Aguarelas Finas, Le Corbusier | Maison La Roche, Paris

21 fevereiro 2026

A Paixão | Almeida Faria

Piedade

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e entregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os ossos da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima - deve ser reumático - mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface, ou então ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera (…)

Moisés 

Lençol não existe na cama de Moisés; tão-só o cobertor castanho já sem pelo, puído de sebo e de velhice; Moisés acorda muitas vezes de noite; é noite alta com estrelas, uma lua distante, no círculo de luz sobre as veredas secas; lua translúcida alaranjada por trás da qual as nuvens se esfarrapam, num céu de quieto mar, liso, límpido, raso; a terra charruada tem um tom escuro escavado, enquanto a noite ocupa as celestes esferas; ao fundo da quinta de verde sombrio passam as carroças ecoando, estalando na areia que o vento transportou e pés desertos, grossos, às horas gastas, pisam; o milho cresceu e voltou a crescer, as espigas apontam seus espetados dedos, as folhas como espadas batem de encontro ao vento; o vento percorre o respirar da vila, as muralhas, as torres e a ponte; Moisés pensa e diz, deitado, com um gesto de mão lento no ar, que da padreação do vento sobre a vila nasceram os negros corredores da noite (…) Moisés não pensa nos bacorinhos sem se comover; praticamente sempre os olhos enevoados; limpa-os, e às ramelas, com as costas da mão; mãos gretadas, rudes, dedos papudos, angulados para cima, longos até às unhas cortadas muito rentes, a direito, negras em espátula; puxa com as mãos o cobertor para o peito, para as barbas e o pescoço engelhado; sem ser capaz de dormir, olha a noite lá fora (…) não me esqueço do mar; é como um espelho ou a eternidade; brilha, reflete, fere e encadeia (…)

Francisco 

E contudo aquele meu avô, que morreu de súbito sem agonia quase, vivia desde à muito aguardando o momento de esticar; tinha o caixão já feito sob a cama, pinho negro e rijo, forrado de vermelho, em que todos os anos, na noite de ano novo, se metia, metódico, a ver se estava bom (…) entretanto vou ver como vão os trabalhos (desce à garagem, mete-se no jipe, sai; há um silvo ao longe, quente, nos fios dos postes telegráficos paralelos à estrada; ontem os homens colheram os feijões, lavraram, passaram com a grade longamente por cima, não sentados, como antigamente, mas de pé sobre a grade, depois a pouco e pouco, com novo entusiasmo, traçaram regos e canteiros, tabuleiros de terra, obras de arte, como um grande jardim, deitaram logo as couves e alfaces, enterraram raízes uma a uma, em seguida regaram, regá-las-ão a punho assim dias a fio, por sóis e luas e sóis inumeráveis, por chuvas e por ventos, por calores e febres, por calmas tempestades, enfim hão de colhê-las, recolhê-las, desbastar a terra dos seus frutos, para que produza mais (…) velhos servos da terra (…)

Tiago

De inverno assentava-se nos cômoros da quinta, ao pé da pluvial alcórcova rumorosa e lavada, sob o caramanchão que de chuva pingava, ali ficava horas, de cócoras, formando, paciente, figurinhas de barro, cães, mulheres, cavaleiros, automóveis; amassava a terra com força numa bola, águalmagre corria esguichando pelos dedos, o cu das calças era, em breve, uma pasta de lama; a chuva encharcava-lhe os cabelos, fazia-o tiritar, mas dali não saía nem por nada; estas rudes esculturas térreas estavam ligadas à chuva como as heras às árvores (heras cresciam pelas paredes da casa numa força dispersa, em ramos isolados unidos pela base (…) fabricava as figuras cheio de pressa, para que durassem o tempo da chuva miúda, que as desfazia em breve (…) um pouco o menino doente sem sofrer de nenhuma doença, era o benjamim, o filho mais novo, aquele a quem os deuses dão sempre qualquer coisa, um sorriso, um olhar, uma cor dos cabelos, uma estranha mania que os pais, já não novos (…) os pais amam com amor um tanto póstumo, cego de todo (todo o amor é cego, diz o povo, quem muito espreita não ama, quem muito ama não vê) e teimoso, amor não de pais mas de avós (…) era uma espécie de poeta desgraçado, a quem contudo os olhos insistem em sonhar.

 João Carlos

Estou sentado e estudo esta coisa certa e definitiva: o preço como elemento essencial da compra e venda (…) em solidão e difícil harmonia, para uma condição de estudo e de universidade; a universidade é um conjunto de edifícios novos, arrogantes, pretendendo-se belos (…) do céu escorre o sono e uma sede sem tréguas nem remédio, sede da noite e do sonho (primeiro Osíris, o sol, é derrotado pela noite, Set, porém a esposa-vaca-lua, Ísis, vem procurar, pálida e triste, o seu cadáver frio e enfim o filho, Hórus, sol-nascente, vinga-se e vence, nasce, vive, esplende e uma vez mais o astro magno impera) (…) mas perco-me no isolamento, perco-me no rio que corre em mim, o seu correr afoga-me, e no entanto é calmo e cavo o seu correr (…)

Moisés 

De volta da sua missa, o velho Moisés vem conversando, muito calmo, com o calvo sacristão da ermida, o seu melhor amigo, ainda mais velho que ele, pálido, claro, alvo, olhos contemplativos, talvez de, desde sempre, do cimo da ermida, olhar tanto para longe, para árvores e montes, para casas e coisas, paisagem azul-acinzentada e longa, ao longo das estações, inverno, verão, que passam como águias-reais sobre eiras e azinheiras e estradas a direito e verdes searas versas adivinhando o, por trás do horizonte dos outeiros, grande mar, olhar sem pressa os poentes distantes, ocultos numa névoa que é calor no verão, canícula, tremulina, trovoada de inverno, e no instante em que o sol se enche de sangue tocar no sino frágil umas ave-marias que o largo vento afasta, dispersa e logo apaga, alto e cortante senhor do mundo (…) a ermida é um silêncio do sol, tão próximo do céu como dos homens (…)

A mata de eucaliptos é um silêncio de mar ao meio do dia; meio-dia, hora branca, meio-dia para todos, almoço para quem no tem; o deus do caos não tem aqui lugar, no seio dos eucaliptos acenando do alto uma luz de presença e de rumor do sol (…)

(…) que aquece no calor da tarde em que uma força pega nos objetos desde a base e os faz girar, oníricos e lentos, em redor de mim e de si mesmos, iguais a sistema solar de que me sinto o centro (…)

(…) terra de pouco pão e sem mulher, sem água que lhe limpe o suor pela noite, junto ao calor do fogo, quando uma mulher está longe como um astro, uma estrela (…)

A árvore ainda, para terminar: ergue-se no quintal da casa, como um templo, um palácio; cresce; os ramos desenvolvem-se para cima, para os lados; depois de grandes, o peso tomba-os um pouco, lentamente, para baixo; floresce; nascem as folhas brilhantes e sedosas, frágeis, puras, informes, filiformes, iguais a raios; criam nervuras (…) o vento arranca as raízes e é então que tomba a árvore.


in: A Paixão, de Almeida Faria, Assírio & Alvim, (12ª edição), Porto, 2013

(Capa do livro: A Paixão, desenho de Mário Botas)