Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

04 agosto 2026

Da Amizade | Michel de Montaigne

 Escolheu primeiro o lugar mais belo, no centro de cada parede, para aí pintar um motivo com toda a destreza de que era capaz; depois preencheu os espaços vazios em redor com arabescos, pinturas de pura fantasia, que apenas agradam pela sua variedade (…)

É de facto verdade que a amizade representa, na sociedade, o mais alto grau de perfeição. (…)

Nas relações dos filhos com os pais, é antes o respeito que predomina. A amizade requer um contínuo intercâmbio de pensamentos, o qual não pode reinar entre eles (…) Mais ainda, os filhos não podem dar conselhos nem repreender os pais, o que é uma das primeiras obrigações da amizade. (…)

O calor da amizade estende-se a todo o nosso ser: é universal, mas temperado e sempre igual; é um calor constante, soberanamente doce e delicado, que nada tem de áspero nem de excessivo. O amor é, sobretudo um desejo violento daquilo que nos foge (…)

O amor enfraquece e cai em languidez; a fruição extingue-o, porque o seu fim é carnal e a sociedade o apazigua. A amizade, ao revés, acentua-se com o desejo que dela se tem; eleva-se, desenvolve-se e cresce com a fruição, porque é de essência espiritual, e o uso refina a alma. (…) 

Já quando se trata da amizade, nada de alheio intervém - não está em causa, senão ela. Somente. (…)

Que sob influência dessa beleza espiritual que o amado descobria no amante, nascesse nele o desejo de participar dessa superioridade intelectual e moral, sem atender, no companheiro, à beleza do corpo - coisa nele acidental e inteiramente secundária (…)

Exercendo por vezes influência decisiva na defesa da justiça e da liberdade (…)

Procurávamo-nos antes mesmo de nos havermos visto (…) creio sinceramente que nisso houve o efeito de algum decreto da Providência. Sem nos conhecermos os nossos nomes já nos eram caros. (…) Sentido-nos tão atraídos um pelo outro, tão conhecidos um do outro, tão ligados um ao outro, que desde então nada foi tão próximo como nós o fomos reciprocamente. (…)

As nossas almas caminhavam tão completamente unidas, estavam presas uma à outra por tão ardente afeição - dessa afeição que penetra e lê até ao mais íntimo de nós mesmos - que não só eu conhecia a dele como a minha própria, quanto nele do que em mim próprio. (…)


in: Da Amizade, de Michel de Montaigne, Penguim Clássicos, Lisboa, 2026 

10 junho 2026

Davam Grandes Passeios aos Domingos | José Régio

 Chegada a casa, tia Vitória levou-a para o seu quarto. Abriu o imenso guarda-vestidos que, como o pesado baú, tinha sempre fechado, e pôs-se a tirar os preparos. Surgiu um velho e lindo vestido azul pálido, com preciosos raminhos cor de oiro - relíquia de qualquer bisavô. Guarnecido a franzidos duma larga fita de seda marfim antigo, levantava-se atrás em tufados e laços que as duas mulheres arranjaram como puderam. Mas tia Vitória saiu-se ainda com finos sapatinhos de cetim, que não ficavam mal a Rosa Maria, embora um bocadinho largos; meias a dizer; fitas para enastrar nos cabelos com flores de veludo; um leque de marfim; e até um lindo colar (fossem, ou não valiosas as pedras) que tirou do célebre baú (…)

Sentada ao piano, hesitou uns momentos. Que tocaria? (…)

Rosa Maria não podia falar. Enfim!, chegara o grande momento. Bem sabia ela que seria essa noite. (…) A presença de Fernando parecia-lhe um milagre; ao mesmo tempo lhe parecia coisa natural, esperada, pois de qualquer modo o seu encontro houvera de se dar essa noite. Não tinham de ficar sós no mundo, um perante o outro, ele e ela, para finalmente abrirem o coração? (…)

Rosa Maria estava imóvel e branca como um mármore. (…) A capa caíra-lhe dos ombros. O decote ousado, que a rosa de renda já não encobria, clareava na meia sombra. Via-se-lhe o princípio dos seios torneados e alvos, soerguidos pelo justilho bordado. Mas ela nem pensava em se resguardar; não obstante estar ali sozinha, de noite, no jardim (…)

Achando-se mal, recolhera à cama quando flamejava a festa no seu auge. (…)

Rosa Maria esteve doente cerca de um mês. (…) Rosa Maria quem agora possuía o sistema nervoso mais agudo e mais interessante! (…) Emagrecera e envelhecera que parecia outra. Só um poeta a poderia achar ainda bonita. Um poeta romântico - talvez ainda mais bonita! Embora devesse às vezes estranhar-se uma expressão dura e fria, que dantes não era sua …

O seu amor por Fernando esfarrapara-se como um fumo. Via agora que só fora uma ilusão. Nunca ele, afinal, sonhara em casar com ela, nunca gostara dela a sério, - todo o seu íntimo e profundo entendimento não passara dum sonho que ela erguera com a sua imaginação romanesca e as mais fantasiosas interpretações de movimentos naturalíssimos! (…)

Assim, no abismo dessas longas noites de doença e tristeza, se preparava a sua cura. (…)


in: Davam Grandes Passeios aos Domingos, de José Régio, Editores Associados, Lisboa, 1968

09 junho 2026

Elogio da Sombra | Junichirō Tanizaki

Não há local mais adequado que as retretes de estilo japonês, onde podemos, abrigados por paredes muito simples, de superfície limpa, contemplar o azul do céu e o verde das folhagens. (…) sempre que me encontro num sítio assim agrada-me ouvir cair a chuva (…) Na verdade estes locais convêm ao canto dos insectos, ao gorjeio dos pássaros, também às voltas de luar, é o sítio mais adequado para saborear a pungente melancolia das coisas em cada uma das quatro estações, e os antigos poetas de Haiku conseguiram encontrar aí inúmeros temas (…) os nossos antepassados que poetizavam todas as coisas (…) e numa estreita associação com a natureza. (…) para citar Saito Ryokuu, «o requinte é a coisa fria» (…)

Veja-se, por exemplo, o nosso cinema: difere tanto do americano, como do francês ou do alemão pelos jogos de sombra, pelo valor dos contrastes. (…) A originalidade do génio nacional revela-se já na mais simples fotografia. (…) E se nós mesmos tivéssemos inventado a fotografia ou a rádio, é possível que fossem concebidos de modo a valorizar as qualidades próprias da nossa voz e da nossa música (…) Na arte da oratória, evitamos gritarias, cultivamos a elipse, e sobretudo atribuímos uma extrema importância às pausas (…) 

O papel é, segundo dizem, uma invenção dos chineses (…) os nossos papéis dobram-se e amachucam-se sem barulho. O contato é suave e ligeiramente húmido, como o de uma folha de árvore. 

Tal é, de facto, o resultado da silenciosa harmonia entre a luminosidade das velas tremeluzindo na sombra e o reflexo dos lacados. (…) 

Não há muito, o mestre Sõseki exaltava, no seu Kusamakura, as cores dos yokan e, num certo sentido, estas cores não nos conduzem também à meditação? A sua superfície turva, semitranslúcida como um jade, a impressão que dão de absorverem a luz do sol até à massa, de encerrar uma claridade indecisa como um sonho, a profunda concordância dos matizes, a sua complexidade, não se podem encontrar em nenhum bolo ocidental. (…) tornar-se-á mais propício à contemplação (…) 

Mas onde está, então a chave do mistério? Muito bem, vou trair o segredo: vendo bem, é apenas a magia da sombra; expulsem essa sombra que se forma em todos os recantos e o todo no ma regressará imediatamente à sua realidade banal de espaço vazio e nu. Porque foi aí que os nossos antepassados se mostraram geniais: souberam conferir ao universo de sombra deliberadamente criada, delimitando um espaço rigorosamente vazio, uma quantidade estética superior à de qualquer fresco ou decoração. Aparentemente, trata-se apenas de um puro artifício, mas de facto as coisas são muito menos simples que isso. (…)

A minha mãe era muito pequenina, cinco pés apenas, mas não era a única, porque era essa a estatura habitual das mulheres daquele tempo. (…)


in: Elogio da Sombra, de Junichirō Tanizaki, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2016

13 maio 2026

Antígona | Sófocles

 CORO - Eros, invencível no combate, que te enfureces, como uma manada de reses; que passas a noite no rosto macio de uma donzela e frequentas, quando não estás no mar, as rústicas cabanas: ninguém te pode fugir, nem os próprios deuses imortais, e muito menos os homens, enquanto vivos; mas o teu domínio pode levar à loucura. Tu, que transformas os justos em injustos; tu, que, entre os homens do mesmo sangue, promoves a discórdia, como agora, destruindo o encanto que brilha nos olhos da noiva já destinada ao leito conjugal; tu, associado às leis sagradas que regem o mundo, vais fazendo, sem luta, o jogo da divina Afrodite. (…)

MENSAGEIRO - E nós, cumprindo o que o nosso desalento chefe nos ordenava, olhámos para o interior da caverna e vimo-la, a ela, pendurada pelo pescoço, estrangulada por um laço feito com o seu fino véu; enquanto ele, a seu lado, abraçando-a pela cintura, chorava, não só a perda da noiva, agora morta, mas também o crime do pai e o desgraçado amor. Quando Creonte o vê, são dilacerantes as suas queixas. Vai junto do filho e chama-o, com dolorosos lamentos: «Que fizeste, infeliz? Que pretendes agora? Que desgraça te privou da razão? Sai daí, meu filho! Rogo-te, suplico-te.» Hémon olha-o, então, de cima a baixo, cospe-lhe no rosto; e, sem nada responder, tira da bainha a espada de dois gumes. O pai, de um salto, evita o golpe. Falhando, o desgraçado volta-se, iroso, contra si próprio: inclina-se sobre a espada, fazendo que ela se enterre no corpo, até meio. Consciente ainda, mas já sem força nos braços, enlaça a jovem e, sobre a branca face dela, lança uma golfada de sangue. Ali ficaram, cadáver ao lado de cadáver, celebrando, finalmente, a boda - mas no Hades. Isto é uma lição para os mortais; para que vejam até que ponto o pior mal dos homens é a irreflexão. (…)

      

in: Antígona, Ájax . Rei Édipo, de Sófocles, Editorial Verbo, Lisboa, s.d.

11 maio 2026

Exposição | Ana Gaspar

 



in: A Poesia Visual no Processo Criativo, de Ana Gaspar, Campus Politécnico de Portalegre, 16 Abril a 11 Junho 2026

10 maio 2026

A Inteligência Natural | António Damásio

As imagens mentais mais comuns são padrões de luz e cor que representam outros seres vivos e aquilo que eles fazem, bem como os objectos e as ações - ou parte de objetos e de ações - que compõem o mundo que nos rodeia. (…)

Temos de poder sentir de modo a que possamos ser conscientes. (…)

A consciência é responsável pela capacidade de experienciar uma mente individual que trabalha no interior de um organismo vivo; e pela capacidade de o indivíduo experienciar o sofrimento ou o prazer do estado atual do seu processo de vida. (…)

Nesse contexto, a definição mais lata que tenho para oferecer afirma que a consciência é um processo biológico que permite que os organismos equipados com um sistema nervoso descubram a sua existência e a existência de um universo que os rodeia. (…)

Estas reflexões podem surgir numa montagem fílmica sem palavras, numa narrativa verbal e teatral, ou numa mistura das duas, dependendo do que mais se adeque ao estado mental e às necessidades do momento. (…)

Ou seja, os sentimentos homeostáticos situam o processo mental em curso e explicam como fazem parte do interior de um organismo/corpo específico, um gesto essencial que identifica o processo de vida como sendo consciente. (…) Os sentimentos constituem um desenvolvimento biológico monumental. (…)

Ou seja, os sentimentos apresentam, continuamente, no vasto anfiteatro da mente uma avaliação da vida. As mensagens dos sentimentos não assumem uma forma verbal ou numérica. Surgem, isso sim, na forma de afectos e usam as escalas da qualidade e da intensidade para transmitir as suas avaliações. (…)

Um recente atlas de alta definição do tipo de células presentes no cérebro mostra-nos claramente que quando se compara a população de neurónios responsáveis pela cognição com a população de neurónios responsáveis pela regulação da vida, encontramos uma maior variedade de tipos de neurónios e uma maior complexidade organizacional do lado da regulação de vida/interoceção!

A ironia consiste no facto de a componente da linguagem ser, ela própria, parcialmente imagética. Assim é, porque as palavras que nos enriquecem os processos mentais têm uma base imagética que pode ser expressa na forma de padrões auditivos, visuais ou somatossensoriais. Quer façamos uso de imagens básicas ou de traduções linguísticas dessas imagens, a nossa mente depende de imagens para construir o pensamento. (…)

Pensemos nos sentimentos acompanhantes como sendo o coro que comenta as ações representadas nos temas principais. (…)

Logo, aquilo que sentimos dentro de nós e aquilo que percepcionamos a partir do que nos rodeia e do nosso pensamento são experienciados por uma entidade integrada e única. Essa entidade é a afortunada proprietária de um certo corpo vivo e do seu servo, em grande medida fiel embora cheio de opiniões: o sistema nervoso. (…)

Os sentimentos são irresistíveis. O segredo do seu poder reside na sua fisiologia particular. Os sentimentos não enviam mensagens em código Morse; eles agitam-nos a carne e perturbam-nos a mente até que satisfaçam pedidos ou acatemos conselhos. Ou seja, quer nos recomendem ou incitem, seduzam ou exijam, os sentimentos levam-nos a «responder», e «as respostas» têm que ver com a vida, especificamente, com a manutenção da vida, do modo mais eficaz possível. Seguir as recomendações dos sentimentos ou obedecer às suas ordens ajuda-nos a viver. (…)

A eficácia está na sua natureza porque, em vez de empregarem uma qualquer linguagem abstrusa para comunicarem os seus conhecimentos, os sentimentos exibem qualidades afetivas, expressas por alterações reais no corpo que revelam estados da vida. Os                                                                                                                                                                                   sentimentos não são cartões de visita delicados. Dependendo da situação específica, as sugestões ou pedidos dos sentimentos podem transformar-se em ordens, apresentadas de forma tão veemente que não podem ser desobedecidas e, muito menos, ignoradas. (…)

Os sentimentos homeostáticos são conscientes desde a sua origem, estando intimamente ligados à vida do organismo onde se manifestam, decididos a serem os salvadores do momento. Podem ser pregadores bem-intencionados ou demónios tentadores prestes a saborear o triunfo da sua sedução. (…)

O cérebro cria padrões imagéticos a partir de fontes físicas como a visão, a audição e o tato. Esses padrões imagéticos resultam do mapeamento físico de sinais sensoriais físicos, recebidos, processados e representados no equivalente a telas tecidas com neurónios igualmente físicos. (…) Como por exemplo, os fotões que animam as células retinais dão início a uma cadeia de acontecimentos bioquímicos que se prolonga por várias estações neurais das vias visuais do cérebro e desembocam em mapas neuronais, organizados topograficamente, nos córtices visuais da região occipital. (…)

Quem imaginaria que o afeto, em geral, e os sentimentos, em particular, fabricados por obra e graça da Inteligência Natural como meio de manter a vida em criaturas simples, se tornariam, na longa trajetória do tempo, os elementos definidores da existência humana, os provedores de alegrias e tristezas, de glórias e tragédias, de valores elevados e mesquinhos, nada mais, nada menos do que o profundo alicerce da humanidade que habitamos e observamos?


in: A Inteligência Natural, a Lógica da Consciência, de António Damásio, Edição: Temas & Debates, Lisboa, Nov. 2025

21 fevereiro 2026

A Paixão | Almeida Faria

Piedade

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e entregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os ossos da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima - deve ser reumático - mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface, ou então ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera (…)

Moisés 

Lençol não existe na cama de Moisés; tão-só o cobertor castanho já sem pelo, puído de sebo e de velhice; Moisés acorda muitas vezes de noite; é noite alta com estrelas, uma lua distante, no círculo de luz sobre as veredas secas; lua translúcida alaranjada por trás da qual as nuvens se esfarrapam, num céu de quieto mar, liso, límpido, raso; a terra charruada tem um tom escuro escavado, enquanto a noite ocupa as celestes esferas; ao fundo da quinta de verde sombrio passam as carroças ecoando, estalando na areia que o vento transportou e pés desertos, grossos, às horas gastas, pisam; o milho cresceu e voltou a crescer, as espigas apontam seus espetados dedos, as folhas como espadas batem de encontro ao vento; o vento percorre o respirar da vila, as muralhas, as torres e a ponte; Moisés pensa e diz, deitado, com um gesto de mão lento no ar, que da padreação do vento sobre a vila nasceram os negros corredores da noite (…) Moisés não pensa nos bacorinhos sem se comover; praticamente sempre os olhos enevoados; limpa-os, e às ramelas, com as costas da mão; mãos gretadas, rudes, dedos papudos, angulados para cima, longos até às unhas cortadas muito rentes, a direito, negras em espátula; puxa com as mãos o cobertor para o peito, para as barbas e o pescoço engelhado; sem ser capaz de dormir, olha a noite lá fora (…) não me esqueço do mar; é como um espelho ou a eternidade; brilha, reflete, fere e encadeia (…)

Francisco 

E contudo aquele meu avô, que morreu de súbito sem agonia quase, vivia desde à muito aguardando o momento de esticar; tinha o caixão já feito sob a cama, pinho negro e rijo, forrado de vermelho, em que todos os anos, na noite de ano novo, se metia, metódico, a ver se estava bom (…) entretanto vou ver como vão os trabalhos (desce à garagem, mete-se no jipe, sai; há um silvo ao longe, quente, nos fios dos postes telegráficos paralelos à estrada; ontem os homens colheram os feijões, lavraram, passaram com a grade longamente por cima, não sentados, como antigamente, mas de pé sobre a grade, depois a pouco e pouco, com novo entusiasmo, traçaram regos e canteiros, tabuleiros de terra, obras de arte, como um grande jardim, deitaram logo as couves e alfaces, enterraram raízes uma a uma, em seguida regaram, regá-las-ão a punho assim dias a fio, por sóis e luas e sóis inumeráveis, por chuvas e por ventos, por calores e febres, por calmas tempestades, enfim hão de colhê-las, recolhê-las, desbastar a terra dos seus frutos, para que produza mais (…) velhos servos da terra (…)

Tiago

De inverno assentava-se nos cômoros da quinta, ao pé da pluvial alcórcova rumorosa e lavada, sob o caramanchão que de chuva pingava, ali ficava horas, de cócoras, formando, paciente, figurinhas de barro, cães, mulheres, cavaleiros, automóveis; amassava a terra com força numa bola, águalmagre corria esguichando pelos dedos, o cu das calças era, em breve, uma pasta de lama; a chuva encharcava-lhe os cabelos, fazia-o tiritar, mas dali não saía nem por nada; estas rudes esculturas térreas estavam ligadas à chuva como as heras às árvores (heras cresciam pelas paredes da casa numa força dispersa, em ramos isolados unidos pela base (…) fabricava as figuras cheio de pressa, para que durassem o tempo da chuva miúda, que as desfazia em breve (…) um pouco o menino doente sem sofrer de nenhuma doença, era o benjamim, o filho mais novo, aquele a quem os deuses dão sempre qualquer coisa, um sorriso, um olhar, uma cor dos cabelos, uma estranha mania que os pais, já não novos (…) os pais amam com amor um tanto póstumo, cego de todo (todo o amor é cego, diz o povo, quem muito espreita não ama, quem muito ama não vê) e teimoso, amor não de pais mas de avós (…) era uma espécie de poeta desgraçado, a quem contudo os olhos insistem em sonhar.

 João Carlos

Estou sentado e estudo esta coisa certa e definitiva: o preço como elemento essencial da compra e venda (…) em solidão e difícil harmonia, para uma condição de estudo e de universidade; a universidade é um conjunto de edifícios novos, arrogantes, pretendendo-se belos (…) do céu escorre o sono e uma sede sem tréguas nem remédio, sede da noite e do sonho (primeiro Osíris, o sol, é derrotado pela noite, Set, porém a esposa-vaca-lua, Ísis, vem procurar, pálida e triste, o seu cadáver frio e enfim o filho, Hórus, sol-nascente, vinga-se e vence, nasce, vive, esplende e uma vez mais o astro magno impera) (…) mas perco-me no isolamento, perco-me no rio que corre em mim, o seu correr afoga-me, e no entanto é calmo e cavo o seu correr (…)

Moisés 

De volta da sua missa, o velho Moisés vem conversando, muito calmo, com o calvo sacristão da ermida, o seu melhor amigo, ainda mais velho que ele, pálido, claro, alvo, olhos contemplativos, talvez de, desde sempre, do cimo da ermida, olhar tanto para longe, para árvores e montes, para casas e coisas, paisagem azul-acinzentada e longa, ao longo das estações, inverno, verão, que passam como águias-reais sobre eiras e azinheiras e estradas a direito e verdes searas versas adivinhando o, por trás do horizonte dos outeiros, grande mar, olhar sem pressa os poentes distantes, ocultos numa névoa que é calor no verão, canícula, tremulina, trovoada de inverno, e no instante em que o sol se enche de sangue tocar no sino frágil umas ave-marias que o largo vento afasta, dispersa e logo apaga, alto e cortante senhor do mundo (…) a ermida é um silêncio do sol, tão próximo do céu como dos homens (…)

A mata de eucaliptos é um silêncio de mar ao meio do dia; meio-dia, hora branca, meio-dia para todos, almoço para quem no tem; o deus do caos não tem aqui lugar, no seio dos eucaliptos acenando do alto uma luz de presença e de rumor do sol (…)

(…) que aquece no calor da tarde em que uma força pega nos objetos desde a base e os faz girar, oníricos e lentos, em redor de mim e de si mesmos, iguais a sistema solar de que me sinto o centro (…)

(…) terra de pouco pão e sem mulher, sem água que lhe limpe o suor pela noite, junto ao calor do fogo, quando uma mulher está longe como um astro, uma estrela (…)

A árvore ainda, para terminar: ergue-se no quintal da casa, como um templo, um palácio; cresce; os ramos desenvolvem-se para cima, para os lados; depois de grandes, o peso tomba-os um pouco, lentamente, para baixo; floresce; nascem as folhas brilhantes e sedosas, frágeis, puras, informes, filiformes, iguais a raios; criam nervuras (…) o vento arranca as raízes e é então que tomba a árvore.


in: A Paixão, de Almeida Faria, Assírio & Alvim, (12ª edição), Porto, 2013

(Capa do livro: A Paixão, desenho de Mário Botas)

22 janeiro 2026

A Gratidão | Camilo Castelo Branco

Estávamos nos últimos dias de 1846. Uma camada muito espessa de neve cobria o solo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve não tardava a cair. Os ramos nus das árvores dos montes tremiam soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo num perfeito sossego, e tristeza; nem o mais leve murmúrio se ouvia. (…)

- Avozinha - continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos - se me abandona, que hei-de fazer? Quer que morra de paixão? 

- Morrer, tu, minha Rosinha- disse a cega levantando-se. - Oh! Meu Deus, não permitais tal. (…)

A avó, muito comovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o caminho de S. Cosme. (…)

D. Teresa de Sousa, e mais algumas vizinhas, que se tinham reunido para cirandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado todos os cuidados necessários para as reanimar, como o seu principal mal era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acomodá-las a um dos cantos do lar, em que ardia uma grande fogueira. (…)

D. Teresa comoveu-se tanto, com a singeleza e candura desta súplica, que duas lágrimas lhe brilharam nos olhos. (…)

Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Teresa, e a cega encheu-a de bênçãos. D. Teresa mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e quente, em que um sono reparador lhe reanimou as forças. (…)

Chegou a Primavera. Começaram a desabrochar com o tépido sopro desta estação e mostraram as suas galas a bela pervinca azul, o narciso de coroa de ouro, o lírio de campanas odoríferas e a bela violeta de cálices perfumados.  

Rosa quando ia à serra, era para ela um dia de alegria. Procurava os caminhos tapeados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado, as fontes escondidas pelas sarças, e as árvores, sob as quais tinha encontrado as mais lindas flores. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz na serra do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada diante das belezas da natureza, e cada sítio novo, que achava, era como se fosse um amigo. Quando o sossego voltava, depois desta alegria e animação, esta poética criança fazia cestinhos de vime e juncos, que guarnecia com musgo e flores silvestres, mas com gosto e beleza esquisito, os quais D. Teresa mandava vender, dando sempre bom preço. 

Ganharam renome os cestos de Rosa. (…) 

O inverno pareceu triste e monótono a Rosa. Tinha-se habituado de tal maneira a ir todas as manhãs para a serra (…) 

D. Teresa considerava Rosa como sua filha (…)


in: A Gratidão/O Arrependimento, de Camilo Castelo Branco, Book Cover Editora, 2025

05 dezembro 2025

A Metamorfose | Franz Kafka

Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto. Estava deitado de costas, umas costas tão duras como uma carapaça, e, ao levantar um pouco a cabeça, viu o seu ventre acastanhado, inchado e arredondado em anéis rígidos, sobre o qual o cobertor, quase a escorregar, dificilmente se mantinha. As suas numerosas patas, lamentavelmente raquíticas, comparadas com a sua corpulência, remexiam-se desesperadamente diante dos seus olhos. «O que me aconteceu?», pensou. Mas não era um sonho. O seu quarto, um verdadeiro quarto humano, apenas um pouco acanhado, ali estava, tranquilo, entre as quatro paredes que ele bem conhecia. (…)

Gregor - disse uma voz, que era a da mãe - é um quarto para as sete. Não tinhas de apanhar o comboio? (…) Gregor, abre a porta, anda. (…)

Era uma voz de animal. (…)

Será que isto significa que estou com menor sensibilidade? - Pensou, ao sugar avidamente o queijo (…)

Se ao menos conseguisse falar com a irmã e agradecer-lhe por tudo o que ela tinha sido obrigada a fazer por ele, estaria mais à vontade para aceitar os seus cuidados, mas nas condições em que se encontrava, isso fazia-o sofrer. (…)

Um dia - já tinha decorrido cerca de um mês desde a metamorfose de Gregor e a sua irmã já não deveria espantar-se ao vê-lo (…)

Queridos pais - disse a irmã, batendo com mão na mesa, à laia de início de conversa - isto não pode continuar assim. Talvez não estejam convencidos, mas eu sim. Não quero, em frente deste monstruoso animal, pronunciar o nome do meu irmão, unicamente afirmo: devemos desembaraçar-nos dele. Tentámos de tudo o que era humanamente possível para tomar conta dele e suportá-lo com paciência; creio que ninguém nos pode censurar seja do que for. - Ela tem toda a razão - disse o pai para si mesmo. A mãe, que não conseguia retomar uma respiração normal, levou a mão à boca e, revirando os olhos, tossiu surdamente. (…)

Mas Gregor, de modo algum, pensava em meter medo a quem quer que fosse, sobretudo à sua irmã. (…)

«E Agora?», perguntou para si mesmo Gregor, olhando em volta, na obscuridade. Bem depressa descobriu que não conseguia mover-se. Não ficou surpreendido com isso; ter conseguido até agora deslocar-se com aquelas patinhas raquíticas, isso é que era pouco natural. Entretanto, sentia um aparente bem estar, apesar de sentir dores um pouco por todo o corpo, mas tinha a impressão de que se tornaram gradualmente mais fracas e que acabariam por desaparecer. A maçã podre cravada no seu dorso e a parte inflamada à sua volta, sob uma camada de pó pegajosa, já não se faziam sentir. Voltou a pensar na sua família com ternura e amor. A ideia de que ele deveria desaparecer era mais firme nele, possivelmente, do que na sua irmã. Permaneceu naquele estado de sonho vago e apaziguador até ao momento em que as três horas da madrugada soaram no relógio. Ainda viu a claridade que alastrava diante da sua janela, lá fora. Depois, finalmente, sem nada poder fazer, a cabeça descaiu e deixou escapar debilmente um último sopro de vida. (…)


in: A Metamorfose, de Franz Kafka, Ed. Leya, Portugal, 2013

15 novembro 2025

Se Isto é Um Homem | Primo Levi

As suas mulheres foram ciosas e rápidas, de forma a terem tempo para o luto; e quando tudo ficou pronto, as fogaças cozidas, as trouxas atadas, então tiraram os sapatos, soltaram os cabelos, dispuseram no chão as velas fúnebres, acenderam-nas conforme o costume dos antepassados, sentaram-se no chão em círculos para a lamentação, e toda a noite rezaram e choraram. Muitos de nós parámos diante da sua porta, e nas nossas almas desceu, nova para nós, a dor antiga do povo que não tem terra, a dor sem esperança do êxodo renovado século após século. (…)

Toquei o fundo. A apagar o passado e o futuro aprende-se rapidamente, se a necessidade empurra. Passados quinze dias da chegada, já sofro da fome regulamentar, a fome crónica desconhecida dos homens livres, que provoca sonhos de noite e se espalha em todos os membros dos nossos corpos; já aprendi a não me deixar roubar, pelo contrário, se encontro alguma colher, um cordel, um botão que possa apanhar sem perigo de punição, ponho-os no bolso e passo a considerá-los meus de pleno direito. Já apareceram, na sola dos meus pés, as chagas que não saram. Empurro vagões, trabalho com a pá, canso-me à chuva, tremo ao vento; até o meu próprio corpo já não me pertence. (…)

Vamos morrer todos, estamos prestes a morrer; se me sobrarem dez minutos entre o acordar e o trabalho, quero dedicá-los a outras coisas, fechar-me em mim próprio, fazer o balanço, ou então olhar o céu e pensar que talvez esteja a vê-lo pela última vez; ou mesmo só deixar-me viver, conceder-me o luxo de um breve ócio. (…)

Que somos escravos, privados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, condenados quase com certeza à morte, mas que uma faculdade nos restou, e temos de a defender com todo o vigor porque é a última: a faculdade de negar o nosso consentimento. Temos portanto, sem dúvida de lavar a cara sem sabão na água suja, e limparmo-nos ao casaco. Temos de engraxar os sapatos, não porque a tal obriga o regulamento, mas por dignidade e por propriedade. Temos de caminhar direitos, sem arrastar as socas, certamente não em homenagem à disciplina prussiana, mas para nos mantermos vivos, para não começarmos a morrer. (…)

Os dias são todos iguais, e não é fácil contá-los. (…) Homens e mais homens, escravos e patrões, os patrões eles próprios escravos; uns empurrados pelo medo, os outros pelo ódio, todas as outras forças emudeceram. Todos são nossos inimigos ou nossos rivais. (…)

Não se deve sonhar: o momento de consciência que acompanha o acordar é o sofrimento mais intenso. Mas não nos acontece muitas vezes, e os sonhos não duram muito tempo: mais não somos do que animais cansados. (…)

A fama de sedutor, de «organizado», provoca, ao mesmo tempo, inveja, escárnio, desprezo e admiração. Quem deixa que o vejam, enquanto come qualquer coisa de «organizado» é julgado muito severamente; trata-se de uma falta grave de pudor e de diplomacia (…)

21. Janeiro. (…) Desejava apenas uma coisa: ficar na cama debaixo dos cobertores, abandonar-me ao cansaço total de músculos, nervos e vontade, esperar que acabasse, ou não, era a mesma coisa, como um morto. (…)


 in: Se Isto é um Homem, de Primo Levi, Coleção Mil Folhas, Porto, Maio 2002 (1ª Ed. 1958) 

Devaneios com Linhas | Exposição

 


in: Devaneios com Linhas, de Ana Gaspar, 2019, 2020 e 2021

28 outubro 2025

Alice no País das Maravilhas | Lewis Carroll

 «Era muito mais agradável em casa, quando não estava sempre a crescer e a encolher, nem a receber ordens de ratos e de coelhos» pensou a pobre Alice. «Quase me arrependo de ter descido pela toca do coelho… E, no entanto… no entanto… Este género de vida é muito interessante! O que me terá acontecido? Era isso que gostava de saber! Dantes, quando lia contos de fadas, julgava que aquelas histórias não aconteciam, e agora estou no meio de uma! Deviam escrever um livro acerca de mim - ah, isso é que deviam! Quando eu for grande hei-de escrevê-lo.» (…)

- Lamento não ser capaz de lhe explicar melhor - retorquiu Alice, com toda a delicadeza. - Para começar, porque nem eu entendo. E depois, porque é muito confuso ter vários tamanhos diferentes num só dia. (…)

- Mas oito centímetros é uma altura excelente! - ripostou a Lagarta, levantando-se (media exatamente sete centímetros e sessenta e dois milímetros). 

- Mas eu não estou habituada - defendeu-se a pobre Alice, numa voz chorosa. E para consigo: «Quem me dera que estes bichos não se ofendessem tão facilmente!» (…)

- Que género de pessoas moram aqui? 

- Naquela direção - disse o Gato, acenando a pata direita - vive o Chapeleiro. E naquela direção (acenou a outra pata) vive a Lebre de Março. Podes visitar quem tu quiseres: são ambos malucos.

- Mas eu não quero estar no meio de malucos - observou a Alice. 

- Oh, não podes evitá-lo. Aqui, somos todos malucos. Eu sou maluco. Tu és maluca.

- Como é que sabes que eu sou maluca? 

- Deves ser, ou não terias chegado até aqui. (…)

- Se conhecesses o Tempo tão bem como eu, não falarias assim - disse o Chapeleiro. - O Tempo é um senhor. (…) Ele não suporta que o marquem. Mas, se o tivesses tratado como deve ser, ele faria com o relógio quase tudo o que quisesses. (…)

- Bom, eu não tinha completado o primeiro verso - continuou o Chapeleiro - quando a Rainha deu um salto e berrou: «Ele está a matar o tempo! Cortem-lhe a cabeça!» 

- Que crueldade horrorosa! exclamou Alice.

- E desde aí, o relógio deixou de fazer o que lhe peço - concluiu o Chapeleiro, com tristeza. - Agora são sempre seis da tarde. (…)

- Juro que nunca mais hei-de voltar ali! - exclamou Alice, enquanto caminhava em direção à floresta. (…) Ainda mal acabara de dizer isso quando notou que uma das árvores tinha uma porta por onde se podia entrar. «Muito interessante», pensou. «Mas hoje é tudo interessante. Acho que vou já entrar.» E assim foi. (…) Então, atravessou aquela passagem estreita e viu-se, finalmente, no lindo jardim de flores viçosas e fontes refrescantes. (…)

Havia uma grande roseira à entrada do Jardim. Dava rosas brancas, mas três jardineiros estavam muito atarefados a pintá-las de vermelho. (…) 

Alice nunca vira um campo como aquele, todo aos altos e baixos. As bolas eram porco-espinhos vivos, os maços eram flamingos (também vivos) e os soldados tinham de se dobrar em semicírculo para formarem os arcos, apoiados nos pés e nas mãos.

- Assim é - concordou a Duquesa. - E a moral que devemos retirar daí é: «Oh, é o amor! É o amor que faz girar o mundo!» (…)

E a moral disso é: «Olha pelo significado, que o significado olha por si.» (…)


in: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, Editora Fábula, Lisboa, 2022

30 setembro 2025

Perto do Coração Selvagem | Clarice Lispector

 Mente-se e cai-se na verdade. (…) Ser livre era seguir-se afinal e eis de novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro de si. Perdido pois o gosto de imaginar. (…)

Lembro-me de um estudo cromático de Bach e perco a inteligência (…) Quem sou? (…)

Piedade é a minha forma de amor. (…) Por ter sofrido e continuar docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, Deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. (…)

Era um pouco de febre sim. Se existisse pecado, ela pecara. Toda a sua vida fora um erro, ela era fútil. Onde estava a mulher da voz? Onde estavam as mulheres apenas fêmeas? (…)

Ser feliz é para se conseguir o quê? (…) Não gosto de me divertir, disse Joana com orgulho. (…)

Desceu das rochas, caminhou fracamente pela praia solitária até receber a água nos pés. (…) Era uma coisa que vinha do mar, que vinha do gosto de sal na boca, e dela, dela própria. Não era tristeza, uma alegria quase horrível (…)

A impossibilidade de ultrapassar a eternidade era a eternidade. (…)

O pensamento só era igual à música criando-se. (…)

Era a segunda vertigem num só dia! (…) Com mais raiva de tudo (…) No entanto, não era raiva, era amor. Amor tão forte que só se esgotava no ódio. (…) Sozinha. (…)

Liberdade é pouco, o que desejo ainda não tem nome. (…) Grito-me. (…) O movimento explica a forma. (…)

A plenitude tornou-se dolorosa e pesada e Joana era uma nuvem prestes a chover. (…) Sofrer pelo que a tornara terrivelmente feliz! (…) Sabia que o professor adoecera e fora abandonado pela mulher. (…) 

Porque tudo segue o caminho da inspiração. O início de toda a construção é porquê? (…)

Jamais se entregara. (…) É que tudo o que tenho não se pode dar. (…) Tudo o que sei nunca aprendi e nunca poderei ensinar. (…)

A solidão está misturada à minha essência. (…) Está gravado em mim que o amor cessa na morte. (…) Pois seu corpo, nunca precisava de ninguém, era livre. (…)

Eternidade é não ser. (…) Imortal para todo o sempre. (…) Uma nova matéria e não sabia (…)

Nada impedirá meu caminho até à morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo. 


in: Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, Companhia das Letras, Lisboa, Março 2025

13 agosto 2025

Uma Sociedade | Virginia Woolf

- Poesia! Poesia! - gritámos, impacientes.

- Lê-nos poesia! - Nem consigo descrever a desolação que se apoderou de nós quando ela abriu um pequeno volume e começou a declamar a verbosa e sentimental tolice que continha. (…)

- Deve ter sido escrito por uma mulher - atalhou uma de nós.

Mas não. Ela disse-nos que fora escrito por um jovem, um dos mais célebres poetas do momento. Mal podem imaginar o estado de choque em que esta descoberta nos deixou. (…)

Ficámos todas em silêncio; e, nesse silêncio, ouvia-se a desgraçada da Poll a soluçar: 

- Porquê que o meu pai me ensinou a ler? 

Clorinda foi a primeira a cair em si.

- A culpa é toda nossa - disse. Todas nós sabemos ler. Mas nenhuma de nós, tirando a Poll, se deu ao trabalho de o fazer. Eu, por exemplo tomei como certo que era dever de uma mulher passar a juventude a dar à luz. Venerava a minha mãe por ter tido dez filhos; a minha avó, que pôs quinze neste mundo; a minha própria ambição, devo confessar, era ter uma vintena. Ao longo de todo este tempo, sempre acreditámos que os homens eram igualmente laboriosos e que as suas obras tinham igual mérito. Enquanto dávamos à luz os filhos, eles, julgávamos nós, davam à luz os livros e as pinturas. Nós povoámos o mundo. Eles civilizaram-no. Mas, agora que sabemos ler, o que nos impede de julgar os resultados? Antes de trazermos outra criança ao mundo, devemos prometer que iremos descobrir a verdadeira natureza deste. 

Por isso, constituímo-nos numa sociedade destinada a fazer perguntas. (…)

- Desde Safo, não houve mais nenhuma mulher de primeira categoria … - começou a Eleanor, citando um semanário. (…)

- Assim, nunca mais chegaremos a nenhuma conclusão - queixou-se. - Como a civilização parece muito mais complexa do que imaginámos, não seria melhor limitarmos-nos à nossa questão original? Concordámos que o objetivo da vida era produzir boas pessoas e bons livros. (…)

- Assim que aprender a ler, só há uma coisa em que podes ensiná-la a acreditar, e é em si mesma. (…)

 

in: Uma Sociedade, de Virginia Woolf, Penguim Clássicos, Nº4, Lisboa, 2025

28 julho 2025

A Dama de Espadas | Puskine

O jogo interessa-me muito- disse Hermann - mas não posso arriscar o necessário para obter o supérfluo. 

- Hermann é alemão: é económico, está tudo dito - observou Tomski. - Mas, se há alguém a quem eu, neste caso, não compreenda, é a minha avó, a condenssa Ana Fédovna. (…) - Ora essa! - disse Narumof. - Que pode haver de estranho em que uma mulher de oitenta anos não jogue? (…) - Pois então, ouçam.

Antes de mais, importa dizer-lhes que a minha avó, há uns sessenta anos, foi a Paris, onde fez furor. Seguiam-na aos grupos; toda a gente queria ver a Vénus Moscovita. Richelieu, que lhe fez corte, quase se suicidou por ela não corresponder aos seus desejos. Nesse tempo as damas tomavam atitudes de rainhas. (…) Uma noite, na corte, a minha avó, que estava a jogar contra o duque de Orleães, perdeu (…) confessou a sua dívida ao meu avô; convidou-o a pagá-la. (…) Temia-a como ao fogo. (…) Em resumo, recusou-se a pagar. A avó deu-lhe uma bofetada e, para consumar a desgraça, foi dormir noutro quarto. (…) 

Mas, meu caro Conde - respondeu a minha avó - já lhe disse que não ficámos com dinheiro nenhum! - Nem é preciso - replicou Saint- Germain. - Ora faça favor de ouvir o que lhe vou dizer … E revelou-lhe então um segredo que qualquer de nós pagaria por um bom preço … Os jovens jogadores redobraram de atenção. Tomski acendeu o cachimbo, tirou uma fumaça e continuou: (…) 

Como está o tempo? Há vento, não? - Não, excelência - respondeu o criado de quarto - está muito agradável. - Vocês respondem sempre ao acaso. Abre a janela. Bem dizia eu! Está vento; e um vento desabrido. Manda desatrelar! Lisanka, não saímos. (…) "E é isto a minha vida!" pensou Lisavete Ivanovna. 

 Lisavete Ivanovana era na verdade, muito infeliz. (…) Era avara e comprazia-se num pio egoísmo, como todos os velhos para os quais o amor morreu e que são hostis ao presente. (…) Vestida e pintada à moda antiga, ficava sentada a um canto, adorno repugnante e obrigatório dos salões de baile. (…) Em sociedade, o seu papel era dos mais miseráveis. Todos a conheciam, ninguém reparava nela. (…)

A condessa não respondeu. Hermann apercebeu-se então de que estava morta. (…) Ninguém chorava (…) A condessa era tão velha que a sua morte não podia surpreender ninguém e há muito tempo os parentes a consideravam como já não fazendo parte deste mundo. (…) 

Mas a mulher vestida de branco aproximou-se mais, colocou-se diante dele e Hermann reconheceu a condessa. (…) Vim a tua casa contra a minha vontade - disse em voz firme - Mas foi-me ordenado que satisfizesse o teu pedido. Terno … sete … às … ganharão a seguir,  mas é preciso que jogues só uma carta por noite e que nunca mais voltes a jogar em toda a tua vida. Perdoar-te-ei a minha morte com a condição de casares com a minha protegida Lisavete Ivanovna. (…) e escreveu a narrativa da sua visão. (…) Hermann bebeu um copo de limonada e voltou para casa. (…)

O às ganha! Disse Hermann - A sua dama perdeu - disse Tchekalinski com suavidade. Hermann estremeceu: com efeito, em vez de um ás, tinha na mão a dama de espadas. Não acreditava no que lhe diziam os seus olhos, não compreendia qual a razão do seu equívoco. No mesmo instante pareceu-lhe que a dama de espadas piscava maliciosamente um olho e lhe sorria. De súbito, reparou na semelhança extraordinária … - A velha! - exclamou espantado. Tchekalinski recolhia as notas. (…)

Hermann enlouqueceu. (…) murmura numa obcecação contínua: «Terno, sete, às! Terno, sete, dama!»


in: A Dama de Espadas, de Puskine, Publicações Europa-América, Lisboa, Julho de 2007 (Diário de Notícias)

12 julho 2025

O Coração da Bruxa | Genevieve Gornichec

 Asgard era um lugar novo, apareceu uma bruxa vinda dos confins dos mundos. Conhecia muitos feitiços antigos, mas era especialmente habilidosa com seior, uma magia que permitia viajar para fora do corpo e adivinhar o futuro. (…)

Espetaram-lhe lanças e queimaram-na três vezes, e três vezes a bruxa renasceu. (…) Quando os Vanir souberam do modo como os Aesir a estavam a tratar, ficaram furiosos, e assim foi declarada a primeira guerra no cosmos. De terceira vez que renasceu, Gulleveig fugiu, no entanto, deixou algo para trás: o coração trespassado por uma lança e ainda a fumegar na pira. Foi aí que ele o encontrou. (…) 

Encontrou a bruxa a contemplar a deusa floresta e as montanhas que se viam ao longe (…) o sol brilhava, mas ela estava sentada à sombra, encostada ao tronco de uma árvore, com as mãos cruzadas no colo. (…)

És uma mulher difícil de encontrar (…) Estava ali para devolver o que ela deixara no salão de Odin (…) algo o atraía nesse dia, até à floresta de ferro, com o coração da bruxa no saco. (…) A princípio a bruxa não respondeu, optando por estudar o estranho homem que se aproximava. (…) Admiro sinceramente o teu trabalho. (…) consegues semear o caos onde quer que vás. Fazes com que os poderosos lutem pelos seus talentos. É realmente impressionante. - Não era essa a minha intenção - replicou a bruxa, passado um momento. (…)

Angrboda fez a sua casa no extremo oriental da Floresta de Ferro, onde as árvores se agarram precariamente às montanhas escarpadas (…)

Não sabia quanto tempo passara desde que se tinham encontrado junto ao rio, mas o seu cabelo castanho-claro já tinha crescido, liso e bonito. (…)

E assim Skadi construiu-lhe uma mesa, dois bancos e um estrado de cama, que encostaram à parede e cobriram com cobertores e peles (…) mas a melhor criação da caçadora foi a última: uma cadeira, para colocar junto à lareira. Angboda gravou-a com padrões e espirais e colocaram peles sobre o assento para ficar mais confortável. (…)

Desde que chegara à Floresta de Ferro, depois de ter sido queimada, os bosques tornavam-se mais verdes a cada primavera (…)

Loki (…) quando deixo o meu corpo sinto-me ligada a tudo. Sou parte de todos os mundos (…) coisas que ainda não aconteceram (…)

Ali ficaram a olhar uma para a outra (…) passou o dedo numa das espirais que gravara no braço à muito tempo! (…)

Havia aqui uma bruxa que deu à luz os lobos (…)

Com poções e feitiços curou os doentes (…) aquela ajuda parecia-lhe natural. (…)

Dormia quase sempre sozinha, sob a capa, nas florestas ou nas montanhas (…) os únicos ornamentos que possuía eram as contas de âmbar, o cinto e a faca (…) Por vezes a cabeça doía-lhe tanto que nem sequer conseguia andar (…) 

Concebe o último desejo a uma mulher morta - sussurrou Skadi (…) e deixa-me partilhar a tua cama, partilhá-la verdadeiramente, esta e todas as noites até ao fim. E, Angrboda assim fez. Os meses que se seguiram pareciam quase um sonho (…)

Quando o dera à luz, era apenas uma cobra verde, pequena, agora a sua cabeça assemelhava-se mais à de um dragão. (…)

Quando voltou a abrir os olhos (…) envolta dos ombros da amante. (…) Conseguiste. Está na hora. (…) 

(…) a faca de cabo de cifre de Angboda, aquela que usava no cinto (…) olhou para a espada à cintura de Skadi e perguntou: - Era do teu pai? (…)


in: O Coração da Bruxa, de Genevieve Gornichec, Editora Minotauro, 2023

10 junho 2025

Sobre a Serenidade do Homem Sábio | Séneca

O homem sábio está seguro, e nenhuma injúria nem insulto pode afectá-lo. (…)

Sim, irão tentar, mas a injúria não o alcançará. O homem sábio está tão longe dos seus inferiores, que nenhum impulso maligno manterá a sua força até o alcançar. (…)

Aliás, não sei se a sabedoria não se demonstra melhor pela calma no meio do incómodo. (…)

Sozinho e idoso (…) carrego comigo tudo o que alguma vez tive. (…)

As muralhas que protegem o homem sábio estão a salvo do fogo e das invasões hostis; não têm passagem; são altas, impermeáveis, divinas. (…)

Além disso, aquilo que fere deve ser mais forte, do que aquilo que é ferido. Ora a maldade não é mais do que a virtude, logo, o sábio não pode ser ferido. Só os maus tentam ferir os bons. Os homens bons vivem em paz e entre si; os maus são igualmente perversos com os bons e uns com os outros. (…)

Ora, o homem livre de erros não se perturba; ele é senhor de si mesmo, gozando de repouso mental profundo e tranquilo. (…) Pensa que o homem sábio pertence a esta classe - a dos homens que, pela prática longa e fiel, adquiriram força para suportar e causar toda a violência dos seus inimigos. (…)

Há outras coisas que atingem o homem sábio (…) como a dor física e a fraqueza, a perda de amigos e filhos, e a destruição de seu país em tempo de guerra (…) O que faz ele então? Recebe alguns golpes, mas quando se eleva acima deles, cura-os e põe-lhes fim. (…)

O homem sábio lida com todos os homens do mesmo modo, que o médico lida com todos os pacientes. (…) O sábio entende que aqueles que se pavoneiam em togas roxas, saudáveis e bronzeados, têm um problema mental, considera-os doentes e loucos. Por isso não se irrita com eles. (…)

A vergonha da pobreza atormenta alguns homens, e quem a esconde faz dela uma vergonha para si. Por isso se fores o primeiro a reconhecê-la, tiras o tapete dos que te insultam e escarnecem de ti - ninguém ri de quem começa por rir de si próprio. (…)

Por vezes perderemos até o que nos faria bem, enquanto torturados por essa dor feminina de ouvir algo que não é do nosso agrado. (…) A liberdade consiste em elevar a mente acima das injúrias e tornar-se alguém cujos prazeres vêm apenas de si próprio. (…)

Quanto mais nobre um homem for por nascimento, reputação ou herança, mais corajosamente se deve comportar, lembrando-se que os homens mais altos ficam na linha da frente na batalha. (…) Mantém o posto que te foi atribuído pela natureza. Perguntas tu: que posto é esse? O de ser homem. (…) Não lutes contra a tua própria vantagem e, até que tenhas encontrado o caminho para a verdade, mantém viva essa esperança na tua mente (…) É do interesse da humanidade que haja alguém inexpugnável, alguém contra quem a fortuna não tenha poder. (…)

Isso não pode ser feito sem ócio (…) Na verdade o pior dos nossos males é mudarmos os nossos vícios. (…) 

O dever de um homem é ser útil aos seus semelhantes; se possível a muitos deles; não o sendo, ser útil a alguns; não o sendo, ser útil aos seus vizinhos, e, não o sendo, a si mesmo. Pois, quando ele ajuda os outros, promove os interesses gerais da humanidade. (…)

Compreendamos que existem duas repúblicas: uma vasta e verdadeiramente «pública», que contém deuses e homens; (…) e outra à qual fomos designados pelo acidente do nascimento. (…) Alguns homens servem os dois Estados, o maior e o menor (…) Podemos servir a comunidade maior mesmo quando estamos em ócio. (…) Investigamos o que é virtude, se ela é uma ou muitos, se é a Natureza ou a Arte que torna os homens bons. (…)

A grande paixão pelo desconhecido (…) a nossa curiosidade (…) A Natureza deu-nos uma disposição inquiridora e, conhecendo bem a sua própria habilidade e beleza, produziu-nos para sermos espectadores das suas vastas obras. (…)

Porque mesmo a contemplação não é desprovida de ação. (…)

Além disso, há três tipos de vida, e é uma questão recorrente qual dos três é o melhor: o primeiro é dedicado ao prazer, o segundo à contemplação e o terceiro à ação. (…)

Um homem pode viver no ócio; não apenas suportando-o, mas escolhendo-o. (…)

      

in: Sobre a Serenidade de Um Homem Sábio, de Séneca, Publicado em Portugal por: Ideias de Ler, Porto, Janeiro de 2025

08 abril 2025

Eros | Anne Carson

 Foi Safo quem primeiro chamou a Eros amargo e doce. (…)

A experiência de muitos amantes validaria tal cronologia, especialmente na poesia, em que a maior parte dos amantes termina mal. (…) O amor e ódio constroem entre si a maquinaria do contacto humano. (…) «E o ódio começa onde o amor parte …» sussurra Annak. (…)

Eros derruba um amante com o choque entre quente e frio no poema de Anacreonte (…) ao passo que Sófocles compara a experiência a um pedaço de gelo a derreter em mãos quentes. (…)

O desejo não é simples. Em grego, o acto de amar é um acto de misturar, e o desejo derrete os membros. Fronteiras do corpo, categorias do pensamento confundem-se. O deus que derrete membros procede para quebrar o amante, como faria um inimigo no campo de batalha épico. (…)

A palavra grega Eros denota «escassez», «a carência», «desejo pelo que está em falta». O amante quer o que não tem. (…) Um espaço deve ser mantido, ou o desejo acaba. (…) 

Foi Safo quem assemelhou uma rapariga a uma maçã. (…)

Eros tem que ver com fronteiras. Ele existe porque certas fronteiras existem (…) a fronteira que engendra Eros: a fronteira de carne e ser entre ti e mim. (…) Quando necessito de ti, uma parte de mim desaparece: a minha necessidade de ti toma parte de mim. Assim raciocina o amante no limite de Eros. (…) Os seus pensamentos viram-se para questões de identidade pessoal: ele deve recuperar e reincorporar o que se perdeu para poder ser uma pessoa completa. (…)

Os interlocutores são levados a reconhecer que todo o desejo é anseio por aquilo que propriamente pertence àquele que deseja, mas foi de alguma forma perdido ou subtraído - ninguém explica como. (…) Assim, Sócrates dirige-se aos dois rapazes, os seus interlocutores, e diz: (…) o desejo e o amor e o anseio são dirigidos àquilo que se assemelha ao próprio, segundo parece. Por Isso (…) pertencem um ao outro. (…) 

O desejo muda o amante. «Como é curioso»: ele sente a mudança acontecer, mas não tem categorias à mão que a avaliem. A mudança dá-lhe um relance sobre uma versão do eu que ele ainda não conhecia. (…) O amante aprende à medida que a perde, a valorizar a entidade delimitada de si próprio. (…)

Quando as pessoas começam a aprender a ler e a escrever (…) se a presença ou ausência de literacia afeta o modo como uma pessoa entende o seu próprio corpo, sentidos e eu, esse efeito irá influenciar a vida erótica. (…) 

Controlar as fronteiras é possuir-se a si próprio. (…)

Asas e respiração transportam Eros do mesmo modo que asas e respiração comunicam palavras: torna-se aqui aparente uma analogia antiga entre linguagem e amor. (…)

A imaginação é o centro do desejo. Age no centro da metáfora. É essencial para a actividade da leitura e da escrita. (…) Ao escrever sobre desejo, os três poetas arcaicos criaram triângulos com as palavras. (…) envolver dois factores (amante e amado) em termos de três (amante, amado e o espaço entre eles, de alguma forma tornado real). (…)

O poder de mudar a realidade eroticamente. (…)

As palavras que lemos e as palavras que escrevemos nunca dizem exatamente o que queremos dizer (…) Eros está entre. (…)

O tempo passa. O tempo é um riacho que flui (…)

A este estranho poder que a escrita tem (…) No Fedro é um jovem que se apaixonou por um texto escrito. (…) A escrita Fedro, tem esse estranho poder, na verdade muito se assemelha à pintura. (…)

Jardins e escritores (tempo)… Amantes e leitores têm desejos semelhantes (…) No meio está o Eros. (…)

Como é que acontecimentos exteriores entram e tomam posse da psique de uma pessoa? Eros toma conta da mente e do corpo (…) Ninguém pode lutar contra Eros! (…)

Os fatos são os de que Eros muda tão drasticamente que pareces tornar-te uma pessoa diferente. (…)

Põe-nos asas na alma. (…) As asas são um instrumento de dano e de poder irresistível. (…) «Faz voar o meu coração» (…) 

Como poderia eu fugir a pé de quem me persegue com asas? (…) Têm raízes naturais em cada alma, um resíduo dos seus inícios imortais. (…) São as tuas asas a brotar. É o início daquilo que pretendes ser. (…)

A única preocupação do amante é estar com quem ama. (…)

Ao adicionar pt a Eros, os deuses criam Pteros, que é um jogo com a palavra grega Pteron, que significa «asa». (…) O desejo envolve uma «necessidade que dá asas». 

Pteros é mais verdadeiro que Eros. (…)

Eros, algo que se move no espaço intermédio. E é isso que há de mais erótico em Eros. (…) 

Uma cidade sem desejo é uma cidade sem imaginação. (…) Um acto de imaginação a que se chama phantasia. (…)  

Eros faz de todo o homem um poeta! (…)

Quando a mente se dispõe a conhecer abre-se um espaço do desejo e torna-se evidente a ficção (…)


in: Eros, Amargo e Doce, de Anne Carson, Edições 70, Lisboa, Out. 2024

21 fevereiro 2025

Lady Susan | Jane Austen

Minha querida Fanny:

Sou a criatura mais feliz do mundo, uma vez que acabo de receber uma proposta de casamento do senhor Watts. É a primeira que recebo e não sei como avaliá-la. Que triunfo o meu nome sobre as Dutton! Não tenho intenção de a aceitar, pelo menos é isso que penso, mas, como não estou completamente certa, dei-lhe uma resposta um tanto ambígua e fui-me embora. E agora, minha querida Fanny, queria que me aconselhasse se devo, ou não, aceitar a proposta. Mas, para que possa julgar os seus méritos e as circunstâncias da situação, far-lhe-ei um relato dos mesmos. Trata-se de um homem bastante mais velho, de uns trinta e dois anos, muito feio, tão feio que mal consigo olhar para ele. É extremamente desagradável e odeio-o mais do que a qualquer outra pessoa no mundo. Tem uma fortuna enorme e propõe -se pôr muitos bens em meu nome no contrato pré-nupcial, mas … goza de muito boa saúde. Resumindo, não sei que fazer. Se o rejeito, é perfeitamente capaz de ir pedir Sophia em casamento. Se ela recusar, pede a Georgiana e eu não seria capaz de ver nenhuma das duas casas antes de mim. Se aceito, sei que vou ser uma desgraçada o resto da minha vida, uma vez que tem um temperamento terrível, sendo irritante, extremamente ciumento e tão mesquinho, que viver a seu lado não é viver. (…) E prometeu-me que iria ter uma nova carruagem para a ocasião. No entanto, quase acabámos por discutir acerca da cor, porque eu insisti que deveria ser azul com pequenas bolas prateadas e ele declarou que deveria ser cor de chocolate e lisa. Para me provocar ainda mais, disse-me que deveria ser tão baixa como a antiga, de que era proprietário. Assim, juro que não me caso com ele. Disse-me que voltaria amanhã para conhecer a minha resposta final, pelo que julgo que devo agarrar enquanto posso. Sei que serei invejada pelas Dutton e poderei acompanhar Sophy e Georgiana em todos os bailes de inverno. Mas de que servirá tal coisa, se o mais provável é que não me deixe ir, dado que odeia dançar e é incapaz de pensar que alguém possa gostar de algo que ele odeia. Por outro lado, passa o dia a dizer que as mulheres deveriam estar sempre em casa e tolices do género. Acho que nunca me vou casar com ele. (…)

- Por favor, Sophy, diga-me, pretende casar-se?

- Casar-me! Não faço a menor intenção. Mas, porque é que me pergunta? Conhece alguém que quer pedir-me em casamento? (…)

- Por favor, minha senhora, não force a Menina Stanhope a comportar-se com delicadeza. Se ela não aceitar a minha mão, pode oferecê-la a outra pessoa, uma vez que, se é certo que sinto por ela especial predileção, acima das suas irmãs, é-me indiferente casar com qualquer uma das três.

Será possível imaginar alguém mais canalha! Sophy ficou vermelha de raiva e eu senti-me terrivelmente despeitada. 

- Bem, nesse caso - disse Mary em tom depreciativo - e uma vez que devo fazê-lo, casar-me-ei com o senhor Watts.  

- Sempre pensei, menina Stanhope, que fazendo um pedido como lhe fiz, e em condições tão vantajosas, não haveria grande dificuldade em aceitá-lo. (…)

- Lambre-se do estipulado para os meus alfinetes: duzentas libras por ano. 

- Cento e setenta e cinco, minha senhora. 

- Duzentas, caro senhor - disse a minha mãe. (…)

O senhor Watts dispunha-se a continuar, quando Mary o interrompeu, dizendo:

- Deve construir-me uma estufa muito elegante e enchê-la de plantas até ao teto. Tem de permitir passar todos os invernos em Bath, todas as primaveras na cidade, todos os verões em viagem e todos os outonos numas termas. Se estivermos em casa o resto do ano (Sophy e eu rimo-nos), terá de se responsabilizar pela  organização de bailes e festas durante o tempo todo. Tem de mandar construir um salão com esse objetivo e um teatro onde se possa representar. A primeira obra de teatro que aí se representará será Quem é o Homem e eu interpretarei Lady Bell Bloomer.

- E a menina Stanhope pode dizer-me o que vou obter em troca de tudo isso? - perguntou o senhor Watts.

- O que vai obter? Vai ver-me contente!

- Seria estranho que não o estivesse. No entanto, minha senhora, as suas expectativas são excessivamente altas para a mim e, agora, devo dirigir-me à menina Sophy. Talvez as dela não sejam tão elevadas. 

- Engana-se ao supor tal coisa, cavalheiro - disse Sophy - porque, apesar de as minhas expectativas não serem da mesma ordem que as da minha irmã, são tão elevadas como as dela, uma vez que quero que o meu marido tenha bom caráter e seja alegre. Que em todos os seus atos, pense na minha felicidade e que me ame com constância e sinceridade. 

O senhor Watts ficou a olhá-la perplexo. (…)

- Graças a Deus que se foi embora! Como o odeio!

Em vão, a mamã tentou explicar-lhe como era impróprio detestar a pessoa com quem se ia casar, ela continuou a falar da sua aversão àquele homem e do muito que gostaria de nunca mais o ver. Que belo casamento há de ser! 

Adeus, minha querida Anne.

Sua amiga afetuosa (…)


in: Lady Susan, Escritos da Juventude, de Jane Austen, Cranford Collection, 2022

14 janeiro 2025

Thomas More | Peter Ackroyd

 No ar, pairariam todos os odores da madeira, da pedra e do fumo, das ervas secas e das carnes assadas. (…) Estas famílias ricas da Idade Média tardia viviam confortavelmente. (…)

A vida escolar podia, porém, ser severa, e o castigo, ou a ameaça de castigo, era um aspeto permanente da educação de uma criança. Há toscas xilogravuras que nos mostram o interior de uma sala de aula; em algumas, o mestre segura um livro, noutras, empunha uma vara; em Utopia, More fala dos maus professores que preferem bater a educar os seus alunos. (…)

Em A Dialogue of Confort Against Tribulation, escrito na cela de prisão que foi a sua última morada neste mundo, More condenava o «buliço labirinto circular desse mal a que chamamos negócios». (…)

Andava agora constantemente rodeado por acompanhantes e a sua eminência na corte real era tal que, na Primavera do ano seguinte, foi-lhe concedido o lucrativo cargo de vice-tesoureiro. Neste papel, estava encarregado de supervisionar o trabalho da Fazenda, onde os funcionários registavam o apropriado desembolso ou coleta de taxas. (…) O vice-tesoureiro tinha direito ao titulo de cavaleiro, segundo o costume, e assim foi que Master More se viu transformado em Sir Thomas More. Tornara-se, nas palavras do próprio rei, «o nosso fiel e amado conselheiro Thomas More, agora feito cavaleiro». Era eques auratos, obrigado a usar a corrente de cavaleiro e esporas douradas quando montasse. Era um cavaleiro de ar jovial, mas por detrás desta assunção de condição continuava a haver uma tradição viva de honra e cavalheirismo que More teria absorvido de Chaucer, Malory e Lydgate: o «parfit gentil» cavaleiro era alguém que amava «a verdade e a honra, a liberdade e a cortesia». (…)

No seu Elogio da Loucura, Erasmo tinha já deixado claro que os loucos são na verdade sábios em comparação com a sabedoria vulgar do mundo, e More parecia ficar deliciado quando o duque de Norfolk lhe censurava a loucura e, em Coventry, troçou dele por ser «louco». Era louco como Sócrates e Luciano eram loucos; eram os verdadeiros sábios da humanidade que, na sua loucura, recusavam aceitar as loucuras da era. Quando Richard Pace foi criticado por usar uma capa de bobo numa mascarada, More terá supostamente respondido: «Não, não. Desculpai-o. É menos pernicioso para a comunidade quando os homens sábios se disfarçam de tolos na brincadeira do que quando os tolos se disfarçam de homens sábios a sério.»

O Bobo é maleável e sabe representar muitos papéis, como o próprio More fazia; e sabe também dizer a verdade através do humor. (…)

A guerra, a heresia e a anulação eram, pois, as três grandes preocupações que afligiam o espírito de More. (…)

More ajoelhou e o carrasco ofereceu-se para lhe vendar os olhos; mas ele recusou e cobriu o rosto com um pano de linho que levara consigo. (…) Assim terminou a vida de Thomas More, um dos poucos londrinos alguma vez canonizados e o primeiro laico inglês a ser beatificado como mártir.


in:  Thomas More, Biografia, de Peter Ackroyd, Bertrand Editora, Lisboa, 2003