente com seres humanos.  

in: Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, Lisboa, Círculo de Leitores, 2010

01 junho 2020

Pintura em Quarentena | Março e Abril 2020


Pandemia Covid 19 
Março de 2020 em Portugal.
Ficar em casa.
Trabalhar em casa e isolamento social.

No meu caso Ensino à Distância.
Reflexão neste período: 
Agora não preciso de carro, de roupa cara, de viajar, de perfume ou de qualquer tipo de ostentação.
Preciso de dormir, comer pouco, de conversar, de partilhar, de amizades, de observar o planeta Terra e sobretudo de respirar!

É tudo mais simples.
É esta a simplicidade da Vida!
A sabedoria de viver e aprender a desfrutar…

Assim, nasceram 60 pinturas neste período.
60 dias = 60 pinturas de paisagens.
Correspondente ao início do período da Primavera de 2020.



in: Paisagens, Ecoline sobre papel, de Ana Paula Gaspar, Março e Abril de 2020.

03 maio 2020

O Culto do Chá | Wenceslau de Moraes

(…)
Consta mais que, em certa noite, as pálpebras se lhe cerraram de fadiga, e o bom Darumá deixou-se adormecer, para só acordar pela manhã. Então, pedindo a alguém uma tesoura ou instrumento parecido, cortou a si próprio as pálpebras indignas e arremessou-as ao solo, num gesto de despeito … As pálpebras, por milagre, enraizaram, dando nascença a um gracioso arbusto nunca visto, que medrou mui de pronto e cujas folhas, tratadas de infusão pela água quente, foram um remédio precioso contra o sono e contra o cansaço das vigílias. Estava conhecido o chá; tem pois na China a sua origem, e é coisa santa, como se acaba de provar. Crê quem quer; mas devo advertir que este livro foi escrito para crentes.
Da China, veio o chá para as terras de Nippon, mas não se sabe quando.
Velhas crónicas mencionam (no dizer dos entendidos neste caso melindroso) que, em 729 da era cristã, durante uma festa religiosa de espavento, o imperador Shomu oferecia chá a bonzos de alta jerarquia; mas fica-se ignorando se já antes seria conhecido … Parece que um bom abade budista, Dengyo Daishi, foi o primeiro que obteve a planta em solo japonês, em 805; o chá era então já uma beberagem favorita entre os bonzos chineses, que dela se serviam durante as vigílias prolongadas das suas práticas noturnas. Mais recentemente, ainda outro bonzo, Eisei, tendo ido à China, de lá voltou, trazendo as sementes preciosas, e no monte Sefuri, em Chikuzen, cuidou da sua sementeira. Pouco depois, ainda mais outro bonzo (sempre os bonzos!) de nome Mioyé, colhendo de Eisei os vários segredos de cultura, novas sementes adquiriu, e em Toga-no-o e em Uji, lugares vizinhos de Quioto, atentamente se entreteve em cultivar o chá; em Uji, de preferência, foram os resultados excelentes. Dois séculos depois, cerca de 1400, o shogun (generalíssimo) Ashikawa Yoshimitsu imprimiu vigoroso impulso às plantações de Uji, as quais tanto foram prosperando, mercê da riqueza do torrão, que de então até hoje o chá daquele sítio tem sido celebrado como o melhor de todo o Império; dele exclusivamente se serve o imperador.
O Japão é a terra das camélias …
(…)
Passando, em horas de ócio, junto dos campos de chá, dos quais sinto prazer em acercar-me, palestro com os aldeões e aprendo noções várias respeitantes à delicada planta. Não pode ser transplantada, nem se multiplica por estacas ou por enxerto, só por sementeira se propaga. Os países quentes, como os países frios, são-lhe nocivos; prospera nos climas temperados, nos sítios lavados de ar e de luz, vizinhos dos cursos de água, convindo um ligeiro declive ao solo de cultura. Os arbustos são dispostos em renques paralelos, de norte a sul, para que o sol lhes bata em cheio desde pela manhã até à noite; … No fim de quatro anos, já o arbusto se presta à primeira colheita; mas são as velhas plantas, de cem anos, de duzentos anos, as que melhor produzem.
(…)
Quem quiser tomar conhecimento com a planta de chá, nas melhores condições de prosperidade e em mais belas galas de aspecto pitoresco, tem de ir até Uji, distante quinze milhas de Quioto; escolhendo de preferência um dos primeiros dias de Maio, quando os rebentos novos começam vicejando, o que marca o início da faina da colheita. Faina e festa;
(…)
As moças de Uji estreiam kimonos novos para o caso, arregaçando as mangas com fitas escarlates; amarram em turbante em volta dos cabelos toalhas de cor azul-e-branca; e assim, esbeltas, graciosíssimas, em ranchos de dez, de doze companheiras, dirigirem-se ao trabalho. É então um encanto para os olhos ir a gente surpreende-las no afã do seu mister, dispersas pelas campinas fora, como borboletas; indo de um ramo a outro ramo, de um arbusto a outro arbusto, por vezes ocultando-se entre o verde mais denso da folhagem. Os dedos róseos, miudinhos, a escorrerem de orvalho e multiplicando-se em gestos delicados, vão colhendo os rebentos tenros do chá e atirando-os a grandes ceiras dispostas pelo chão;
(…)
No Japão, toda a gente toma chá - ricos e pobres, nobres e plebeus - bebe-se na ocasião das refeições e a toda a hora, a pequeninos goles. No lar, quando entra o visitante, oferece-se-lhe, após as reverências, uma almofada de regalo e uma chávena de chá.
(…)
Nos templos famosos, em Quioto, por exemplo, o bonzo oferece chá ao peregrino antes de lhe mostrar as relíquias e os museus.
(…)
Um restaurante, na pitoresca linguagem japonesa, diz-se uma Chaya - que quer dizer - casa de chá. De sorte que a chávena de chá, que acompanha os bons dias dados a quem chega, não constitui simplesmente uma norma rotineira, um hábito banal, tornou-se como um símbolo da doce hospitalidade japonesa, um rito de bonomia desta gente, exercido religiosamente entre amigos, entre estranhos também, porque ao estranho, que larga à porta as sandálias, vem ao nosso lar e nos saúda, deve-se já um sorriso e a sua parte de conforto.
Na casa, nua de móveis, porém mimosa de asseios requintados, figura sempre o braseiro sobre a esteira, e nas brasas vai fervilhando a chaleira de ferro cheia de água; o Bon (uma bandeja) está cerca, contendo o bule, as cinco chávenas (cinco porquê? talvez por serem cinco os dedos em cada mãozita japonesa), os cinco pires de madeira ou de metal, o cofre de estanho contendo o chá em folhas e ainda o pequenino recipiente em porcelana chamado yuzamashi, cuja ordinária serventia vai muito em breve conhecer-se. O sentido artístico japonês deprava-se naturalmente na indústria de hoje, em grande parte com destino à exportação para a Europa e para a América;
(…)
O Chá japonês tem a virtude de mitigar a sede. Assim se explica o hábito dos japoneses não beberem água; mesmo na força dos calores, em pleno Agosto, a chávena de chá, saboreada a goles, lhes dá pleno consolo. Aponta-se-lhe mais outros condões: excita ligeiramente o organismo, combate o cansaço das vigílias, predispõe ao bem-estar, infiltra no cérebro não sei que subtil embriaguez, lúcida todavia, que nos torna mais afectivos às sensações de agrado e mais aptos às elaborações do pensamento.

in: O Culto do Chá, de Wenceslau de Moraes, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2008

10 abril 2020

Da Velhice | Cícero

Por conseguinte, se é hábito vosso admirar a minha sabedoria- que oxalá seja digna da nossa estima e do nosso cognome - nós, que seguimos a natureza, o melhor dos guias, e a ela obedecemos como a um deus, somos realmente sábios.
Os velhos que foram com efeito moderados, sem nunca terem sido difíceis ou desumanos, têm uma velhice que pode ser tolerada; por outro lado, a má índole e a desumanidade são dolorosas para qualquer idade.
(…)
O mesmo pode dizer-se da velhice: na verdade, nem pode a velhice ser agradável para o sábio no meio da maior indigência, nem para o ignorante, ainda que rodeado da maior riqueza. (…) Quando já se viveu o bastante, produzem frutos extraordinários, porque não só nunca nos abandonam, e muito menos no final da vida …
Górgias de Leontinos, chegou até aos cento e sete e nem uma só vez abandonou a leitura e o estudo, o qual, como lhe tivessem perguntado porque razão amava tanto a vida, respondeu: "nada vejo que me leve a acusar a velhice" - resposta brilhante, digna de um homem esclarecido. (…) Os insensatos, com efeito, atribuem à velhice os seus próprios defeitos e a sua própria culpa.
(…)
Como é evidente a temeridade é própria da idade que floresce, enquanto a prudência, da que envelhece. (…) Mas a memória enfraquece - assim creio, se não a exercitares ou se fores naturalmente lento de raciocínio.
Sófocles escreveu tragédias até uma idade muito avançada …
Assim como admiramos um jovem em que existe algo de velho, da mesma maneira o fazemos com um velho no qual persiste algo de jovem. Quem adoptar tal postura, poderá envelhecer de corpo, mas, nunca de espírito.
Estou profundamente grato à velhice por ter aumentado em mim o desejo de conversar afastando-me do apetite pela bebida e pela comida.
(…)
Os cabelos brancos não ganham prestígio de repente, nem tão pouco as rugas; mas, uma vida honesta e sabiamente gerida colhe sempre do prestígio os melhores frutos.
(…)
Como na vida, assim no Teatro podemos bem entender a cena entre os dois irmãos em Os Irmãos: a rudeza de um perante a doçura de outro! E de facto assim é: como acontece com o vinho, do mesmo modo nem toda a Natureza se azeda devido à velhice.
Na verdade, encontra-se nos velhos o pensamento, a sensatez e a sabedoria, sem os quais os estados não poderiam absolutamente existir.
(…)
Como já disse tanta vez, a memória e a abundância de bens adquiridos são os frutos da velhice. Tudo o que é, com efeito, conforme com a natureza deve ser tido como bom. Que existe de mais conforme à natureza se não for a morte dos velhos? Quando a mesma ceifa a vida dos jovens, a natureza opõe-se e tenta resistir. (…) Os frutos das árvores se ainda não amadureceram, têm de ser arrancados com força, mas se já estão maduros ou ressequidos pelo sol, caem naturalmente- assim é a vida arrancada aos jovens à força, e aos velhos, colhida naturalmente.
A velhice não é apenas doce, como ainda não causa sofrimento, além de ser também jovial. (…) É, porém, ao homem possível extinguir-se no momento oportuno: a natureza, como acontece todas as outras coisas, sabe quanto devemos viver.

in: Catão-O-Velho ou Da Velhice, de Marco Túlio Cícero, Biblioteca Editores Independentes, 2009

03 abril 2020

Da Vaidade | Montaigne



Desde quando escrevemos tanto senão desde que nos encontremos em apuros?
Desde quando os romanos o fizeram senão depois da sua ruína?
(…)
As prosperidades servem-se de disciplina e aprendizagem, como aos outros as adversidades e as vergastadas. (…) Os homens não se tornam pessoas de bem senão na adversidade. (…) Entre as condições humanas, esta é a mais comum: agradamo-nos mais com as coisas estrangeiras do que com as nossas e gostamos de agitação e de mudanças. (…) Aqueles que seguem o outro extremo, o de se asilar em si mesmos, o de estimar o que se consideram acima do resto.
(…)
 Entreguei-me tardiamente ao governo da minha propriedade. Aqueles que a natureza fez nascer antes de mim libertaram-me dessa tarefa durante muito tempo.
Na pior das hipóteses corri sempre pela diminuição da despesa perante a pobreza. (…) A solução que tenho em minha casa é a de, para gastar sem conta e medida pelo meu lado, pelo outro poupar-se em tudo.
(…)
Não quero que o prazer do viajante corrompa o prazer do descanso; pelo contrário, entendo que se devem alimentar e ajudar um ao outro.
Escondo-me nas ocasiões em que me irrito e ignoro as coisas que estão mal. (…) De modo que, para fazer o menor mal possível, é necessário ajudar-se a si mesmo a esconder-se. Vãs picadas, vãs, mas picadas? (…)
A turba de pequenos males ofende mais que a violência de qualquer um, por maior que seja. À medida que estes espinhos domésticos se tornam incessantes e mais delgados, mordem-nos mais agudamente e sem aviso, com facilidade nos surpreendendo subitamente. (…) Não sou filósofo; os males oprimem-me conforme o seu peso; e pesam muito em função da forma e da matéria, e por vezes mais. Não possuo conhecimento que não seja o vulgar, ainda que tenha muita paciência.
(…)
É esta coisa terna e agradável que é a vida que perturba. "Ninguém resiste, se cedeu ao primeiro impulso" (Séneca, Carta 13).
A minha atitude é mera tolice, ou mais estúpida do que gloriosa. Preferia ser um bom escudeiro do que ser um bom pensador.
(…)
Contento-me em fruir o mundo, sem me apressar, em viver uma vida apenas justificável, e que simplesmente não me pese a mim nem a qualquer outro.
"Nunca fruímos plenamente dos frutos de génio, da virtude e de toda e qualquer superioridade senão quando os partilhamos com os nossos amigos mais próximos." (Cícero)
(…)
Mas como? Vivemos num mundo em que a lealdade dos próprios filhos é um enigma.
O que quer que seja, ou arte ou natureza, que nos imprime esta condição de viver em relação como outro, faz-nos muito mais mal do que bem. Defraudamos as nossas próprias valias, para exibir aparências à opinião corrente. De facto, qualquer que seja o nosso ser em nós, importa-nos muito o modo como ele se apresenta ao conhecimento público. Os próprios bens de espírito e a sabedoria parecem -nos inférteis se forem apenas desfrutados por nós e se não se apresentarem à vista e à aprovação dos estranhos.
A necessidade harmoniza os homens e une-os. Esta ligação fortuita transforma-se depois em lei.
(…)
Em todos os nossos êxitos, comparamo-nos a quem está acima de nós e olhamos para eles que são melhores. Comparamo-nos ao que está abaixo de nós.
(…)
Dia a dia a minha memória piora cruelmente. (…) Não me defendo nada das minhas fantasias.
(…)
O reconhecimento público proporcionou-me um pouco mais de audácia do que não estava à espera, mas o meu maior receio é de me embriagar …
Não te prendas a mim, leitor, por aqueles temas que se derramam aqui pela imaginação ou descuido de outrem; cada mão, cada autor, transmite os seus. Não me meto na ortografia (…) nem na pontuação; sou pouco conhecedor de uma de outra.
(…)
Se a ação não possuir algum esplendor de liberdade não tem qualquer graça nem virtude. (…) Para onde a necessidade me arrasta, gosto de libertar a vontade "porque, nas ações impostas, há maior reconhecimento para aquele que ordena que para aquele que executa" (…) sei de quem siga esta atitude até à injustiça.
(…)
Conheço-me bem.
Por tudo isto ganhei um ódio mortal a ficar presa quer do outro quer de mim mesmo.
Endurecemos relativamente a tudo o que nos acostumamos.
(…)
Sei que a amizade tem uns braços suficientemente compridos para se agarrar e juntar num canto ao outro do mundo. (…) Os estóicos afirmam, e bem, que existe uma grande aliança e relação entre os sábios, de tal modo que aquele que janta em França alimenta o seu companheiro no Egipto; e que estendendo apenas um dedo, ou o que quer que seja, todos os sábios sobre a Terra habitável, sentem a sua proteção. (…)
A decrepitude é uma categoria solitária. Sou sociável até ao excesso. Se, doravante, me parecer razoável que me afaste da vista do mundo a minha inconveniência e que deva retirar-me ficando a sós comigo mesmo, entrarei em inactividade e recolher-me-ei na minha carcaça, como as tartarugas. Aprendo a observar os homens sem me deter neles.
Escrevo o meu livro para poucas pessoas e há poucos anos.
Quero ficar alojado num lugar que me seja íntimo, sem ruídos, limpo, arejado e sem fumos. Procuro acarinhar a morte através destas situações frívolas…
(…)
Deixei alguma coisa para ver atrás de mim?
Volto atrás: este é sempre o meu caminho. Nunca traço nenhuma linha, nem recta, nem curva. Não encontro nada onde vou, foi o que me disseram. (Como acontece muitas vezes, as avaliações dos outros não estão de acordo com as minhas, por isso considero-as, na maioria, falsas) não lastimo o meu esforço: aprendi que o que dizem não me interessa. (…)
A diversidade de modos de uma nação para outra toca-me apenas pelo prazer da variedade. Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Sejam pratos de estanho, de madeira ou de argila, as refeições cozido ou assado, com manteiga ou azeite, quentes ou frias, para mim tudo é uno. (…) Tenho vergonha de ver os homens arrebentados … Bem que se diz que um homem de sociedade, é um homem heterogéneo. (…) Pelo contrário, viajo para o estrangeiro bastante farto dos nossos hábitos … procuro mais os gregos e os persas; aproximo-me deles, estimo-os; é a isso que me presto e me entrego. E o mais interessante, é que me parece que não descobri nenhuns modos que não sejam tão válidos como os nossos … nenhum prazer tem efeito sobre mim sem comunicação.
(…)
Quem não pretende ser tolo, precisa de ter uma dose de loucura, assegurar quer os preceitos dos nossos mestres, quer ainda mais os seus exemplos.
Quem não prefere não ser lido, a sê-lo de forma adormecida e fugidia?
(…)
Aristóteles gabava-se de qualquer lugar o comover: viciosa comoção.
Pelo contrário, empenho-me em fazer valer a própria vaidade e a estupidez se elas me dão prazer, e deixo-me ir atrás das minhas inclinações naturais sem as controlar de muito perto. (…) Das coisas que em qualquer lugar são grandes e extraordinárias, admiro mesmo as partes mais simples.
(…)
O que tenho de pouco neste mundo e nesta vida deve-se a mim mesmo.
Não possuo especificamente nenhum bem essencial e sólido que não deva à sua generosidade. Ela não é uma coisa só, tão vazia e necessitada como tu, que abraças o Universo.

in: Da Vaidade, de Michel de Montaigne, Ática, 2010